Zeebo: os fiascos do videogame brasileiro

O primeiro videogame genuinamente brasileiro dÁ seus últimos suspiros e se debate tentando lutar contra a correnteza. Mas não hÁ para onde nadar: o Wii é consagradamente o "videogame da família", Xbox 360 e Playstation 3 disputam a preferência dos gamers hardcore, entusiastas montam e atualizam seus PCs periodicamente e os saudosistas preferem desencaixotar seus Master Systems e Super Nintendos. O público se divide entre os que sequer ouviram falar no tal Zeebo, os que largam a mÁxima do "jÁ vai tarde" e a meia dúzia de apoiadores do projeto que, ainda assim, não parecem muito otimistas.


Um console de nicho, feito para "atender a classe média brasileira e dos países emergentes", como foi definido no anúncio oficial, nos idos de 2008. Conectividade 3G grÁtis, jogos baratos distribuídos digitalmente e um design até que simpÁtico. Promessas de traduções de jogos, títulos exclusivos e um preço competitivo. Onde foi que tu erraste, Zeebo?

É triste ver os jogadores do Brasil totalmente desacreditados do mercado por aqui. Sim, é triste. Mas não é pra menos: somos o país do Dynavision Radical, o clone do Nintendinho 8-bits vendido até hoje; do laptop da Xuxa e dos jogos da Turma da Mônica para o Mega Drive. Mas somos malucos por tecnologia e, como todo o resto do mundo, adoramos games. Sofremos, porém, com os impostos, a margem de lucro imensa que as empresas praticam por aqui e, consequentemente, o preço final exorbitante dos nossos sonhos de consumo.


Outro "videogame brasileiro "... conhece?


Aí surge a Tectoy e, confiante, lança seu brado de "Toda a sua classe média são pertence a nós" e aparece com a mÁgica solução para o problema: o Zeebo. A companhia une-se à Qualcomm, cria a Zeebo Inc. e lança o videogame brasileiro. Ele, que iria matar a sede de jogos dos sofridos "classe média" sem grana para um PS3. Porque "Quake I", lançado em 1996, pode ser "um jogo antigo para nós, mas novo para o nosso público alvo", segundo um dos desenvolvedores da empresa. RÁ rÁ rÁ rÁ. 

Alô, Tectoy. Não ter dois mil paus para desembolsar em um PS3 na época do seu lançamento não significa ser um total alienado. A tal da classe média não quer jogar "Quake I". Quer jogar "GTA", "Call of Duty", "Mario", "Zelda", "Halo" e "God of War". A classe média não é trouxa. EstÁ aí seu primeiro erro: subestimar o público. Colar um adesivão na testa dele chamando-o de burro. O consumidor que ser, acima de tudo, respeitado. Quer ter seus desejos atendidos. Não receber alguma coisa qualquer, estilo "não tem tu, vai tu mesmo".



Tudo bem, pelo menos o aparelho deve ser barato, certo? ERRADO. A não ser que você ache viÁvel pagar R$599 por um console que "chega bem perto" do PS2. Era isso que essa belezinha custava em 2009. Agora, o brinquedo sai por R$299, uns R$50 a menos que o videogame da Sony. Com essa grana na mão, qual dos dois você escolheria?

{break::TÁ bom, mas e os jogos?}Tirando o fato de que o Zeebo é praticamente uma placa de celular envolta por uma fantasia de videogame, a ideia parecia boa no começo. Jogos traduzidos? Localizados? Títulos exclusivos? UAU! Por que não dar uma chance ao nosso mercado de games, não é mesmo?


As entranhas do brinquedo (Imagem: Zeebo Club)


Vamos eliminar os requentados, como os jÁ citados "Tekken 2" e "Quake I", e nos concentrar na produção nacional. É, tipo "Bóia Cross" (uma das modalidades do Wii Sports... digo, Zeebo Extreme). "Um jogo de ovos" e "Zeebo Sports Peteca". Atrativo? Isso sem contar os ports de versões para celular, como o famigerado Resident Evil 4 com zumbis azuis.




Mais uma vez, serÁ que a Zeebo Inc. não tem mesmo ideia do que o público quer? Não é muito difícil: uma olhada em fóruns e pÁginas de redes sociais pode dar uma boa inspiração. Muita gente ainda sonha com um "GTA Rio de Janeiro", por exemplo. Por que não criar um game desse estilo para suprir essa demanda, jÁ que o hardware do aparelho não permite entregar algo como "GTA IV" ou "Mafia"? Que tal, ainda, um bom jogo de futebol com times brasileiros, narração e comentÁrios de gente conhecida no meio e quem sabe até algum modo especial de administração de times, algo no estilo Cartola F.C.?

Certa vez, fui a uma palestra do pessoal da Data 3D, escola de Florianópolis que oferece cursos na Área de jogos, como Game Designer, por exemplo. LÁ, eles demonstraram um projeto muito legal, o "Jet Thunder", um simulador de vôo baseado na Guerra das Malvinas. Parcerias com gente assim poderiam levar a experiência do Zeebo a um outro patamar. Mesmo que o hardware não suporte jogos muito complexos, bastaria levar a sério a mÁxima de uma boa história, enredo cativante e, é claro, exclusividade, para tornar o console mais atraente.


O Zeebo pode não ter cacife para exibir esses grÁficos, mas por que não investir em ideias criativas como essa?


