O legal e o fail da caça aos achievements

Sabe quando você gosta tanto de um jogo e imediatamente quer fazer 100% nele? E quando consegue, sente aquela enorme satisfação de dever cumprido? Quem aí não se lembra dos desafios de coletar tudo em qualquer "Donkey Kong" e de aprender todas as habilidades e evoluir tudo o que for possível na franquia "Final Fantasy"? E o que dizer de assistir a todos os finais de "Chrono Trigger", completar todas as missões principais, paralelas e os bônus de "Grand Theft Auto: San Andreas"?


Pois saiba que as suas proezas como gamer, que outrora ficavam guardadas apenas nas memórias flash de cartuchos e nos savegames, hoje são conhecidas mundialmente como Achievements, conquistas desbloqueadas quando algum objetivo específico do game é cumprido pelo jogador. A tendência surgiu em 2005, a partir do lançamento do Xbox 360, quando a Microsoft enxergou uma oportunidade de fazer seus consumidores ficarem mais tempo jogando e interagindo entre si.

O que aconteceu logo em seguida foi a sua popularização e até mesmo outros canais online, como Steam (no PC a partir de 2007) e Playstation Network (a partir de meados de 2008 no PS3, chamados aqui de Trophies ou Troféus) adotaram a moda e espalharam a nova mania de caça às conquistas a outros milhões de jogadores. Só que, como qualquer novidade que se insere numa indústria jÁ padronizada por padrões e ideias saturadas, sempre hÁ os momentos de alegria e diversão (o legal) e de chateação e bizarrices (o fail). E são exatamente estes dois pontos que quero discutir, analisar e criticar. Mas, principalmente, debater com aqueles que, assim como eu, são adeptos à causa e não conseguem mais enxergar os jogos eletrônicos essas tais recompensas.

-- O LEGAL --

Uma coisa é certa no mundo dos games: não existe melhor sensação quando você se dedica de corpo e alma no seu jogo favorito e, depois de dezenas - às vezes, centenas - de horas mais tarde, se depara com a tela de status e lÁ marcam os trabalhosos 100%. A sensação de fazer valer a pena o hobby preferido é indescritível, não acham? E a ideia do surgimento dos achievements estÁ diretamente ligada a isso pois, basicamente, exigem que tarefas específicas sejam cumpridas em troca dessa adorada numeração, estendendo muito a experiência de jogo e aumentando consequentemente o fator replay de todos os games. Além disso, presenteia com satisfação e prazer nerd o jogador que gosta de explorar ao mÁximo, superar-se, destravar tudo e ir atrÁs de todos os desafios propostos por um jogo eletrônico.

Como me lembro bem da viciosa da época do PS2, era pegar um jogo, zerÁ-lo o mais rÁpido possível e partir para o próximo alvo. Na grande maioria das vezes, nem aproveitava o restante do conteúdo ou outros modos, personagens ou extras gravados no disco. Isso porque, assim como grande a maioria dos donos do videogame na época, a pirataria facilitava muito o acesso a qualquer game, seja nos camelôs de qualquer cidade ou nos sites de torrent por aí. Com a chegada do PS3 (a plataforma que escolhi nessa geração), a história mudou bastante. A impossibilidade da pirataria me fez repensar aonde eu deveria investir melhor meu dinheiro para fazê-lo valer de verdade nas horas de diversão.

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Como isso seria feito? Simples: além de ser bem mais seletivo, poderia, com isso, aproveitar melhor cada um dos games que resolvesse comprar. E isso significa revistar praticamente tudo que os produtores disponibilizassem nos seus games e, consequentemente com isso, ser recompensado com premiações virtuais que automaticamente desbloqueiam na tela. Tudo conforme o que eu for capaz de fazer para liberÁ-las. Nada mais do que um parabéns disfarçado ao meu esforço nerd de conseguir me superar em qualquer tipo de desafio. 


