Hackers x crackers - entrando na ética do mundo hacker

De tempos em tempos recebemos reports de erro, em notícias do tipo "Hackers planejam terceiro ataque contra Sony", nos alertando que estamos (junto com a maioria da mídia) usando o termo errado. Neste caso, deviamos ter usado crackers e, em tom acusador, e apontam: "o Adrenaline é um portal de tecnologia, devia saber a diferença".


Muitos associam hackers automaticamente ao mundo da tecnologia e da programação

E qual a diferença? No dicionÁrio, podemos encontrar como significado para hacker: "Indivíduo que acede ilegalmente a sistemas computacionais". O Michaels indica como: "Pessoa viciada em computadores, com conhecimentos de informÁtica, que utiliza esse conhecimento para o benefício de pessoas que usam o sistema, ou contra elas." Ok, então segundo ele usamos o termo correto. Poderia acabar o artigo aqui.

Mas a coisa não é tão simples, e não vamos nos contentar com tão pouco. A verdade é que o "pai dos burros" é uma ótima referência para diversas situações, mas quando falamos de cultura digital, as mudanças dinâmicas (cada dia sai um meme novo) deixam as revisões dos dicionÁrios "no chinelo". E quem aqui fala acede?

Como os dicionÁrios tendem a ser conservadores, algo natural jÁ que buscam ser obras de referência num contexto com diversas variantes regionais, demoram muito para implementar um novo termo, e muitas vezes a expressão estÁ consolidada no uso cotidiano muito antes de ganhar um verbete. E pra onde corremos então? Eu vou sugerir pro basquete.

Imagine a seguinte situação: no meio do treinamento, o técnico manda os jogadores fazerem uma fila e treinarem arremessos livres. Todos fazem a fila, arremessando um por vez. Aí alguém sugere que se faça duas filas, e assim enquanto um arremessa, a pessoa na fila ao lado jÁ prepara o "chute". A fila anda mais rÁpido, e todos praticam mais arremessos em menos tempo.

Não meu caro, não implementamos uma seção esportes no site e, apesar de parecer, juro que não estou fugindo do assunto. Afinal um sistema acaba de ser "invadido" e modificado. HÁ um hacker no meio deste treino.

Prepare-se para conhecer um grupo de pessoas que não estÁ contente com o mundo como ele é, e adoram modificÁ-lo.

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{break::A Origem do hacker}O termo hacker vem da palavra "hack", que significa cortar, mas com uma conotação mais rústica (imagine algo mais para um machado do que para uma tesoura). Não hÁ um consenso sobre quando surge o termo hacker, mas muitos apontam para o MIT (Massachusetts Institute of Technology), local de origem de outros ícones da cultural digital como Stallman e o projeto GNU.

Para ser mais específico, esta história começa no Tech Model Railroad Club, clube que reunia os amantes do ferromodelismo (construção de miniaturas de estruturas ferroviÁrias). LÁ o termo hack seria utilizado para toda solução inteligente para problemas em componentes eletrônicos. Até hoje o site do clube possui uma pÁgina com a definição do termo:


"A essência do ‘hack' é rapidez, muitas vezes de forma deselegante. Ele atinge um objetivo desejado sem modificar o sistema em que estÁ inserido. Apesar de não estar no design original do sistema original, o hack é inteligente e efetivo."

Como o termo hack original, a deselegância volta a ideia do corte com o machado. Agora o próximo trecho pode ser uma mensagem para nós:


"Nós do TMRC usamos o termo ‘hacker' apenas em seu sentido original, que se refere a aquela pessoa que através da engenhosidade cria um resultado inteligente, chamado de 'hack'".

Essa é a parte que o pessoal dos reports diz, novamente nos apontando o dedo: "Viu? Não te disse?". Pois é, como eu disse antes, a questão não é tão simples. E sinto muito dicionÁrio, mas não acreditamos no senhor.


O primeiro sistema hackeado pode ser parecido com este aqui

Agora, partindo deste conceito jÁ começamos a entender muito dos casos dos indivíduos chamados de hackers, como aqueles que desbloqueiam o iOS, ou possibilitam instalar um sistema Linux no PS3. Modificam um sistema para possibilitar novos usos, e definitivamente os desenvolvedores não tinham estes elementos no design original da plataforma.

