Cansei da Square Enix oportunista: eu quero a competente Squaresoft de volta!

Não hÁ como negar que a Square Enix é uma das maiores, mais renomadas e respeitadas produtoras no universo dos jogos eletrônicos. A casa de famosos e saudosos RPGs dos anos 90 também é, atualmente, uma grande distribuidora de games de outras marcas e franquias. Mas, pelo menos na última década, parece que a companhia começou a "perder o rumo" e não consegue mais ser tão relevante com as suas produções. 

Por que digo isso? Simples: os jogos produzidos pela Square Enix hoje não têm o mesmo impacto, apelo e não agradam tanto quando era apenas a saudosa Squaresoft. Qualquer jogador que viveu o auge da produtora sente isso e pensa que "tem algo errado por aí!". E é exatamente essa discrepância e falta de coerência que eu quero mostrar para vocês, jogadores, que, assim como eu, gostariam muito que a empresa voltasse a lançar grandes jogos, cheios de criatividade, novidades e mecânicas extremamente divertidas. 

A Squaresoft, até então uma subdivisão de uma empresa japonesa de construção de redes elétricas, foi fundada por Masashi Miyamoto em 1983. Mas, no começo, nada foi fÁcil: além de ter somente um membro na equipe de produção, que só depois foi complementada com especialistas de design (entre eles o lendÁrio Hironobu Sakaguchi), escritores e programadores profissionais, seus primeiros dois games, "The Death Trap" e "Will: The Death Trap II" (e outros títulos pífios) falharam tão feio nas vendas que a companhia quase faliu de vez.

A saída foi desenvolver um "último projeto" que pudesse estabelecer a nova marca ao lado de concorrentes gigantescas como Nintendo, Sega, Capcom e Konami. Foi assim que, como um último suspiro, surgiu a franquia "Final Fantasy". O nome do game não é mera coincidência e foi chamado assim de propósito, numa clara tentativa da empresa não sair do mercado de games. O resultado foi que, com o sucesso astronômico do jogo, a chuva de grandes produções  nos anos seguintes presenteou jogadores de todo mundo que até hoje são lembradas com grande carinho.

Claro que essa lembrança é sempre motivada por índices altíssimos de nostalgia, mas é impossível não reconhecer a qualidade incomparÁvel que games como "Chrono Trigger", "Final Fantasy VI", a série "Dragon Quest", "Final Fantasy VII", "Xenogears", "Secret of Mana", "Final Fantasy VIII", "Parasite Eve", "Final Fantasy IX", "Vagrant Story", "Brave Fencer Musashi", "Final Fantasy X", "Chrono Cross", "Kingdom Hearts" e "Final Fantasy XII". Todos eles, sem exceção, traziam elementos quase sempre inovadores, muito viciantes e divertidos nas mecânicas como funcionavam. Não era somente o visual que contava: além dos belíssimos grÁficos e das inesquecíveis cenas em CG, o conteúdo em termos de enredo, sistemas de batalha e profundidade das tÁticas possibilitadas nesses jogos divertiam legiões de fãs. E eu sempre um fui destes. 

Ao lado de "Chrono Trigger" (1995, SNES), "Final Fantasy VII" (1997, Playstation) é considerado um dos melhores jogos de todos os tempos

A partir de 2006, entretanto, algumas situações começaram a tomar novos rumos. Como qualquer outra companhia em qualquer tipo de negócio, a Square Enix também almeja grandes lucros com os seus lançamentos, produtos e quaisquer outros tipos de conteúdos que decida disponibilizar no mercado. Algo que realmente chegou a acontecer, conforme apontam os sites Gamasutra (2006), VGChartz (2010) e Joystiq (2012). Mas isso também veio com um custo: as grandes franquias da empresa não mais trouxeram inovações ou chegaram a ser tão marcantes quanto anteriormente, como também apareceram, na maioria das vezes, apenas em forma de spin-offs (episódios paralelos) ou relançamentos (até mesmo em alta definição) bastante oportunistas. 

