Por que a Nintendo se tornou alvo da luta contra a escravidão moderna?

O trabalho escravo é proibido na maior parte do mundo, mas ainda acontece em muitas regiões clandestinamente, muitas vezes associado com a produção de recursos para exportação quando é realizado em larga escala. Segundo estimativas da Organização Internacional do Trabalho, a chamada "escravidão moderna" atinge mais de 20 milhões de pessoas ao redor do mundo.


Estimativa do número de pessoas em trabalho forçado por região


Um dos grandes "geradores" de trabalho forçado e escravidão moderna é o extrativismo de "minerais de conflito". Estes minerais (como o tungstênio) têm grande valor por serem usados na fabricação dos componentes dos gadgets usados ao redor do mundo, como smartphones e consoles de vídeo games. Eles são chamados de "minerais de conflito" porque estão presentes de maneira abundante em países marcados por guerras civis, como na República DemocrÁtica do Congo, por exemplo, onde os líderes dos conflitos controlam as minas e obrigam os moradores locais a trabalharem nelas, podendo assim vender os minerais obtidos e investir em mais armamento, gerando mais um dos conhecidos "ciclos viciosos".

{break::E a Nintendo?}Mas e o que a Nintendo tem a ver com isso? Enquanto muitas empresas têm mostrado um esforço para divulgar sua cadeia de produção e fabricar seus eletrônicos de maneira transparente, a casa do Mario mostrou absolutamente nenhum interesse em esclarecer de onde vêm sua matéria-prima. O Enough Project, que luta contra genocídio e crimes contra a humanidade, publicou um relatório no qual é exibido um "ranking" do progresso das empresas em abrir mão de minerais de conflito, onde a Nintendo aparece com 0% de progresso.


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Os pontos do ranking são definidos por ações direcionadas à diminuição ou conscientização do uso desse tipo de minerais. Vão desde maior transparência a fundos de arrecadação para as vítimas de guerra civil no Congo. 

A Intel aparece liderando o ranking com 60% de progresso no "uso responsÁvel de minerais". É importante frisar que existe uma nova lei que obriga companhias norte-americanas a serem transparentes com sua cadeia de produção, visando mesmo coibir o uso de matéria prima ilegal e/ou obtida em regiões de conflito. A Nintendo, como empresa japonesa, não é obrigada legalmente a mostrar a mesma transparência, mas essa recusa vai um pouco contra a imagem de "empresa família" que eles tentam passar. A conterrânea e concorrente Sony, por exemplo, liderou uma parceria entre empresas nipônicas para assinar um "memorandum de entendimento", onde se comprometiam em se engajarem melhor na luta contra minerais de conflito.

{break::Slavery is not a Game}A recusa da Nintendo em oferecer informações mais claras sobre sua cadeia de produção levou a organização Walk Free, que luta especificamente contra escravidão moderna, a criar a campanha Slavery is not a Game (escravidão não é um jogo), destinada a pressionar diretamente a companhia. Ontem mesmo foi organizado um ato que reuniu 50 pessoas com chapéu do Mario e placas dizendo "Slavery is not a Game" em frente a uma loja da Nintendo nos EUA. A campanha pede que as pessoas contatem a empresa pedindo pela transparência. Segundo o site deles, mais de 430 mil engajados jÁ eviaram emails pedindo para que a companhia mostre sua cadeia de produção. 


A resposta que a empresa forneceu desde o início da campanha foi uma carta em que a Nintendo diz:

"Nós levamos nossa responsabilidade como uma companhia global muito a sério e esperamos que nossos parceiros de produção façam o mesmo. Nós banimos o uso de minerais de conflito e também proibimos nossos parceiros de produção de usarem quaisquer minerais de conflito da República DemocrÁtica do Congo e países adjacentes.

Como a Nintendo terceiriza a manufatura e montagem de todos os produtos Nintendo para parceiros de produção, em 2008 nós entregamos a todos eles a Nintendo Corporate Social Responsibility Procurement Guidelines (diretrizes de aquisição e de responsabilidade social). Nós implementamos essas diretrizes com base em leis relevantes, padrões internacionais e diretrizes que focam em proteger direitos humanos, assegurando a segurança no ambiente de trabalho, promovendo ética corporativa e protegendo o ambiente... Cada um de nossos principais parceiros de produção tem uma política banindo o uso de minerais de conflito. Além disso, nós investigamos a fonte dos materiais requisitando que nossos parceiros preencham um questionÁrio sobre minerais de conflito; nós também requirimos transparência nos procedimentos que eles usam para rastrear os minerais dentro da cadeia de produção deles.

Além disso, nós pessoalmente visitamos as instalações dos nossos parceiros de produção e conduzimos inspeções no local. A intenção dessas inspeções é continuar a garantir o cumprimento de nossas diretrizes. Durante essas inspeções nós enfatizamos a política da Nintendo de banir o uso de minerais de conflito, nós também requirimos que cada parceiro de produção compartilhe atualizações no fornecimento de materiais e na questão de minerais de conflito."

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A Walk Free não estÁ satisfeita com a declaração da empresa porque não estÁ claro como funciona o questionÁrio, o que acontece quando uma parceira não o cumpre e nem como a Nintendo verifica a veracidade das respostas. Para Joseph Bernstein, repórter no Buzz Feed, a resposta da empresa foi "um grande 'confie na gente'". 

A organização pretende continuar com a campanha Slavery is not a Game até a Nintendo mudar seu posicionamento. 

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  • Redator: João Gabriel Nogueira

    João Gabriel Nogueira

    João Gabriel Nogueira se formou em jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) em 2015 e curte games desde muito antes. Começou com o Master System e o gosto pelos jogos eletrônicos trouxe o gosto pela tecnologia. Escrever notícias e análises de jogos, hardware e dispositivos móveis para o Adrenaline, além de trabalho é uma alegria e um aprendizado.

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