Por que "O Espetacular Homem-Aranha" segue todas as regras e é o pior filme de herói já feito

Eu estou fazendo a anÁlise do game baseado no filme, então achei prudente primeiro liberar minha raiva contra a produção cinematogrÁfica em algum outro lugar. Assim, além de terapêutico, eu ainda evito o risco de ser injusto com um produto que, apesar de ser baseado em algo ruim, merece ser avaliado de forma isenta (e que, adianto, é até que bem legal).

Ele estÁ assim porque leu essa coluna

Antes de mais nada, sim, sei que posso estar exagerando. Também sei que existem outros filmes horríveis, mas eu estou falando desses mais recentes, blockbusters que os grandes estúdios têm como principais lançamentos do verão estadunidense (o período em que as crianças estão de férias escolares e que é tradicionalmente a época de estréia desse tipo de filme).

Também gostaria de avisar que me considero um grande fã do amigão da vizinhança, e que sei que isso pode influenciar em um veredito tão extremo. Mesmo assim, eu não ligo. "O Espetacular Homem-Aranha" segue direitinho toda a cartilha dos produtores de Hollywood de como fazer um sucesso (e que funciona, considerando que o filme jÁ estÁ quase igualando seu custo de produção em sua segunda semana de exibição apenas nos EUA) e, exatamente por isso, é o pior filme de herói jÁ feito nessa geração mais atual.

Eu vou elencar a seguir e discutir cada um dos tópicos mais a fundo, então, se você não estiver com paciência de ver esse cara aqui reclamando sobre a indústria cinematogrÁfica corrompida yankee (que, por acaso, é a mesma indústria pelo qual esse cara aqui baba), pule logo para o último tópico. EstÁ tudo bem, sem ressentimentos. Deus estÁ olhando.

{break::Controle executivo}Controle criativo é um assunto muito delicado em Hollywood. Os executivos dos grandes estúdios geralmente são isso, executivos, com muito conhecimento de como fazer negócios e pouco de como fazer cinema. Por isso, muitas vezes acabam influenciando demais os filmes, passando por cima de produtores e diretores e impondo a vontade comercial sobre a artística. Isso acontece com mais facilidade quando o diretor é jovem ou de pouca expressão.

Um Sam Raimi (trilogia "Homem-Aranha", "Uma Noite Alucinante"), por exemplo, não tolera esse tipo de interferência. O que se diz é que a pressão sobre o diretor dos três primeiros filmes foi tão grande na terceira parte da franquia (para começar, ele não gostava do Venom e jÁ teria declarado que o vilão nunca faria parte de seus filmes. Resultado: Eddie Brock na terceira parte), que ele não aguentou o tranco e mandou o estúdio ir pastar, voltando a se dedicar a projetos mais pessoais e botando por terra os planos de um "Homem-Aranha 4".

"Olha como eles estão felizes". 'Tudo a ver com o Homem-Aranha!' "É isso! Vamos convidar esse diretor!"

A missão de comandar este "recomeço" caiu então nas mãos de Mark Webb, um jovem diretor com apenas uma produção no currículo, a comédia romântica "(500) Dias com Ela". Não precisa ser um gênio para imaginar que Webb, por mais competente que seja, não tinha cacife para peitar um engravatado que chegasse mandando e desmandando durante as gravações. Não apenas por essa se tratar da primeira grande oportunidade do diretor, que influenciarÁ todo o resto de sua carreira, mas também pela enorme quantidade de dinheiro (estimativa de 200 milhões de dólares) e pessoas envolvida numa produção dessa escala.

{break:: Refaça, repense, atualize, sequencialize}Grande parte das principais produções atuais pertence a um dos gêneros acima. Ou seja, são remakes, retakes, versões ou sequências de franquias jÁ estabelecidas. Isso faz sentido comercialmente, jÁ que não é mais necessÁrio o esforço de divulgar uma nova marca ou idéia. Ou seja, algo conhecido significa menos gasto com publicidade. Obviamente que isso não significa qualidade. Você conhece alguma coisa motivada exclusivamente por questões financeiras que tenha ficado muito boa? Eu não.


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Eu preferia a versão do desenho dos anos 60

"O Espetacular Homem-Aranha" é uma mistura bizarra de TODAS essas idéias. Pense comigo, o último filme da trilogia dirigida por Sam Raimi foi lançado hÁ pouco mais de cinco anos. Ainda estÁ bem fresco na cabeça da maior parte do público e não creio que seja exagero dizer que muitos devem encarar o lançamento como uma sequência da franquia. O filme reconta a origem do Aranha, história contada no primeiro filme, em 2002, e a atualiza com uma série de novas tendências que inexistiam então, como o fato de Peter, dessa vez, ser um baita hipster. Finalmente, ao adicionar elementos que não estavam presentes anteriormente, como a influência do pai do herói e seu desaparecimento, repensa o mito de como Parker se tornou o Homem-Aranha.

