Como uma estratégia maluca da Microsoft pode mudar para sempre o mercado de games

Desde que os consoles existem, suas fabricantes utilizam a mesma estratégia: montar máquinas com um hardware padrão, e a cada 3, 5 ou 7 anos lançar um sucessor com melhores especificações ou alguma determinada inovação. Foi assim quando o Atari 7800 substituiu o Atari 5200 em 1986, quando o Super Famicom (ou Super Nintendo) tirou o Famicom (ou NES) da jogada em 1990 e até mesmo quando o PlayStation 4 chegou para tomar o lugar do PlayStation 3 em 2014.

A grande questão é que o mercado de games mudou – e muito – nesses 30 anos que se passaram desde o lançamento do Atari 7800. Afinal, até a "geração PlayStation 2" (e GameCube/Xbox), os consoles sempre tinham um grande trunfo: eles chegavam com uma relação custo/desempenho muito superior a qualquer PC gamer que alguém tentasse montar. Eram máquinas que traziam o que havia de mais moderno no mundo dos games.

O que tá acontecendo?
Mas isso mudou nas últimas gerações. Hoje, montar um PC gamer não é assim tão caro, e desde o lançamento de PS4 e Xbox One já era possível montar máquinas que rodem os jogos em configurações gráficas parecidas com as dos consoles, e gastando mais ou menos o mesmo. Nós mesmos, aqui no Adrenaline, montamos o nosso "PC Baratinho para jogar", que roda os jogos em configurações parecidas com as dos consoles – às vezes até melhor.

Quem está percebendo muito bem isso é a Microsoft, e a empresa está demonstrando que pode mudar radicalmente a sua estratégia com a marca Xbox. Grande prova disso foi uma declaração de Phil Spencer, chefe da divisão Xbox, que essa semana falou que o Xbox One pode ganhar upgrades de hardware "estilo PC" Â– ação que pode alterar totalmente a configuração do mercado de consoles, e acabar com o conceito de "gerações", que nós conhecemos há décadas.

Como eles vão fazer isso?
Eles não forneceram muitos detalhes, mas a ideia da equipe da Microsoft seria oferecer atualizações opcionais para os donos de Xbox One, o que permite que o console continue evoluindo com o tempo – e possa se aproveitar das mais novas tecnologias gráficas. E, mais do que isso, fazer frente aos computadores nesse aspecto, já que, com o passar da geração, os jogos para PC tendem a ter gráficos muito melhores que nos consoles.

Mas Spencer não está de olho apenas nos computadores. Os dispositivos móveis também estão fazendo concorrência forte aos consoles – e a Microsoft se aproveita de muito pouco disso, afinal o Windows Phone tem apenas uma pequena fatia do mercado. E, nesse caso, não estou falando apenas dos jogadores mais casuais, e seus Candy Crush e Plants vs. Zombies, mas sim de poder gráfico. Afinal, a cada ano chegam smartphones com SoCs mais potentes, que permitem belíssimos jogos como Asphalt 8: Airborne, Real Racing 3 ou Modern Combat 5: Blackout.

Só que, apesar disso tudo, um dos principais motivos para trazer upgrades ao Xbox One chega a ser bem curioso: permitir que os jogos sejam retrocompatíveis. "Nós podemos efetivamente sentir um pouco mais o que vemos no PC, onde eu ainda posso voltar e jogar mais jogos antigos, como Doom e Quake, que eu costumava jogar anos atrás", defende Phil Spencer. "Mas também posso ver os melhores jogos saindo em 4K, e a minha biblioteca, que está sempre comigo. A inovação de hardware continua enquanto a inovação de software tira vantagem disso, e eu não sou obrigado a pular para a próxima geração e perder tudo que eu joguei antes".

A tal da "Plataforma Universal do Windows"
Quem vai ter um papel fundamental nessa estratégia é a tal da "Plataforma Universal do Windows". A ideia da Microsoft é que computadores, smartphones e consoles (leia-se Xbox One) que estejam rodando sistemas baseados no Windows 10 ofereçam a experiência mais unificada possível. A empresa quer, dentro do possível, criar uma Windows Store unificada que traga o mesmo modelo de comercialização (e, em parte, os mesmos produtos) para todas as plataformas.

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A estratégia acaba indo bem mais longe do que a gente muitas vezes imagina. Um motivo para a Microsoft querer unificar a Windows Store estaria também em oferecer aos desenvolvedores um conjunto de interfaces e ferramentas que fosse comum a todos os dispositivos com Windows: PCs, tablets, smartphones, Xbox One, dispositivos de Internet das Coisas e até ideias novas como o Hololens.

