Créditos: Montagem: Bruno Pires (Adrenaline)
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30 anos do Linux! Veja a trajetória, curiosidades e as tretas do sistema do Pinguim

Faz 30 anos de um sistema que foi mais longe que imaginou

O sistema do Pinguim completa hoje 30 anos! No dia 25 de agosto de 1991, Linus Torvalds postou em um grupo online que estava trabalhando em um sistema operacional como um hobby, e que o sistema:

"...não é portável (usa troca de contexto 386, etc), e provavelmente nunca será compatível com nada além de discos rígidos AT, uma vez que isso é tudo o que eu tenho :-(".

Se o segredo para não decepcionar é não criar expectativas muito altas, realmente o Linux já nasceu com o mérito de superar e muito o que seu criador esperava dele.

Mas o dia 25 de agosto é só um ponto inicial em uma trajetória. O software de código aberto tem esse talento: ele não é de uma pessoa, ele não tem uma direção, ele não pode ser delimitado. Ele é um catalisador que agrupa esforços de múltiplas pessoas pelo bem comum. E o Linux começa bem antes do post de Torvalds. E não para nele.

Quando tudo era mato

Para falar de Linux é preciso falar primeiro de Unix. O sistema operacional foi criado em 1969 pela Bells Labs da AT&T, a empresa de telecomunicações norte-americana. Esse sistema foi criado originalmente em Assembly, porém seria reescrito em "C" (é só C mesmo), uma linguagem com muito mais potencial de programação em alto nível - aquela menos abstrata e em linguagem de hardware, mas mais acessível para programar - que facilitava a portabilidade para outras plataformas.

Mas havia um problema nesse sistema desenvolvido pelo laboratório da AT&T. A empresa foi impedida de entrar no mercado da computação devido a uma ação anti-truste, algo que só seria contornado em 1982 após o spin-off de quase 80 bilhões de dólares da empresa. Isso fez com que a AT&T licenciasse o Unix para... qualquer um que fizesse o pedido, fazendo o sistema se tornar muito popular tanto no uso acadêmico quanto comercial.

GNU não é Unix

É nesse prelúdio que temos o gênese do Linux: o GNU Project. Criado em 1983 por Richard Stallman, essa iniciativa buscava criar um sistema totalmente compatível com Unix, mas sem o uso de códigos proprietários. A filosofia do Projeto GNU segue quatro pilares essenciais:

(0) liberdade para executar o programa;
(1) liberdade para estudar e mudar o código-fonte do programa;
(2) liberdade para redistribuir cópias exatas e
(3) liberdade para distribuir versões modificadas.

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Softwares não são como outros bem de consumo. Tem uma capacidade de distribuição, modificação e replicação sem precedentes, e na filosofia do Projeto GNU, eles devem seguir regras diferentes de outros produtos. Esse conceito seria consolidado no GNU General Public License, ou GNU GPL, que traria essa forma de licenciar os software: os usuários tem liberdade para rodar, estudar, compartilhar e modificar sem restrições. O único porém é que o software derivado de algo sob a licença do GPL também precisa ser GPL, abrindo espaço para mais e mais variações - algo que reflete na infinidade de distribuições Linux e diferentes implementações que vemos hoje no mercado.

No começo dos anos 1990, o Projeto GNU já havia criado muitos dos pilares do sistema, como as bibliotecas, os compiladores, editores de textos e até um sistema para criação de janelas. Mas nesse estágio ainda estava dando acesso aos recursos através da nada simpática interface de linhas de comando - e ainda faltavam algumas integrações de baixo nível, como drivers e o Kernel. E aí chegamos novamente em 1991 e Torvalds.

GNU/Linux

Torvalds utilizava o sistema MINIX, outro Unix-like que trazia algumas restrições em seu licenciamento, como uso exclusivamente educacional - esse sistema se tornou aberto em 2000. Frustrado com essas limitações, e empolgado com sistemas operacionais, Trovalds começou o desenvolvimento do Kernel do Linux baseado em MINIX, que foi introduzido inicialmente com uma licença que limitava o uso comercial. 

Aqui entra um ponto que sempre anima algumas discussões. O Projeto GNU ainda estava com seu Kernel empacado na época. Já o Linux era um Kernel que dependia de outros elementos do MINIX e, cada vez mais, era combinado com os recursos do Projeto GNU. Por isso os mais puristas dessa discussão vão se sentir incomodados com quem classifica o sistema apenas como Linux ao invés do GNU/Linux. Imagino que alguém que leu o título e ainda não chegou até esse ponto do texto já deve ter ido comentar isso lá na caixa de comentários, então agradeço por ter ilustrado o argumento e também lamento mas você acabou de ativar minha carta armadilha.

