Créditos: Divulgação/Microsoft
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Entenda como a compra da Activision Blizzard pela Microsoft deve mudar a indústria

A aquisição bilionária consolida a posição do Xbox e estabelece precedentes para novas compras na indústria
Por Felipe Gugelmin 19/01/2022 19:00 | atualizado 19/01/2022 19:03 Comentários Reportar erro

No dia 18 de janeiro de 2022, a Microsoft surpreendeu a todos com o anúncio de que chegou a um acordo para comprar a Activision Blizzard. Uma das maiores publicadoras do mundo, a empresa estabeleceu sua fama nos anos 1980 como um espaço que valorizava desenvolvedores e produzia títulos de qualidade como Pitfall.

Desde então, a companhia cresceu de forma surpreendente e foi a responsável pela produção de diversos títulos de sucesso. Se hoje ela é lembrada por games imensos como Call of Duty e World of Warcraft, no passado ela também produziu séries como Tony Hawk’s Pro Skater, Guitar Hero, Skylanders e diversas adaptações de franquias como Spider-Man e Transformers.

A fama e o grande catálogo de propriedades intelectuais fizeram com que o negócio não fosse barato: segundo o The Wall Street Journal, a Microsoft teve que investir US$ 68,7 bilhões para comprar a publicadora. O valor é o maior já investido pela companhia de Seattle em toda a sua história, e representa mais de 9 vezes os 7,5 bilhões que ela dedicou à compra da Bethesda — até então, considerada a adição mais cara ao Xbox Studios.

Embora ainda nova, a aquisição — que ainda precisa da aprovação de órgãos regulatórios para ser finalizada — já iniciou uma série de mudanças na indústria. Além de abalar as ações da rival Sony, ela mostra que “ninguém está seguro” quando o assunto é expansões de megacorporações e a consolidação de grandes nomes. Neste artigo, compilamos alguns dos efeitos imediatos que ela trouxe e alguns cenários possíveis para o futuro.

Microsoft reforça posição como grande nome do mercado

Enquanto muita coisa deve mudar na Activision Blizzard nos próximos meses, é fácil ver como a companhia se encaixa nos planos da Microsoft. Desde 2018 ela trabalha na aquisição de desenvolvedoras para fortalecer seu Xbox Game Studios, que tem como marca principal combinar jogos com grandes variedades de tamanhos e estilos de gameplay.

Nomes como a Rare e a Mojang já faziam parte da empresa de longa data, mas é possível dizer que 2018 foi o ano em que a estratégia unificada da corporação tomou forma. Foi nessa época que nomes como Obsidian, Undead Labs, Inxile, Ninja Theory, The Initiative e Compulsion Games se juntaram aos estúdios internos do Xbox, que já contavam com nomes de peso como a 343 Industries, The Coalition, Turn 10 Studios e a Playground Games.

Pouco depois, a Microsoft também adquiriu a Double Fine Productions, conhecida por produções como Psychonauts e Broken Age. Com autonomia interna para funcionar, cada um desses estúdios se provou uma peça importante para a consolidação do Game Pass, garantindo que o sistema de assinaturas para Xbox e PC seria alimentado constantemente por uma seleção de games vasta e variada.

Em 2021, foi a vez de a Microsoft alçar voos mais altos com a aquisição da Bethesda. Conhecida por séries como The Elders Scrolls, Fallout e Doom, ela fortaleceu a biblioteca de jogos de tiro, RPGs e simulações imersivas de sua nova dona. Ao mesmo tempo, ela garantiu o acesso a tecnologias de ponta e diversas equipes talentosas e experientes — complementando o lado “Triplo A” do Xbox Game Studios, que até então vinha se reforçando com estúdios independentes de pequeno e médio tamanho.

