Por que não podemos ter um jogo bom do Godzilla?

Imagine um jogo em que você assume o controle de um gigantesco monstro escamoso, feito basicamente de radiação e fúria, onde você pode destruir tudo em seu caminho, fazendo imensos arranha-céus parecerem frágeis estruturas de papelão. Sua força incomparável é colocada a teste apenas quando deparada com outras criaturas, igualmente enormes, com habilidades distintas, e o jogador deve derrotar a todos para mostrar quem é realmente o rei dos monstros. Sim, parece legal. Mas, na prática, nunca tivemos um jogo realmente bom para o Godzilla.

Escrevo essa coluna depois de acumular diversas horas experimentando o fiasco que saiu para o enorme kaiju no PS4 e no PS3. O jogo se chama apenas Godzilla e foi lançado no oriente no fim do ano passado e portado para os lados de cá em julho deste ano. Seria melhor que tivesse ficado lá. Tão frustrante foi a experiência com o jogo que o pessoal aqui no Adrena concordou que ele não é digno de uma análise. Mas não vai escapar de duras críticas nesta coluna.

Ano passado seria o momento perfeito para termos um excelente game do lagartão radioativo, levando-se em conta, principalmente, três motivos:

1 - Em 2014 nosso querido rei dos monstros completou 60 anos de idade. Um game do gigante sexagenário seria então, muitíssimo bem-vindo até como uma forma de comemoração também.
2 - Foi também no ano passado que a Legendary Pictures nos brindou com a primeira versão hollywoodiana mencionável de Godzilla (aquela do Matthew Broderick não conta). Apesar das opiniões do filme serem controversas, ele foi um grande sucesso de bilheteria e, mesmo que o game não fosse diretamente vinculado à produção para o cinema, uma coisa ajudaria a promover a outra.
3 - Um exclusivo bem avaliado iria muito bem para o PS4 nessa altura. Primeiro porque exclusivos são sempre bem-vindos. E depois porque "Driveclub" e "The Order 1886" não foram aquele sucesso todo que a Sony gostaria.


Cara, essa música ♥

As condições estavam todas aí! E o que ganhamos? Um jogo desinspirado, com gráficos dignos de riso, história inexistente, jogabilidade irritante e repetitiva e incontáveis erros em sua tradução.

História

Tudo bem que, ao se ligar um jogo do Godzilla, ninguém espera uma trama complexa cheia de reviravoltas. Na verdade procuramos mais uma desculpa pra controlar o monstro gigante e pisar em prédios. E este título ainda tem uma tentativa de ambientação, com um sistema quase interessante de mudança de lideranças que definiria a dificuldade enfrentada pelo jogador.

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Em Godzilla 2014 (vamos chamar assim pra facilitar), os humanos descobriram uma maneira de usar a energia liberada pelo rei dos monstros na fabricação de geradores gigantes. Por algum motivo, o gigante não gostou de ter sua força patenteada usada dessa maneira e, na pele do monstro, o jogador deve destruir esses geradores. Este é o objetivo da campanha principal "Ir à Costa" e isso é tudo também que o jogador faz em mais da metade do tempo em que está jogando este game.

E é só isso. Nenhuma desculpa porque monstros de repente aparecem para enfrentar o Godzilla, nem porque alguns dos personagens que nos filmes foram criados pela própria humanidade para ajudar, como o Mecha Godzilla, aparecem como seres naturais e também inimigos das pessoas. Nem vale a pena se concentrar nessa parte, de longe o menor dos problemas do jogo. 

Gráficos e Som

É na parte de gráficos e som que começa a ficar nítido o descaso na produção de Godzilla 2014. Enquanto os monstros têm um trabalho mais caprichado e, eventualmente, com um visual digno do PS3 (note: PS3, não PS4), o visual das cidades e dos veículos do exército que constantemente atacam o jogador seriam bons no PS2. E o jogo nem pode dar a desculpa de contar com um enorme mundo aberto para prejudicar os gráficos, já que os estágios, em sua maioria, são ridiculamente pequenos. "Godzilla: Save The Earth" no PS2 já contava com cenários maiores e mais elaborados.