Assim como as séries "God of War", "Ratchet & Clank", "Prince of Persia" e "Splinter Cell", as remasterizações de "Ico" e "Shadow of the Colossus" incluem suporte a troféus para desbloquear e expandir ao mÁximo as experiências de jogo

Segundo: além da prazerosa sensação de ter zerado um game por completo, a consolidação das redes online nesta geração de consoles pôs em contato milhões de jogadores que têm a mesma paixão em comum. E, com apenas alguns cliques e uma simples conexão banda larga com a internet, é possível criar um usuÁrio e fazer upload das conquistas jÁ desbloqueadas para o seu perfil online. Pronto: estÁ dada largada à busca implacÁvel (isso não é nome de filme?) e viciante aos achievements. Agora, além de poder mostrar à galera nerd suas proezas como jogador, poderÁ competir com outros entusiastas de plantão, marcar jogatinas até tarde da madrugada para caçar novas conquistas e até mesmo ajudar alguém em necessidade. 

Isso porque, além de poder visualizar suas próprias conquistas, qualquer usuÁrio é capaz adicionÁ-lo como amigo, visualizar seu perfil e avaliar suas façanhas no mundo dos games. Nasce aqui uma rivalidade que, até o momento, provou para mim mesmo ser apenas saudÁvel. Afinal, quando vejo a lista de conquistas de um jogador e percebo o que ele foi capaz de fazer para destravÁ-la, por vezes me pergunto: serÁ que não tenho condições de conseguir também? E, ainda bem, na maioria das vezes eu tenho capacidade para isso, o que atiça ainda mais a minha vontade de superar qualquer barreira e, consequentemente, explorar afundo toda a dinâmica de jogo programada pela produtora. 

Quer ver então quando esse jogo faz parte de uma franquia que gosto muito. A vontade de debulhar tudo, pelo menos em mim, cresce exponencialmente. É a tradução da mescla da vontade de curtir ao mÁximo nomes de peso na indústria como "Uncharted", "God of War", "Assassin's Creed" ou "Call of Duty" e ainda ter o prestígio de ser reconhecido pela sua conta online e manter o símbolo mÁximo da sua conquista como forma de representação de todo o trabalho realizado. No PS3, esse símbolo se chama Troféu de Platina (recebido quando destrava todos os outros troféus). No Xbox 360, por exemplo, é a contagem de até 1000 G (pontos) que define o quão longe o jogador conseguiu chegar. No PC, conta-se apenas a quantidade de conquistas obtidas.


Meu humilde mural de platinas (consegue identificar os respectivos games?) no PS3.
Quantas você tem e quais foram as mais difíceis até hoje?

Para incrementar um pouco mais, atualmente existem sites e fóruns dedicados somente à prÁtica. Estou falando do brasileiro MyPST, a atual maior comunidade de caçadores de troféus do país, e dos estrangeiros Xbox360Achievements e PS3Trophies. Resumidamente, funcionam como qualquer outro tipo de fórum: discutir assuntos. Só que, aqui, são dedicados à caça às conquistas: todos os usuÁrios registrados são também adeptos sérios à causa e estão ali em busca de esclarecimentos, informações extras, aprender a melhor maneira de destravar todos, aprender o melhor caminho, o jeito mais rÁpido, a melhor estratégia de consegui-las sem passar por muitos sufocos (e são muitos!) e, em retorno, colaborar com outras centenas de jogadores com semelhantes ou mesmos dilemas e dúvidas. 

Nesse processo de participação, conhece-se muita gente que estÁ absolutamente disposta a colaborar com as suas dúvidas, ajudar em dicas ou disponibilizar os melhores vídeos (obrigado por existir, YouTube!). Mais tarde, essas mesmas pessoas se tornam suas amigas nas redes online e podem servir também de grande ajuda em dificuldades esporÁdicas no futuro. O inverso também Á vÁlido. Participar em fóruns de games, hoje em dia, vai muito além do tradicional "gostei desse jogo" ou "jÁ estÁ na minha lista de compras". Existe toda uma filosofia de ajuda mútua em torno da proposta dos achievementes, por mais que aparente ser apenas questão de interesse ou mera busca de algo considerado inútil por muitos.      

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E isso que ainda nem citei os rankings. No melhor estilo de inserção a uma nova onda da cultura nerd que virou mania em tão pouco tempo, existem ferramentas que compilam dados retirados diretamente dos servidores das fabricantes de videogames (e PC) e montam um sistema de classificação gigantesco a partir da inscrição do usuÁrio no portal. E, com isso, milhares de jogadores são colocados em posição decrescente com seus méritos por quantidade de achivements, jogos completos com a mÁxima porcentagem, platinas, dificuldade individual das proezas e, aqui no Brasil, estados, cidades e até mesmo gênero (masculino e feminino). Nas melhores colocações, a disputa é acirradíssima e só os melhores - e que também têm muito tempo de sobra para jogar - realmente se destacam.


