O que acontece nas ações da GameStop? Uma explicação para leigos

Tentamos explicar o que está rolando, até porque a gente também mal entende

Esta semana a Gamestop, tradicional empresa de games dos Estados Unidos, acabou se tornando o epicentro de um conflito muito maior que ela própria. O crescimento inacreditável de seus papéis passa longe de algo possível de se prever e, envolve fatores totalmente novos. Sem exageros, o que aconteceu com as ações da empresa é um evento marcante, talvez um prelúdio de mudanças que vão precisar acontecer. Aqui tentaremos explicar como isso aconteceu e, para isso, vamos precisar de uma mistura de especulação financeira, desigualdade social, o poder de mobilização das redes sociais, muita raiva e uma empresa de games que não tem nada a ver com tudo isso.

Gamestop

A GameStop é um varejista especializada em games, fundada em 1984 nos Estados Unidos. Para quem viajou para lá e curte games, definitivamente deve ou deveria ter dado uma passada por uma das suas 5500 lojas (dados de fevereiro de 2020). É difícil fazer um paralelo, mas ela tem um valor sentimental. Talvez próximo ao das nossas locadoras de games, um espaço que quem gosta de jogos passa para ter a chance de ver o que há de novo nesse mercado, comprar games novos ou usados, ou se sentir roubado pelos valores baixíssimos oferecidos nos jogos que você já terminou.

Mas a GameStop já vem em uma fase ruim faz tempo. Com o mercado cada vez mais digital, a empresa figura em manchetes como "Dívidas da GameStop alcançam US$ 417 milhões" e "Mais de 300 lojas físicas da GameStop serão fechadas permanentemente". Com um modelo essencialmente presencial, a pandemia do SARS-COV-2 tornou essa empresa na nova "Blockbuster": um negócio gigantesco morrendo dia após dia. Mas a tragédia de um homem é a fortuna de outro. O que nos traz para a parte dois.

Lucrando na tragédia

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O mercado de ações é extremamente volátil e dinâmico. A ânsia por oportunidades de fazer dinheiro cria fenômenos que, pensados fora desse nicho, parecem pura insanidade. É assim que eventos como a Crise do Subprime de 2007 fazem um mercado colapsar em cima de hipotecas que ninguém sabe se seriam pagas, mas já tinham se alastrado pra todo o lado.

Aqui vamos a um ponto importante: vamos simplificar esse trecho - afinal mercado financeiro não é uma expertise da casa, e nem é nossa intenção se aprofundar em excesso nesse tópico -. Mas, vamos tentar explicar como a GameStop definhando em praça pública faz os olhos de alguns investidores brilharem.

Aqui entra uma manobra conhecida como "Operar Vendido". Acreditando que uma ação vai desvalorizar, o especulador pode fazer aquelas coisas que, falado em termos leigos, mostra como isso é surreal fora desse mentalidade. Ele vende a ação que não tem pelo valor atual, espera a queda acontecer e compra de volta, a ação que não é dele, por um valor mais baixo.

Como ele não tem essa ação, ele aluga de alguém que possui e paga um valor por essa cessão. Depois de passado o período estipulado, o especulador precisa devolver as ações que pegou, então por isso é preciso recomprá-las. O lucro vem da diferença entre quanto a ação valia quando foi vendida e o quanto desvalorizou até o momento que foi comprada de volta. Obviamente, também contando o custo do aluguel das ações.

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Há mais ações da GameStop sendo especuladas do que existem ações reais da empresa

As ações que estão nesse limbo são conhecidas como short, curto em uma tradução livre. Tem a ver com a visão de, em pouco tempo, fazer essa transação e ter retorno financeiro É comum a expressão de papéis "shorted". O pessimismo acerca da GameStop é tão alto que, segundo dados do Everything Money, das 65 milhões de ação da empresa, 68 milhões estavam nessa posição de "shorted".

