Análise de The Medium - uma história imersiva e necessária para o Xbox Series X e S

O game mais ambicioso da Bloober Team é uma grande adição ao Game Pass e vale os 30 frames entregues pela sua desafiadora parte técnica

A Bloober Team já possui alguns hits em sua carreira no mundo dos games, como Observer e Blair Witch. Até agora, porém, o projeto mais ambicioso da companhia polonesa é The Medium, que chega em 28 de janeiro ao Xbox Series X e S, bem como no PC, com lançamento direto no Xbox Game Pass e exclusividade temporária nos consoles da Microsoft.

Inspirado em clássicos como os primeiros Resident Evil e Silent Hill, o jogo de terror tem como grande diferencial um sistema de realidade dupla. A protagonista é uma médium que consegue transitar entre dois mundos simultaneamente, exigindo uma renderização dupla em certos momentos do gameplay.

Quer saber se a história de Marianne vai além do gameplay diferenciado e vale seu tempo? Confira nossa análise de The Medium, feita com um acesso antecipado fornecido pela Microsoft Brasil no Xbox Series X e PC.

História

The Medium é um exclusivo temporário dos sistemas da Microsoft, mas traz conceitos em sua narrativa que podem fazer muito bem para a nova fase do Xbox. Apesar de o gameplay chamar a atenção no jogo de terror, seu grande destaque fica por conta da história, que é bastante linear, e sua protagonista marcante, Marianne.

A premissa principal da narrativa se inspira em ideias espíritas. A protagonista é uma médium e consegue transitar entre duas realidades: o nosso mundo e uma versão alternativa dele, um limbo assustador que fica entre a vida e a morte. Enquanto a história do mundo real ocorre nos anos 90, a Terra alternativa dos espíritos é habitada por almas com negócios inacabados ou que não conseguiram passar para a outra vida, com tudo seguindo uma estética inspirada nas obras do pintor polonês surrealista Zdzislaw Beksinski.


The Medium capricha na ambientação de terror. (Imagem: Mateus Mognon)

A história de Marianne se passa em um dia nada bom para a personagem. Após perder seu pai adotivo, a protagonista recebe uma ligação de um homem misterioso dizendo para ela ir até o Hotel Niwa. Cenário de um grande massacre, o resort guarda diversos mistérios e obrigam a médium a utilizar seu dom para descobrir uma série de verdades sobre sua vida e ligação com o local.

Com cerca de 10 horas de duração, The Medium coloca a protagonista para contar a história para o jogador durante boa parte do tempo. Além disso, é possível descobrir detalhes da narrativa explorando o cenário e encontrando "ecos do passado" em objetos esquecidos no local. A integração de história e gameplay garante uma cadência rápida para a progressão, o que não torna o jogo cansativo.

Os mistérios são tão instigantes que eu quase matei o jogo inteiro em um único dia, mas foi complicado continuar explorando o local mal-assombrado quando anoiteceu e principal antagonista da trama apareceu.

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Mais Sexto Sentido que Resident Evil

A ausência de hordas de inimigos e os raros jumpscares deixam quase todo o terror de The Medium para a ambientação do game, o que é suficiente para criar uma atmosfera de tensão. Os locais surrealistas e monstros deformados são acompanhados pela trilha sonora de Akira Yamaoka, que trabalhou em Silent Hill.

 

Eu não sou um grande entusiasta dos jogos de terror, mas fiquei tão instigado com os mistérios de The Medium que pretendia acabar o jogo inteiro em apenas um dia. Porém, a noite chegou aqui em casa justamente na hora em que encontrei o vilão Maw, dublado brilhantemente por Troy Baker, enquanto a música de Yamaoka dominava o mundo surrealista dos espíritos. Minha coragem só voltou na manhã seguinte.

Enquanto história e ambientação chamam a atenção em The Medium, os jogadores mais ativos já podem tirar o cavalo da chuva quando o assunto é ação desenfreada. Durante sua jornada em dois mundos no Hotel Niwa, Marianne pratica mais a diplomacia que a violência.


