Créditos: Foto: Adrenaline

O que está acontecendo com as RTX 3000? Entenda o CTD dos capacitores

Falhas na alimentação é o que pode causar o fechamento abrupto dos jogos
Por Diego Kerber 28/09/2020 20:23 | atualizado 28/09/2020 20:23 Comentários Reportar erro

Com o lançamento das GeForce RTX 3000, e a chegada em maior escala para os consumidores das placas, um problema começou a surgir em foruns e redes sociais. Alguns donos de placas RTX 3080 começaram a relatar o problema CTD, crash to desktop,  situação quando o jogo fecha subitamente e o gamer acaba vendo sua partida dar lugar a seu papel de parede e ícones do desktop.

Com os problemas de disponibilidade no exterior e ainda piores aqui no Brasil, com ainda pouca gente tendo acesso a esses produtos, é difícil mensurar o tamanho do problema, porém com posicionamentos oficiais de múltiplas empresas, o que iniciou com a EVGA, começou a deixar claro que não era apenas fumaça, havia fogo nesse problema. Vamos tentar elucidar as causas dessa instabilidade, possíveis correções e se o consumidor deve se preocupar com isso quando for adquirir uma placa para si.

A Origem

Rastreando a questão, é fácil encontrar um de seus principais epicentros. O artigo do Igor's Lab com o título "The possible reason for crashes and instabilities of the NVIDIA GeForce RTX 3080 and RTX 3090 | Investigative", ou "A possível razão para crashes e instabilidades da Nvidia RTX 3080 e RTX 3090 | Investigativo", temos um olhar aprofundado no potencial culpado das instabilidades: um conjunto de capacitores na parte de trás de onde fica o chip gráfico.

Pra entender porque eles importam, é preciso entender porque eles estão ali. Um chip gráfico moderno de alta performance tem demandas exigentes de alimentação, algo ainda mais agravado pelo funcionamento através de tecnologias como boost, que podem aumentar em muito as frequências momentâneamente, e depois reduzir para eficiência energética e térmica. Os VRMs e outras estruturas de alimentação podem não dar conta desses "surtos" de consumo, e é aí que entram em ação essas estruturas de capacitores.

Pro conta de sua função crítica, eles ficam muito próximos do chip gráfico, na mesma região porém do outro lado do BGA onde está a GPU. Esse conjunto de capacitores precisam dar conta dessas demandas instantâneas, e de acordo com o artigo do Igor's Lab, é aí que nasce o problema. Seriam usados dois tipos, os MLCC (Multilayer Ceramic Chip Capacitor) em verde, e os POSCAPs (Conductive Polymer Tantalum Solid Capacitors), em vermelho.

Os MLCC seria mais eficientes para lidar com frequências mais altas graças a uma impedância menor, entregando de forma mais imediata tensão, porém alguns modelos teriam apenas POSCAPs, e em alta carga não estariam entregando energia suficiente a tempo. Isso levaria a uma falha que leva ao fechamento do software, porém não crítica o bastante para levar a uma falha do sistema como um todo, por isso o jogo fecha porém o PC ainda consegue operar e devolve o usuário a seu desktop.

Um ponto importante para destacar é que não temos uma questão de "MLCC bom" e "POSCAP ruim". Cada estilo de capacitor possui características próprias, com suas vantagens e desvantagens. o POSCAP, por exemplo, retém quantidades maiores de energia e também lida melhor com aquecimento. Aqui tem uma lista de prós e contras de cada um.

A resposta das fabricantes

- Continua após a publicidade -

Com o problema ganhando corpo com publicações como vídeos de JayTwoCentz e de Paul's Hardware, começaram a sair os anúncios oficiais das fabricantes sobre o problema, algo que começou com a EVGA e também passa por GainwardGalax, com outras se posicionando através de redes sociais, como é o caso da Zotac:

Todos seguem um mesmo norte: indicam quantos MLCC possuem, e se possuem apenas POSCAPs (ou SP-CAP, temos uma controvérsia até na forma como estão sendo chamados esses capacitores) falam de melhorias em modelos futuros com adições de MLCC. Em resumo, temos a situação de alguns modelos:

ASUS: modelo da RTX 3080 TUF vem equipada com apenas MLCC, totalizando 60 capacitores em 6 grupos de 10.

EVGA: versões preliminares usaram 6 POSCAPs, mas a EVGA GeForce RTX 3080 FTW3 chega com 4 capacitores POSCAPs e 20 MLCC. EVGA GeForce RTX 3080 XC3 chega com 5 capacitores POSCAPs e 10 MLCC

Gainward: todas as RTX 3080 usam 5 capacitores POSCAPs e 10 MLCC, e todas as RTX 3090 usam 4 capacitores POSCAPs e 20 MLCC

Gigabyte: modelo desmontado por Paul's Hardware da RTX 3080 usa 6 POSCAPs, bem como a RTX 3090 desmontada pelo d8rbauer. Testamos um modelo da RTX 3090 que não apresentou problemas de estabilidade.