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Enquanto a aquisição da Activision Blizzard é substancialmente maior do que qualquer outra já feita até então — superando com folga os US$ 26 bilhões que ela investiu no LinkedIn e seus 575 milhões de usuários —, o histórico da empresa mostra as razões pelas quais ela tomou essa decisão. Não somente ela garante acesso a um catálogo de títulos ricos, como também ganha a expertise tecnológica da publicadora e toda a sua estrutura global de distribuição, promoção e adaptação de jogos.

Game Pass é só o começo

Algo que ficou claro desde o momento em que a compra foi anunciada é que o Game Pass está prestes a receber reforços de peso. Phil Spencer, chefe do Xbox, revelou que a divisão já está trabalhando para trazer a maior quantidade de títulos possíveis para o sistema, em uma lista que deve incluir Call of Duty, Diablo, Overwatch, Crash Bandicoot, Spyro the Dragon, Tony Hawk’s Pro Skater e muito mais jogos. 

Isso sozinho representa uma mudança radical para os consumidores, que se acostumaram a ver a publicadora passando longe de oferecer quaisquer títulos no sistema. Sob o comando de Bobby Kotick, ela também adotou a estratégia de proteger ferrenhamente seu catálogo passado, que, com poucas exceções, raramente recebia reduções de preço substanciais.

Tudo isso deve mudar sob o comando da Microsoft: além dos títulos recentes da companhia, produções mais antigas — mas não menos divertidas — também devem se tornar mais facilmente acessíveis. Em questão de pouco tempo, o Game Pass deve oferecer a possibilidade de jogar todos os principais capítulos de Call of Duty e outras de suas séries. A notícia deve ser especialmente positiva para quem joga no PC, e hoje em dia tem que dividir entre o Steam e o launcher da Battle.net para acessar o catálogo da série.

Embora nas duas últimas décadas a publicadora tenha mantido uma política de apostar em poucos títulos, ela possui direitos sobre franquias de gêneros variados. Isso significa que o serviço de assinaturas também deve oferecer a chance para que muitas pessoas tenham o primeiro contato com nomes como Gabriel Knight, Phantasmagoria, King’s Quest, Quest For Glory e Prototype.

Isso pode fazer com que franquias consideradas abandonadas despertem um novo nível de interesse e possam gerar novos capítulos. Conforme aponta Jason Schreier, da Bloomberg, o vasto catálogo da Activision Blizzard poderia voltar a ser aproveitado não somente por seus estúdios, mas também por qualquer outra desenvolvedora do Xbox Game Studios — já imaginou um novo Spyro nas mãos da Double Fine? As possibilidades abertas pela compra são imensas.

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Activision Blizzard é sinônimo de dinheiro

Enquanto o CEO Bobby Kotick pode (e deve) ser criticado por vários aspectos de sua gestão, fato é que ele soube transformar a Activision Blizzard em uma máquina bastante saudável de fazer dinheiro. A empresa é uma das poucas a conseguir operar com uma margem operacional de 40%, mantendo quase US$ 3 bilhões em caixa anuais para garantir a eficiência de suas operações.

Outro aspecto que deve se mostrar bastante atraente para a Microsoft é a capacidade da Activision Blizzard de vender microtransações e assinaturas. Relatórios fiscais mostram que 71% de seus jogadores consomem pelo menos uma dessas fontes de renda renováveis, que geram mais do que o dobro que a companhia consegue com a venda direta de seus produtos.

Também é importante notar que o nome completo da empresa recém-adquirida é Activision Blizzard King, sendo o último nome referente a um dos maiores players globais do mercado mobile. Dona de títulos lucrativos como Candy Crush e Crash on the Run, ela deve ajudar a Microsoft a expandir sua presença mobile, que continua bastante modesta para uma empresa de seu tamanho e alcance.

A compra traz um desafio cultural

Enquanto muitas das características da Activision Blizzard tornam sua aquisição um prato-cheio para qualquer corporação, ela também traz uma carga de negatividade com a qual a Microsoft terá que lidar rapidamente. Nos últimos meses a companhia tem sido palco de protestos de diversos desenvolvedores que se dizem cansados após décadas de trabalho marcados por uma cultura de assédio que protegia os responsáveis.

