Créditos: Montagem: Bruno Pires (Adrenaline)

Cuidado com o tal PC com Core i5 muito baratinho

Quando você usa um nome por muito tempo, problemas surgem

Core i5. Só dizer isso já é suficiente para alguém atrás de um computador novo ter algum preconceito acerca de um PC. Assim como outras marcas, tipo um celular da Samsung, um carro da Volkswagen, um tênis da Nike... você pode não entender muito desse tipo de produto, mas a força de marcas faz com que você tenha uma inclinação positiva ou negativa acerca de um produto.

Quem nunca escolheu algo pela fama da marca, quando não manja do produto?

A Intel construiu a marca Core ao longo de muitos anos. Criada em 2006, ela virou referência de computadores inteiros, bastando dizer "é um Core i7" para convencer que uma máquina é boa, mérito de anos como referência na indústria, especialmente durante o período dos AMD baseados em Bulldozer, que não conseguiam fazer uma forte concorrênica. Mas ao mesmo tempo que sedimentar uma marca é bom, no mundo da tecnologia em que tudo vira muito rápido, isso criou um problema sério.

Moço, esse i5 é de que?

Assim como tem acontecido com as placas de vídeo, temos visto processadores antigos reaparecerem no mercado. Se uma GTX 1050 Ti de 2016 já chama a atenção, imagine o que é ver produtos da segunda geração Core (2011) ou até primeira geração (2010) dando as caras em computadores novos à venda!

Dos mesmos produtores de "O Retorno da GTX 750 Ti": "Desenterramos a geração Clarkdale"

Temos visto alguns PCs equipados com processadores mais antigos, e o grau de informações dadas nos anúncios variam. Em alguns casos é deixado claro que o computador é indicado para uso cotidiano, o que não é o sonho de consumo de ninguém - ver um produto defasado de evoluções tecnológicas da última década sendo usado - mas ao menos é suficiente para essa função. Em outros cenários, porém, é mostrado como uma máquina gamer (claro, com grandes quantidades de LEDs RGB) e combinado com hardwares pavorosos como uma GT 210 como um dispositivo para jogar.

Até tem um padrão engraçado para achar alguns desses anúncios:

O maior problema desses anúncios não é a venda de um hardware antigo, e sim o fato de não informar claramente qual produto está sendo ofertado. Isso cria uma janela de oportunidade de pegar justamente esse consumidor que não tem uma clara noção que um Core i5 não é igual a outro. Abaixo temos dois anúncios que apresentam essa ausência de informações:

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No segundo anúncio até conseguimos ao menos especular qual é o Core i5 em questão. Com 3.2GHz como clock (nem sabemos se é base ou boost) existem alguns Core i5, tanto na primeira geração (650) quanto terceira (3470), mas os 4MB de cache nos leva a crer que sim, é um produto da primeira geração Core (!), o Core i5-650. O segundo anúncio nos diz que é um i5 de 4 núcleos com 6MB de cache, o que cobre modelos da segunda a sétima geração Core. Melhor em termos tecnológicos, ainda mais impreciso em termos de informação ao consumidor.

Como já se acumularam 11 geração Intel Core, temos muitas mudanças em litografias e tecnologias. Um Core i5 lançado em 2010 tem apenas 2 núcleos e é feito em 32nm. Já na segunda geração, a Intel dobrou o número de núcleos. Na oitava geração, a pressão dos Ryzen fez a empresa se mexer, e um Core i5 passou a ter 6 núcleos e 6 threads, subindo para 6 núcleos e 12 threads na décima geração Core.

E na prática, o quanto isso torna um Core i5 (lá da primeira geração) tão diferente de um Core i5 (de outras gerações)? Rodamos os testes com 16GB de memória em dual-channel, na configuração mais alta com suporte oficial. A placa de vídeo utilizada é uma Nvidia GeForce RTX 3080 Founders Edition. E a diferença é um verdadeiro abismo:

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A diferença é abismal, com até 600% de ganho em alguns cenários, como no caso do CineBench. O grau de defasagem faz com que esse Core i5 seja até duas vezes pior que um Pentium G4560! Isso acontece porque linhas mais recentes do Pentium igualaram a especificação do Core i5 da primeira geração, e como eles tem ganhos relevantes de arquitetura desde então, com transistores menores e frequências mais altas, o resultado é o dobro de desempenho em um Pentium sobre esse velho Core i5, especialmente em games. Quem quiser ver como é a experiência na prática, já encaramos ambos no quadro "Ainda Vale a Pena", e é visível o quanto o Pentium é melhor.