De certa forma, a discussão tem seu mérito. O próprio nome do sistema, e boa parte da cobertura sobre Linux, personificam muito da narrativa em torno de Linus Torvalds - e quem veio até aqui deve ter percebido que a força do mundo do software aberto é que cada um coloca "seu tijolinho" sobre o que já foi criado anteriormente. Em defesa do Linus, o primeiro nome para o sistema seria Freax, uma maçaroca entre Free (livre), freak (doido) e o X de Unix. Mas o nome feioso não pegou e ficou mesmo em Linux. Chamar de sistema GNU/Linux é um bom jeito de não tirar a importância de Torvalds, mas também lembrar que é no ombro de vários gigantes que chegamos aqui.

Um ponto importante de se destacar é que o Linux é apenas o Kernel, não um sistema completo. Por conveniência é que chamamos de sistema operacional Linux, ou quando já vamos longe o bastante, um sistema operacional GNU/Linux. Mas além do Kernel e de outros elementos do Projeto GNU também entram elementos como a interface gráfica, como o KDE, Gnome e MATE. Agrupando esses elementos temos as distribuições, como o Ubuntu, da Canonical, o Fedora, do Red Hat, entre vários outros que podem fazer uma mescla de elementos, como o Kubuntu, que é o Ubuntu mas em vez da interface gráfica do Gnome ou o Unity, usa o KDE.

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Um sistema mutante

O GNU/Linux se diferencia de um iOS da Apple ou do Windows da Microsoft por não ter uma empresa centralizando seu desenvolvimento. Ele tem a premissa de que qualquer um pode pegar o código e modificar da forma como quiser. A única coisa imposta é que a variante criada deve seguir dentro da licença GNU GPL e, assim, abrir caminho para que outra pessoa pegue esse código e o altere novamente. Isso faz com que o GNU/Linux evolua de forma desordenada, em um processo que se assemelha ao da evolução natural.

O resultado é uma variedade de distribuições absurda. Pra quem tiver uma ideia de tudo que tem por aí, o Distro Watch é um lugar para dar uma conferida na infinidade de sistemas, pacotes e bibliotecas. Tem também um ranking de popularidade que, apesar das limitações metodológicas inevitáveis de um ecossistema tão decentralizado, é um jeito divertido de acompanhar o que vem surgindo e quais se destacam. Inclusive, em 2008, está lá no topo o Ubuntu, que foi a distribuição que arrisquei instalar no notebook Acer Aspire 5570Z em que instalei um dual-boot com Windows Vista. Foi fácil: só desligar o ACPI via comando no GRUB e lá estava eu no sistema operacional (e com zero controle sobre a bateria).

Essa capacidade de se transformar e agregar mais códigos e funcionalidades fizeram com que o Linux conseguisse ir além dos 386 e dos discos rígidos AT e parar em todo tipo de lugar, como em servidores, celulares, tablets, termostatos inteligentes e até no Espaço. Enquanto nos computadores seguimos naquela luta para superar o 1%, a explosão dos dispositivos móveis e a dominância do Android fez com que esse sistema ultrapassasse o Windows como o SO mais usado no mundo em 2016.

Tretas

A filosofia do software de código aberto surgiu para se contrapor ao modelo fechado que se desenvolvia em paralelo, e ao longo do caminho entrou em conflito com o modelo comercial. O primeiro exemplo vem do próprio Android que acabamos de mencionar.

Falamos da liberdade do Linux, mas o Android ter essa participação grande da Google não cria dilemas? A resposta é um retumbante SIM. A empresa já teria bloqueado o uso de outros sistemas semelhantes ao Android para evitar a fragmentação do mercado, como quando pressionou a Acer a não fazer um smartphone baseado em Aliyun OS, da Alibaba.

Mas se o código é aberto, como a Google poderia exercer essa pressão nas fabricantes? O motivo é que o Android em si é aberto, mas uma grande quantidade de seus softwares e serviços que são embarcados não são. Os apps que você instala nele, como WhatsApp e Instagram, não são de código aberto, bem como a própria loja de aplicativos do Google. Há todo um pacote de serviços baseados no Google Mobile Service que, se não estão instalados, prejudicam muito a experiência que as pessoas esperam de um smartphone Android (tudo bom, Huawei?).

Assim, a Google não pode impedir o uso do Android, que é desenvolvido com forte participação da empresa, mas pode negar acesso a seus serviços em aparelhos que não seguem suas diretrizes. Ou, como aconteceu de fato no conflito com a Huawei, por restrições impostas por governos. Esses elementos são tão indispensáveis que outras "distros" (distribuições) do Android, como CyanogenMOD, ou os mesmos aparelhos da Huawei que foram limitados, costumam ter ferramentas muito populares para instalar o Google Mobile Services.

