O dia em que um troll mostrou como o jornalismo tecnológico é ruim

Como nosso colega Andrei gosta de dizer, "podcast Adrenaline sem rumor não é podcast". Além do tom "estou de saco cheio dessas coisas", a frase mostra também a importância que os boatos possuem na cobertura do mundo tecnológico, nossa e da maioria dos sites que tratam de tecnologia. Pois esta semana um troll mostrou a fragilidade da boataria, e de forma didÁtica e cruel provou como o jornalismo de tecnologia é feito de forma errada.

Foto meramente ilustrativa, como toda usada em boato. Afinal, falamos de coisas que não existem

Tudo começa com uma pessoa irritada com a enxurrada de informações não confirmadas publicadas na internet. Cansado do excesso de rumores, nosso algoz não identificado decide testar sua teoria de que estas publicações são feitas a esmo, sem nenhuma outra apuração para testar se hÁ uma mínima veracidade nos dados, criando o seu próprio rumor falso. Para espalhÁ-lo, ele parte de duas premissas: 1) a história precisa parecer verdade e 2) só a primeira premissa jÁ basta, pois a ineficiência dos jornalistas em verificar as informações, pra ver a validade delas, e necessidade de encontrar "furos", garantiria que seu hoax chegaria a ser publicado.

Desta forma nascia o X-Surface, um tablet da Microsoft voltado para games, e o console de futura geração da empresa, batizado singelamente de Xbox. Ambas as informações são verossímeis: a Microsoft lançou o Surface, e poderia muito bem lançar um produto voltado a gamers, coisa que a Razer fez, assim como o nome curto do console combinava com o esforço de simplificar os nomes de seus produtos que a empresa vem fazendo. Pra "fechar o caixa", este tablet teria conexão com o console, em um esquema parecido com o Wii U, da Nintendo. Ou seja: tudo muito possível, e ao mesmo tempo muito importante.

O figura criou uma conta no Gmail e, afirmando ser um funcionÁrio da Microsoft trabalhando no Xbox, disparou estas informações para os principais sites sobre games. A primeira baixa foi o Pocket-lint, site que se limitou a mandar um e-mail perguntando se a informação era real. Uma hora após a réplica de "Sou da Microsoft, acredita em mim?", o X-Surface passou a navegar pelos mares da internet.

A ferramenta do crime

Sem apuração adicional, o fake ganhava a internet, e foi seguido de um "efeito dominó", jÁ que sites de tecnologia e games lançam muitos conteúdos fazendo referências entre si. Ou melhor: efeito torrent, pois segue o mesmo padrão: quanto mais fontes vão publicando a notícia, mais ela parece real, acelerando o processo de divulgação da mesma forma como o P2P potencializa o compartilhamento de arquivos. Desta forma o hoax chegou ao CNET, Gizmodo, VG247 e um bando de outros sites. Nós sobrevivemos ao massacre (ufa).

O justiceiro anônimo publicou seu feito, com detalhes da "fabricação do fake", forçando uma maratona de erratas em todos os sites que caíram na armadilha. 

O que tiramos disso tudo? Algumas conclusões do próprio criador do boato servem: mesmo os sites de grande porte não são confiÁveis e o jornalismo feito neles não seguem procedimentos que esperamos, para verificar a validade do que serÁ divulgado. Mas creio que hÁ mais que isto, tudo por conta da liberdade que se criou em torno da publicação dos boatos.

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A cobertura de games e tecnologia é diÁria, mas as novidades, não. Em um dia fraco, além de coisas malucas, os sites de tecnologia atacam com os boatos para manter a audiência "entretida", afinal, quem acessa estes portais quer ver coisas novas e se frustra quando não hÁ nada. O resultado deste processo são estes conteúdos duvidosos, publicados só por serem interessantes ou inovadores, com um péssimo jornalismo feito só pra "dizer que foi publicado algo".

No fim das contas, ao meu ver, a culpa é de todo mundo. É um processo movido pela ânsia por novidades de todos os entusiastas de tecnologia, tanto por parte dos jornalistas quanto do público. Acho que é hora de nos conformarmos que as grandes revoluções, por mais que este mercado venha se reinventando muito, não acontecem diariamente.

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  • Redator: Diego Kerber

    Diego Kerber

    Formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Diego Kerber é aficionado por tecnologia desde os oito anos, quando ganhou seu primeiro computador, um 486 DX2. Fã de jogos, especialmente os de estratégia, Diego atua no Adrenaline desde 2010 desenvolvendo artigos e vídeo para o site e canal do YouTube

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