Immortals Fenyx Rising: não ser inovador não o impede de ser bom

Game traz pouco de novo, mas acerta em fórmulas que funcionam muito bem

Immortals Fenyx Rising é um jogo de ação tematizado na Grécia Antiga, bebendo fundo na fonte da mitologia da época para compor sua narrativa. O jogo vem em uma sequência de lançamentos de peso da Ubisoft, com Watch Dogs Legion e Assassin's Creed Valhalla, além da dura missão de sair poucos dias antes do lançamento de Cyberpunk 2077. Ou seja, tem muita briga pra conseguir holofotes para si.

O jogo tem claras influências e usa muito de fórmulas já conhecidas de outros títulos de sucesso e relevância, como Zelda Breath of the Wild, Assassin's Creed e até alguns hack 'n' slashs, fazendo com que seja até difícil apontar algo para "chamar de seu". Até para um aspirante a "Zelda-like" ele chegou meio tarde, com Genshin Impact já ficando com esse título. Mas, apesar dessa introdução parecer um tanto negativa, na verdade eu gostei do jogo. Explico no restante da análise.

Gameplay

O elemento mais forte em favor desse jogo, na minha opinião, é a jogabilidade. Immortals conta com um mapa amplo e bastante povoado de coisas a se fazer, explorar ou lutar, dando liberdade ao jogador de ir a qualquer lugar, a qualquer momento.

Seus únicos impedimentos são as capacidades físicas da protagonista de escalar coisas, nadar, correr ou aguentar as porradas das criaturas que habitam cada localidade. Você também precisa ir pegando mantimentos ao longo do caminho, podendo criar poções para serem usadas nos combates. Se você pegar tudo que descrevemos aqui e trocar "fazer poções" por "cozinhar", fica claro porque muitos fazem um paralelo entre esse jogo e Zelda Breath of the Wild.

Mas só porque o game não inventou ou popularizou a fórmula, não quer dizer que ele não possa mandar bem, e Immortals Fenix Rising manda bem. O mapa é bastante amplo e interessante de ser explorado, com grandes variações no relevo, na arquitetura e nos desafios de cada região. Avançar para outro espaço é encontrar novos tipo de inimigos e desafios, e a exploração é bastante recompensadora ao longo da jogatina.

Immortals aposta em fórmulas seguras e, se por um lado não inova, por outro acertou no bom uso dessas referências

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O jogo tem uma boa variedade de coisas para fazer. Além de "descer a lenha" nos inimigos pelo mapa, ele conta com outros elementos como vários quebra-cabeças, alguns musicais, de memórias, outros de raciocínio lógico, todos interessantes de serem realizados. Também tem câmaras onde o jogador passa por desafios, as vezes de lógica, as vezes de combate, para liberar novas habilidades e recursos. Sim, novamente um paralelo com Zelda.

No combate temos uma diferença maior com a franquia da Nintendo. O jogo entra em uma pegada Hack 'n' Slash com o combate se baseando principalmente em atacar, contra-atacar, usar as habilidades, tudo isso cuidando do nível de cansaço da protagonista. Fenix conta com múltiplas habilidades especiais, resultado dos personagens e equipamentos que vão sendo recebidos ao longo da jornada, adicionando novas capacidades durante os combates. 

O gameplay combina bem a exploração de um amplo mapa, boa variedade de desafios e uma mecânica de combate satisfatória

Os golpes variam desde armas místicas de altíssimo dano, alguns em área, até ajudas como uma ave que dispara contra seus inimigos do ar. O limitador aqui é o fôlego da Fenix, que precisa de stamina disponível para realizar os golpes. Se você exagerar, pode ficar "no negativo", uma barra vermelha que demora para recarregar as energias e faz com que você fique sem habilidades por um período maior. É nessa cadência que está o balanço das lutas, e torna os combates interessantes.

Algo que ajuda a dar graça aos confrontos é o fogo-amigo de seus adversários. Seus inimigos se atingem entre si, e isso é especialmente útil e divertido em confronto com muitos monstros ao mesmo tempo. É uma estratégia válida focar apenas na maior criatura, e deixar que as menores acabem caindo na base das pancadas do monstro maior (que muitas vezes dá ataques com dano em amplas áreas). Para fechar o leque de possibilidades, esquivas no tempo perfeito abrem janelas de tempo em que você pode revidar sem ser importunado. A receita funciona e não existe motivo para fazer diferente.

Outro ponto relevante do gameplay são as customizações do personagem. Já de cara há uma boa quantidade de variações para o visual da (ou do) protagonista. Na medida que o jogador avanço no jogo, irá acumulando novos equipamentos, armas e habilidades, com possibilidade de melhorar vários desses aspectos com materiais obtidos através da exploração do mapa. O resultado é um bom grau de variação tanto nas estratégias de combate quanto no visual da própria personagem, com armaduras bastante criativas e que dão efeitos bastante satisfatórios, especialmente em cutscenes, além de adicionais para o combate.

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História dá personalidade

Se por um lado Immortals abusa de fórmulas já conhecidas no gameplay, é na história que ele desenvolve uma personalidade própria. O jogo tem uma pegada infanto-juvenil na narrativa misturada com bastante senso de humor e algumas reviravoltas que o tornam um entretenimento bastante leve e, em vários trechos, divertido.