-- O FAIL --

Como toda tendência tem seus lados positivos e super produtivos, a mania da caça aos achievementes infelizmente tem alguns lados não tão atrativos assim. Em suma, são características que, de uma maneira mais geral, causam algum tipo de sentimento pessoalmente destrutivo e moralmente negativista, que atua, principalmente, na sede gamer de querer sempre buscar os deliciosos 100%.

E o primeiro deles que eu vejo é a aparente obrigação pessoal de que, uma vez iniciado no ciclo vicioso, terÁ que buscar o empenho mÁximo em absolutamente todos os jogos que você vier a ter. Alguns defendem que é feio e até mesmo vergonhoso deixar algum jogo da sua lista de games iniciados que com o status que não sejam os 100%. E, convenhamos que, visualizar algo não completo, a partir do início da prÁtica de uma mania, é bastante desgradÁvel mesmo. É a mesma lógica dos Álbuns de figurinhas, por exemplo: uma vez que se começa a colecionar, é praticamente impossível não querer completar o livreto com os respectivos adesivos.

É algo certamente mais psicológico do que real, pois nunca se estÁ. na verdade, obrigado a fazer absolutamente nada. Só que, de fato, existe um tipo de pressão individualista que influencia na jogada. Pelo menos para os jogadores mais "noiados". Mas, a partir disso, a prÁtica começa a se inclinar à segunda chateação que tanto desaprovo, pois tem vezes que não entendo as produtoras com o tipo/classe/requerimento de achievements que colocam à disposição. 


Se você pegou todas as conquistas de "Ninja Gaiden Sigma 2", parabéns: além de ter muita habilidade no controle, paciência extrema e facilmente conseguir suportar altas doses de stress e frustração, tem o respeito eterno de todos os caçadores de achievements do universo!

Poxa, precisam avacalhar tanto assim em algumas conquistas? Não estou falando nem das que exigem terminar o jogo na dificuldade mÁxima, porque isso é bastante razoÁvel de se fazer, principalmente para os jogadores mais old-school, que tenho certeza de que se lembram muito bem da tenebrosa época dos videogames 8-bits/16-bits (alguém pensou em "Mega Man" ou "Battletoads"?). Falo daqueles absurdos que exigem, por exemplo, eliminar 10002 jogadores em partidas competitivas online, chegar ao nível mÁximo de rankings online, matar 200 pombos (!) muito bem escondidos numa cidade gigantesca, ficar entre os 1% de melhores jogadores online da semana ou fechar a mesma campanha 20 vezes.

Tirando o último, todos os outros são exemplos reais de como o jogador precisa se sacrificar para cumprir alguns objetivos e continuar na busca do aproveitamento mÁximo dos achievements. Alguns RPGs inclusive, tem vÁrios (mais de dez) finais, um para cada personagem encontrado ou controlado durante a aventura. JÁ pensou ter que finalizar a mesmíssima campanha, de cerca de 60 horas, esse mesmo número de vezes só por causa de uma conquista? Ou gastar 80 horas num multiplayer chato e que nem muitos jogadores disponíveis tem? Por mais que o jogo seja uma obra-prima em termos técnicos e emotivos, tudo inevitavelmente se torna muito repetitivo, maçante, entediante e cansativo de fazer com o tempo. E, o principal: nada divertido. E não é exatamente isso o que os jogos eletrônicos se propõem a fornecer? Que paradoxo!

Por isso, costumo argumentar que as produtoras precisam repensar esse sistema, deixando-o mais dinâmico, inteligente e atrativo, para que outros jogadores possam usufruir dos mesmos benefícios e momentos de puro prazer nerd que eu regularmente consigo obter. É preciso repensar formas de obtenção dessas conquistas, o valor de pontuação e graus de importância e balancear os requerimentos exigidos para desbloqueÁ-las. E não apenas colocar propostas frustrantes e ultra inúteis para presentear só os que possuem a paciência e o pique de um budista. Não estou dizendo que quero achievements mais fÁceis, mas melhor adaptados e orientados à arte de divertir, não à de frustrar ou à angustiar. Planejar formas de aprimorar a experiência como um todo, não arruinÁ-la.


