Créditos: Blizzard

Lançamento de Warcraft 3 Reforged levanta questionamentos sobre práticas de desenvolvedoras

Em meio a diversas promessas não cumpridas e problemas, o que mais preocupa é a postura da Blizzard diante das polêmicas
Por Daniel Trefilio Carvalho 01/02/2020 13:03 | atualizado 01/02/2020 13:04 Comentários Reportar erro

Warcraft 3 talvez não tenha sido o RTS mais amado da Blizzard, muitos dos fãs da franquia nutrem um amor maior pelo primeiro jogo da franquia que, ao lado de outros títulos como Dune 2 e Command & Conquer, popularizaram a febre do RTS na década de 90, mas sem sombra de dúvidas foi um dos jogos mais importantes para a Blizzard e para o cenário atual de jogos e esports. Lançado originalmente em 2002, Warcraft 3 trazia uma campanha muito bem escrita e coroada com sua última expansão, The Frozen Throne, que estabeleceu com riqueza de detalhes a mitologia que se tornaria parte permanente da história dos games ao dar vida ao MMORPG World of Warcraft, um dos mais populares e rentáveis jogos de seu gênero. Muito do sucesso de WoW se dá justamente por trazer aos jogadores uma nova forma de explorar os acontecimentos do universo fantástico criado pela Blizzard, algo que já estava sendo desenvolvido de maneiras não oficiais pela própria comunidade de Warcraft 3. 

O maior destaque de Warcraft 3 era o seu sistema de criação de mapas e mods custom dentro do próprio jogo. Por meio dessa ferramenta oficial a comunidade tinha liberdade para criar suas próprias histórias, diferentes modos de jogos, e isso se popularizou de tal forma que os conteúdos produzidos pelos jogadores ofuscaram o jogo principal, dando origem ao que seria o embrião de um dos gêneros mais populares de esports da atualidade, o Multiplayer-Online-Battle-Arena (MOBA). O mapa personalizado mais popular nos tempos de WC3 era o Defense-Of-The-Ancients, hoje conhecido como o Dotinha, e dali surgiu o League of Legends, inspirado diretamente nesse modo de jogo. Por anos o DOTA ficou restrito apenas à plataforma do Warcraft 3, e a Blizzard, ao esnobar o potencial da criação da comunidade, permitiu que a Valve contratasse o designer original do mapa, IceFrog, para desenvolver o jogo oficial do DOTA em plataforma proprietária e, finalmente, sem qualquer vínculo com Warcraft 3. É difícil imaginar o cenário de esportes eletrônicos sem LoL, DOTA 2 e outros tantos que tentam surfar na onda desse sucesso, mas no que depender da Blizzard, esse fenômeno criativo da comunidade não vai se repetir, pelo menos não dentro do seu ecossistema.

Warcraft 3 Reforged foi anunciado no dia 2 de novembro de 2018 em um painel da BlizzCon, e neste primeiro anúncio várias promessas, dentre elas cut-scenes melhoradas, novas dublagens, cenas cinemáticas refeitas e toda a campanha de divulgação do jogo girou, não apenas em torno disto, mas especialmente utilizando um vídeo cinemático de uma das cenas mais icônicas da franquia que no jogo final chegou bem diferente do que foi vendido à comunidade durante o longo ano de espera. Você pode conferir as diferenças no canal oficial de Warcraft 3 e no Gameplay World.

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A campanha de divulgação questionável não foi o único problema do lançamento que ocorreu no dia 28 de janeiro (após um breve adiamento). Jogadores estão reportando diversos bugs, crashes, assests que não carregam e uma diversidade de problemas que não deveriam acontecer em uma versão remasterizada. Muitas das críticas da comunidade em relação à interface e aparência do jogo são muito subjetivos e não entram nessa conta, mas problemas técnicos em um jogo de quase duas décadas no mínimo deveriam acender uma luz de alerta sobre os processos de desenvolvimento que a empresa vêm adotando nos últimos anos. Tanto o jogo original quanto o Reforged foram migrados para a infraestrutura online da Blizzard, algo que faz sentido para a empresa evitar pirataria, um dos principais problemas que WC3 enfrentou, mas essa opção cria a obrigatoriedade de estar online, o que acaba impactando inclusive o acesso à campanha do jogo. Alguns detalhes do jogo original também foram deixados de fora, como clãs, perfil, a ladder competitiva com o rank dos jogadores e, apesar de serem problemas menores, acabam sendo alvos de críticas ferrenhas quando somados ao todo.

A cereja nessa torta de climão é a mudança dos Termos do Usuário. Como já mencionado, o que garantiu a longevidade de Warcraft 3, possivelmente mais até do que sua mitologia, foi a constante criação de conteúdo por parte da comunidade, não apenas dando vida a jogos hoje independentes, mas também a jogos que recriavam outras histórias e mitologias dentro da engine de Warcraft 3. A mudança nos termos de usuário, contudo, torna impossível que esse fenômeno se repita, ou ao menos cria uma violação passível de penas legais dependendo do caso. Os principais pontos questionados da alteração se referem à direito de propriedade e de direitos autorias por parte da Blizzard de todo e qualquer conteúdo gerado dentro do sistema de criação de mapas customizados, bem como a proibição do uso de absolutamente qualquer material de propriedade intelectual de terceiros. Isto quer dizer que, não apenas o surgimento de qualquer modo de jogo  diferente do formato clássico RTS seria automaticamente propriedade da Blizzard (nada de DotA 3 dentro do WC3: Reforged), mas também caracteriza como uma violação dos Termos do Usuário a criação de mapas como Sacred Wars e DBZ Tribute Elite, mapas que reproduziam as mitologias de Cavaleiros do Zodíaco e Dragonball Z.

Relatos nos fóruns alegam que usuários que recorriam à comunidade sobre como fazer o pedido de reembolso e outros que detalhavam o processo tiveram suas contas banidas.

Tudo isto posto, é natural que muitos dos jogadores que compraram e se sentiram lesados queiram pedir reembolso, seja por terem feito a pré-compra acreditando na Blizzard, seja os que esperaram o lançamento e, mesmo diante de toda a polêmica, optaram por dar um voto de confiança ao que prometia ser a volta do messias dos RTS e acabou sendo um Bryan Cohen da Judéia (ROMANI ITE DOMUM), mas relatos nos fóruns oficiais da Blizzard alegam que alguns usuários que recorriam à comunidade para pedir ajuda sobre como fazer o pedido de reembolso e alguns outros que respondiam detalhando passo-a-passo o processo tiveram suas contas banidas. A informação sobre o banimento das contas não é confirmada, então, ao menos por enquanto, é melhor que seja tratada como rumor, mas caso seja confirmada é um problema grave para uma empresa que vende para o mundo o seu respeito e amor pela comunidade, especialmente no painel inaugural de suas conferências anuais, que são segundo a própria Blizzard uma forma de celebrar essa comunidade fiel que a apoiou durante todos esses anos mesmo com seus altos e baixos. É cada vez mais preocupante ver estúdios com tamanha relevância no mercado dos jogos terem que se desculpar com a comunidade a cada lançamento, sem que fique transparante uma mudança real de posicionamento e práticas, deixando no ar apenas desculpas sinceras que acabam imediatamente esvaziadas na próxima gafe.

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Fonte: Forbes
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  • Redator: Daniel Trefilio Carvalho

    Daniel Trefilio Carvalho

    Formado em Letras pela Universidade Estadual de Campinas, professor, tradutor e revisor. Nas horas vagas, instalando impressora e formatando PCs desde os tempos que Alone In The Dark era um jogo bom e ocupava 4 disketes.

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