Facebook quer ser a internet e isso é irritante

A Internet se massificou e agora tudo é audiência. Tudo. O que importa para qualquer site, portal ou plataforma é o quanto ela consegue manter seus usuários nela. YouTube adora visualizações e minutos assistidos, sites amam cliques e compartilhar é vida. As consequências são óbvias: vence quem faz o título e imagem mais chamativa. Ser verdade ou relevante é secundário.

Ninguém vem se esforçando mais em te manter "no cativeiro" que o Facebook. A rede social aspirante a Internet 2 já conta com uma audiência monstruosa de 936 milhões de usuários... ativos! Não estamos falando simplesmente de usuários, afinal já faz tempo que todos perceberam o que conta não é mais o número de pessoas cadastradas em uma plataforma, e sim ter pessoas realmente atuando dentro dela. Esses quase 1 bilhão de pessoas utilizam o Facebook DIARIAMENTE.

Esse mundo de pessoas distribuem 4.5 bilhões de joínhas (aceito um nesse artigo, inclusive), e a cada 20 minutos 1 milhão de links são compartilhados, 2 milhões de pedidos de amizades são realizados e 3 milhões de mensagens são enviadas. (fonte)

Como se não bastasse essa participação monstruosa - que gerou US$ 3.59 bilhões de receita no último trimestre - a rede social vem fazendo esforços para crescer na área de vídeo, de mensagens, está criando um ecossistema de aplicativos e até mesmo querendo prover ela mesmo internet - afinal, sem internet não há Facebook. Até aí não vejo problema, quem não quer ampliar seus negócios?

Mas com uma margem de manobra que só 1 bilhão de usuários ativos lhe proporciona, o Facebook vem tomando decisões bastante centralizadoras. A plataforma não está mais contente em ser o local onde vemos as férias incrivelmente felizes de nossos amigos frustrados ou onde brigamos sobre política com os tios. O Facebook quer ser onde você faz tudo na internet. Quer ser o que o Internet Explorer foi para uma geração inteira de usuários de PC dos anos 2000: a internet.

Quem mais no mundo tem a capacidade de decidir o que 1 bilhão de pessoas irão ver?

Este processo tem vários fronts. Nas mensagens, ao mesmo tempo que investe no crescimento do Facebook Messenger, que já virou "na marra" um aplicativo separado da rede social com ecossistema próprio de apps, a compra do Whatsapp deixou nas mãos de Zuckerberg uma parcela considerável de todas as mensagens trocadas através de dispositivos móveis. Nos vídeos, o objetivo é sair derrubando os concorrentes. Na hora de mostrar um vídeo de uma plataforma especializada e com mais recursos, como o YouTube, ou o player pavoroso e a desorganização, que é o hoje os vídeos na rede social, não é nem um pouco difícil adivinhar quem o algoritmo do Facebook vai escolher para colocar na sua timeline. Já percebeu como anda raro um link do Youtube aparecer para você? Agora compara com vídeos que foram postados na própria rede.

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O Facebook já percebeu que é hoje um espaço de compartilhamento de conteúdos e onde as pessoas se informam. Mas não basta mais ser o ponto de partida, você não pode sair da rede social. Nos dispositivos móveis, a manha é o "navegador embarcado" que só mostra o conteúdo que você clicou e, "para deixar a interface mais clean", dificulta a navegação sumindo com recursos básicos como o voltar para a página anterior. O único botão da interface sempre de prontidão é o botão que te joga de volta para... o próprio Facebook.

A rede social já prepara o novo estágio para esta centralização. Está buscando parcerias com produtores de conteúdo para que seus artigos caiam direito na rede social, deixando claro que não pretende fazer dinheiro de forma direta com esta mudança, e sim garantir mais tempo do usuário dentro da plataforma. A rede social irá oferecer planos para os parceiros, que receberão 100% do dinheiro que fizerem através das propagandas que venderem e até 70% das propagandas vendidas pelo Facebook para eles. Quando o assunto é controlar o que você vê, o Facebook está disposto a "te dar internet de graça".

O problema deste processo, e motivo pelo qual todos nós temos que ficar atentos, é que a internet nasceu com a capacidade de descentralizar a informação. Nunca antes tivemos tantas fontes diferentes para entender a realidade, tantos pontos de vista conflitantes para entender o mundo. (Estamos) Nos livramos da maldição dos meios de comunicação de massa e sua agenda oculta, nos informando daquilo que querem que sejamos informado, graças a capacidade de qualquer um de criar um blog ou fazer um post e assim ganhar voz.

Deixar que uma plataforma centralize o fluxo das informações é a maior tragédia que pode acontecer à internet. Mesmo que qualquer um tenha a capacidade de postar um conteúdo, esta liberdade pode ser cortada de uma forma sutil e velada - ganhar prioridade mínima na timeline. É uma censura sutil, porém eficiente. Depois da repressão direta e violenta, agora o consentimento distraído é a nova forma de controlar as massas. Um número massivo de instalações do Baidu, por conta de usuários que só clicam "avançar e avançar", que o diga.

Deixar que uma plataforma centralize novamente o fluxo das informações é a maior tragédia que pode acontecer à internet.

 

Por isso, já escape desta canalhice. Escolha fontes diferentes para se informar, e de preferência sites com posicionamentos políticos distintos. Ature ler conteúdos de pessoas com uma visão diferente da sua, pois o contraditório é indispensável para amadurecimento. Se você não se questionou sobre uma de suas crenças nos últimos dias, temos aqui um mal sinal. Continue pesquisando no Google, afinal é uma fonte muito eficiente para encontrar conteúdos, mas ao menos se pergunte, de tempos em tempos, porque você deixa que esta empresa decida quais são as informações que você vai encontrar.

Se fiz minimamente meu trabalho aqui, você até pode continuar usando só o Google para buscas, mas ao menos vai se perguntar se devia mesmo fazer isso

 

Não deixe o Facebook ou plataforma alguma colocar o antolhos, que tanto sonha, em você. Exceto se antolhos for uma fetiche sua. Nesse caso, quem sou eu para sair julgando os gostos dos outros?

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  • Redator: Diego Kerber

    Diego Kerber

    Formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Diego Kerber é aficionado por tecnologia desde os oito anos, quando ganhou seu primeiro computador, um 486 DX2. Fã de jogos, especialmente os de estratégia, Diego atua no Adrenaline desde 2010 desenvolvendo artigos e vídeo para o site e canal do YouTube

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