iPad sairá de graça no Brasil a partir de amanhã, diz vidente

Por Diego Kerber e Risa Stoider

Nas últimas semanas, "a boataria" correu solta sobre a produção de iPads no Brasil. Tudo começou a um tempo atrÁs, quando Eike Batista (lembram?) - cara que tem lÁ seus bilhões e que são suficientes para comprar todos os iPads que ele quiser - saiu com esta, no final do ano passado: "Por que a gente tem de pagar duas vezes e meia o preço de um iPad?". Na ocasião, o Super Eike declarou estar se esforçando para salvar todos os fanboys, negociando a instalação de uma fÁbrica Apple no Brasil - o que permitiria produtinhos bem mais baratos.

Acontece que no último dia 18, o empresÁrio acordou R$6,8 bilhões mais pobre, digo, menos rico. Aconteceu por causa de uma forte queda das ações de uma de suas empresas, a petrolífera OGX. E agora, quem poderÁ nos defender dos preços dos iGadgets no Brasil?


Me vê aquele iPad ali... o que é fabricado no Brasil


Aí que acontece a visita da Dilma à China. A "presidenta" do Brasil tomou uns cafézinhos com o senhor Gou, dono da Foxconn, e o bom papo rendeu altas doses de otimismo. Foi o suficiente para surgir a informação de que a gigante chinesa estaria estudando investir US$ 12 bilhões por aqui. Adivinha para que? Para uma "fÁbrica da Apple", é claro! Porque depois de toda aquela história de suicídios na Foxconn, vazamentos de peças de iPhone e tudo o mais, tudo o que se faz é relacionar a empresa à gigante de Steve Jobs. Mesmo que a companhia monte dispositivos para diversas outras empresas (inclusive no Brasil), como a HP e a Sony.

Quer dizer, o otimismo foi mais por parte da imprensa e de políticos nacionais, jÁ que aparentemente a opinião do senhor Gou, sobre o Brasil, não é tão simpÁtica assim: "Os salÁrios dos trabalhadores brasileiros são altos. Mas é só ouvirem ‘futebol' que param de trabalhar. E tem toda aquela dança... é louco". Mas, mesmo assim, parece um lugar legal para investir uns 12 bilhões de dólares. "O Brasil estÁ pronto para produzir para o mercado local. Tem muitos minerais. E tem também o grande rio Amazonas, o que significa um bom potencial hidrelétrico. Mas se você quiser exportar para os Estados Unidos, precisa de mais tempo e dinheiro (em comparação com a China)."

Em contrapartida às declarações "sensatas e livres de estereótipos" de Gou, no Brasil a informação de 12 bilhões em investimentos no país foi recebida com muito entusiasmo, e os tablets tornaram-se o frenesi dos sites de notícias brasileiros, desta vez não apenas restrito aos de tecnologia, que jÁ cobriam à rodo o assunto hÁ meses. E os pivôs das notícias são duas figuras políticas: o ministro da Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, e o ministro das comunicações, Paulo Bernardo.

O que eles fizeram? Soltaram duas informações mÁgicas para a mídia, que se ditas por autoridades podem ser publicadas com o alvarÁ de todo manual de redação jornalística: "o quando" e, jÁ que estamos em uma sociedade capitalista, "o por quanto". Mercadante soltou a informação de a produção dos iPads iniciarÁ até o final de novembro (talvez o senhor Gou tenha achado  melhor coincidir com a época que encerra o campeonato brasileiro de futebol), faltando apenas alguns detalhes de logística para "tudo estar acertado", enquanto Paulo Bernardo disparou para todos os lados que o governo gostaria de viabilizar os tablets por até R$500, graças aos incentivos fiscais, que serão semelhantes aos aplicados aos computadores.

{break::Entrevistando bolas de cristal}"TÁ, eu entendi até aqui. E o vidente entra quando?"

A sÁtira, digo, a nossa fonte, entra agora. Ela ilustra o poder sensacionalista, digo, jornalístico, que anunciar um preço e uma data de lançamento tem na cobertura de tecnologia. E essa fonte jÁ foi consultada em outras matérias, como em "Alencar aconselharÁ Dilma no plano espiritual, diz vidente"ou "Tentações não podem ser frequentes, diz vidente".