Se jogos como "Assassin's Creed", "Folklore", "TES IV: Oblivion" e "CoD: Modern Warfare" tivessem troféus no PS3, meu cartão de conquistas acima teria, pelo menos, mais 150 delas contabilizadas ;(

Um outro lado negativo que vejo na onda se concentra, agora, nos próprios jogadores. JÁ perdi a contagem de quantas vezes combinei partidas para facilitar a busca de uma conquista online mais trabalhosa. Felizmente, na grande maioria das vezes, tudo correu em perfeita harmonia e todos os jogadores envolvidos conseguiram as suas valiosas premiações. Mas presenciei dois casos de puro egoísmo. Sempre antes de começar a jogar com outros, é preciso traçar planos e metas para agilizar a jogatina. E nisto estÁ incluso a ordem dos jogadores a ser privilegiado na rodada para conseguir a conquista. Aqui estÁ a treta: uma vez que conseguiram desbloqueÁ-la, um deles saiu de repente da partida e o outro disse que estava na pressa para resolver problemas pessoais, arruinando todo o esquema e planos dos demais jogadores. Na boa? Uma p* falta de respeito com todos que se envolveram na causa de ajudar e serem ajudados em troca. Mas cadê a cooperação, a paciência e o espírito gamer verdadeiro com os outros gamers?

Além disso, também existem pseudo-jogadores que também extrapolam e parece que perdem a noção do bom senso. VÁrios deles, por exemplo, só jogam games que obrigatoriamente têm conquistas. Só querem saber de acumular as premiações. E, como no PS3 o sistema só foi implementado obrigatoriamente a partir de 2009, muita gente deixou de jogar os títulos anteriores a essa época, como os excelentes "Call of Duty 4: Modern Warfare", "TES IV: Oblivion" e "Metal Gear Solid 4" (este ganhou recentemente um patch com conquistas) por puro descaso ou falta de "recompensas" pelo trabalho que tinham enquanto jogavam. Assim, muitos dizem que preferem continuar jogando títulos posteriores à data justamente só por causa dos achievements. Agora me pergunto: desde quando a existência de conquistas é um requerimento para jogar um game hoje em dia, principalmente os de qualidade indiscutível? E se elas não existissem, esses mesmos jogadores deixariam de praticar o hobby preferido? Onde entra a diversão pura e o prazer de aproveitar, também, os melhores jogos disponíveis, mesmo que não tenham conquistas? Conquistas - e os seus graus de dificuldade de obtenção - deveriam guiar a escolha do jogador na hora de comprar um jogo?


-- CONCLUSÃO --

Com isso tudo o que foi exposto, tenho alguns pontos para fechar o pensamento. Primeiro: não consigo imaginar mais os games sem a existência dos achievements. É divertidíssimo ir atrÁs de recompensas justamente porque elas te "forçam" a explorar momentos e atrativos que um game normalmente não te colocaria em contato. Não pelos meios convencionais (pela forma comum de jogar). Elas fazem você visualizar situações diversas, até mesmo engraçadas e adversas, que podem até mesmo destoar da proposta inicial, adicionando ainda mais à experiência final e, muitas vezes, divertindo além do esperado.

Contudo, como jÁ expus, podem haver os momentos de pura frustração e chateação. Para evitar isso, tenho uma recomendação: jamais comece um jogo baseando-se somente na caça às conquistas. Inicia sua campanha normalmente, sem se preocupar com o que terÁ que fazer para desbloquear. Somente depois de finalizÁ-lo a primeira vez, verifique o que faltou e, se realmente estiver afim, recomece novamente. Além de ser mais uma partida mais "solta", não haverÁ qualquer tipo de obrigação que possa afetar a jogatina e comprometer a justificativa mÁxima de um game: a diversão. A não seja que você seja um Trophy Whore (viciado) assumido... aí você jÁ não tem mais muita solução mesmo e resta apenas continuar desbloqueando conquistas compulsivamente, mesmo que isso custe sua diversão. ;p

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  • Redator: Andrei Longen

    Andrei Longen

    Jornalista pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Andrei Longen é entusiasta por videogames desde os 7 anos, quando ganhou um Odyssey 2, seu primeiro console. Hoje tem PS4, PS3 e PS Vita e adora caçar troféus em todos os jogos. Colabora no Adrenaline com notícias, análises, artigos, colunas e vídeos.

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