Cada alma que cruza o caminho de Marianne tem uma história para ser explorada. (Imagem: Mateus Mognon)

Apesar de ter como inspiração os primeiros jogos da série Resident Evil, The Medium coloca o jogador para ajudar almas errantes a encontrarem a luz. Para fazer isso, é necessário resolver puzzles e conhecer a história de cada pessoa que deixará a assustadora realidade alternativa.

Enquanto o trabalho convencional de médium ajuda a história a progredir, o grande destaque do jogo fica por conta do "backstory" dos vilões, que são criaturas deformadas que nascem do trauma de pessoas que aparecem na história. Uma infância difícil, crimes violentos, abusos: fantasmas que são bastante reais na humanidade ganham rosto e forma em The Medium e são a principal ameaça para Marianne.

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Leves spoilers a seguir: outro ponto que merece destaque em relação à história é Thomas, que também possui poderes mediúnicos e aparece durante o jogo. O personagem traz habilidades mais agressivas e um poder diferente do utilizado por Marianne, o que colabora para a dualidade que permeia todo o game. Ainda assim, quem gosta mesmo de atirar em zumbis ou sair tocando o terror pra cima de monstros não precisa criar expectativas, pois The Medium é uma experiência mais contemplativa que movimentada. Leves Spoilers terminam aqui.

The Medium é uma experiência mais contemplativa que movimentada

Apesar das fortes referências à Silent Hill e Resident Evil, The Medium está mais para o filme "O Sexto Sentido" ou o icônico jogo Amnesia, entregando um terror que não está ligado à sobrevivência, mas sim em transitar num mundo obscuro, misterioso e com ameaças que não podem ser derrotadas na base da bala.

Um nova franquia?

Como o sucesso de jogos como os novos Resident Evil indicam, a grande maioria dos jogadores prefere cair pra ação em produções com temática de horror, e o fato de The Medium seguir um caminho diferente certamente vai deixar o jogo fora do radar de muita gente. Ainda assim, sua história cheia de reviravoltas e com personagens marcantes tem potencial para transformar o game em uma nova franquia original.

The Medium tem potencial e abertura narrativa para se tornar uma franquia de terror. (Imagem: Mateus Mognon)

The Medium termina com um final sensacional e bastante aberto, dando brechas para uma sequência e até trazendo uma cena pós-créditos. Além disso, o passado de Marianne, que é construído apenas com diálogos, também tem potencial para um jogo de prequel dando mais profundidade para o universo do game. Considerando o foco da Microsoft em conteúdos originais, seria interessante ver a empresa injetando dinheiro no estúdio polonês para garantir mais jogos dando ênfase na narrativa para o Game Pass.

Câmera nostálgica, mas limitada

A ambientação e a história de The Medium carregam o jogo, mas o grande ponto que chama a atenção no projeto é seu gameplay. A câmera fixa e a movimentação tanque remetem aos primeiros jogos da franquia Resident Evil e servem muito bem ao propósito do game, mas os dois fatores podem incomodar inicialmente.

O jogador está limitado aos ângulos de câmera escolhidos pela Bloober Team. (Imagem: Mateus Mognon)

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Durante toda a minha jornada em The Medium, apenas uma coisa me assustou mais que o horripilante vilão do jogo: a combinação de movimentação travada e câmera limitada. A Bloober Team explicou que o objetivo da exibição fixa e movimentação tanque visam remeter aos clássicos do terror que inspiraram o game e também dar uma pegada cinemática para o gameplay.

De fato, a câmera fixa ajuda a desenvolvedora a contar a história em certos momentos e traz um toque de nostalgia para todo o gameplay. Porém, o preço da decisão criativa pode ser bem alto, já que o game conta com pouca ação em sua jogabilidade e a câmera torna difícil simplesmente andar em alguns momentos. Em salas pequenas, por exemplo, o simples ato de virar Marianne pode ser complicado.

A personagem também corre no estilo "marcha olímpica" e certas interações possuem um tempo de resposta lento, como escalar ou empurrar objetos. Até mesmo pausar o jogo no PC ou Xbox Series X faz o jogo "pensar" por alguns segundos antes de realizar a ação.