Em matéria de som, o jogo mantém seu nível de qualidade. São pouquíssimas as faixas de músicas e, apesar do excelente tema do filme ser muito bem-vindo, precisamos de mais opções para compor um game. Já a dublagem foi inteiramente feita por 5 ou 6 pessoas. Pontos para a opção de poder deixar o áudio original em japonês, mas não o suficiente para deixar a parte de som do game digna de elogios.

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E a felicidade não para por aqui. Não bastasse os gráficos passarem vergonha, às vezes o jogo causa quedas de frame no PS4 quando muitas coisas estão sendo destruídas ao mesmo tempo. Exatamente. Um exclusivo mal otimizado. Parabéns. E a localização em português brasileiro que poderia contar alguns pontos, conta com alguns erros grosseiros, como "typos", ou alguém esquecendo de dar espaço entre as palavras, que teriam sido corrigidos se houvesse sido feita uma simples revisão no texto.

Jogabilidade

O golpe final. A jogabilidade em Godzilla 2014 é engessada, repetitiva, irritante, terrível. Se os desenvolvedores tinham a intenção de fazer o jogador se sentir realmente como um ator dentro de uma roupa de borracha sem articulações, posso dizer que tiveram sucesso. O movimento é lento, não responsivo e as habilidades de cada criatura extremamente limitadas. Além disso, a própria maneira como é construído o jogo é de uma repetitividade assustadora. 

Tudo que se faz neste título é destruir os geradores e se debater com monstros no maior button mashing da história. Não há nem a mais simplória das variações de objetivo, como "destrua tal prédio em tanto tempo", ou, "chegue no ponto B antes do outro monstro". Não. Dos diversos modos de jogo, é possível ver sempre a exata mesma fórmula: lutar com monstros e destruir geradores. Isso até bastaria se as lutas fossem suficientemente divertidas e se o jogo não tivesse o preço de um lançamento triplo A.

O jogo conta com um multiplayer, mas é apenas online. Aí ganha quem tiver mais sorte no button mashing. Se o jogo tivesse pelo menos um multiplayer local, ganharia alguns pontos por ser possível sentar e jogar estilo comédia, quando você joga um game pra dar risada com seu amigo de tão desajeitado que o título é, fica divertido. Era assim em "Save The Earth".

Conclusão

A conclusão é que até hoje nunca tivemos e nem tenho previsão que tenhamos tão cedo um game bom do Godzilla. Por algum motivo ele é sempre deixado para desenvolvedoras fazerem algo com baixo orçamento, pra lançar logo e capitalizar em cima dos pobres fãs. Save The Earth é um exemplo de um jogo até divertido, mas que parece bom quando comparado com outros títulos do monstro, não bom por si só. 

Só pela falta de opção eu conseguiria recomendar Godzilla 2014 pra quem fosse muito fã do rei dos monstros. Querendo ou não, ainda é um jogo do Godzilla num mercado escasso e o game tem lá seus momentos. Mas por preço de triplo A, fica impossível recomendar até pra quem gosta muito. Como posso sugerir um game meia boca quando pelo mesmo valor a pessoa compra "The Witcher 3"? Não posso.

 

Mas, otimista que sou, ainda sento e espero um bom jogo do Godzilla. Quem sabe um dia. Aí vai ver colocam até o Kaizer Guidorah nele. 


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  • Redator: João Gabriel Nogueira

    João Gabriel Nogueira

    João Gabriel Nogueira se formou em jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) em 2015 e curte games desde muito antes. Começou com o Master System e o gosto pelos jogos eletrônicos trouxe o gosto pela tecnologia. Escrever notícias e análises de jogos, hardware e dispositivos móveis para o Adrenaline, além de trabalho é uma alegria e um aprendizado.

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