Com seu conhecimento na Área de informatica, os indivíduos por trÁs destas modificações fazem alterações em sistemas digitais assim como o pessoal do TMRC resolviam a "droga do trem que emperra nesta ponte". E onde estÁ o que diferencia isto daquelas invasões que derrubam sistemas, dão prejuízos a empresas e param até usinas nucleares? Aí falta mais um elemento que iria se consolidando ao longo dos anos: a "ética hacker".

{break::Quando habilidades levam a reflexões}Do ponto de vistas das habilidades, não hÁ uma diferenciação entre o "cracker" e o "hacker". Ambos se tratam de indivíduos com conhecimentos na Área da informÁtica, e que atuam "hackeando" sistemas, ou seja, realizando modificações dentro dos processos dentro de uma plataforma. O diferencial estÁ no objetivo: nos tempos do TMRC estas adaptações eram para correções e melhoramentos nas miniaturas, hoje podem ir desde desbloquear novas funções aos aparelhos, passando por quebrar sistemas de segurança e até mesmo comprometer totalmente os sistemas.

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Simplificando, começam a surgir dois objetivos: um mais nobre, voltado a melhora dos sistemas e um ganho no aproveitamento dos hardwares, e um mais obscuro, voltado ao ataque e comprometimento de sistemas e roubo de informações. Ambos os caminhos trazem ganhos para o indivíduo que realiza os hacks, porém um através do reconhecimento de agregar valor a um sistema, e outro através dos benefícios que consegue extrair através dos danos que implica a outras pessoas, seja por reconhecimento de ser capaz, retorno financeiro ou até mesmo prazer em prejudicar um grupo de pessoas ou empresa.

Quando falamos no prazer de realizar o "hack", o termo pode abranger ambos os casos, tanto white quanto dark hat, jÁ que o hacker é normalmente um entusiasta. Conseguir fazer algo, muitas vezes, é a maior motivação desta pessoa.

Assim o "cracker" e o "hacker" seriam uma polarização, dois elementos opostos, como escuro e claro, bem e mal, e é claro que inevitavelmente a "cultura nerd" esbarraria nisto tudo e descambaria para o dark side e o light side, em referência ao longa "Star Wars". Na cultura hacker surgiria também esta divisão, indicando o "caminho" do indivíduo: a cor do seu chapéu. Nasceria daí as expressões white hat (chapéu branco) e dark hat (chapéu negro) para diferenciar as pessoas que agem de forma lícita ou ilícita, seguindo a ética (no sentido social mais abrangente da coisa).

Assim um hacker do tipo white hat somente faz modificações pelo benefício de outras pessoas, ou invade sistema para verificar vulnerabilidades, sempre avisando o servidor ou a empresa responsÁvel por ela de falhas que encontrar. Em oposição a ele, o do tipo black hat rouba dados pessoais das pessoas, derruba sistemas inteiros e muitas vezes esbarra em questões legais ou algo que na moral comum "uma pu** falta de sacanagem".


É tudo uma questão de qual chapéu combina mais com você

Se você acha que agora estÁ ficando claro, espera que jÁ vou deixar a coisa mais confusa. No meio disso fica o grey hat (chapéu cinza), o intermediÁrio entre os dois polos. Debaixo deste chapéu ficariam os hackers que oscilam entre os "dois caminhos", como quando transgridem a lei durante uma invasão, ou atacam um servidor apesar dos "objetivos nobres", ações que um white hat testaria em um sistema próprio, e não diretamente no servidor em funcionamento. Muitas vezes seguem a filosofia "do fim justifica os meios", fazendo atos ilegais por "causas nobres".

Mas a ética hacker não ficou presa à computação. Apesar de ser um dos centros de formação, a ideia do hack transcendeu os computadores (lembra do exemplo do basquete?). Estamos falando de uma nova ética para aspectos mais abrangentes da vida, metendo até o Weber na história.

{break::A ética hacker}Recapitulando: o hacker é um indivíduo entusiasta, com muito conhecimento e habilidade de fazer modificações em sistemas para melhorias nos processos (aqui usando o conceito da TMRC, e deixando os crackers de lado). E se aplicarmos o conceito ignorando o lugar-comum? Aquele que o hacker é um indivíduo extremamente intelectualizado com dificuldades em se socializar, que vive na frente de um PC?