Vamos, então, nomear estes tropeços e apontar seus dilemas. "Dirge of Cerberus: Final Fantasy VII" (2006, PS2) foi, por exemplo, um belíssimo jeito de encher linguiça do universo de um jogo muito famoso numa mecânica de ação e tiro em terceira pessoa com controles confusos e recursos técnicos apenas comuns. E a enxurrada de outros trocentos "Final Fantasy" que saíram desde então, sendo que apenas o "XII", "XIII" e "XIV" pertencem à vertente principal da série?


Não se deixe enganar pelas cenas em CG ou pelo protagonista ser o lendÁrio Vincent. "Dirge of Cerberus: Final Fantasy VII"
traz combates em terceira pessoa travados, enredo típico que "enche linguiça" é uma produção bastante oportunista!


- Continua após a publicidade -

Relembrando: "Final Fantasy III" (2006, NDS), "Final Fantasy V" (2006, GBA), "Final Fantasy Fables: Chocobo Tales" (2006, DS), "Final Fantasy I & II" (2007, PSP), "Final Fantasy IV" (2007, NDS), "Final Fantasy XII: Revenant Wings" (2007, NDS), "Final Fantasy Tactics: The War of the Lions" (PSP, 2007), "Final Fantasy: Crystal Chronicles: Ring of Fates" (2007, NDS), "Crisis Core: Final Fantasy VII" (2007, PSP), "Dissidia: Final Fantasy" (2008, PSP), "Final Fantasy Chronicles: Echoes of Time" (2009, NDS e Wii), "Final Fantasy: Crystal Bearers" (2009, Wii), "Dissidia 012: Final Fantasy" (2011, PSP), "Final Fantasy IV: The Complete Collection" (2011, PSP), "Final Fantasy Type-0" (2011, PSP) e "Theatrhythm Final Fantasy" (2012, NDS), só para citar alguns casos.   


Assim como "Dissidia: Final Fantasy", "Final Fantasy XII: Revenant Wings", "Final Fantasy IV: The Complete Edition" e
"Theatrhythm Final Fantasy, "Crisis Core: Final Fantasy VII" foi muito bem recebido por crítica e público. JÁ os outros jogos...


Diante do exposto, fica tão difícil assim perceber que a empresa buscou, a todos os custos e durante todos esses anos, gerar lucros mÁximos através de relançamentos e spin-offs (jogos de luta, musicais, estratégia e ação apoiados na fama de personagens ou temas específicos vistos na série principal) baseados no renome da sua franquia mais importante?

Só que a situação aqui pode ficar um pouco mais crítica. Antes fosse apenas no sobreuso de uma única marca, o que se viu foi a exploração de outras franquias também jÁ consagradas. "Dragon Quest", por exemplo, ganhou "Dragon Quest: Shōnen Yangus to Fushigi no Dungeon" (2006, PS2), "Dragon Quest & Final Fantasy in Itadaki Street Portable" (2006, PSP), "Dragon Quest Monsters" (2007, NDS), "Dragon Quest: Monster Battle Road" (2007, Arcades e Wii), "Dragon Quest IV: Chapters of the Chosen" (2007, NDS), "Dragon Quest V: Hand of the Heavenly Bride" (2008, NDS), "Dragon Quest Wars" (2009, NDS), "Dragon Quest VI: Realms of Revelation" (2010, NDS), "Dragon Quest: Monsters Battle Road Victory" (2010, Wii) e "Dragon Quest Monsters: Joker 2 Professional" (2011, NDS), também só para citar alguns.