Em todos esses quesitos, o filme falha miseravelmente. Obviamente, eu não esperava uma sequência da trilogia original, então não digo que é uma decepção, mas o filme tenta se renovar tanto que acaba por negar as produções anteriores. Além disso, a história agora estÁ cheia de pontas soltas, personagens desnecessÁrios e descaracterizações absurdas quando comparadas aos quadrinhos. Peter Parker não é mais aquele nerd perdedor com ar de caxias, se tornando um hipsterzinho que anda de skate, usa lentes de contato e só deve ser impopular na escola por usar muitas camadas de roupa de uma só vez.  Isso faz o personagem perder força, uma vez que uma das principais características da origem do herói era essa imposição que os poderes faziam sobre o adolescente covarde. "Grandes poderes trazem grandes responsabilidades", se lembram? Aqui, não. "Grandes poderes te permitem fazer o você sempre quis".

{break::Pasteurizar para agradar}Uma outra regra fundamental dos grandes estúdios é que, quanto mais abrangente for o público, mais garantido serÁ o retorno. Ou seja, para um filme ser um sucesso, ele deve atrair crianças, adolescentes e adultos, meninos e meninas, homens e mulheres, de todas as classes sociais e faixas de idade. Para isso, a solução é tornar a história e seus personagens os mais genéricos que se possa conseguir. E sem violência exarcebada, pra censura ser baixa.

Assim temos um enredo muito menos complexo, com protagonistas com motivações rasas e simples demais. O Peter Parker dos quadrinhos, antes de ser mordido pela aranha, não era alguém muito fÁcil de se gostar. Mesmo logo após a transformação, era alguém egoísta e cheio de razões mesquinhas. Agora, como foi dito anteriormente, ele é retratado como alguém que se impõe contra os valentões do colégio e não gosta de injustiças. Praticamente um herói só esperando pelos poderes. Isso garante não apenas que ele seja mais facilmente aceito pelo grande público, mas também o torna mais atraente para a parcela feminina, a que geralmente comparece a um filme desses por causa dos namorados (sei que pareço um pouco machista aqui, mas estou apenas falando através da ótica dos executivos).

Seu relacionamento com Gwen Stacy (interesse amoroso é algo presente em todas as grandes franquias. Se nem o Batman de Christopher Nolan escapou, imagine o Cabeça-de-Teia, que sempre foi pegador) tem início antes mesmo da transformação, quando Peter adquire auto-confiança, e, antes que possamos ver, jÁ se transformou em um jantar com a família.

As motivações financeiras do herói, como ajudar a tia recém-viúva também desaparecem, e adição do fator do desaparecimento dos pais acaba servindo para enfraquecer a importância da morte de tio Ben. O vilão também parece se desenvolver do nada e a forma como ele descobre a identidade do teioso beira o ridículo. O filme também estÁ cheio de outras "coincidências" típicas para descomplicar a história, como o elo entre o pai de Peter, que trabalhou com o vilão Doutor Connors, que é chefe de Gwen, que é interesse romântico do herói. No final, é tanta coisa acontecendo por pura sorte que você não sabe se não estÁ entendendo ou se fica com raiva, mesmo. Dez mil reais pra quem adivinhar a minha reação.

Yep

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{break::Para não perder a franquia}Marcas como Homem-Aranha, Quarteto FantÁstico e X-Men pertencem originalmente à Marvel, mas estão licenciadas para grandes estúdios como Fox e Universal. No caso do Aranha, ele é licenciado para a Sony (Columbia Pictures. Esses conglomerados americanos me confundem à beça) e, assim sendo, pode ter filmes produzidos apenas por ela. Ou seja, ninguém mais, nem a Marvel Studios, divisão da Casa das Idéias responsÁvel por produções como Homem de Ferro e Vingadores, têm o direito de utilizar qualquer personagem do universo do Teioso.

Essa exclusividade, no entanto, acaba se um determinado período se passar sem lançamentos de novos filmes. Assim, sem um filme novo do Aranha em algum tempo, os direitos sobre uma adaptação do personagem voltariam para a Marvel e a Sony ficaria a ver navios. São conhecidos alguns casos de estúdios que fizeram isso no passado, como o caso do filme do Quarteto FantÁstico de 1994, que foi feito sem nenhuma intenção de ser lançado comercialmente.

