Detona Ralph: uma homenagem aos games que ficou pela metade

Por que alguns games têm bugs? O que acontece dentro de um jogo quando ele trava? Que fim levam os personagens quando um arcade é desligado?

São perguntas como essas que o longa Detona Ralph, dos estúdios Disney, responde de maneira lúdica, criativa e divertida, em uma simpÁtica homenagem ao mundo dos games. Em exibição nos cinemas brasileiros desde o início do ano, a animação conta a história de Ralph, um típico vilão dos videogames dos anos 80. Parte fundamental do jogo de fliperama fictício "Conserta Félix Jr." – afinal, qual a razão de existir um jogo sem um vilão? – o grandalhão se cansa do "bullying" que sofre por ser malvado e decide provar a todos que também pode ser um herói.


Achar todos os personagens que aparecem no filme exige olhos bem rÁpidos e atentos

A motivação do personagem principal e boa parte das situações pelas quais ele passa na sua jornada de herói são um bocado clichês. Mas as referências aos games, pelo menos inicialmente, são tão ricas que os jogadores vão se sentir bem à vontade, principalmente os veteranos. Isso porque o filme tem um viés claramente nostÁlgico, ambientado em um fliperama de décadas passadas.

Dentro desse ambiente, hÁ um outro ambiente: o mundo dos personagens. Todos os jogos são interconectados pelos filtros de linha do local, digamos, "de verdade" e, por isso, não é tão difícil para eles esbarrarem no final do expediente. Ken e Ryu, por exemplo, saem de "Street Fighter" para tomar uma cerveja no bar do jogo "Tapper". E a reunião de vilões, uma espécie de "terapia de grupo", ocorre no "núcleo" do labirinto de Pac-Man.


Ralph é o vilão de um típico arcade dos anos 80. Ele destroi todo o prédio, que precisa ser consertado pelo Félix (dÁ pra jogar aqui)


É em uma estação de trem, que faz as viagens entre um arcade e outro, que dezenas de personagens queridos aparecem, em inúmeras referências e easter-eggs tão divertidos e numerosos que dÁ vontade de ver o filme de novo e de novo para ter certeza de ter captado tudo. A superpopulação de personagens é deslumbrante na telona e duvido que não te arranque um belo sorriso.


"Detona Ralph", porém, envereda por caminhos mais tradicionais e previsíveis depois de aproximadamente 30 minutos de projeção. Nosso vilão-herói vai parar em um jogo chamado "Corrida Doce", onde, de fato, se descobre e se desenvolve ao lado de uma menininha, Vanellope, que é um "bug" do jogo. Aí, o filme toma um rumo tão diferente que parece, literalmente, OUTRO.

As referências aos games praticamente somem. Sobram pouquíssimas coisas, como a alusão aos bugs e à programação. O mundo excessivamente cor-de-rosa da Corrida Doce deixa claro que a Disney forçou a barra bonito para agradar às meninas, fazendo jus ao velho estereótipo que eu jÁ critiquei em uma coluna anterior. Vanellope é excessivamente fofa, o que chega a ser bonitinho e divertido (como é o caso do Yoshi, que em "Yoshi's Story" tem uma fofice tão exagerada que chega a ser caricato), mas não é o suficiente para justificar o fato de "Detona Ralph" virar, de repente, um conto de fadas praticamente tradicional.


Vanellope tinha tudo para ser extremamente irritante, mas tem lÁ o seu carisma


HÁ quem diga que a Disney entregou um filme com a cara da Pixar, enquanto esta, com "Valente", se assemelhou mais à Disney. Discordo em partes. Mérida, de "Valente", é uma personagem forte, que foge do arquétipo da princesa submissa, ajeitada e cor-de-rosa – seus cabelos ruivos e rebeldes são um símbolo disso. "Detona Ralph", por sua vez, entregou tudo o que podia nos trailers e, ao invés de oferecer ainda mais ao longo dos seus 90 minutos, acaba exibindo poucas novidades. Bison e Zangief, que fizeram uma aparição divertidíssima no trailer, não aparecem mais na trama, por exemplo. O que sobra são "avatares" terrivelmente fofos, doces por todos os cantos, uma piadinha com Coca-Cola e Menthos e quase nada do que foi visto no material de divulgação.

Não dÁ pra tirar o mérito de "Detona Ralph": é uma animação capaz de divertir toda a família. Jogadores hardcore, gamers casuais ou quem descobriu o mundo dos games hÁ pouco tempo talvez sequer gostem do filme. Os nostÁlgicos e o pessoal da "velha guarda" certamente vão se emocionar em alguns momentos. Mas a animação continua sendo um filme da Disney: sentimental, cor-de-rosa e um tanto clichê.

Com um universo tão vasto, fica a expectativa de que a Disney sejam mais ousada em uma possível sequência. JÁ se fala, inclusive, que Mario vai aparecer no segundo filme. TÁ aí uma boa desculpa se o estúdio quiser enfiar uma princesa cor-de-rosa de qualquer maneira. Para quem ainda vai ver o primeiro, fica a dica: não saiam antes dos créditos terminarem. Vale a pena assistir tudo, com direito, inclusive, a Ralph ajudando Ryu a destruir um carro na famosa fase-bônus de "Street Fighter".

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  • Redator: Risa Lemos Stoider

    Risa Lemos Stoider

    Formada em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e gamemaníaca desde os 4 anos de idade. Já experimentou consoles de várias gerações e atualmente mantém uma ainda modesta coleção. Aliando a prática jornalística com a paixão pela tecnologia e os games, colabora com a Adrenaline publicando notícias e artigos.

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