O MMORPG "Dragon Quest X" chega ao ocidente, com versões para Wii e Wii U, ainda em 2013


E o mesmo aconteceu a exploração de franquias como "Mana", "Front Mission", "Parasite Eve", "Kingdom Hearts" e "Valkyrie Profile". Exemplificando: "Children of Mana" (2006, NDS), "Dawn Of Mana" (2006, PS2), "Star Ocean: First Departure" (2007, PSP), "Heroes of Mana" (2007, NDS), "Front Mission 2089: Border of Madness" (2008, NDS), "Kingom Hearts: Chain of Memories" (2008, PS2), "Valkyrie Profile: Covenant of the Plume" (2008, NDS), "Front Mission: Evolved" (2010, PS3 e X360), "Kingdom Hearts Re:coded" (2011, NDS) e "The 3rd Birthday" (2011, PSP). Todos esses games, sem exceção, se encaixam no oportunismo de serem relançamentos, spin-offs, remakes ou continuações praticamente desnecessÁrias. Nenhum deles, inclusive, acumula nota média maior que 7.5 nos grandes veículos de comunicação sobre jogos eletrônicos. E, pelo histórico dos anos 90 da produtora, ainda como a lendÁria Squaresoft, isso é praticamente inaceitÁvel e totalmente desgostoso de acontecer. Onde estÁ o tradicional padrão de qualidade da produtora?  

Para eu não ser tão radical ou injusto assim, é claro que, nesse meio termo, também saíram algumas - poucas - produções marcantes e que agradaram bastante a crítica e público. É o caso do excelente "The World Ends With You" (2007, NDS) e dos ótimos "Star Ocean 4: The Last Hope" (2010, X360 e PS3), "Kingdom Hearts: 358/2 Days" (2009, NDS), "Kingdom Hearts: Birth by Sleep" (2010, PSP). Com exceção do primeiro, produção original com mecânicas inovadoras que arrebatou muitos elogios mundo afora, os outros jogos são continuações ou episódios paralelos, ainda que também tenham sido bem recebidos e alcançado vendas expressivas. 


"The World Ends With You" é um das recentes produções originais da Square Enix que
receberam boas críticas, agradaram jogadores e venderam acima do esperado

- Continua após a publicidade -

Mas pensa que essa onda de decadência parou por ai? Ledo engano: logo após o lançamento de "FF XIII" (2010, PS3 e X360), que inclusive foi bastante massacrado por sua linearidade excessiva, a Square Enix anunciou "Final Fantasy XIII-2", continuação das aventuras da personagem Lightning. Basicamente, o que aconteceu foi o mesmo com "Final Fantasy X" e a sequência "Final Fantasy X-2". O jogo foi até bem recebido pela crítica e pela maioria dos jogadores, mas jamais deixou de receber a conotação de ser quase uma produção praticamente desnecessÁria. O mais duvidoso veio mesmo quando a empresa revelou a produção de "Lightning Returns: Final Fantasy XIII" (ou popularmente FF XIII-3), a continuação direta de "FF XIII-2" e que, segundo a produtora, irÁ finalizar a história da protagonista de uma vez por todas. Agora, faço três perguntas: serÁ mesmo? Realmente precisamos de mais um jogo baseado em "FF XIII"? Onde estão as produções originais e realmente relevantes?


"Lightning Returns: Final Fantasy XIII" pretende encerrar a história de
Lightning de uma vez por todas. Estou cruzando os dedos para que isso aconteça!

Mas, infelizmente, não foi só isso. Antes mesmo do lançamento de "FF XIII", a empresa anunciou, ainda em 2009, o desenvolvimento de "Final Fantasy XIV: Online", a sua nova aposta do gênero MMO. O game, que havia sido confirmado para PC e PS3, chegou ao mercado em 2010 apenas nos computadores pessoais e recebeu uma avalanche de críticas negativas de todos os lados. O que a empresa fez, então? Leu atentamente as reclamações e sugestões dos jogadores (e avaliadores) e decidiu refazer o jogo, chamando-o de "Final Fantasy XIV: A Realm Reborn". O game não serÁ reeditado do zero, mas de uma forma que, segundo a produtora, seja melhor trabalhado, mais dinâmico, com renovações no sistema de combate e no comércio online de itens do jogo. SerÁ que essa insistência darÁ certo? Só o tempo dirÁ. Um novo fracasso como este, inclusive, poderia destruir a Square Enix por inteiro.