Dualidade como ferramenta narrativa

Enquanto a movimentação e câmera podem afastar jogadores, o sistema de realidade dupla de Medium vale pelo menos o donwload do jogo no Xbox Game Pass. A parte chamativa em que os dois mundos são renderizados simultaneamente só aparece durante um terço do tempo, mas toda a narrativa e o gameplay giram em torno dos dois mundos.

A tela dividida aparece durante apenas um terço do jogo, trazendo algumas mecânicas extras de gameplay. (Imagem: Mateus Mognon)

Quando a tela está dividida, Marianne se movimenta simultaneamente nos dois mundos e o jogador precisa prestar atenção em ambas as realidades para resolver os quebra-cabeças. Uma das mecânicas presentes nesses momentos é o "mergulho", que permite controlar apenas a parte espiritual da protagonista por um tempo limitado.

O gameplay em tela dividida não vai muito longe, mas o slip-screen espiritual serve muito bem para propósitos narrativos. Os momentos em que o pesado recursos mais chamou minha atenção foram as cenas em que Marianne interage com personagens do mundo alternativo enquanto sua contraparte real fica falando sozinha.


A tela dividida também é utilizada como ferramenta narrativa nas cutscenes, o que dá outra perspectiva sobre o mundo dos espíritos. (Imagem: Mateus Mognon)

A Bloober Team também utiliza o recurso para mostrar a personagem de diferentes ângulos durante momentos mais intensos. Com isso, é possível ver Marianne e o interlocutor ao mesmo tempo, por exemplo. O uso da tela dividida como recurso narrativo é apenas um detalhe, mas ajuda a construir e consolidar o mundo dividido em que o jogo se passa.

Detetive espiritual

Tanto na tela dividida quanto na exploração de uma realidade por vez, a base do gameplay de The Medium é a exploração do ambiente. O jogador precisa encarnar o "detetive espiritual", coletar pistas e resolver quebra-cabeças para debandar espíritos e desvendar mistérios sobre o Hotel Niwa e seus habitantes.


No mundo dos vivos, tudo que Marianne pode fazer é se esconder. (Imagem: Mateus Mognon)

Como Resident Evil é uma das principais inspirações do game, meu maior medo era ter que ficar dando voltas pelo mesmo lugar e resolvendo quebra-cabeças como encontrar peças de xadrez no esgoto. Felizmente isso não acontece: grande parte dos puzzles de The Medium estão inseridos na narrativa e possuem uma progressão linear. Com isso, assim que você termina um desafio, o próprio level design te guia para a próxima parte da história.

De maneira resumida, The Medium é um jogo de narrativa linear com mecânicas de investigação e stealth

Além de mecânicas de investigação do ambiente, The Medium também utiliza os poderes de Marianne como médium para resolver puzzles. Quando está no mundo espiritual, a personagem consegue manipular energia, que pode ser utilizada para religar objetos ou formar escudos que protegem de ataques do ambiente. No "mundo dos vivos", a única defesa de Marianne são mecânicas de stealth, como se esconder e trancar a respiração para não ser vista.

Mesmo sem inventar muita moda, o jogo se destaca por fazer bem o que se propõe e garantir uma experiência sólida e memorável de gameplay. Com tantas inspirações envolvidas na construção de The Medium, existiam muitas chances da Bloober Team errar na concepção, mas a empresa conseguiu focar no que realmente importa e garantir um game design direto e que ressalta a história de Marianne e seu mundo sobrenatural.

Gráficos e parte técnica

The Medium é um dos primeiros jogos a ganhar notoriedade por ser feito com o Xbox Series X e S em mente, mas os jogadores não devem criar expectativas quanto aos gráficos do jogo. Durante meu gameplay no console mais potente da Microsoft, encarei o game em resolução 4K e 30 frames por segundo, sem quedas perceptíveis na taxa de quadros, inclusive no split-screen.