Basta ver quantas pessoas ainda se divertem jogando títulos de gerações passadas. RPGs como Final Fantasy VI do SNES, aos olhos de quem vê as belezas do Xbox 360, do PS3 e dos últimos jogos para PC, pode ter grÁficos simples, mas a complexidade do seu enredo bota muito jogo atual no chinelo. O que dizer de aventuras como as da série Castlevania, que borbulhavam dificuldade no NES, ou dos ótimos RPGs e títulos de combates aéreos do PS1?


Zenonia, aclamado RPG disponibilizado em português para o Zeebo. Pena que é um port de celular...


Isso não significa que esses jogos devem ser portados para o Zeebo. Não sejamos hipócritas: todo mundo conhece emuladores. Inclusive o público-alvo do videogame que, não sei por que, a Zeebo Inc. parece considerar ingênuo demais. E os retro-gamers aficcionados, aliÁs, preferem continuar com sua coleção, seus cartuchos e suas caixinhas. O que quero dizer é que pouco poder de processamento e grÁficos simples não devem ser sinônimos de jogos pobres. Pelo contrÁrio: dÁ tempo para a equipe de desenvolvimento explorar muitas outras coisas, basta ter criatividade, não subestimar o público e ir atrÁs do que ele quer.


O melhor e o pior do Zeebo


E toda essa história de transformar o console em um aparelho educativo , o que marcou a mudança de foco da companhia em meados de 2010, também é furada. Na teoria, é lindo, mas não cola. Crianças gostam de Ben 10, de Dragon Ball, e do mesmo GTA dos adultos. Turma da Mônica pode ser legal nos quadrinhos, para determinados públicos, mas duvido muito que alguém sonhasse com o console por causa de games protagonizados pelos personagens de Maurício de Sousa.


Resident Evil, Double Dragon e... Mônica


O Zeebo precisava de jogos bons de verdade, independentemente de grÁficos. HÁ desenvolvedores aqui no Brasil e o mercado tem crescido. Segundo dados de 2008 da Abragames (Associação Brasileira de Desenvolvedoras de Jogos Eletrônicos), em 2006/2007 o ramo de software da indústria de jogos cresceu 28%, índice que passou para 31% nos anos seguintes, enquanto o segmento de hardware diminuiu de 9% para 8%. Isso significa que hÁ profissionais capacitados por aqui e que precisam de uma chance para emplacar a produção nacional. Chega do manjado discurso de "se é brasileiro, é ruim". Até porque parece que nem a própria Zeebo Inc. acreditou muito no contrÁrio.

{break::Um futuro condenado ao mofo}Com três anos de vida, o Zeebo finalmente morreu. A Zeebo Inc. anunciou que fecharÁ suas portas e, com isso, seus cerca de 35 funcionÁrios serão dispensados. A Qualcomm, grande investidora do projeto, achou melhor largar o barco, o que deixou a companhia sem saída. SerÁ que o console teria uma sobrevida caso não tivesse mudado seu foco para as crianças idealizadas que adoram jogos infantilóides?

Isso nunca saberemos. Mas uma coisa é certa: os donos do console (sim, eles existem) ficarão órfãos. O Zeebo virarÁ um elefante branco que terÁ dificuldades até em atrair colecionadores, jÁ que não utiliza mídias físicas para armazenar seus jogos. Quem comprou, comprou... e fica tudo na memória interna de 1GB do console. Não dÁ pra pegar jogos emprestados, vender, trocar... quando a rede 3G for desativada, no dia 30 de setembro, os games do Zeebo não adquiridos virarão apenas uma lembrança.


O teclado para acesso à Internet e o sensor de movimentos "Boomerang " tentaram dar uma sobrevida ao videogame


Ao mesmo tempo, os jogadores ficarão presos aos títulos que compraram e guardaram no videogame. Nunca mais poderão jogar nada diferente. O mais provÁvel destino do Zeebo é o armÁrio, onde deve ficar esquecido para sempre.

Fica ao menos uma lição: as empresas brasileiras que querem investir no mercado de games têm que levar o negócio a sério. Não dÁ para ignorar o consumidor e colocar no mercado simplesmente o que elas acham certo. Também é ingenuidade ignorar a concorrência, com a desculpa de que "isso aqui estÁ bom para nosso público-alvo". Nivelar por baixo não é bom, cheira a comodismo e preguiça. E só reforça ainda mais a ideia de que o que vem daqui de dentro do país não presta.

Por fim, se a proposta é lançar um aparelho de baixo custo, então que faça, no mínimo, valer a pena de verdade, por um preço realmente baixo. Não precisa ser nenhum gênio para concluir que um PS3 e até mesmo um Ps One são muito mais vantajosos que o Zeebo. Somente o vasto catÁlogo de jogos, a quantidade de ótimos títulos e a possibilidade de guardÁ-los sem ficar dependente de uma rede 3G com os dias contados jÁ servem como argumento definitivo para optar por um console "defasado" ao invés do Zeebo, lançado três anos após o Xbox 360.

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  • Redator: Risa Lemos Stoider

    Risa Lemos Stoider

    Formada em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e gamemaníaca desde os 4 anos de idade. Já experimentou consoles de várias gerações e atualmente mantém uma ainda modesta coleção. Aliando a prática jornalística com a paixão pela tecnologia e os games, colabora com a Adrenaline publicando notícias e artigos.

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