Voltando mais no tempo, um dos momentos curiosos dessa indústria vital foi Linus Torvalds xingando diretamente a Nvidia, como podem ver no vídeo abaixo (e aqui tem a conversa completa).

O contexto foi uma insatisfação de Torvalds sobre o suporte da Nvidia que, mesmo usando tecnologias do ecossistema em produtos como o Tegra em Android, não se mostrou muito colaborativa no suporte ao sistema opensource. Atualmente, as placas da Nvidia tem melhor integração no sistema, ainda usando software proprietário, e no caminho surgiram iniciativas curiosas como o Noveau, um driver opensource feito pela comunidade.

Mas guardei o melhor para o final. A Microsoft foi por muito tempo o Coringa para o Batman opensource. Em 2001, Steve Balmer, na época CEO da empresa, classificou o Linux como "um câncer que se liga, em um sentido da propriedade intelectual, a tudo que toca". Na época, o apresentador mais animado da Microsoft de todos os tempos estava reclamando que o uso do código aberto forçaria uma empresa a abrir mão de toda a propriedade intelectual no processo.

Mas a disputa retórica foi mais além do que entrevistas controversas: a empresa fez uma famosa campanha de FUD (Fear, Uncertainty and Doubt, algo que se traduz como Medo, Incerteza e Dúvida) com o título de Get the Facts (conheça os fatos, em tradução livre) e foi aplicada por múltiplos anos e com várias inserções publicitárias com pesquisas que mostravam o quanto o Linux era mais custoso que o Windows no longo prazo devido ao suporte. Iniciada em 2002 e ampliada em anos seguintes, trazia frases de efeito como "estudos mostram que um ambiente Linux reduz a produtividade em 15% ou mais do usuário final", e se amparava em publicações comparativas.

A rixa foi tão profunda que houve muita desconfiança quando, muitos anos depois, a Microsoft passou por um processo de aproximação, que culminaria na criação de uma distribuição Linux da Microsoft. Pois é, o câncer se alastrou. Abaixo, vocês podem ver o vídeo do Diolinux - que recomendo para qualquer entusiasta ou pessoa querendo experimentar o sistema do Pinguim - que tem uma brincadeira no começo que deixa claro o quanto essa mudança parece radical:

Curiosidades

  • A discussão para criar um símbolo para o Linux girou em torno de vários animais e até símbolos abstratos, como triângulos, mas no fim o argumento de Torvalds de que ele "gosta de pinguins" foi suficiente para chegarmos no simpático Tux. O nome é um anagrama - algo que a comunidade opensource adora - que significa (T)orvalds (U)ni(X), e também remete ao tuxedo, um traje de gala que lembra o visual de um pinguim. O famoso smoking ou algo parecido com isso.
  • O pinguim foi ao espaço com a SpaceX, que usa o sistema operacional e linguagem C++ em muitos de seus sistemas. Além dele, a empresa usa o LabView, um software com interfaces gráficas rodando no Windows.
  • O primeiro Kernel do Linux tinha 65KB.
  • As novas versões do Kernel do Linux recebem codinomes bastante malucos. Muitos remetem a animais, como o Esquilo Suicida (3.12.74), Moreia Impiedosa (4.17.19), Hurr durr Eu sou uma Ovelha (v 4.0.9), Ovelha na Meta-anfetamina (v2.6.33.20) e Octopos Cleptomaníaco (v 5.4.142), mas outros são mais excêntricos, como inexplicável Sorteio dos Jurados Zumbis (V3.14.79).
  • A distribuição Red Hat, focada em uso corporativo, é a primeira empresa de opensource a atingir o valor de mercado de um bilhão de dólares.
  • Linus Torvalds escreveu 100% do primeiro Kernel do Linux, e hoje tem menos de 1% restante. Atualmente ele atua principalmente agregando códigos de outros desenvolvedores.
  • A Google já contribuiu com aproximadamente 1,1% do código do Kernel atual.
  • 13,3% do código do Kernel são linhas em branco. Esses espaçamentos ajudam a organizar o código.
  • Sendo mais preciso, Linux não é um sistema operacional, e sim o Kernel, usado em múltiplos sistemas como Fedora, Ubuntu, Debian, Mint OS, Manjaro, SteamOS, POP! OS e o Android.

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  • Redator: Diego Kerber

    Diego Kerber

    Formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Diego Kerber é aficionado por tecnologia desde os oito anos, quando ganhou seu primeiro computador, um 486 DX2. Fã de jogos, especialmente os de estratégia, Diego atua no Adrenaline desde 2010 desenvolvendo artigos e vídeo para o site e canal do YouTube

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