A movimentação travada ajuda nessa parte e os 60 quadros acabam não fazendo tanta falta. A câmera fixa, porém, acaba limitando a exploração visual dos cenários, que são bem feitos, mas só podem ser vistos do ângulo proposto pela desenvolvedora. A Microsoft indica que o jogo faz uso de traçado de raios em tempo real, mas como os quadros são bastante estáticos e só a personagem se movimenta, confesso que não percebi nenhum efeitos chamativos.


Capturas em 4K de The Medium no PC com Ray Tracing ativado na RTX 2080 Super e no Xbox Series X com HDR habilitado.

O uso do Ray Tracing fica mais perceptível na versão de computadores, principalmente nas superfícies reflexivas, mas também não é de grande influência durante o gameplay. O uso da função com todo seu esplendor também acaba pesando no hardware. O Ray Tracing normalmente é aplicado somente em uma realidade e utilizar os dois mundos com os efeitos simultaneamente pode derrubar consideravelmente o desempenho até mesmo em placas de vídeo mais potentes.

O game não conta com dublagem em português brasileiro, mas pelo menos vem com legendas no nosso idioma. As vozes em inglês também não decepcionam, com destaque para a participação de Troy Baker. Apesar de alguns momentos com ausência de sincronia labial, o game também se destaca pelo belo trabalho de mapeamento de movimentos e cenários. A equipe da Bloober utilizou locais reais da Polônia para criar o Hotel Niwa e a casa de Marianne, o que dá uma profundidade extra para o trabalho de produção.

Por outro lado, a empresa poderia ter investido mais tempo nas interfaces do game. O menu de configuração no computador  não é tão intuitivo e nem sempre funciona direito. Além disso, não existe um menu de seleção de capítulos após o final da história, o que impede o jogador de voltar para pontos interessantes da história. Como The Medium não traz escolhas que afetam a jogabilidade, não seria muito complicado dividir a narrativa para facilitar o processo de revisitar certos momentos do gameplay.

Em relação aos bugs, The Medium chega funcionando praticamente liso no Xbox Series X. Durante minha jornada com Marianne no console de nova geração, enfrentei apenas alguns glitches visuais no final do jogo, mas nada de tão grave.

Conclusão

Combinando ambientes imersivos e uma história original, The Medium pode ser considerado o melhor jogo focado em narrativa disponível para o Xbox Series X e S nesse início de geração morno para os consoles da Microsoft. Com uma estrutura bastante linear, o jogo cativa com sua narrativa cheia de reviravoltas e com aberturas para a criação de um universo que merece mais games.

Para quem busca uma história imersiva, The Medium é pedida certa no Xbox e PC

A câmera fixa e a movimentação travada garante uma bela dose de nostalgia, mas podem afugentar jogadores acostumados com experiências mais ativas no gênero de terror. Por outro lado, o gameplay com realidade dupla traz um ar de originalidade para o game e ajuda a pavimentar o horripilante mundo dos espíritos em que a narrativa acontece.

Quando o assunto são gráficos, o jogo fica dentro da média no Xbox Series X e ainda não traz um ar de nova geração, apesar de que o sistema de dois mundos certamente daria trabalho para o Xbox One e PS4. A versão de PC do game é bem pesada até mesmo sem Ray Tracing, mas vale a pena encarar os 30 frames por segundo e a câmera fixa para conhecer a intensa história de Marianne.

RECOMENDA? SIM The Medium entrega uma história de suspense imersiva e que merece sua atenção
PRÓS
Narrativa instigante
Ambientação imersiva
Personagens interessantes
Potencial para sequências
Progressão direta e sem rodeios
CONTRAS
Movimentação travada
Sem opção de seleção de capítulos
Pesado pra caramba
  • Redator: Mateus Mognon

    Mateus Mognon

    Mateus Mognon é formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina. Vencedor do prêmio SET Universitário na Categoria Reportagem Digital, atua nos sites do grupo Adrenaline desde 2014. Atualmente, colabora para os veículos com notícias, análises e artigos envolvendo tecnologia e games.

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