Créditos: miHoYo

Bomb Review: Genshin Impact, é o mais novo alvo, mas não está sozinho

Pratica é questionável, mas bem comum e, em alguns casos, motivos vão bem além do choro livre
Por Daniel Trefilio 29/09/2021 20:48 | atualizado 30/09/2021 07:06 Comentários Reportar erro

Genshin Impact completou ontem (28) seu primeiro aniversário e seu presente foi ser mais um jogo a entrar para a lista das Bomb Reviews, com mais de 2 milhões de classificações negativando o jogo na loja de aplicativos do Google e no Metacritics, se juntando a Deathloop, Diablo 2 Resurrected, The Last of Us 2.

Como em grande parte do casos, a pratica questionável tem razões simplesmente de manifestar a essência troll de parte da internet, mas no caso específico de Genshin, muitas das críticas são bem embasadas, ainda que outras sejam reflexos de um jogo pensado para comunidade mobile que se elevou ao mainstream por estar disponível em outras plataformas como PC, PlayStation 4, PlayStation 5 e futuramente Xbox e Nintendo Switch.

De tempos em tempos jogos e outros conteúdos de entretenimento acabam passando por essa situação, ainda que seus motivos sejam bem diferentes, muitas vezes injustos, e em alguns casos refletindo inclusive opiniões de comunidades que, por armarem uma ou outra produção, se sentem donas daquelas propriedades intelectuais e no direito de fazer deliberações criativas como no caso de The Last of Us 2.

Créditos: Metacritics

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O jogo trouxe em termos de roteiro uma quantidade extremamente polêmica de quebras de expectativa, tanto nas escolhas dentro do jogo quanto no caminho que a narrativa força o jogador a seguir. Isso causou um ódio tamanho na comunidade de fãs da franquia que garantiu ao jogo mais de 66 mil críticas negativas no site Metacritic, com picos espalhados entre horas e dias após o lançamento, crescendo conforme mais e mais pessoas avançavam na trama.

Créditos: Naughty Dog

Muitos comentários dessas críticas eram simplesmente o puro creme do preconceito, fenômeno social já esperado em plataformas digitais, com alguns desses "fãs" revoltados com o fato de Ellie, uma personagem com traços bem femininos, se revelar lésbica, enquanto Abby, outra protagonista essa já com traços mais andrógenos, ser heterossexual. Outros comentários, esses relacionados à narrativa e o destino de personagens favoritos, chegaram ao extremo de ameaçar de morte a atriz Laura Bailey que deu voz a Abby.

Entretanto, o caso extremo de TLOU2 sem praticamente qualquer embasamento se diferencia e muito dos casos mais recentes de Diablo 2 Resurrected, Deathloop, e principalmente de Genshin Impact.

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Diablo 2: Resurrected

O remake pelas mãos da Vicarious Visions (Crash Bandicoot N. Sane Trilogy, Tony Hawk's Pro Skater 1+2) do RPG isométrico clássico da Blizzard foi lançado dia 23 de setembro e imediatamente começou a receber enxurradas de críticas em diversos sites que aceitam reviews da comunidade. Como de se esperar, surpreendendo um total de ZERO pessoas, muitas das críticas simplesmente destilavam frustração por se tratar de um jogo que, apesar de ter recebido um excelente tratamento gráfico, ainda é uma propriedade intelectual de mais de 20 anos e fatalmente apresenta marcas do tempo em elementos como a interface ou mecânicas que evoluíram em Diablo III, que também recebeu críticas em seu lançamento justamente por ter reimaginado alguns sistemas de progressão.

Outras críticas, por sua vez, recaem sob o manto do amor possessivo de fãs fervorosos, cobrando melhorias que nunca foram prometidas, mas por algum motivo essa comunidade se vê no lugar de exigir que o jogo que tanto ama seja refeito ignorando eventuais limitações técnicas ou orçamentárias, lembrando que apesar de se tratar de um jogo da Activision-Blizzard, a Vicarious Visions não trabalha com os mesmos orçamentos de franquias como Call of Duty, World of Warcraft e Overwatch.

Apesar disso, boa parte das críticas das análises bomba de Diablo II: Resurrected tocam em pontos relevantes como, aí sim, questões que afetam a qualidade do jogo. Uma das primeiras promessas feitas quando o jogo foi revelado é que seria possível carregar personagens das versões originais de Diablo 2 e da expansão Diablo 2: Lord of Destruction, entretanto muitos dos jogadores que, por amor ou esquecimento, ainda tinham esses arquivos não estão conseguindo carregá-los no remake.