Esse novo modelo unificado é o principal motivo para a gente ver tantos grandes exclusivos do Xbox indo parar no PC – mais especificamente, na Windows 10 Store. Só nas últimas semanas, a Microsoft anunciou que Rise of the Tomb Raider, Quantum Break e Forza 6: Apex (versão free-to-play de Forza 6) serão todos lançados de maneira exclusiva na Windows Store do Windows 10. Ou seja, isso nos leva a crer que estamos cada vez mais próximos de um futuro onde a separação entre PC e Xbox One será mínima, e isso chega com muitos questionamentos.

Questionamentos e problemas na lógica
Primeiro, pelo bem dos PC gamers, é importante trazer um gigantesco problema que ficou na memória de todos: a Games for Windows Live. Essa foi a única – e desastrosa – tentativa da Microsoft de aproximar a experiência de jogar no PC da Xbox Live. E a empresa vai ter que trabalhar muito bem para fazer com que isso funcione. Só que, por enquanto, eles não estão fazendo o melhor dos trabalhos.

No momento, games lançados na Windows Store não possuem suporte a SLI, CrossFire, mods e nem mesmo a uma tela cheia real. De acordo com Phil Spencer, ao menos a empresa está trabalhando para resolver esse problema. Ele confirmou isso através de sua conta oficial no Twitter: "Nós sabemos que listas como essas incluem recursos que os jogadores de PC querem ver por nossa parte, agradecemos o feedback e temos planos para melhorar".

Outro grande problema é: como esses upgrades vão funcionar, e como vai isso vai ser atrativo para o público em geral? Pois a parcela dos PC gamers que atualizam a sua máquina com frequência é bem menor que a base de usuários de consoles. E mais do que isso: como que todo o processo vai funcionar? Porque é muito improvável que quem comprou um console pela praticidade esteja disposto a abrir sua carcaça para trocar a APU. No caso do Xbox One, então, já sabemos que uma simples troca de HD já é um inferno.

Então como funcionaria isso? Os jogadores iriam na Saraiva ou na Fnac mais próxima para comprar um "kit de expansão pronto" que vai transformar o console num pequeno monstrinho? Ou pior, os jogadores vão ter que mandar seus Xbox One para a Microsoft? Outras empresas poderão fazer seus próprios "kits de expansão" e vendê-los ao público? Esse é um detalhe crucial da estratégia, que pode ser a diferença entre o sucesso ou o fracasso do console. E, como a gente viu, esse mercado é um mercado que não tolera fracassos – que o digam Atari Jaguar e Sega Dreamcast (este último um console à frente do seu tempo, mas que não resistiu ao teste do mercado na época).

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E, para finalizar, como será feita a separação entre as versões do Xbox One que rodam jogos mais novos e as que não rodam? Os desenvolvedores já vão deixar configurações gráficas pré-programadas para cada "kit de hardware" novo que sair? Ou vai acontecer como já é nos computadores, onde há um menu cheio de opções gráficas, que vão de "low" até "ultra"? Isso não seria novidade no mundo dos consoles, pois é algo que Project Cars já permite no PlayStation 4 e no Xbox One. Até porque, em algum ponto, a capacidade do Xbox One atual não vai ser suficiente para a visão artística de algum jogo mais ambicioso, e aí todo mundo que quiser jogá-lo terá que atualizar seu console.

Conclusão
A ideia de Phil Spencer, no momento, não passa de uma vaga divulgação de uma estratégia que ainda nem foi detalhada. Quem sabe a declaração seja até mesmo um jeito da Microsoft de "testar as águas". De ver como seria a recepção do público a um negócio tão louco quanto o "fim das novas gerações de consoles", algo que basicamente definiu o modelo de negócios da indústria de games nos últimos 30 anos. E aí, a bola passa para vocês, os consumidores. Os usuários de fóruns, comentaristas de sites e de redes sociais. Esse é o termômetro que a Microsoft vai usar para definir o futuro do Xbox One – e quem sabe de toda a indústria dos games. E aí, o que vocês decidem?

Com informações de Polygon, Telegraph, ZD Net, Forbes e Engadget.

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  • Redator: Carlos Felipe Estrella

    Carlos Felipe Estrella

    Apaixonado por games desde os 6 anos de idade, quando ganhou um Playstation 1. Em 2005 migrou para o PC, e aí começou a se interessar por tecnologia. Formado jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina.