Análise de Resident Evil Village - Uma obra-prima da Capcom cheia de suspense e ação

Ainda é cedo para dizer "Jogo do Ano", mas temos aqui um dos melhores games de 2021
Por Mateus Mognon 05/05/2021 12:00 | atualizado 05/05/2021 12:19 comentários Reportar erro

Após uma sequência de remakes nos últimos anos, Resident Evil finalmente recebeu um jogo com história original e que expande o interessante universo da franquia. Em Resident Evil Village, a Capcom volta a acompanhar a narrativa de Ethan Winters, o protagonista sem rosto que, após salvar a namorada de uma família muito louca, vai parar em um vilarejo cheio de mistérios e criaturas mitológicas, como bruxas e lobisomens.

Assim como em Resident Evil 7, o jogo da franquia adota câmera em primeira pessoa. Ainda assim, a clássica fórmula da franquia continua presente em Village, que traz aspectos que remontam até mesmo ao clássico Resident Evil 4, um dos títulos mais populares da série de games de terror.

Além de misturar o presente e passado nos jogos da Capcom, Village também é o primeiro jogo da franquia lançado no PS5 e Xbox Series X e S. Ainda assim, o game não solta as amarras da oitava geração e conta com versões para Xbox One e PlayStation 4.

Após mais de 10 horas andando na pele de Ethan Winters na versão de PC de Resident Evil Village graças a uma cópia cedida pela Capcom, posso dizer que temos aqui um dos melhores jogos de 2021. Veja a análise completa sem spoilers para entender como o novo Resident Evil pode te encantar e conferir o que o novo projeto da Capcom tem para oferecer no computador e consoles de oitava e nona geração.

História

Desde sua apresentação, Resident Evil Village enfrentou o ceticismo de fãs mais puristas por trazer como principal ameaça seres nada convencionais para a franquia, como lobisomens, bruxas e vampiros. Se você faz parte desse grupo, pode ficar tranquilo. Mesmo com as voltas dadas no roteiro, o jogo ainda segue a principal fórmula da franquia e aborda o uso de armas biológicas para fins egocêntricos.

O início da narrativa de Resident Evil Village é cheio de mistérios, o que serve para instigar o jogador a buscar respostas. Somos colocados na pele de Ethan após Chris Redfield, um dos maiores heróis da franquia, descarregar uma arma em Mia, a esposa do protagonista, e sequestrar a filha do casal, a pequena Rose. Winters acaba indo parar em uma pequena vila no interior de Europa em busca de sua cria, mas se depara com um ataque de monstros mitológicos e uma cidade que cultua Mãe Miranda, uma estranha entidade da região.

Para alimentar o suspense, o roteiro mantém a narrativa de Ethan envolta em mistério por quase toda a aventura, o que deixa o jogador sem respostas importantes por muito tempo. Mas não confunda isso com enrolação: algumas pistas vão aparecendo durante o gameplay, mas só quem perseverar até o ato final será presentado com as reviravoltas da história de Village. E a jornada vale a pena: o jogo possui um desfecho gratificante e que abre portas para um futuro interessante na franquia.

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Enquanto o enredo principal demora para se resolver, o jogador vai conhecendo o vilarejo e seus principais habitantes, que são um dos pontos altos do game.

Os vilões de Resident Evil

Para encontrar sua filha, Ethan precisa enfrentar Mãe Miranda e seus quatro lordes. Apesar de Lady Dimitrescu ter ganhado bastante atenção e amor da comunidade com suas medidas excêntricas, é possível dizer que a vampirona é uma das personagens menos aproveitadas entre os principais antagonistas.

Cada um dos quatro chefes da Mãe Miranda possui seu pano de fundo e cenário de desenvolvimento, e Lady Dimitrescu e suas filhas não ganham tanto aprofundamento. Talvez seja devido às expectativas criadas em cima da personagem e seu núcleo, mas o jogo deixa um gosto de "quero mais" nas fases do castelo no quesito narrativa.

Mesmo sem tanto aprofundamento, a vampira que conquistou corações garante momentos empolgantes de ação. Além disso, o cenário do castelo é um dos mais caprichados do game. Vale a pena explorar cada canto, fugir das belas ameaças e aproveitar os gráficos rebuscados do ambiente.

Os outros vilões merecem atenção por surpreender na variedade de suas histórias e também no gameplay. A casa de Donna Beneviento garante momentos assustadores com sua imersão. Já o embate contra Salvatore Moreau traz uma surpresa em seu tom narrativo, já que a Capcom vai além da horrenda aparência e traz um aprofundamento na personalidade do antagonista.

No entanto, o grande destaque mesmo fica para Karl Heisenberg, que merece entrar no hall de melhores vilões da franquia Resident Evil. O personagem traz a história mais aprofundada do game com sua relação conturbada com Mãe Miranda e eleva o nível de criatividade de inimigos da franquia em sua fábrica.

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História contada no ambiente

Outro "personagem" importante de Resident Evil Village é a própria vila, e o jogador descobre isso de um jeito clássico na franquia: explorando cada canto do mapa. Grande parte da história principal fica escancarada para que você não perca pontos importantes, mas existem recompensas aos perfeccionistas que dedicam um tempo para olhar as cabanas do vilarejo e os cantos de cada cenário.

O jogador pode encontrar documentos mostrando a influência de Mãe Miranda no vilarejo, pesquisas sobre a criação de inimigos e descobrir a origens dos vilões. A busca por esses itens gera outra visão sobre o local e seus moradores. E o melhor de tudo: nem é "mucho texto". Todos os documentos contam com poucas páginas e detalhes diretos, o que não quebra a imersão e garante uma experiência rápida de consumo de informação.


(Imagem: Mateus Mognn/Captura de tela)

Além de garantir um aprofundamento para a vila, a busca por documentos e itens também recompensa os jogadores com informações extras ligando Resident Evil Village com o universo da franquia. Alguns detalhes são um presente para quem já é fã de longa data da série, além de um convite para os novatos que ainda não conhecem esse universo com tanta profundidade.

No entanto, algumas informações poderiam ganhar mais atenção dentro da história principal e gameplay, seja em diálogos ou em sequências com jogabilidade. A jornada em Resident Evil Village é consideravelmente curta e dar vida para alguns acontecimentos poderia garantir ainda mais ação e momentos empolgantes na campanha.

Gameplay

Enquanto a história capricha ao entregar suspense e personagens carismáticos, o gameplay de Village brilha ao combinar a vibe de Resident Evil 4 com o frescor da jogabilidade em primeira pessoa de Resident Evil 7. A experiência com a nova perspectiva de câmera garante um novo nível de imersão, que só é atrapalhado pela movimentação um pouco travada (algo solucionável dentro das configurações do jogo).

Village é uma ótima porta de entrada para a franquia em primeira pessoa
 

Para quem ainda não experimentou a câmera em primeira pessoa na franquia, Resident Evil Village é uma ótima porta de entrada, já que não é tão "claustrofóbico" quanto RE: 7 e possui sequências memoráveis de ação. E, mesmo com a perspectiva diferente, a estrutura segue os padrões da franquia: o jogador ainda precisa explorar cada canto do mapa para tirar melhor proveito do gameplay, resolver puzzles medievais e gerenciar de itens numa maleta, tal qual em Resident Evil 4.

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Como esperado, a Capcom "infelizmente" também utiliza a câmera em primeira pessoa para aplicar jump scares, aqueles sustos que simplesmente pulam na sua cara. No entanto, a frequência da técnica não é tão grande e é compensada por uma atmosfera satisfatória de suspense. Ethan não é bem-vindo na vila e o clima de medo está no ar a todo momento, o que combina muito bem com a confusão do personagem durante grande parte da narrativa.

Progressão

Quando o assunto é tiroteio, o conjunto de armas oferecido no gameplay não é muito grande, como de costume na franquia. Porém, o arsenal limitado já é suficiente para fazer o jogador pensar em quais são as melhores estratégias para brigar com os adversários sobre-humanos.

Toda a progressão gira em torno de uma moeda chamada Lei, que pode ser encontrada no ambiente e matando inimigos. O jogo também conta com diversos tesouros valiosos, que podem ser vendidos para o Duque, o mercador de Resident Evil Village.

O sistema de upgrade de armas e criação de itens funciona muito bem e estimula a ser agressivo durante o gameplay. A adição de um botão de defesa e o design das fases permite que o jogador passe reto por inimigos em muitos momentos. No entanto, também vale a pena gastar as preciosas balas para conseguir tesouros para vender e aprimorar equipamentos. 

A cozinha do Duque parece meio desnecessária

Outra adição feita no gameplay é a cozinha do Duque. O jogador pode encontrar e caçar animais em Resident Evil Village para conseguir carne e fazer receitas com o mercador. Os pratos garantem benefícios especiais durante o gameplay, mas infelizmente não vi utilidade na novidade durante minha aventura, que rolou na dificuldade Normal.

O número de animais na vila é limitado e jogar ingredientes fora ou vendê-los pode impossibilitar a realização de certas receitas. O jogo é desafiador no modo Normal e não senti falta dos buffs prometidos pela comida. A função pode fazer a diferença durante o replay em dificuldades mais árduas, como o novo modo que é liberado após o fim da campanha, mas, para o "jogador médio", parece dispensável.

Fator replay

Apesar da campanha curta, Resident Evil Village possui um gameplay caprichado e fases que estimulam uma secunda jornada. Seja para encontrar itens escondidos ou fazer um melhor tempo no save, revisitar Village é uma experiência interessante, e eu aprendi isso da pior maneira possível.

Após um erro da Steam, perdi cerca de quatro horas de gameplay no início do jogo. Movido pelo ódio, resolvi recomeçar o trecho de introdução e consegui repetir o mesmo percurso em pouco mais de uma hora, o que foi bem gratificante.

Os puzzles de ambiente de Resident Evil Village surpreendem à primeira vista e até garantem um desafio mental, mas não são complexos ou cansativos. Quando o jogador pega o jeito durante a primeira zerada, é bem interessante aproveitar o gameplay de ação com um ritmo mais acelerado.

Combates variados

E no combate? Resident Evil Village entrega uma das experiências mais variadas da franquia de games. Cada área do jogo conta com seus próprios antagonistas, o que gera uma experiência única na briga com os lordes de Mãe Miranda.

Cada um dos vilões principais utiliza seus "poderes" para criar lacaios e defesas da forma que mais lhe agrada, e trazem referências que lembram clássicos da franquia. O castelo de Lady Dimitrescu é um passeio pela temática de vampiros, com a mulher alta e suas filhas desempenhando um papel similar ao de Mr X em Resident Evil 2 Remake.

Já a casa de Donna Beneviento é quase um spin-off de Resident Evil 7 e possui ambientes apertados acompanhados de uma atmosfera ameaçadora e claustrofóbica. O combate contra Salvatore Moreau, assim como o gameplay na vila, faz o jogador voltar aos tempos de Resident Evil 4 com sua palheta de cores desgastada e ambientes alagados. Em alguns momentos, só faltou a Ashley gritando "Help me Leon" no meio da região pantanosa cheia de alavancas e tesouros escondidos.

Assim como na história, Karl Heisenberg também brilha quando o assunto é gameplay e traz um belo frescor para o jogo. O ambiente do lorde é uma fábrica, que traz um toque Cyberpunk para o mundo mitológico e sombrio de Resident Evil Village. É o cenário em que melhor temos a fusão entre o misticismo envolto na região com a ciência e tecnologia que fazem parte do legado de Resident Evil.

Andar pelos corredores escuros da fábrica de Heisenberg e dar de cara com zumbis modificados tecnologicamente garante momentos assustadores. O local conta com alguns jump scares medonhos, algo que não me agrada muito, mas é primoroso ver como a ambientação prepara o jogador para encontrar algo assustador a cada sala. 

Mesmo para quem não é fã de terror, vale a pena jogar Resident Evil Village

O ato final também brinda os jogadores com uma bela dose de ação intensa, mostrando todo o potencial "armamentístico" de Resident Evil Village. Sequências como essa mostram que, mesmo para quem não é muito fã de terror, vale a pena jogar o novo projeto da Capcom.

Quem curtir a jogabilidade de ação também pode aproveitar o modo "Mercenários", liberado após a campanha. O extra é 100% focado em gameplay permite revisitar locais da história e enfrentar ondas de inimigos com todo o arsenal de armas de Resident Evil Village. Além disso, também é possível obter habilidades especiais que modificam o combate, garantindo ainda mais variedade para as brigas.

Como o gameplay de tiro é bem delicioso, vale a pena visitar o modo extra para passar o tempo ou até aprimorar as habilidades de tiro antes de enfrentar o jogo em dificuldades mais árduas.

Gráficos e som

Na parte técnica, Resident Evil Village conta com dois aspectos principais e que merecem destaque: o jogo é o primeiro da franquia a receber dublagem em português brasileiro e também marca a estreia da série no PS5 e Xbox Series X e S, com direito a Ray Tracing.

As vozes no nosso idioma chegam em ótima hora e de maneira satisfatória. A história de Resident Evil Village é bastante cinematográfica e ver todo o conteúdo localizado em nosso idioma é muito bom. E, como o elenco de personagens principais não é tão grande, a Capcom conseguiu manter um nível de qualidade marcante na adaptação de todas as vozes.

Em relação aos gráficos, Resident Evil Village capricha por entregar uma experiência de qualidade desde hardwares mais básicos até consoles e PCs potentes. Não espere uma revolução visual e que mostra todo o potencial da nona geração de consoles, mas o resultado é muito satisfatório. Os ambientes estão bem detalhados, o visual dos inimigos é criativo e a câmera em primeira pessoa garante uma visão privilegiada dentro do mundo da vila. Tirando alguns probleminhas em líquidos e cabelos/pelos, assim como algumas texturas que não ficam bem olhadas de muito proximo, a experiência visual agrada bastante.

Quem está com processamento de GPU sobrando no computador pode encarar o jogo em altas taxas de quadros ou com Ray Tracing, se a placa for compatível. Infelizmente não temos DLSS no game, o que gera quedas significativas de quadros por segundo durante o uso do traçado de raios em tempo real. 

Seja em hardware potente ou PC modesto, Resident Evil Village roda bonito

A mesma experiência também está disponível nos consoles. O game chega com diferentes configurações priorizando Ray Tracing e frames por segundo. O traçado de raios garante visuais mais rebuscados para o jogo, mas, durante os momentos de ação, vale a pena apostar no framerate mais alto.

Para a galera do PC, o game também vem otimizado para ultrawide, o que garante ainda mais imersão no gameplay em primeira pessoa. Além disso, o jogo não está pesado em hardwares modestos: parte da minha jornada com Ethan Winters rolou no notebook guerreiro com a GTX 1050 Ti, que segurou o jogo em Full HD e 50-60 fps com um nível de qualidade aceitável. É gratificante ver um lançamento desse cacife rodando bem em uma GPU de entrada durante o apocalipse das placas de vídeo.

No final das contas, esse é um dos pontos altos do game na parte técnica. Seja em um hardware de alto desempenho, PCs modestos ou console da geração passada, Resident Evil Village roda bonito. O game não fica espetacular no Xbox One, PS4 e placas como a GTX 1050 Ti, mas você pode encarar o jogo com um visual agradável mesmo sem ter uma máquina de ponta.

Para quem possui um console de nova geração ou um PC Gamer de qualidade, a experiência é bela e satisfatória. Não espere algo revolucionário do game, mas a RE Engine entrega gráficos de alto nível, animações de qualidade e personagens bonitões, como de costume. E o jogo ainda conta com upgrade gratuito nos consoles da antiga geração, um bônus que nem todo mundo está disposto a entregar sem custos.

Conclusão

Ainda estamos no começo de 2021 e muitas surpresas podem acontecer durante o ano, mas Resident Evil Village merece uma vaga entre os indicados nas premiações de Game do Ano. A história até pode parecer confusa em um primeiro momento, mas a jornada de Ethan Winters é cheia de reviravoltas e traz um desfecho interessante para a fase atual da franquia da Capcom.

Na parte de gameplay, temos o equilíbrio perfeito entre a perspectiva em primeira pessoa e mecânicas clássicas da franquia. A junção dos elementos garante um jogo assustador, cheio de ação e que certamente te deixará com vontade de zerar a campanha novamente, seja em busca de segredos ou um recorde de tempo no save. 

Resident Evil Village é um dos melhores games de 2021

Além de ser um game de terror de alto nível, Village também é um jogo de ação muito competente. A mistura torna o título uma porta de entrada interessante para quem não conhece a série e também para quem já é veterano no mundo de Resident Evil e acabou perdendo a conexão com a franquia.

A RE Engine faz milagre na parte de gráfica e o jogo roda de maneira satisfatória em hardwares modestos, além de caprichar nos gráficos em sistemas mais atuais. Ou seja, independente de sua máquina ou coragem para jogos de terror, vale a pena dar uma chance para Resident Evil Village.


RECOMENDA? SIM Seja na antiga ou nova geração, e também no PC, vale a pena enfrentar seus medos e jogar Resident Evil Village
PRÓS
História cheia de surpresas
Variedade de gameplay
Dublagem em português brasileiro
Tá rodando bem na GTX 1050 Ti
Karl Heisenberg
CONTRAS
Podia ter mais Lady Dimitrescu
Sistema de receitas não faz diferença
  • Redator: Mateus Mognon

    Mateus Mognon

    Mateus Mognon é formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina. Vencedor do prêmio SET Universitário na Categoria Reportagem Digital, atua nos sites do grupo Adrenaline desde 2014. Atualmente, colabora para os veículos com notícias, análises e artigos envolvendo tecnologia e games.

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