Infelizmente esta tal de vidente mente as vezes, e possui alguns métodos duvidosos. Mas tudo bem. Quem acompanhou o desfecho da "lei da ficha limpa" sabe que não hÁ problemas em possuir escorregões de conduta no passado, e histórico ruim só vai ser problema a partir de 2012 ou quem sabe só em 2014...

Cabem aqui, a esta altura, alguns questionamentos. Em relação ao que foi dito por nossos ministros, por nosso vidente e até mesmo pelo senhor Gou (porque, apesar de estarmos acompanhando o jogo Real Madrid vs Barcelona pela Champions League, acreditamos que vamos conseguir fechar este artigo). A começar pelos tablets de 500 reais.

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Incentivos fiscais vão influenciar nos preços? Não hÁ duvida. Contando todos os possíveis benefícios, com o próprio governo estima, o total da possível redução do preço chegaria a 31%, nos aparelhos produzidos no Brasil, comparando com os importados. E tem ainda toda aquela história da "Lei do bem", que diminui as alíquotas de PIS/Cofins para computadores de 9,25% para 0%. É graças a ela que, hoje em dia, podemos comprar notebooks por preços mais camaradas (lembrando que, aqui, não se incluem os MacBooks).

O problema é o entrave que ocorre para encaixar os tablets nessa lei: em março, a Receita Federal decidiu por manter os tablets fora das medidas de isenção fiscal, porque os equipamentos "não têm teclado". Comemorem, futuros compradores do Asus Eee Pad Transformer, ainda hÁ uma esperança para ele. Teclado no iPad, só Bluetooth. Ou o virtual mesmo. De qualquer forma, a chance agora é que a Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee) e os fabricantes interessados batalhem junto ao Congresso pela aprovação da Medida Provisória 517/2010, que inclui os tablets na Lei do bem.


Não desencaixa não que o imposto sobe!


Sejamos francos e diretos: serÁ que a Apple teria disposição pra isso? Neste caso, a história parece depender mais da própria Foxconn - jÁ que a Apple não fabrica produtos. Steve Jobs, aliÁs, não tem uma visão muito favorÁvel do Brasil, especialmente no tocante aos nossos impostos. HÁ um ano, quando convidado pelo governo a abrir uma "simples" Apple Store por aqui, a resposta do executivo foi negativa, com direito a uma alfinetada daquelas. "Não podemos nem exportar os nossos produtos com a política maluca de taxação superalta do Brasil. Isso faz com que seja muito pouco atraente investir no país."

Jogando a peteca para a Foxconn, voltamos a Gou e Dilma e os tais 12 bilhões de dólares. Um investimento alto, é verdade. E um pouquinho exagerado, na perspectiva da Abinee. Não que isso não tenha ocorrido antes com outras empresas: a Telefônica pretende investir por aqui o equivalente a 15 bilhões de dólares pelos próximos quatro anos, enquanto a petrolífera BG Group planeja uma cifra ainda maior: 30 bilhões até o final da década.



A questão aqui é a geração de empregos, algo muito positivo para o país e que ainda serve como um ótimo motivo para os políticos se gabarem e conseguirem mais alguns votos nas próximas eleições. A ideia é contratar 100 mil pessoas, das quais 20 mil seriam engenheiros. A Abinee considera os números um tanto ambiciosos, jÁ que o setor eletroeletrônico inteiro empregou, no ano passado, 175 mil trabalhadores.

O valor dos tablets também é algo questinonÁvel. Alguns aplicaram os 31% de abatimento no preço final, previsto pelo governo, e aplicasse diretamente ao valor que o importado custa atualmente. O iPad passava de R$ 1.400,00 para, através do superpoderes da matemÁtica bÁsica (quem estou enganando? Fiz na calculadora), o valor de 966 reais. Pena que a conta não é simples assim, jÁ que esta redução pode ser aproveitada para aumentar a margem de lucro (não, não é papo de comunista frustrado). Como efeito natural da lei de oferta e procura, as vendas inicialmente podem também ter um preço um pouco mais alto, por conta de uma maior demanda causada pelo preço mais acessível.


TÁ, esquece a Apple. E o tablet de 500 reais?

JÁ dÁ para notar que o tablet de 500 reais não vai ser um iPad. Aí temos outro problema nas expectativas criadas ao longo das notícias publicadas. Como seria o tablet de 500 reais, almejado pelo governo? Nosso vidente se prontificou a responder a pergunta, mas vamos evitar a futurologia, por hora. O que pode ser feito, e por sinal jÁ teve quem seguiu esta linha de raciocínio, é que podemos converter nossos queridos reais para dólares, e ver qual tablet seria comprado em países onde a combrança do fisco é menos cruel que a brasileira. JÁ dÁ uma ideia do que é possível fazer.


