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REVIEW | Diablo Immortal diverte, mas pega pesado nas microtransações

A Blizzard transpôs bem a série para o formato mobile, mas pesou a mão ao incentivar a compra de vantagens

Anunciado oficialmente em 2018, Diablo Immortal é um game que já chegou ao público causando uma má impressão. Enquanto na época os fãs esperavam por novidades sobre o novo capítulo da série principal — que acabariam vindo mais tarde —, o que eles tiveram foi um jogo mobile desenvolvido em uma parceria entre a Blizzard e a NetEase, cuja qualidade não inspirava muita confiança.

Quatro anos depois, o título fez sua estreia oficial com versões para Android, iOS e PC, mostrando que a franquia pode funcionar muito bem no universo mobile. Fazendo a ponte entre as histórias de Diablo II e Diablo III, o título mostra o que aconteceu com o mundo de Santuário após a destruição da Pedra do Mundo, que havia sido corrompida pelo demônio Baal.

Enquanto o ato heroico do Anjo Tyrael conseguiu impedir a destruição do mundo, isso não foi o suficiente para livrá-lo do perigo. O demônio Skarn, junto a outras figuras malignas, busca os fragmentos que sobraram da joia com o objetivo de usá-los para moldar a realidade, e vai caber ao jogador e seus aliados a tarefa de evitar que isso aconteça. Para tornar essa missão viável, você vai contar com cinco classes com poderes distintos, centenas de itens e equipamentos poderosos e uma dose generosa de microtransações ofertadas em ritmo constante.

Um Diablo simplificado

Diablo Immortal é, em sua essência, uma versão ainda mais simplificada de Diablo III. Enquanto o jogo de 2012 já havia eliminado a distribuição de pontos de status e habilidades, aqui as coisas são ainda mais diretas: todas as classes seguem um caminho de evolução único, com poderes que são destravados quando níveis específicos são conquistados.

Diablo Immortal é, em sua essência, uma versão ainda mais simplificada de Diablo III

Ao subir de nível, alguns desses ataques podem ficar mais poderosos, mas o que define o estrago causado por cada jogador é principalmente os equipamentos que ele usa. Até mesmo o sistema de runas de Diablo III foi removido, e toda modificação de ataque passou a ser atrelada a armaduras ou armas específicas de cada classe.

Como acontece em todos os jogos da série, os equipamentos conquistados são aleatorizados e classificados por um sistema de cores que indica sua raridade. Enquanto os itens Mágicos (azuis) e Raros (amarelos) são relativamente fáceis de serem encontrados, os Lendários (marrons) e de Conjunto (verdes) vão exigir uma boa dose de exploração e sorte para serem obtidos — em compensação, quando isso acontece, o salto de poder ou defesa costuma ser substancial.

A formula básica do game funciona bem, especialmente se você é um fã de longa data e quer acompanhar a história que está sendo contada pela Blizzard. Há uma dose um tanto generosa de retcons (conexões com o passado refeitas para se adequar ao roteiro), mas é legal ver como a desenvolvedora conseguiu trazer de voltas rostos conhecidos de Diablo II e apresentá-los em um novo contexto.

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Também é positivo ver que dá para escapar da maioria dos elementos tipicamente mobile do jogo se o interesse é acompanhar somente a trama — que raramente exige que o personagem possua um nível específico para avançar. O jogador até é obrigado a completar alguns tutoriais, mas, em geral, pode se focar a maior parte do tempo em avançar na história sem grandes obstáculos.

As simplificações feitas pela Blizzard acabam não prejudicando muito a experiência central de Diablo Immortal, que mantém as características centrais da série. Matar monstros, executar golpes especiais e descobrir novos locais é um processo prazeroso, que funciona bem tanto no PC quanto em uma tela sensível ao toque.

Matar monstros, executar golpes especiais e descobrir novos locais é um processo prazeroso

Tive a oportunidade de jogar o game em três plataformas: em um iPad Air 3, em um Samsung Galaxy S10 e em um PC (Core i9 9900K, RTX 3080, 32 GB de RAM DDR4) e tive uma boa experiência competente em todas elas. No entanto, nem tudo foi perfeito: a tela do smartphone pareceu pequena demais para a quantidade de elementos na tela, enquanto no PC senti falta de opções gráficas dignas de um jogo nativo à plataforma — fica evidente que o port mobile surgiu como um “extra” no processo de desenvolvimento.

Também tive alguns problemas de desempenho no smartphone: embora seu hardware já seja um tanto antigo, os sistemas da Blizzard apontam que ele é suficiente para uma experiência na qualidade média a 30 FPS. Na prática, meu gameplay foi marcado por quedas de frames constantes e travamentos regulares, que diminuíram (mas não cessaram) somente após a instalação dos pacotes de conteúdos opcionais oferecidos pela empresa.

Já no iPad e no PC, a experiência correu bem nas opções de qualidade mais altas e framerates acima dos 60 FPS — no computador, optei por destravar o desempenho máximo. No entanto, ainda tive que lidar com alguns bugs, que incluíram desde modelos de inimigos que ficavam presos na tela até a impossibilidade temporária de usar poderes ou poções de cura (que só foram restaurados após resetar o game).

Muita (muita mesmo) coisa para fazer

Mesmo após o fim de sua história principal — que agrada, embora não surpreenda —, Diablo Immortal tem conteúdos suficientes para justificar centenas de horas de jogo. Além de poder testar novas classes, o jogador vai ter acesso a um Passe de Batalha com 40 níveis (gratuitos e pagos) para completar, missões adicionais dos grupos Imortais e Sombras, revelações da ordem dos Horadrin e centenas de níveis Paragon para conquistar.

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A quantidade de coisas a fazer chega a ser um pouco intimidante, e deixa claro que terminar a história é somente o começo de uma grande jornada. O título também traz um sistema de raids — todos os jogadores certamente vão ver o nome Lassal surgir no chat em algum momento —, bandos de guerra, clãs e uma arena PvP para quem deseja passar o tempo explorando seus aspectos mais competitivos.

Diablo Immortal tem conteúdos suficientes para justificar centenas de horas de jogo

Além de explorar Fendas, pequenos labirintos criadores de forma aleatória e repletos de recompensas, o jogador pode participar de eventos do mundo, explorar partes secundárias do mapa e partir em busca de chefes opcionais. Enquanto isso acontece, o game avança naturalmente em seu Passe de Batalha gratuito, que rende acesso a novos equipamentos, gemas e a pequenos bônus de recursos necessários para evoluir itens do inventário.

Preencher o Passe não é algo 100% obrigatório, mas surge de forma bastante natural — e as pequenas missões apontadas por ele indicam o que fazer em momentos de dúvida. Em geral, isso se resume a bater em inimigos em regiões diferentes, mas essa parte essencial da série Diablo funciona tão bem que é difícil reclamar do loop de gameplay básico criado pela Blizzard e pela NetEase.

O game também traz algumas soluções de qualidade de vida bastante interessantes: para quem não domina a série, o jogo traz sugestões de quais habilidades funcionam em conjunto e quais os equipamentos ideais para aproveitá-las ao máximo. De forma semelhante, o jogador pode transportar os upgrades feitos em um equipamento para outro mais poderoso, bem como usar a essência de itens Lendários para transformar armaduras e armas da mesma categoria de raridade.

Diablo Immortal pega pesado nas microtransações

Chegando ao ponto mais sensível de tudo o que envolve Diablo Immortal, é preciso ser claro: você pode aproveitar muito bem a maior parte do game sem pagar nada por isso. A Blizzard não mentiu quando disse que o título é totalmente acessível para jogadores gratuitos — ela só não deixou claro que seria bastante difícil fazer isso em algumas áreas.

O Passe de Batalha é somente a camada mais superficial das microtransações do jogo, e os R$ 27,90 cobrados por ele são relativamente baratos dado as demais ofertas disponíveis — isso se você não comprar a versão que salta alguns níveis. O game também oferece o acesso a uma série de itens totalmente cosméticos, que não achei particularmente atraentes, mas podem ser uma maneira interessante de fazer um jogador se destacar em meio ao público.

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Diablo Immortal também oferece alguns “pacotes” de itens, que prometem não fazer um grande estrago na carteira e tem preços que variam entre R$ 4,90 e pouco mais de R$ 11. Mas já que você já registrou o cartão de crédito no Battle.net, por que não investir em serviços? Por somente R$ 54,90 mensais, você pode expandir seu inventário, ganhar mais bônus de login diários e acessar o mercado de qualquer ponto do mapa.

Já que você investiu nisso, também vale a pena comprar um pacote de Orbes (de R$ 4,90 até R$ 549,90), que você pode usar para comprar joias lendárias que tornam as Fendas mais recompensadoras (mas sempre use três de cada vez, para garantir melhores resultados). Aproveitando a viagem, o jogador pode gastar o que sobrou de seu limite do cartão em materiais — sabe como é, dá muito trabalho gastar centenas de horas coletando recursos para subir somente um ou dois níveis de seus itens.

Que fique claro: em nenhum momento Diablo Immortal exige que você compre nada disso para ser jogado, mas a Blizzard deixa bem claro que seria uma boa ideia que o jogador faça isso em algum momento. Ela faz isso tanto de forma direta, exibindo diversos anúncios e lembretes para acessar sua loja, quanto indireta —esta última mais cruel e que afeta diretamente a diversão.

Especialmente ao chegar no endgame, fica claro o quanto o jogo foi programado para dificultar o avanço de jogadores que buscam equipamentos mais poderosos. Muitos dos recursos de upgrade necessários são raríssimos e estão restritos às Fendas — as mesmas que você pode tornar mais recompensadoras se compras as joias lendárias que são fornecidas a conta-gotas para quem joga gratuitamente.

o jogo foi programado para dificultar o avanço de jogadores que buscam equipamentos mais poderosos

Essa tática de “vencer pelo cansaço” não é incomum em jogos mobile, mas se torna bastante evidente no trabalho conjunto da Blizzard com a NetEase. O aspecto mais perverso de tudo é que o jogador nunca tem a garantia de que vai conseguir o que quer, dado os fortes aspectos aleatórios da série — que, aqui, são usados para estimular mais compras e, com esperança, resultados mais positivos. Não à toa, países como a Bélgica e a Holanda decidiram banir a distribuição do game, por considerá-lo um adepto da famosa prática das caixas de loot.

Um bom jogo mobile, mas um Diablo insuficiente

Diablo Immortal é um game mobile divertido, com mecânicas básicas bem construídas e que funciona bem em todas as plataformas disponíveis. Ao mesmo tempo, é fácil considerá-lo o jogo mais fraco de toda a série, justamente pelo excesso de microtransações que mexem com uma parte essencial da franquia.

Um bom Diablo envolve um gameplay recompensador, classes com personalidade própria e uma história de conflito com as forças do mal — e tudo isso Immortal tem. Ao mesmo tempo, um game de qualidade da série sabe recompensar o jogador pelo tempo investido, fazendo com que valha a pena dedicar tempo a ele — aspecto no qual o título falha graças à grande influência das microtransações.

A sensação que fica, principalmente quando adentramos o endgame, não é a de que compras vantagens é uma forma de “tomar um atalho”, mas sim de percorrer o caminho ideal. Já quem não quer abrir a carteira sente que fica em uma estrada mais longa e esburacada, onde as recompensas surgem de forma tão esparsa que a caminhada parece não fazer mais sentido.

Sei bem que Diablo é uma série que exige esforço, e que maximizar um único personagem não é uma tarefa que pode ser realizada em poucos dias. No entanto, até hoje, essa sempre pareceu uma tarefa possível para quem comprava os jogos desenvolvidos para a Blizzard — regra que Immortal não parece respeitar quando se trata de seus jogadores gratuitos.

A Blizzard pode dizer que o game não é “pay to win”, mas isso não chega a ser exatamente verdade

A Blizzard pode dizer que o game não é “pay to win”, mas isso não chega a ser exatamente verdade: no PvP, por exemplo, as vantagens obtidas por quem investiu no upgrade rápido de itens é inegável. Ainda dá para se divertir nos demais modos de jogo, mas é difícil não escapar da sensação de que, pagando, o game seria um tantinho mais divertido e recompensador.

Em resumo, Diablo Immortal é um jogo que deve agradar quem gosta da história da série e quer uma experiência facilmente acessível em qualquer aparelho portátil. No entanto, ao fim das minhas horas com o game, o que ficou foi a vontade de retornar a Diablo III e a esperança de que Diablo IV não se renda a formas de monetização tão predatórias.

Diablo Immortal foi analisado em suas versões para Android, iOS e PC de modo gratuito e sem nenhum bônus oferecido pela Blizzard.


PRÓS
Controles funcionam bem em telas touch
Crossplay e crossave entre plataformas
Simplificações não prejudicam a essência do gameplay
CONTRAS
Incentivos constantes à compra de microtransações
Evolução no endgame é consideravelmente mais lenta para jogadores gratuitos
Interface poluída dificulta visualização do game em telas pequenas
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  • Redator: Felipe Gugelmin

    Felipe Gugelmin

    Jornalista com 10 anos de experiência nas áreas de tecnologia e games, gosta de estar por dentro das últimas tendências e novidades. Dedica boa parte do tempo livre a jogar (representante da PC Master Race), mas também arranja um tempo para a vida social, leituras e dar passeiros com seu cachorro.

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