Sim, esses papéis estão "passando de mão em mão" com uma frequência tão alta nesse método de "Operação a Vendido" que tem ações que já foram passada mais de uma vez nesses empréstimos. Assim, inflando esse número para algo acima da real quantidade de papéis existentes.

Quem está com ações desses papéis sendo "derretidos" fica a mercê desse efeito. Não falta teorias de grandes operadores atuando ativamente para que esse processo aconteça, para maximizar seu lucro. Obviamente, para quem está com as ações desvalorizando, esse processo todo é péssimo, e colocam mais um tijolinho em uma pilha de ressentimentos que é outro componente importante da história.

O de cima sobe, o de baixo desce

A desigualdade vem se tornando um dos maiores desafios das sociedades modernas, e a pandemia do COVID 19 mostrou novamente a crueldade desse processo. Em um ano em que estimativas falam em um recuo de 5% na economia global, com países recuando sua riqueza total em mais de 10%,  os mais ricos tiveram um aumento de 30% em suas fortunas.

Esse quadro cruel vem deixando marcas, e criando movimentos de oposição. Nos Estados Unidos surgiram slogans como o "We are the 99%" (nós somos os 99%) e o "Ocuppy Wall Street" (Ocupe Wall Street). Eles aglomeram várias críticas ao sistema econômico, o excesso de poder das empresas na política e na economia, desigualdade social, a falta de empregos e salários de qualidade, pedem reformas no sistema bancário e questões bastante locais, como o débito estudantil.

Faltava algo para dar coordenação e musculatura para essa raiva descentralizada e genérica. E a internet veio ao resgate

O ataque a Gamestop e seus 17 mil funcionários fixos (e de 22 mil a 42 mil temporários) foi combinado a muitos fatores. O primeiro deles é o senso de pertencimento, com valor afetivo que muitos tem nesse ambiente. Também foi combinado com o ressentimento de uma ação que, no imaginário popular, já está estereotipada: o grande investidor abusando dos mecanismos disponíveis para lucrar independentemente das consequências para os outros. Isso tudo é fundamento intelectual e combustível do ódio para com o sistema e, como ele opera. Faltava algo para dar coordenação e musculatura para essa raiva descentralizada e genérica. E a internet veio ao resgate.

A revolução vai ser meme

O Reddit é um agregador de conteúdos criado de forma orgânica pela comunidade. "A página inicial da internet", como ela se define no seu slogan, é dividida em subreddits que aglutinam todo tipo de interesse. O r/ChildrenFallingOver já me garantiu muita risada e entretenimento culpado, com vídeos de crianças caindo tombos.

Entre esses subreddits, está onde foi "chocado o ovo da serpente". O r/WallStreetBets é um espaço onde os usuários compartilhavam publicações e opiniões sobre o mercado financeiro, misturando desde conteúdos sérios até piadas. Aqui é onde o começo da nossa história se torna relevante: ver o abuso que a GameStop estava passando pelo processo de "Operar a Vendido" foi um motivador importante para a ação em conjunto que aconteceria. Como as redes sociais já sabem muito bem - afinal é assim que fazem dinheiro - nada melhor que um conteúdo com apelo sentimental para garantir engajamento.

E o engajamento é nada menos que, potencialmente, a primeira manipulação de mercado feita via através de "vaquinha". Para esses usuários, isoladamente, não era viável mudar o cenário, mas uma ação coordenada de compra das ações da GameStop, aí é outra história. E o resultado é impressionante: 

Não há nenhuma racionalidade na compra das ações. Se observado os fatores relevantes, é altamente improvável que algum investidor chegue a conclusão que adquirir a GameStop, uma empresa em visível retração e, com um modelo de negócios potencialmente datado lutando para se modernizar, é algo a se adicionar na carteira. Mas, essa ação tem como gênese um ato de protesto. O poder de engajamento e de mimetização que está na raiz da palavra meme mostraram seus efeitos, com personalidades como Elon Musk e outros investidores mais conceituados aproveitando a onda, e ao mesmo tempo, potencializando ela.

