A inútil 3ª divisão alemã em FIFA 18 mostra o que está errado no futebol brasileiro

Durante esta semana, a EA Sports revelou que até mesmo a 3ª divisão da Budesliga alemã estará presente no FIFA 18, um game que já possui campeonatos bem inúteis como a Football League Two (4ª divisão da Inglaterra). Enquanto isso, uma lei estúpida e sem sentido impede a empresa de colocar os nomes reais e aparências dos jogadores brasileiros em seus games desde FIFA 14. Isso que, desde a década de 90 a companhia tem levado o nome dos times brasileiros para o exterior através da série.

Não digo que é inútil ou sem sentido ter divisões inferiores de vários países nos jogos. Eu mesmo já fiz carreiras com times da 4ª divisão da Inglaterra no FIFA e da 2ª divisão da Itália no PES. O ponto é que é simplesmente ridículo ver a organização das ligas de outros países garantindo esse valioso espaço nos arquivos do jogo, enquanto os times brasileiros não têm nem seus estádios ou jogadores por lá.

Por que isso acontece?


O motivo é conhecido há muito tempo e está na maneira como funciona o licenciamento de equipes no Brasil. Em países como Inglaterra, Espanha e até na própria Alemanha, a equipe da EA Sports só precisa negociar com os representantes de cada liga (Premier League, La Liga e Bundesliga) para poder usar os escudos, uniformes e nomes das equipes. Enquanto isso, por aqui, é preciso negociar individualmente com cada uma das equipes para ter acesso a isso.

Para obter os direitos de imagens dos jogadores, jogos de futebol como FIFA ou PES só precisam realizar um contrato com a FIFPro, a representação mundial dos futebolistas. Ela então distribui o dinheiro pago para os jogadores representados nos games. A associação tem 60 membros, e entre eles está o Brasil. O problema é que, mesmo assim, a FIFPro não é autorizada a fazer essa negociação em nome dos jogadores brasileiros. Cerca de dois meses atrás, a FIFPro confirmou ao G1 que está ciente deste problema e que "trabalha duro para encontrar uma solução definitiva e duradoura para o mercado brasileiro".

Ao menos na Argentina a situação é mais fácil. De acordo com o site Trivela, basta negociar o direito de imagem dos clubes com a associação nacional (AFA) e as imagens dos jogadores com o sindicato do país. O absurdo é que, aqui no Brasil, nenhuma entidade possa fazer esse papel centralizador. Por aqui, não apenas é necessário fazer um acordo separado para cada time, como ainda é preciso ter um formulário de autorização de cada jogador... que ainda pode pedir um valor diferente de seus colegadas de equipe.

As leis precisam ser atualizadas


Ao assinar um contrato com um clube de futebol, os jogadores costumam fazer um outro acordo para uso de suas imagens pessoais. O problema é que esse acordo costuma ser muito específico, e por isso só inclui o uso da imagem para alguns tipos de propaganda e nada mais. Isso é algo arcaico, que já não encontra mais espaços nos dias de hoje. É preciso que as leis sejam atualizadas para o século XXI, já que a presença dos clubes de futebol e desses jogadores nos videogames é uma excelente estratégia de marketing para todos.

Não faz sentido a EA, mesmo disposta a pegar pelo uso dessas imagens, não ter uma maneira centralizada e simples de obtê-las. Caso não se filiem de vez à FIFPro (o que é bizarro, pois o Brasil já é filiado), precisamos que ao menos o sindicado dos jogadores profissionais ou alguma associação composta por eles tenha o direito de centralizar essa negociação e então repassar o valor que é devido a cada atleta.

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Claro, estou falando de uma saída paliativa, que não resolve de vez o problema central da questão. O Brasil precisa de uma liga profissional, relativamente independente da CBF para organizar as principais divisões do campeonato nacional. Algo que vá fazer bem não só ao campeonato da vida real, como também vai beneficiar a sua reprodução nos videogames. Mas isso é uma história totalmente separada.

E FIFA 18 e PES 2018, fica como?


Enquanto esse problema não for resolvido, continuamos com o mesmo método pré-histórico de negociações. Então não há como saber quais times estarão em cada um dos jogos. O site Uol Jogos contatou a assessoria de cada clube para saber a que passo andam as negociações com EA Sports e Konami. Confira como está a situação abaixo, o no dia em que esta coluna foi escrita:

Atlético-GO: FIFA 18: SIM | PES 2018: SIM
Atlético-MG: FIFA 18: SIM | PES 2018: SIM
Atlético-PR: FIFA 18: SIM | PES 2018: SIM
Avaí: FIFA 18: EM NEGOCIAÇÃO | PES 2018: EM NEGOCIAÇÃO
Bahia: FIFA 18: INDEFINIDO | PES 2018: INDEFINIDO
Botafogo: FIFA 18: SIM | PES 2018: SIM
Chapecoense: FIFA 18: SIM | PES 2018: SIM
Corinthians: FIFA 18: NÃO| PES 2018: SIM
Coritiba: FIFA 18: SIM | PES 2018: SIM
Cruzeiro: FIFA 18: SIM | PES 2018: SIM
Flamengo: FIFA 18: NÃO | PES 2018: SIM
Fluminense: FIFA 18: INDEFINIDO | PES 2018: INDEFINIDO
Grêmio: FIFA 18: SIM | PES 2018: EM NEGOCIAÇÃO
Palmeiras: FIFA 18: SIM | PES 2018: SIM
Ponte Preta: FIFA 18: EM NEGOCIAÇÃO | PES 2018: SIM
Santos: FIFA 18: SIM | PES 2018: SIM
São Paulo: FIFA 18: SIM | PES 2018: SIM
Sport: FIFA 18: SIM | PES 2018: SIM
Vasco da Gama: FIFA 18: INDEFINIDO | PES 2018: INDEFINIDO
Vitória: FIFA 18: NÃO | PES 2018: NÃO

E vale lembrar que apenas ter os clubes não garante a imagem de seus jogadores com sua representação física e nomes reais. E esse é o maior problema. Os clubes também podem implementar uma cláusula cedendo os direitos de imagem para videogames quando renovarem o contrato com seus atletas, mas isso levará tempo.

Parceria CBF/PES e a solução da Konami


A Konami tem feito  um trabalho melhor para sair desta situação. Para isso, eles revelaram em agosto do ano passado uma parceira com a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), que segundo a companhia facilita a obtenção de licenças. “Facilita bastante coisa não só da parte de jogo, não só da parte extracampo, mas também com os clubes. Vai facilitar bastante coisa na parceria com os clubes, com direitos de imagem dos clubes que eles vão nos ajudar”, explicou André Bronzoni, gerente da marca Pro Evolution Soccer nas Américas, em entrevista ao site Trivela.

A expectativa ainda é de que a parceria com a CBF vai ajudar o pessoal de licenciamento da Konami a conseguir os malditos acordos de uso de imagem individuais de cada jogador. Espera-se que, em breve, os games da série poderão ter até a 2ª divisão do Campeonato Brasileiro. Algo que, sem dúvida, seria uma bela adição para os viciados na Master Liga. Mas isso só saberemos de fato em agosto, durante a Gamescom Colônia, que é onde as produtoras costumam revelar suas licenças.

Via: Trivela, G1, Trivela
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  • Redator: Carlos Felipe Estrella

    Carlos Felipe Estrella

    Apaixonado por games desde os 6 anos de idade, quando ganhou um Playstation 1. Em 2005 migrou para o PC, e aí começou a se interessar por tecnologia. Formado jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina.