ANÁLISE DE BLEEDING EDGE - Jogabilidade divertida, mas pouco conteúdo

Projeto multiplayer da Ninja Theory traz personalidade para um gênero cheio de opções, mas ainda precisa amadurecer
Por Mateus Mognon 29/03/2020 22:00 | atualizado 30/03/2020 09:32 comentários Reportar erro

Conhecida por muitos anos como a empresa por trás de DmC: Devil May Cry, a Ninja Theory ganhou a atenção do grande público quando lançou Hellblade: Senua's Sacrifice. Trazendo grande foco nos gráficos realistas e narrativa single-player, o jogo rendeu não apenas uma série de prêmios para o estúdio, mas também a atenção da Microsoft. A dona do Xbox anunciou a aquisição da desenvolvedora na E3 realizada em 2018.

Com os recursos financeiros trazidos pela Microsoft e o prestígio vindo de Hellblade, a companhia anunciou seu primeiro projeto sob a asa da Xbox Games Studios já no ano seguinte: Bleeding Edge, um jogo multiplayer de equipes de heróis trazendo habilidades únicas, com foco no combate corpo a corpo.

O anúncio pegou muita gente de surpresa pelo teor do game em relação ao histórico da desenvolvedora, mas é uma ideia que estava engavetada na Ninja Theory há anos. Segundo a companhia, Bleeding Edge é um projeto "de coração" feito por um grupo de desenvolvedores da firma, que não conseguiram uma publisher para trazer o título ao mercado anteriormente.

Graças ao apoio da Microsoft, o jogo foi lançado em 24 de março no Xbox One e PC, com cross-play entre as plataformas, uma versão na Steam e exigindo apenas 15 GB de armazenamento para ser instalado. O preço chega a até R$ 130, mas o título também está disponível no catálogo do Game Pass, padrão para os projetos feitos pelas desenvolvedoras da Xbox Games Studios.

Será que o curioso projeto da Ninja Theory merece atenção? Confira o que achamos na nossa análise, que foi feita com a versão de PC do game!

Jogabilidade divertida e que surpreende

Bleeding Edge deixou muitos fãs da Ninja Theory com a pulga atrás da orelha por ser um jogo multiplayer focado no online, com embates entre times de personagens diferentões, e sem grande foco na história. A fórmula de misturar elementos de MOBA com ação ganhou bastante notoriedade lá por 2016, quando Overwatch chegou ao mercado. O título da Xbox Games Studios está atrasado para a festa e não tem tanto orçamento quanto o produto da Blizzard, mas conta com aspectos que ainda garantem personalidade para a produção.

A jogabilidade consiste em oito jogadores, divididos em duas equipes, brigando em dois modos de jogo: conquista de objetivo e Coleta/Entrega. O primeiro segue os padrões de defesa de área e dá a vitória para o time que dominar a área demarcada por mais tempo. Já o segundo tipo de jogo consiste em buscar itens pelo mapa e entregá-los em zonas específicas, além de impedir que os inimigos cumpram a missão.

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No modo de Coleta e Entrega, o jogador precisa ficar totalmente parado na área demarcada. A mecânica gera momentos empolgantes durante combates intensos.

O game traz câmera em terceira pessoa e é focado no combate corpo a corpo, com cada personagem trazendo aspectos de gameplay únicos, habilidades especiais diferentes e duas variantes de Super. Seguindo os padrões do gênero, o elenco atual de Bleeding Edge é dividido nas categorias Tanque, Suporte e Ataque, e mais combatentes chegarão futuramente ao game para inflar o número de participantes nas divisões. 

Enquanto a base do jogo é similar ao que já vemos em títulos como Overwatch, o game conta com alguns diferenciais que tornam a jogabilidade instigante e trazem um respiro para o que temos no mundo dos multiplayer online. O principal destaque fica por conta do ambiente, que é parte essencial no gameplay. 

As arenas estimulam uma jogabilidade dinâmica e contam com mecânicas para modificar o andamento da partida

Os dois modos de jogo presentes em Bleeding Edge sempre contam com três locais de objetivo, que ficam em partes antagônicas do mapa e eventualmente são trancados durante a partida. A mecânica faz com que o jogador precise ficar em constante movimento e de olho no que acontece em toda a arena, e não apenas correndo atrás de briga contra inimigos. Outro aspecto que age nesse sentido são os Power-Ups, que ficam espalhados na arena e concedem um ganho extra de ataque ou defesa.