Afinal, se observar com atenção, dÁ para ver uma ética relacionada ao trabalho, jÁ que o hacker coloca sua força de trabalho (pensar também cansa) no desenvolvimento dos hacks. Para quem quer ir mais a fundo nesta nova visão, pode ler o livro "The Hacker Ethic and the Spirit of the Information Age" (A Ética Hacker e o Espírito da Era da Informação). Para quem jÁ sacou o porquê do Weber na pÁgina anterior, a semelhança com o título de uma das mais importantes obras da sociologia, o livro "A ética protestante e o espírito do capitalismo", não é acidental.

O livro traz um contraponto ao trabalhador da "Era Capitalista", na descrição de Weber, que estava atrelado ao foco no ganho de dinheiro, com mantras do estilo "tempo é dinheiro". A relação com trabalho para o hacker tem outra motivação: o entretenimento, e neste caso algo próximo da paixão pelo que faz.


Weber não parece feliz com a queda da PSN

Assim o hacker descrito por Pekka Himanen (autor do livro) é muito mais próximo do entusiasta de alguma Área, do que simplesmente o trabalhador focado no enriquecimento. Faz seu trabalho não apenas com o foco asceta de enriquecer, e sim se divertir com o que faz. Imagine algo no estilo dos ambientes de trabalho da Google, sem necessidade de usar roupas formais, vÁrios espaços para entretenimento no trabalho e sem horÁrios fixos. É uma nova relação com o ofício, fruto desta "Era da Informação".

Com esta descrição, teríamos hackers de todas as Áreas, desde as relacionadas a tecnologia até profissões que não tem quase nada a ver com programação, sistemas de segurança digital, etc. Como nosso jogador de basquete lÁ da primeira pÁgina.

{break::Conclusão}O termo "hacker" ganhou muitos significados, e no meio da confusão não hÁ nada que sirva como referencial único para definir. Dependendo do ambiente ou da pessoa, ela irÁ atribuir uma sentido diferente. Para muitos, é aquela pessoa com muita habilidade no que faz. Outros atribuem a alcunha para aqueles programadores brilhantes, capazes de contornar qualquer problema em software ou hardware. Um hacker pode ser até aquele que viu que o botão que ativa e desativa a placa sem fio era o que impedia o notebook de conectar a rede wireless. É tudo uma questão de perspectiva.

O termo vem ganhando também, para desânimo de muitos, uma conotação negativa. Isso pode ser atribuído, em parte, à mídia. Na maioria dos casos, especialmente em veículos de comunicação não especializados, a figura do hacker aparece em notícias sobre ataques a sistemas, roubo de senhas, e nos mais diversos delitos digitais (e ainda tem a capacidade de usar a ridícula metÁfora de que são "os piratas da internet"). É quase como alguém te observando, sorrateiramente, por trÁs de seu monitor.


Um hacker do mal prestes a te ferrar. Vestido a rigor, com o chapéu negro.

Até mesmo o ativismo ganhou seu mashup com o mundo hacker, formando o "hacktivismo". Assim pessoas realizam atividades de hackers do tipo dark hat (ou do tipo grey hat, dependendo do seu julgamento) contra empresas e pessoas, tudo em nome de causas diversas, como liberdade de informação ou contra o bloqueio de modificações do software em uma plataforma (galera do Anonymous, levanta a mão!).

A diferenciação entre os white hats e dark hats é importante. Eu acho que sim, e muitos dos que querem seguir esta nova filosofia também, para evitar que quando se identifiquem como tal, tenham que ouvir algo do tipo: "Você é hacker? Vai estragar meu computador?". Neste caso hackers e crackers são distinções interessantes, apesar de que muitos atribuem a ideia de crack a algo que desbloqueia softwares originais (piratear), apenas. É bom, principalmente porque, como pode dar origem a maldade algo que começou hÁ tanto tempo, num clube fundado apenas para reunir os amante das miniaturas de trens?

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  • Redator: Diego Kerber

    Diego Kerber

    Formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Diego Kerber é aficionado por tecnologia desde os oito anos, quando ganhou seu primeiro computador, um 486 DX2. Fã de jogos, especialmente os de estratégia, Diego atua no Adrenaline desde 2010 desenvolvendo artigos e vídeo para o site e canal do YouTube

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