Galax: modelos iniciais da GALAX RTX 3090 GAMER na mão da mídia usam 6 SP-CAP, mas o produto não está a venda e receberá otimizações. RTX 3080 usam 5 capacitores POSCAPs e 10 MLCC, e todas as RTX 3090 4 capacitores POSCAPs e 20 MLCC

- Continua após a publicidade -

ZOTAC: utiliza apenas 6 POSCAP. Afirmou que está investigando o caso e que continuará em contato com compradores de modelos RTX 30.

Com a agilidade que o Reddit sempre tem para oferecer, usuários estão compilando as configurações de MLCCs e POSCAPs de diversas fabricantes e modelos, baseando-se em análises, vídeos e anúncios que estão online.

Controvérsias

E qual a solução para esse problema, especialmente para quem já tem uma placa comprada ou quer comprar esse primeiro lote? A teoria no artigo do Igor's Lab é que as fabricantes tiveram um acesso bastante tardio a drivers funcionais das placas, dependendo exclusivamente de softwares da Nvidia para "estressar" seus projetos e testar a estabilidade, sem conseguir ver seu real desempenho em cenários práticos. Temos pistas disso no pronunciamento da EVGA, que afirma "During our mass production QC testing we discovered a full 6 POSCAPs solution cannot pass the real world applications testing", que se traduz em "Durante nosso processo de controle de qualidade na fabricação em massa descobrimos que uma placa com a solução de 6 POSCAP não passam em testes de aplicações de mundo real".

Sendo assim, há uma chance de conseguir estabilidade com pequenos ajustes nos clocks. Há relatos de mudanças de 50 a 100MHz que são suficientes para devolver a estabilidade, algo que causa mudanças quase imperceptíveis de performance, ainda atendendo a especificação de boost prometido pela fabricante. Do ponto de vista do consumidor, isso não parece ser um grande problema, exceto é claro o fato da placa não estar perfeita para uso na forma como saiu da caixa. Mas, apesar de ser um problema pequeno na prática, não deixa de ter implicações bastante negativas.

Outro problema é que isso afeta não apenas os entusiastas que fazem overclock e que estão já suscetíveis a instabilidades, afinal levam suas placas para operar no limiar de sua capacidade. A própria tecnologia GPU Boost da Nvidia busca oportunidades de aquecimento e consumo para subir sua performance, e acaba contribuindo para a possibilidade do problema ocorrer. A RTX 3080 tem frequências boost oficiais de 1710Mhz, mas em nosso gameplay ficou  a maior parte do tempo operando acima dos 1800MHz e beirando os 2000MHz em vários games, por exemplo.

Devo ou não comprar?

Esse tipo de incerteza definitivamente não é um bom sinal para quem quer adquirir um produto, especialmente um de alto custo, porém ainda estamos longe de saber quantas unidades realmente estão sendo afetadas, o que dificulta quantificar o problema. Nessa manhã, a Nvidia lançou um novo driver que, entre suas melhorias, promete mais estabilidade. A empresa também afirmou que "cada uma das marcas personalizam seus designs regularmente e trabalhamos em estreita colaboração com eles no processo. O número apropriado de agrupamentos POSCAP vs. MLCC pode variar dependendo do projeto e não é necessariamente indicativo de qualidade".

Sem uma dimensão mais clara da amplitude do problema, fica difícil ter certeza se o problema é relevante. O que não fica dúvidas é que pessoal entusiasta que faz questão de modelos com OC pesado ou que vai ele mesmo ir longe nos ajustes através do overclock, talvez deva esperar pela investigação completa da questão, já que afeta mais diretamente situações de alta frequência. Para placas que serão utilizadas na configuração de fábrica, a possibilidade de encontrar problemas parece menor porém não é totalmente descartada, mas parece pouco provável.

E se eu estiver com problema? É provável que seja possível de resolver com leves ajustes de offsets nas configurações de energia e frequência, algo não deve impactar muito na performance, mas que com certeza está longe de uma solução que agrade a nós e especialmente ao consumidor. Se você for dono de uma RTX série 3000 e está passando por problemas, nos mande um oi pelas redes sociais (no Instagram e Twitter) contando como está sendo sua experiência.

No fim, nossa dica acaba sendo a mesma que damos para qualquer grande lançamento de eletrônicos: resista a pressão consumista de pegar as primeiras peças. Com mais tempo de produção as fabricantes vão evoluindo seus projetos e minimizando possibilidades de falhas. Especialmente se você curte ir longe em OC, talvez seja uma boa ideia esperar um pouco mais antes de pegar uma RTX 30 e termos relatórios mais claros sobre essa questão.

Tags
  • Redator: Diego Kerber

    Diego Kerber

    Formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Diego Kerber é aficionado por tecnologia desde os oito anos, quando ganhou seu primeiro computador, um 486 DX2. Fã de jogos, especialmente os de estratégia, Diego atua no Adrenaline desde 2010 desenvolvendo artigos e vídeo para o site e canal do YouTube

Qual vai ser o melhor game de outubro de 2020?

O que você achou deste conteúdo? Deixe seu comentário abaixo e interaja com nossa equipe. Caso queira sugerir alguma pauta, entre em contato através deste formulário.