Além de instigar a movimentação, a arena de Bleeding Edge também conta com obstáculos mortíferos, incluindo linhas de trem e anéis de fogo que ficam bem nos locais de objetivo. Assim, durante os embates em equipe, também é necessário ficar de olho nos arredores para não acabar sendo assassinado pelo próprio ambiente.

Na parte do combate, Bleeding Edge entrega uma experiência de hack-and-slash agradável e com variedade de estilos, mesmo com o elenco limitado de personagens. O jogo vai além da pancadaria simples e também traz mecanismos de defesa e agilidade que tornam as fugas tão intensas quanto as brigas, tudo graças a um sistema de Stamina.

Outro destaque fica para a personalização: enquanto as habilidades dos personagens sempre são as mesmas, os lutadores possuem um sistema de progressão que permite customizar o poder do lutador. Utilizando os chips chamados Mods, o jogador pode abrir mão de mais vida para ter ataques mais fortes ou agilidade, por exemplo.

Antes da partida começar, o jogador pode escolher entre três perfis de Mods, que podem ser configurados no menu Oficina.

Graças a jogabilidade estratégica e animada, Bleeding Edge consegue entregar uma experiência divertida com amigos e também quando se está jogando sozinho. Por outro lado, o título não possui conteúdo suficiente para manter o sentimento de interesse por muito tempo, e nem para justificar o preço cheio. 

Bleeding Edge não impressiona na quantidade de conteúdo no lançamento

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O conteúdo presente no lançamento do game é praticamente o mesmo que estava no beta, incluindo algumas limitações presentes na fase de testes. Além de ter apenas dois modos de jogo e poucas variações de ambiente, o usuário nem mesmo tem a opção de escolher onde e como quer jogar. Os itens desbloqueáveis, como skins e Hoverboards, também não são muito variados na versão atual do jogo. Nem mesmo um Competitivo, que podia ajudar a fidelizar jogadores, está disponível atualmente.

Com esse cenário, Bleeding Edge consegue entregar uma experiência de gameplay que diverte, mas atualmente depende de futuras atualizações para se consolidar no mercado. A Ninja Theory já possui um personagem engatilhado para o lançamento, mas o jogo precisará de mais do que isso para continuar nos holofotes, principalmente com figurões como Call of Duty Warzone ganhando cada vez mais espaço no mercado. 

Contexto interessante, mas limitado

Assim como a jogabilidade, Bleeding Edge também possui um universo interessante, mas que é bastante limitado. Enquanto o principal ponto de venda dos jogos de multiplayer com personagens é a jogabilidade, a Lore consegue manter o título interessante e dar valor ao produto além do game. No caso do projeto da Ninja Theory, atualmente temos uma breve explicação para justificar a existência do game, mas nada muito além disso.

O trailer de lançamento do jogo mostra que a Bleeding Edge é uma gangue de seres humanos anormais, que possuem corpos modificados e travam batalhas por diversão, para gerar entretenimento em um mundo cyberpunk. A premissa do jogo é traduzida com maestria no gameplay, que inclui arquibancadas na arena e até uma musiquinha de fundo para deixar o combate despretensioso.

Por outro lado, a história de fundo dos personagens ainda não é tão densa. Atualmente, o jogador pode conhecer cada um dos personagens em breves trechos de texto na divisão de Bio de Bleeding Edge, ou diretamente no site do jogo. Temos até um personagem brasileiro no elenco: o suporte ZeroCool, um pro-player que possui um visual ao estilo Neymar, mas que curiosamente se chama Musaaki Zelev (?).

A ideia de vender personagens fora do comum como um grupo de amigos que briga por diversão tem potencial para transformar Bleeding Edge em uma grande propriedade intelectual da Microsoft, mas atualmente isso só fica na vontade. Da mesma forma que acontece com o gameplay, só saberemos do que o título é capaz mesmo depois de algumas atualizações trazendo mais conteúdo.