Problemas como conectividade, dificuldade de acesso aos servidores e muitos crashes em questões de minutos sem qualquer código de erro ou alerta que possa auxiliar a identificar a fonte do problema também aparecem entre os diversos relatos nas plataformas de análise com voto da comunidade e fóruns oficiais. Esses problemas, contudo, muito provavelmente não seriam o suficiente para criar a onda de análises bomba que ainda estão sendo publicadas sobre o jogo, deixando evidente que o fator emocional e de apego à franquia é um elemento chave no caso de Diablo 2: Resurrected.

Deathloop

Deathloop, por sua vez, é outro título com análises divisivas, já que a versão para consoles exclusiva do PlayStation 5 vem recebendo críticas positiivas em sua maioria esmagadora, tanto com imprensa especializada e comunidade já considerando o jogo um forte concorrente para o The Game Awards. Seu lançamento no PC, entretanto, vem dividindo opiniões e por razões que em sua maioria sequer consideram o conteúdo do jogo.

A evolução pirataria em jogos para PC é algo que acompanha a trajetória dos próprios jogos desde seu início quando amigos compartilhavam caixas de disquetes para instalar Doom, X-Wing e Full Throttle. As ferramentas de DRM antipirataria não evitam 100%, mas são um fator importante para garantir que os jogos tenham uma janela de lançamento saudável no quesito vendas. 

Apesar de lojas como a GOG distribuírem jogos sem ferramentas de DRM, essa prática é a exceção, especialmente em se tratando de estúdios grandes como a Bethesda (agora parte da Microsoft Games Studios), e para atrasar ao máximo a distribuição de cópias craqueadas de Deathloop, a ferramenta utilizada é justamente a Denuvo, famosa por causar problemas de desempenho.

Mortal Kombat 11 para PC foi uma das vítimas famosas da baixa performance graças à Denuvo mesmo em máquinas que atendiam com sobra os requisitos de jogo e com Deathloop não foi diferente. O jogo foi desenvolvido pela mesma equipe de Dishonored, e portanto carrega muitas das mecânicas rápidas de combate e exploração em primeira pessoa, e quedas de frame constantes e artefatos durante o jogo são mais que suficiente para quebrar sua imersão.

Ainda que a equipe criativa e de desenvolvimento não seja diretamente responsável pela escolha da ferramenta DRM que será utilizada na versão para PC dos  jogos, a escolha de uma ou outra ferramenta acaba tornando títulos, muitas vezes excelentes, alvos de análise bomba, como está sendo o caso de Deathloop.

Genshin Impact

Créditos: miHoYo

Já no caso de Genshin Impact o buraco é bem mais em baixo. As bomb reviews que o jogo da miHoYo começou a receber no ultimo dia 28, data em que o jogo completa um ano desde o lançamento, são em sua maioria esmagadora a reação a uma soma de diversas reclamação da comunidade que a desenvolvedora, até onde se sabe, vem ignorando categoricamente.

  • Sistema de gacha extremamente predatório:

A primeira e mais comum crítica sobre Genshin é o sistema EXTREMAMENTE predatório da roleta de personagens. Genshin, apesar de estar listado como um RPG de exploração gratuito, é um jogo gachappon mobile e segue a mesma receita de monetização de jogos como Final Fantasy Brave Exvius, Saint Seiya Awakening, e Honkai Impact 3rd, da própria miHoYo.

Entretanto, diferente de Honkai Impact 3rd e de outros jogos similares, Genshin não oferece qualquer forma de adquirir personagens novos dentro de mecânicas de gameplay. As duas únicas formas para os jogadores conseguirem personagens 5 estrelas, os mais raros, são através de uma roleta com taxas extremamente baixas de sucesso, com premiação 100% garantida do personagem mais novo na oração 100, ou eventos como a colaboração com a Guerrilla Games

Em termos monetários, para efetuar 100 orações são necessárias 16 mil Gemas Primordiais, adquiridas em fator 1:1 via Cristais Genesis, moeda intermediária de microtransações o equivalente a R$ 830,00. A diferença entre uma moeda intermediária para comprar a moeda interna é a definição canônica do mecanismo gachappon. Estabelecimentos japoneses com esses jogos não premiam os jogadores diretamente com as recompensas aleatórias, pois isso configuraria jogo de azar segundo as leias japonesas, mas com fichas que podem ser trocadas em outros estabelecimentos, geralmente adjacentes, por recompensas. É a estratégia de não vender bebida alcoólica em festa de faculdade, mas vender palitos de sorvete que você troca por bebidas alcoólicas. 