Desde que as alegações — e o processo contra a companhia — surgiram, diversos dos acusados já foram afastados de seus cargos, mas parece que pouco mais do que isso mudou. Além da falta de ações mais contundentes, a maneira como o CEO Bobby Kotick lidou com o assunto se mostrou desastrosa.

Além de assinar com o nome de outra pessoa uma carta que minimizava as acusações, o executivo também falhou em assegurar que iniciativas supostamente benéficas fossem bem-sucedidas. Exemplo disso foi o pedido de demissão da Jen Oneal em novembro de 2021 — co-líder da Blizzard junto com Mike Ybarra, ela deixou seu cargo revelando que ganhava menos do que o colega com o qual compartilhava a mesma função.

Em sua mensagem de despedida, Oneal afirmou que não acreditava na capacidade de mudança imediata da desenvolvedora, e que recusava ter seu rosto usado para a promoção de políticas que não estavam mudando na prática. Desde então, os funcionários da empresa continuam a cobrar por mudanças e chegaram a exigir a demissão de Kotick, além de iniciar procedimentos para a criação de um sindicato.

Dentro desse contexto, a Microsoft vai ter que trabalhar para reestabelecer a confiança dos funcionários e tomar medidas que assegurem a saúde da cultura de trabalho de seus novos estúdios. Chefe do Xbox, Phil Spencer parece estar ciente do desafio que tem pela frente e deu indícios na mensagem em que revelou a compra da Activision Blizzard.

Valorizamos profundamente as culturas individuais de cada estúdio. Também acreditamos que o sucesso criativo e a autonomia andam lado a lado com tratar todas as pessoas com dignidade e respeito. Mantemos todas as equipes e todos os líderes nesse compromisso. Estamos ansiosos para estender nossa cultura de inclusão proativa para as grandes equipes da Activison Blizzard”, escreveu o executivo.

Aquisição força a indústria a se mover

Além de representar um grande ganhou para a Microsoft e trazer perspectivas positivas para o Game Pass, a compra também deve forçar rivais a se mexerem e acelerar a tendência de consolidação da indústria. Enquanto inicialmente as plataformas PlayStation devem continuar recebendo alguns títulos da Activision Blizzard, a perspectiva de que elas possam perder no futuro títulos como Call of Duty certamente preocupa os diretores da Sony.

Ao provar que “nenhum nome está seguro” em respeito a uma possível aquisição, o movimento também deve fazer com que outras empresas se mexam para assegurar uma posição dominante de mercado. Nesse caso é difícil não citar novamente a Sony: enquanto no passado seu nome esteve ligado a rumores de compras da Take-Two e da Square Enix, a companhia tem em seu histórico recente uma série de jogadas mais discretas.

Fundado em maio de 2020, o PlayStation Studios tem como sua adição recente mais relevante a Bluepoint Games, responsável pelo Demon’s Souls de PlayStation 5. Enquanto a companhia japonesa também fez investimentos na Nixxes (que trabalha em ports para PC), na Housemarque e no estúdio de suporte Valkyrie Entertainment, ela não demonstra a intenção de investir em nomes third party gigantescos para reforçar seu portfólio.

A aquisição da Activision Blizzard pela Microsoft pode mudar esse cenário e “forçar a mão” da Sony para que ela faça uma jogada mais ousada, como foco em algum grande estúdio. No entanto, não está claro se seus executivos possuem o desejo — ou a capacidade financeira — de fazer investimentos tão grandes, especialmente dado o grande prestígio que estúdios como a Sony Santa Monica e a Naughty Dog já possuem.

a Nintendo deve continuar seguindo seus próprios ventos e dificilmente será abalada pela grande movimentação do Xbox Game Studios, mesmo que certamente seus executivos estejam atentos ao que está acontecendo. Com estúdios internos bastante consolidados, a empresa raramente faz aquisições, sendo que seu investimento mais recente foi a Next Level Games (de Luigi’s Mansion 3) em janeiro de 2021 — algo que aconteceu 13 anos depois de sua aquisição anterior, a Monolith Studios.