...Mas o resultado ficou bom pacas!

"O Espetacular Homem-Aranha" passa essa impressão. De algo mal-feito, mal-planejado, feito apenas para "ser feito". Tanto que boatos às vésperas do lançamento indicavam que os executivos da Sony não estavam nem um pouco felizes com o resultado. E olha que a culpa era deles.

{break::Desligamento do cânone}Cânone, nesse caso, se caracteriza como a linha central da mitologia envolvendo algum personagem ou universo fictício. Ou seja, o cânone do Superman estabelece que ele é de Krypton. Boa sorte para quem tentar mudar isso. Em Star Wars ninguém pode sonhar em dizer que Luke não é fiho de Darth Vader. Mario e Luigi são irmãos e, até segunda ordem, Bowser é do mal. Ou seja, são as coisas bÁsicas que tudo envolvendo estes mundos deve levar em consideração, mesmo que seja para subvertê-los.

O trecho a seguir contém alguns spoilers leves (ou graves, dependendo da sua paixão pelo personagem), então, se você é desses que não gostam de saber de NADA, aconselho a pular para a próxima parte.

JÁ vou dizer logo de cara. Nada de "Grandes poderes trazem grandes responsabilidades". É. Eu sei. Essa é toda a filosofia que demarca o Homem-Aranha. Eu fiquei esperando até o final do filme, com a esperança de que eles viriam a corrigir esse erro, mas nada. Na verdade, jÁ pela metade eu suspeitava que eles podiam fazer algo assim, mas eu não podia acreditar. Em "Sherlock Holmes", ele nunca diz "Elementar, meu caro Watson", mas é porque, nos próprios livros, essa frase NUNCA foi dita. Além disso, é algo além da história, apenas um charme ou chiste conhecido. Não no caso do Aranha. "Grandes poderes trazem grandes responsabilidades" é a filosofia que guia o herói, depois de tanto tempo a ouvindo citada pelo tio. Ela o molda, o torna quem é. Mais do que a morte do tio (isso não é spoiler, né), é essa noção que o força a ser um super-herói.

AliÁs, outra falha grave é essa. Com a adição do elemento dos pais de Peter à história e à sua origem como herói, perde-se a forte ligação entre o adolescente e seu tio Ben, homem responsÁvel pela sua criação e carÁter. Assim, quando ele morre assassinado por um ladrão qualquer, a empatia com o público não foi criada e assim não nos comovemos, e as motivações do protagonista não são exatamente as mesmas dos quadrinhos. Tudo bem atualizar certas coisas que não funcionam mais, mas esse era um dos aspectos mais bem desenvolvidos nos quadrinhos escritos por Stan Lee, mesmo lÁ nos anos 60.

Peter Parker compra a teia na internet. Isso é tudo que eu direi a respeito. Na internet, cara.

CADÊ O SENTIDO DE ARANHA??? Ok, passou.

O doutor Curt Connors, personagem que vira o vilão Lagarto, tem uma forte motivação relacionada à sua família nas HQs. No filme, a família simplesmente inexiste, fazendo com que todos se perguntem exatamente por que ele quer matar a tudo e a todos. SerÁ que os roteiristas acham que toda pessoa sem um membro é assim revoltado? Ele só não tem um braço, imagina se fosse eunuco.

{break::O lado bom (eu sou um cara legal)}Chegou a hora de tentar mostrar que eu sou um cara justo e que nem tudo estÁ perdido. A caracterização do Homem-Aranha em si é muito melhor que a dos três primeiros filmes. Ele é mais Ágil, mais rÁpido, utiliza melhor a teia e tem o bom e Ácido humor conhecido do personagem. Além disso, o novo material da roupa, que a princípio não me agradava, funciona melhor na computação grÁfica e o torna mais realista enquanto se balança pelos prédios de Manhattan.

O elenco também é mil vezes superior. O casal principal, Andrew Garfield e Emma Stone, funciona muito melhor que o anterior, interpretado por Tobey Maguire e Kirsten Dunst, mesmo sendo 10 anos mais velhos que os personagens que interpretam. Além disso, individualmente os dois são bem melhores que seus antecessores e possuem muito mais carisma. Alguns podem defender o Peter de Maguire, mas a verdade é que, se o Parker de Garfield é descaracterizado, a culpa reside muito mais no roteiro do que na atuação, que é esforçada e competente. Além disso, Martin Sheen salva as cenas com tio Ben, conseguindo se conectar com o público apesar dos inúmeros problemas na história. O elenco conta ainda com nomes como Denis Leary e Sally Fields, totalmente descaracterizados como Capitão Stacy e tia May, e Rhys Ifans, no papel do vilão Curt Connors, todos convincentes e cujas falhas são muito mais culpa do roteiro do que de suas habilidades.