Aqui é bom destacar um ponto importante: apesar do discurso, é óbvio que nem todo mundo entrou nessa atrás "justiça social". Há uma dose de oportunistas nesse fenômeno, impossível de quantificar. Tem também muitas histórias malucas, como o o usuário que teria conseguido fazer uma cirurgia cara de seu cachorro graças a valorização desenfreada das ações. Como muito das histórias postadas, que incluem gente que colocou o cheque de auxílio governamental nessa ação, fica difícil saber o que é real e o que é ficção nesse caldeirão de postagens, e fica ainda mais difícil de quantificar o que realmente é orgânico e o que está sendo inflado por bots.

Isso criou um efeito de "short squeeze" sem precedentes. O "apertar dos short" é o pesadelo daquele cara que vende o que não tem. Você vendeu uma ação achando que ia comprar ela mais barato, mas ela valoriza. É aí que seu prejuízo acontece. O que está acontecendo com a GameStop é um short squeeze coordenado por múltiplas pessoas, com objetivos ideológicos e uma pitada de anarquismo. A empresa valorizou de meros 4 dólares ao longo de 2020 para insanos 350 dólares no dia 27 de janeiro de 2021. Há relatos de papéis que chegaram a ser adquiridos por 2000 dólares.

Mais do que um prejuízo, essa mudança tem potencial de falir com quem estava apostando no "Operar a Vendido". Como alguns especuladores possuem limites de risco aceitável, ao subir para esse patamar definido eles automaticamente compraram os papéis de volta, colocando mais combustível no fogo.

O short squeeze da Gamestop mostra a desconexão entre o "mercado real" e o financeiro, e como seus mecanismos podem ser manipulados

Recomprar as ações da empresa agora está uma fortuna. Para piorar, parte do movimento incluía comprar e não vender as ações, acabando com a liquidez de papéis da GameStop no mercado. Você não encontra disponível para compra, e se encontra, o preço é assustador. Quem está comprando hardware pra PC sabe bem do que estou falando. O diferencial é que você está desesperadamente tentando comprar uma placa que você precisa devolver, porque você vendeu e nem era sua.

O império contra-ataca

Ver o poder de mobilização e o grau de impacto que esse movimento trouxe acendeu vários sinais vermelhos. Há a discussão acerca desse potencial maléfico de manipulação de mercado, que não deixa de ter uma dose de hipocrisia. Afinal é exatamente esse um dos argumentos por trás do "Occupy Wall Street" que era ignorado quando feito "por CNPJs". Agora, se torna uma ameaça se feito por "CPFs". 

Também temos ações práticas. O Discord, plataforma de comunicação muito usada para chat entre gamers, tirou do ar o servidor do r/WallStreetBeats, ancorado na denúncia de discurso de ódio. A corretora on-line RobinHood, bastante popular, também sumiu com a opção de comprar ações da GameStop e da AMC Entertainment, que já vem figurando na próxima que teria seus papéis inflados.

Outro potencial nome para passar por esse processo é a BlackBerry, indicando que o fenômeno pode não se limitar apenas a uma empresa. O próprio r/WallStreetBets parece estar com dificuldades de "lidar com o sucesso" e, por motivos ainda não claros, chegou a sair do ar temporariamente.

Essas respostas são apenas um efeito inicial. O caso do "short squeeze da GameStop" ainda vai ter repercussões que veremos a médio e longo prazo. Além disso, tem potencial de mudar como o mercado financeiro e o mundo real (do qual ele parece as vezes desconexo) funcionam.

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  • Redator: Diego Kerber

    Diego Kerber

    Formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Diego Kerber é aficionado por tecnologia desde os oito anos, quando ganhou seu primeiro computador, um 486 DX2. Fã de jogos, especialmente os de estratégia, Diego atua no Adrenaline desde 2010 desenvolvendo artigos e vídeo para o site e canal do YouTube

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