 A moeda interna do jogo também é distribuida em eventos e missões, mas isso gera o próximo ponto recorrente das análises bomba:

  • Recompensas extremamente baixas:

Uma das praticas comuns em jogos com a mecânica gacha é premiar os jogadores de tempos em tempos com suas moedas internas que podem ser utilizadas para girar as roletas, e enquanto jogos como o Honkai Impact 3rd da própria miHoYo distribuem somas generosas, que geralmente equivalem a 10 tentativas, Genshin distribui frações disso, premiando os jogadores mais dedicados com algo entre 10 de 50 gemas, totalizando no máximo o equivalente a US$ 1,00 ou pouca coisa acima disso.

Essas premiações se estendem inclusive às campanhas de comunidade constantemente lançadas pela miHoYo como concursos de arte de fãs, divulgação do jogo por parte da própria comunidade além de tarefas extremamente repetitivas e exaustivas que definitivamente não premiam a altura do empenho necessário.

  • Ausência de projeção dos planos de desenvolvimento:

A comunidade de Genshin é extremamente engajada, mas faz isso completamente no escuro, sem ter qualquer noção real dos planos de desenvolvimento a longo prazo para o jogo, sequer tendo noção dos personagens disponíveis na roleta principal que troca a cada três semanas.

Para ter um acesso mínimo a qualquer informação do jogo, a base de jogadores depende quase que exclusivamente de vazamentos e datamining de beta testers, pratica que a miHoYo condena levando extremamente a sério seus contratos de embargo.

  • Falta de conteúdo endgame:

Talvez o principal diferencial entre Genshin Impact e outros jogos gacha é que ele está disponível gratuitamente também no PC, PlayStation 4, PlayStation 5, e tem planos de lançamento para o Nintendo Switch e plataformas Xbox. Isso coloca o jogo num patamar mainstream, de jogadores que muitas vezes esperam que os jogos como serviço, categoria que o Genshin acaba se encaixando, ofereçam conteúdo com alto fator replay para os níveis mais altos, para manter a comunidade engajada até que o próximo conteúdo da narrativa principal seja liberado, independente do formato de monetização do título.

Genshin Impact não oferece qualquer conteúdo desse tipo uma vez que o jogador alcança o nível máximo e completa as missões principais e desafios do Abismo. Geralmente é possível concluir tudo entre uma atualização grande e outra em questão de semanas, enquanto as missões novas levam de dois a três meses para serem liberadas.

Essa ausência do que fazer já é esperada para a comunidade jogos mobile, familiarizada com o formato, mas para o publico mainstream, isso deixa o jogo sem muito o que fazer além de grinds intermináveis para tentar equipar personagens que estão presentes no jogo desde o lançamento, mas que por "sorte" você só conseguiu após um ano ou próximo disso.

Créditos: Google App Store

A lista de reclamações nas mais de duas milhões de reviews, em sua maioria negativas, que apareceram no jogo em menos de 24 horas após seu primeiro aniversário giram em torno desses e de outros problemas de Genshin Impact. É evidente que algumas acabam ficando no campo das reclamações só pelo efeito manada, mas sem sombra de dúvidas isso deve acender uma luz vermelha nos escritórios da miHoYo.

Vale lembrar que, novamente em Honkai Impact 3rd, a desenvolvedora é bem mais amigável em relação às críticas e apelos da comunidade, mas por Genshin ter se tornado um fenômeno de vendas em formato de relacionamento abusivo, a miHoYo até o momento parece ter ignorado o movimento dos jogadores. Resta saber por quanto tempo a empresa vai ignorar esses problemas ao ponto de sequer se posicionar oficialmente.

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Fonte: Metacritics
  • Redator: Daniel Trefilio

    Daniel Trefilio

    Formado em Letras pela Universidade Estadual de Campinas, professor, tradutor e revisor. Nas horas vagas, instalando impressora e formatando PCs desde os tempos que Alone In The Dark era um jogo bom e ocupava 4 disketes. twitch.tv/DanielTPC

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