E serÁ que esse investimento todo não poderia ter sido de uma vez realocado em produções que realmente importam? "Final Fantasy Versus XIII", por exemplo, foi anunciado em 2006 para PS3 e rapidamente desapareceu dos holofotes desde então. Rumores recentes até mesmo apontam que o jogo pode ter sido renomeado para "Final Fantasy XV" e que serÁ lançado apenas no Playstation 4. Outro que poderia aparecer é "Kingdom Hearts III":  sabe-se que a companhia tem planos para lançar um título inédito na franquia e que complemente o enredo dos anteriores de maneira decente (pelo menos é o que se espera). E algo que tenho certeza que muitos querem: remakes completos e totalmente retrabalhados de "FF VI", "FF VII", "FF VIII" e "FF IX", os episódios mais populares e mais queridos dos fãs. Mesmo sabendo que isso não deve acontecer em breve, pelo menos "FF X" e "FF X-2" ganharão remasterizações em alta definição ainda em 2013


Um dos únicos e mais completos trailers de "Final Fantasy Versus XIII". 
Além dessas imagens, não existe mais nada de concreto sobre o game :(


JÁ nos últimos dois anos, a Square Enix tem se esforçado para se tornar uma empresa cada vez mais global e ocidentalizada, buscando alternativas rentÁveis ao decrescente mercado japonês, que jÁ não é mais o mesmo que outrora. O que a empresa resolveu fazer, então? Parte dos negócios foi atrelada à distribuição de superproduções ocidentais, como "Deus Ex: Human Revolution" (2011, PC e consoles), "Sleeping Dogs" (2012, PC e consoles) e os recentes "Hitman: Absolution" (2012, PC e consoles) e "Tomb Raider" (2013, PC e consoles). Convenhamos que todos os quatro títulos são excelentes e campeões de críticas e elogios de mídia e jogadores quando foram lançados. Contudo, com exceção do primeiro, nenhum dos outros três atingiu as metas de vendas das suas respectivas produtoras (United Front, IO Interactive e Crystal Dynamics), obrigando a Square Enix a revisar suas contas, reconstruir estratégias de mercado e adiantar grande prejuízo no próximo relatório fiscal, no final de março de 2013, para em torno de US$ 125 milhões.

A gravidade da situação financeira fez com que Yoichi Wada (acima), presidente da companhia, renunciasse ao cargo que ocupa desde 2000. O executivo, entretanto, manterÁ sua posição de representante mÁximo da empresa até junho deste ano, quando efetivamente passarÁ o trono para um substituto ainda desconhecido. Esse substituto terÁ a responsabilidade de colocar a casa dos saudosos RPGs orientais de volta nos eixos e, com muita sorte, fazer os lucros brotarem como antigamente. Quem sabe, assim, a Square Enix retome parte do espírito e volte a ser tão criativa e marcante nas suas produções como a Squaresoft costumava a ser. Como fã dos seus jogos, principalmente os dos anos 90 e começo dos anos 2000, torço muito para que isso aconteça.

Mais alguém ai compartilha dos mesmos sentimentos e anseios que os meus, jogadores?  

Assuntos
Tags
  • Redator: Andrei Longen

    Andrei Longen

    Jornalista pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Andrei Longen é entusiasta por videogames desde os 7 anos, quando ganhou um Odyssey 2, seu primeiro console. Hoje tem PS4, PS3 e PS Vita e adora caçar troféus em todos os jogos. Colabora no Adrenaline com notícias, análises, artigos, colunas e vídeos.

O que você achou deste conteúdo? Deixe seu comentário abaixo e interaja com nossa equipe. Caso queira sugerir alguma pauta, entre em contato através deste formulário.