Essa defasagem gigantesca faz com que esses produtos baratos pareçam muito mais um desperdício do que uma economia. Colocando em perspectiva, uma máquina com um Core i5 de décima geração pode ser encontrada por preços muito próximos.

A tal GT 210

Mas não é só no processador que temos desperdícios. Estamos focando na questão do CPU, mas a placa de vídeo nesses sistemas é a GeForce GT 210. Nem temos testes dessa placa de 2009 (!), mas já brincamos com a GeForce GT 710 (o máximo que conseguimos "descer"). Mesmo colocando essa placa consideravelmente melhor, a GT 710 não é algo de se orgulhar mesmo versus gráficos integrados atuais:

Isso quer dizer que uma máquina com um AMD Ryzen 3 3200G, usando somente os gráficos integrados Vega 8, tem potencial de se sair muito melhor que essas combinações de Intel Core i5 "idosos" e esse gráfico sofrível da GeForce GT 210. E potencialmente custando menos, em uma plataforma moderna, com muito mais possibilidades de upgrades significativos.

E a AMD?

A essa altura alguém pode estar se perguntando: ok, mas porque o foco em processador Intel? Um dos motivos é que a AMD passou por uma mudança muito grande com a introdução dos modelos Ryzen, em 2016, o que faz com que um Ryzen 5 da primeira geração não seja (ainda) tão diferente da geração mais recente.

O outro ponto é que, ao menos baseado na minha percepção, mais consumidores chamam o processador pelo seu nome completo, dizendo ser um Ryzen 5 3600 ao invés de só "Ryzen 5".

Conclusão

Quem acompanha o Adrenaline com frequência é parte de um público mais entusiasta, que está por dentro das novas tecnologias e que sabe bem a diferença que uma tecnologia mais moderna causa em um componente de computador. E provavelmente vai escapar dessas roubadas que mostramos ao longo do artigo.

Porém não se pode esperar - e nem se deve - que todo mundo "manje" de tudo, e é normal corrermos para algo mais fácil para tentar se localizar. É assim que megapixel virou sinônimo de qualidade de câmera, depois substituído (aparentemente) pelo número de câmeras.

Por um mérito da Intel, que conseguiu posicionar fortemente seu produto no mercado, o "notebook com i5" é uma frase que traz tanto impacto quanto "esse é um Nike": quem não lida com computadores (ou peça de vestuário) já tem um pressuposto do que está ali.

Mas como as coisas andam do avesso, e ultimamente hardwares antigos voltam de suas tumbas, agora temos coexistindo no mercado dois produtos completamente diferentes, mas com o mesmo nome. E vendedores informando de forma deficiente que produto estão vendendo, piorar o cenário.

É difícil a mudança depois de consolidar uma marca, mas talvez não seja uma má ideia por mais do que o motivo desse artigo

Nós também temos nossa dose de culpa. Não foram poucas as vezes que, em live ou outros vídeos, demos a resposta genérica de "um bom i5" serve pra jogar. Também talvez seja uma boa hora para a Intel desapegar desse nome. Com toda a pressão que vem sofrendo dos AMD Ryzen e dos ARM, agora seria uma boa hora de se reinventar também no branding e no marketing. Para a AMD, definitivamente fez bem.

  • Redator: Diego Kerber

    Diego Kerber

    Formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Diego Kerber é aficionado por tecnologia desde os oito anos, quando ganhou seu primeiro computador, um 486 DX2. Fã de jogos, especialmente os de estratégia, Diego atua no Adrenaline desde 2010 desenvolvendo artigos e vídeo para o site e canal do YouTube