Gráficos e Áudio

Enquanto Lore e jogabilidade ainda precisam de atualizações para garantir espaço em um mercado competitivo, a parte audiovisual de Bleeding Edge já parece "pronta". Seguindo um caminho oposto ao de Hellblade, o novo jogo da Ninja Theory aposta em um visual mais cartunesco, o que combina com a proposta do game.

Boa parte dos personagens de Bleeding Edge seguem um design fora do comum, e a decisão artística de manter os gráficos longe do realismo ajudam a destacar o clima de descontração que o jogo vende. Afinal, aplicar os gráficos de Hellblade em personagens como Kulev, a cobra mecânica que carrega um defunto, com certeza limitaria o alcance do game.

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Bleeding Edge tem um visual agradável, mas a tela fica carregada em certos momentos 

Graças ao visual que mira no cartoon, o jogo conta com contornos mais fortes, que vem acompanhados de uma interface de usuário cheia de informações. Para finalizar, os ataques são cheios de efeitos, o que torna algumas das lutas em equipe bastante poluídas visualmente. Enquanto essa característica pode parecer frescura para jogadores acostumados, os gráficos carregados podem acabar assustando quem busca algo mais coeso e limpo.

O visual cartunizado é acompanhado de uma trilha sonora bastante viva, o que deixa a "vibe" do jogo leve em grande parte do tempo. O game até deixa um som de fundo notável rolando durante as partidas, tornando a ação animada e descontraída, mas sem perder o teor competitivo. Vale destacar também que o título é localizado no nosso idioma, o que facilita o entendimento de comandos e da Lore, mas estranhamente só possui dublagem em inglês, saindo do padrão de outros lançamentos da Xbox Games Studios.

Na parte técnica, também vale mencionar que o game eventualmente sofre com lag, possivelmente por causa da situação atual da web, que está sobrecarregada por causa da quarentena do Coronavírus. Para encontrar partidas, o jogo também inclui servidores norte-americanos, o que pode defasar a qualidade do gameplay. Infelizmente o jogo não traz ferramentas analíticas no PC, mas vem com suporte para Ultrawide, mouse e teclado e até interface com comandos do PS4, para garantir mais poder de escolha aos usuários.

Conclusão

Com um lançamento bastante limitado, Bleeding Edge mostra a versatilidade da Ninja Theory e deixa um grande espaço aberto para evoluir. O game diverte com personagens chamativos e modos de jogo instigantes, mas peca na falta de conteúdo. 

O game diverte com personagens chamativos e modos de jogo instigantes, mas peca na falta de conteúdo.

O foco do estúdio da Microsoft atualmente é Hellblade 2, um dos carros-chefe do Xbox Series X, e claramente Bleeding Edge carece de mais atenção para atingir todo o potencial que possui, e consequentemente ganhar um pouco de espaço no concorrido segmento de jogos online de equipe. O título consegue entregar uma experiência decente atualmente, mas possivelmente só saberemos o projeto realmente vai vingar dentro dos próximos meses.

Com isso em mente, a dica é não comprar o Bleeding Edge com preço cheio por enquanto, pois o conteúdo entregue atualmente não compensa os R$ 99 cobrados na Steam, tampouco os R$ 129 do Xbox One/Windows 10. Por outro lado, o produto possui certa personalidade e causar o caos no game de batalhas corpo a corpo é uma experiência que vale o teste para quem assina o Xbox Game Pass de PC ou console. Afinal, com certa dedicação e apenas um mês de assinatura (que pode custar só R$ 1), é possível desbravar tudo que está presente no game atualmente.


RECOMENDA? SIM Mas só jogue por meio do Xbox Game Pass
PRÓS
Jogabilidade divertida
Personagens diferentões
Sistema de customização de habilidades
Arenas elaboradas e que instigam movimentação
CONTRAS
Pouco conteúdo de gameplay
Lore limitada
Visual carregado em certos momentos
  • Redator: Mateus Mognon

    Mateus Mognon

    Mateus Mognon é formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina. Vencedor do prêmio SET Universitário na Categoria Reportagem Digital, atua nos sites do grupo Adrenaline desde 2014. Atualmente, colabora para os veículos com notícias, análises e artigos envolvendo tecnologia e games.

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