Na faixa dos 300 dólares, os tablets estão mais para Flinstones do que para Jetsons

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E aí a coisa desanima. A maioria dos aparelhos abaixo desta faixa de preço possuem recursos bastante limitados, com direito a versões antigas do sistema Android (na base da gambiarra, pois são sistemas voltados a smartphones), com hardware fraco e alguns até mesmo com telas resistivas.

{break::Hey, Apple! Hey, Apple!}HÁ aproximadamente um mês, nós, brasileiros, mais especificamente a imprensa, temos nos comportado como "laranjas irritantes", procurando a todo custo uma confirmação oficial da Apple a respeito de uma coisa que começou como a sombra de um rumor - e ainda não saiu muito disso. Havia quem esperasse que a companhia fizesse o bombÁstico anúncio no dia 20, quando anunciaria os resultados financeiros do trimestre. Nada. A propósito, uma nova expansão do iPad 2 estÁ marcada para esta semana, mas adivinha! Nada de Brasil na lista. Na verdade, parecemos tão sem importância quanto antes.


Brazil? No donuts for you

Vale lembrar o seguinte: a Foxconn tem uma linha de montagem de iPads na China. Mas isso também não significa que os chineses recebem o iPad rapidamente. Por lÁ, a segunda versão do tablet também não chegou e também não irÁ nesta semana. Tudo indica que fabricar o tablet no país não significa botar as mãos nele mais rÁpido - ao menos não depois de pronto.

A Foxconn, ao contrÁrio de nossos próprios políticos e jornalistas, também sequer confirma coisa alguma. DÁ uma pista de leve, é verdade, mas seu comunicado oficial é raso, polido e com toda aquela cara de quem não comenta especulações - o que é de praxe em qualquer empresa deste porte. DÁ só uma olhada, na íntegra pra ninguém dizer que somos manipuladores (aqui tem na íntegra e na língua original, para quem desconfia da conspiração internacional dos tradutores:

Sendo líder na indústria de manufatura, o grupo Foxconn Techology honra a estratégia de fazer o que hÁ de melhor para servir as necessidades de mercados-chave pelo mundo nos ajudando a alcançar o sucesso no ambiente competitivo da indústria e nos colocando como um dos parceiros mais confiÁveis de marcas globais líderes.

O Brasil é um país rico em reservas naturais, um mercado consumidor vasto e com um tremendo potencial de desenvolvimento econômico. EstÁ também estrategicamente posicionado para atender as necesidades dos mercados emergentes da América Latina.

Guiados pela estratégia de "estar onde o mercado estÁ", nós estamos estudando por um longo tempo as oportunidades de investimento no Brasil. Estamos atualmente em um processo de explorar oportunidades neste importante mercado e conduzindo analises substanciais da media de de investimento do país. Evitando confirmar qualquer investimento em projetos específicos, a política da Foxconn é de apenas fazer anúncios após receber aprovações da parte da diretoria da companhia e de autoridades relevantes.

Então, o que mantém toda esta história? Praticamente só os rumores. Tudo que envolve a Apple parece trazer uma mística, um efeito sobrenatural sobre os noticiÁrios (Não, esta parte não tem nada a ver com você, vidente).

Muito se falou do iPad, mas em pouquíssimos momentos alguém cita as possibilidades de outros produtos, jÁ que a Foxconn fabrica componentes para outras grandes empresas da Área de tecnologia, como jÁ citamos. Até o MacBook foi pouco cogitado, sendo que ele não precisa esperar por mudanças maiores na legislação, pois ele jÁ tem teclado e não dependeria da MP.

Tudo que se fala é das novidades, de um forma maluca. Tudo vira notícia se falamos de tablets, do iPad ou do iPhone (que jÁ anda um assunto so last year). A coisa desandou tanto que, o boato de que a Apple lançaria uma nova opção de cor para o smartphone da marca chega a ganhar vÁrias notícias e é amplamente discutido pela web. UMA nova opção de cor. Outras marcas lançam mais opções que as diponíveis no arco-íris, e isso deve ser "um erro de estratégia".


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