Tendência de consolidação preocupa analistas

Ao mesmo tempo em que a tendência de consolidação seguida pela Microsoft traz vantagens para os consumidores, ela também preocupa analistas. É positivo ver títulos tradicionalmente caros como Call of Duty e Diablo sendo oferecidos com poucos custos em um serviço de assinatura, mas a longo prazo ver somente uma — ou duas — grandes empresas dominando todo o mercado traz perspectivas assustadoras.

Basta olhar para a forma como outras empresas gigantescas se consolidaram para encontrar histórias a princípio bonitas, mas que no fim não geraram muitas vantagens. A Amazon, por exemplo, se consolidou no setor de livros ao oferecer preços muito abaixo da concorrência — quando os competidores não tinham mais condições de operar no mesmo nível, ela os comprou e adotou uma nova estratégia de preços que compensava as perdas do passado.

Nada garante que a Microsoft, a Sony ou a Nintendo estejam adotando táticas semelhantes, mas fato é que o estabelecimento de monopólios geralmente é benéfico somente para seus donos (e alguns acionistas endinheirados). Enquanto os exclusivos sempre foram “parte do negócio” da indústria, um cenário no qual a maioria dos títulos grandes só pode ser encontrada em uma plataforma é prejudicial e desestimula a concorrência.

No caso da Activision Blizzard, Phil Spencer afirmou que continua disposto a dar suporte a comunidades de outras plataformas daqui em diante. O discurso é semelhante ao da aquisição da Bethesda — que, embora tenha cumprido o acordo de lançar Deathloop para o PlayStation e mantenha atualizações de Fallout 76 para todas as plataformas, já deixou claro que vai reservar grandes lançamentos como Starfield e The Elder Scrolls VI para o Xbox e o PC.

Enquanto os holofotes atualmente estão na Microsoft, ela não é a única a adotar a tática de crescimento constante através de aquisições. O grupo Embracer (dono da THQ Nordic) continua adquirindo diversos estúdios e propriedades antigas, a Tencent (dona da Riot e que tinha investimentos na Blizzard) está cada vez maior e até mesmo a Valve adicionou recentemente alguns estúdios independentes a seu catálogo.

A preocupação é que, se em um primeiro momento a consolidação deve garantir que pequenos estúdios vão ter mais orçamento para dedicar a projetos próprios, nada impede que isso possa mudar. A longo prazo, grandes corporações podem adotar posturas mais invasivas e fazer com que projetos entrem em conformidade com a visão de seus acionistas, e não de seus desenvolvedores — quem acompanha a história recente da BioWare sabe que isso não é difícil de acontecer.

Enquanto um cenário apocalíptico não está garantindo, consumidores precisam ficar atentos às movimentações da indústria e ter um olhar crítico sobre seus movimentos. Ao mesmo tempo, uma postura totalmente cínica continua não sendo saudável, e qualquer iniciativa que beneficie os jogadores — incluindo a disponibilidade de jogos por preços acessíveis — deve continuar sendo comemorada.
 

Fonte: Forbes, Eurogamer, Business Insider, Windows Central, Visual Capitalist, Videogames Chronicles, GameSpot, Engadget, PC Gamer
  • Redator: Felipe Gugelmin

    Felipe Gugelmin

    Jornalista com 10 anos de experiência nas áreas de tecnologia e games, gosta de estar por dentro das últimas tendências e novidades. Dedica boa parte do tempo livre a jogar (representante da PC Master Race), mas também arranja um tempo para a vida social, leituras e dar passeiros com seu cachorro.

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