O game é narrado por Prometeu e Zeus, um atuando como fio narrativo, e o outro, alívio cômico. As interações entre os dois narradores dão ritmo a história, com Prometeu criando os momentos épicos e Zeus quebrando com essa lógica e evitando que a história fique monótona, apelando para recursos que vão desde a quebra da quarta parede, anacronismos (ele corrige como se pronuncia Ubisoft), até a mais juvenil e clássica pirraça com pitadas de humor da quinta série. Eu aprovo a abordagem, que funciona mas, claro, também passa do ponto de vez em quando.

Com bom uso da mitologia grega e bastante senso de humor, Immortals tem uma história leve e agradável de ser acompanhada

Os roteiristas foram fundo em trazer a mitologia grega ao jogo, buscando manter os egos complexos das deidades gregas ao mesmo tempo em que os encaixam nessa narrativa. As referências são muito bem aproveitadas e em alguns momentos podem desafiar até seus conhecimentos da área. Entre meus trechos favoritos, está o desconforto de Prometeu em explicar para Zeus que Afrodite não veio de uma pérola que caiu no mar, como ele pensa. O jogo nunca explica, só deixando subentendido, e esse trecho é especialmente engraçado para quem sabe qual a origem correta.

Isso é algo que o jogo faz de forma recorrente: cria uma narrativa própria, mas deixa nas entrelinhas ou em algumas opções do roteiro e da caracterização dos personagens, referências à mitologia grega, muitas vezes de forma sutil e propositalmente vaga. A abordagem torna especialmente satisfatório dar uma olhadinha no artigo da Wikipedia acerca de cada criatura e deidade que aparece no caminho, para ver como o personagem foi modificado e incorporado no game. Ou pelo menos entender as várias indiretas que os personagens mandam entre si. Sem isso, por exemplo, não dá para entender porque Zeus constantemente faz referências que Hefesto "não pega ninguém".

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O jogo consegue criar seu estilo nessa caracterização própria dos personagens da mitologia, com a protagonista Fenyx, muito do tempo, trazendo um perfil mais neutro, reagindo a tudo que acontece a seu redor e, eventualmente, ganhando um desenvolvimento maior de seu personagem. Sempre que vemos um game mais "fanfarrão", há o risco de você exagerar e acabar criando um Claptrap. Em alguns momentos, o jogo se perde um pouco e gera situações que, ao invés de divertidas, acabam sendo constrangedoras. Também temos a barreira da língua e alguns trocadilhos perdem seu sentido original na tradução ou acabam ficando descontextualizados. Mas, no geral, acho que o jogo não "se passa" demais e me divertiu em vários trechos com sua quebras de ritmos malucas na narrativa ou reviravoltas inesperadas.

Falando em tradução, mais uma vez a Ubisoft Brasil mostra um comprometimento completo em adequar suas franquias ao mercado nacional, com o jogo completamente localizado para nosso país, tanto nos textos quanto na dublagem. O trabalho é bastante profissional e, com exceção de um trecho aqui ou ali, o resultado entregue pelos atores está ótimo.

Conclusão

Immortals Fenyx Rising é uma grata surpresa vindo da Ubisoft, em meio a seus lançamentos com muito mais expectativas e peso. Com medalhões como Watch Dogs e Assassin's Creed roubando as atenções, esse lançamento modesto acabou sendo o que mais me divertiu dos três. 

Ele não faz nada de inovador e nem complica as coisas, apostando em um "feijão com arroz" bem-feito que termina sendo ótimo. O gameplay é variado e divertido, enquanto a narrativa leve e infanto-juvenil tem potencial para agradar todos os públicos. Inclusive adultos, que vão potencialmente entender algumas camadas adicionais na leve ironia de alguns diálogos.

Immortals Fenyx Rising é um game leve e divertido que serve para todas as idades, misturando um enredo "bobalhão" com uma mecânica de exploração, resolução de quebra-cabeças e combates que funcionam bem

Com isso, apesar da impressão inicial negativa de pegar um jogo que não tem nada de novo a oferecer, o enredo pastelão (no bom sentido) com referências inteligentes à mitologia grega e um gameplay variado e divertido acabaram me convencendo que este é sim um bom jogo. E, melhor de tudo, o game não apresentou bugs ou problemas de performance em nossos testes, sendo esse um ponto que a Ubisoft peca bastante em outras franquias, então esse jogo parece uma recomendação fácil para quem quer um game leve e divertido. Se não agora com tantos jogos de peso disputando seu orçamento, quem sabe daqui a um tempo em alguma promoção.


RECOMENDA? SIM Divertido, variado e leve, Immortals manda bem e mostra que um jogo simples e despretensioso também pode ser bom
PRÓS
Gameplay divertido e desafiante
Bons gráficos e trilha sonora
Narrativa com excelente uso de referências mitológicas
Totalmente localizado em PT-BR
Atividades variadas
CONTRAS
Humor passa da conta ocasionalmente
Falta de algo inovador
  • Redator: Diego Kerber

    Diego Kerber

    Formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Diego Kerber é aficionado por tecnologia desde os oito anos, quando ganhou seu primeiro computador, um 486 DX2. Fã de jogos, especialmente os de estratégia, Diego atua no Adrenaline desde 2010 desenvolvendo artigos e vídeo para o site e canal do YouTube

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