As lutas são empolgantes e talvez passem mais urgência e perigo do que nos outros filmes, mesmo se tratando de um lagarto gigante.

A direção é OK.

A trilha não compromete.

Ela:


A primeira ruiva na HISTÓRIA a ficar (ainda) mais bonita loira

{break::Resumo da inhaca}"O Espetacular Homem-Aranha" é uma vítima de si mesmo. Um filme que ficou péssimo por apostar nas jogadas seguras, nas saídas fÁceis. FarÁ relativo sucesso por se tratar do Amigão da Vizinhança, o maior herói da maior editora de quadrinhos dos dias atuais (a DC assumiu a liderança de mercado ano passado com o reboot de TODO o seu universo. Acredito que logo o interesse pela novidade passa e a Marvel recupera seu papel), mas não chegarÁ perto de um filme que marque como foi o caso de "Cavaleiro das Trevas". AliÁs, não deve chegar nem aos pés de um "X-Men Origens: Wolverine", que de tão ruim marcou a memória de todo mundo que assistiu. Ao invés de tudo isso, se tornarÁ um filme efêmero, facilmente esquecido, nem odiado e nem amado pelas pessoas.

E isso me deixa muito triste. Todos os filmes do Homem-Aranha até então deixaram sua marca. O primeiro foi uma bela história de origem e, apesar das leves mudanças, seguiu bem o cânone do herói, apresentando o maior vilão dos quadrinhos logo de cara. O segundo, o melhor de todos, mostrou o crescimento do Teioso e seu relacionamento com aquela que viria a se tornar sua mulher nos quadrinhos (Mary Jane, atualmente não casada por causa de um pacto com o demônio. É, não faz sentido). E o terceiro que todos preferiam esquecer, mas nunca conseguirão de tão ruim que foi. Mas pelo menos tinha o Venom.

Essa nova versão do herói serÁ rapidamente esquecida, dependendo do sucesso das provÁveis sequências para conquistar um pequeno lugar na gloriosa história do Amigão da Vizinhança. E temo que nem isso deve acontecer, afinal as pistas para próximos capítulos deixadas neste primeiro filme são tão ruins quanto o resultado em si. Talvez piores.

Para finalizar, gostaria de falar de uma cena em específico. Se você ainda pretende ver o filme depois de tudo o que eu disse e não quer que eu estrague a surpresa contando sobre a mais deplorÁvel cena da história do cinema, vire os olhos. Não diga que eu não avisei.

Perto do final do filme, antes do confronto final entre o herói e o Lagarto, o Aranha toma um tiro. A dor é tão grande que ele mal consegue ficar em pé para pular de um prédio ao outro e nem lançar as teias direito. É então que surge o verdadeiro mocinho do filme. Assistindo pela televisão estÁ o pai de um garoto que o Cabeça de Teia salvara de um carro em chamas. Por sorte ele é líder dos operÁrios de uma construção. Por mais sorte ainda, a construção fica na rua que é o caminho até o Lagarto. O homem então resolve ajudar o herói e liga para todos os seus amigos, pedindo que todos disponibilizem suas gruas e guindastes para facilitar a vida de Peter. Por uma graça do destino, TODAS AS CONSTRUÇÕES ESTÃO NO CAMINHO. Um helicóptero então surge sobre o Aranha e o ilumina, pois aparentemente o tiro o deixou meio cego, também, e estÁ de noite e ele esqueceu seu óculos no outro uniforme. O herói vê as gruas todas se posicionando e entende o plano. Ele salta, mas se desequilibra e cai. Quando tudo parece perdido... Uma grua aparece por trÁs do herói e o salva! Quem a comanda?? Sim! Ele! O pai do menino que havia sido salvo! Sinceramente, este filme não deveria se chamar "O Espetacular Homem-Aranha". Deveria, sim, ser intitulado "O Espetacular Aquele-Cara-Que-Trabalhava-Na-Construção-Naquela-Rua-A-Caminho-Pra-Oscorp".

Faço minhas as palavras de Picard

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  • Redator: César Massaki Teshima Soto

    César Massaki Teshima Soto

    Graduando de Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina, ganhou um Mega Drive aos 5 anos, mas nunca conseguiu fazer final em Sonic 2. Navegava pelas salas de bate papo nos tempos da internet discada e até hoje procura o disquete perdido com seu jogo salvo do América-MG no Elifoot 98.

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