Watch Dogs Legion: potencial perdido

Franquia traz uma excelente ideia, mas mal executada

O terceiro título da franquia Watch Dogs faz uma aposta muito interessante: não traz um protagonista. No lugar de um personagem principal, o jogador tem a liberdade de recrutar "uma legião" para suas missões. Qualquer NPC andando pela rua tem potencial de reforçar o seu time com habilidades diversas, e você pode alternar entre eles a qualquer momento.

Mas só ter uma boa ideia não é o suficiente, ainda mais quando ela é uma ideia ousada como extinguir o conceito de "personagens não jogáveis" em um jogo de mundo aberto. Vamos discutir os erros e acertos no resto da análise.

Ambientação

Watch Dogs vai para uma Londres de um futuro não muito distante, com um pouco da arquitetura da cidade misturada com um leve futurismo de drones tomando os ares e hologramas atulhando a cidade de publicidade. O futuro por aqui é bem distópico, com as pessoas sendo altamente monitoradas e com a segurança da população sendo feita por uma empresa privada. Você integra um grupo de hacktivistas, o DedSec, tentando desenrolar uma série de tramas envolvendo corrupção, violência e tudo que há de ruim (sim, as vezes fica quase satírico de tão longe que vão seus antagonistas).

O enredo acerta em mergulhar em polêmicas e encarar temas difíceis, trazendo tramas interessantes

Se no passado eu peguei no pé de The Division 2 por ser "insípido", tentando escapar de polêmicas, Legion chega na borda e dá uma ponta para entrar em "treta". O jogo lida com assuntos espinhosos como conflito público x privado, movimentos espontâneas de massa, ética no uso de robôs e AI na segurança, limites do uso da tecnologia no melhoramento humano e até tráfico de órgãos estão na narrativa de algumas missões. É uma verdadeira sopa de temas polêmicos que, em alguns momentos, chega a ser nauseante. Vai agradar quem curte reviravoltas e temas difíceis, além de lidar com temas atemporais, alguns clássicos do SciFi  e alguns bem contemporâneos, tudo isso junto.

O visual do game me agradou bastante. Dá para ver essa mescla da arquitetura típica da cidade britânica com a liberdade criativa de imaginar como as coisas ficam se você aplicar muito holograma, carros futurísticos, drones e LEDs RGB. O resultado final é interessante.

Nesse aspecto os gráficos são um fator importante. Esse jogo conta com uma parceria com a Nvidia, e um uso intensivo de Ray Tracing para os efeitos de reflexo. Em alguns momentos há um exagero no uso da novidade, como na infinidade de poças d'água e a muito presente chuva da cidade, mas em ambientes internos onde muitas superfícies reflexivas fazem sentido, o efeito gráfico faz muita diferença e mostra o potencial que a nova técnica de renderização tem para oferecer.

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Uma pena que em a qualidade gráfica oscila bastante. Se o RT rouba as atenções em alguns pedaços, cutscenes mostram que o capricho em detalhes como cabelos e pelos faciais dos personagens não estão tão bem assim. Em geral, a qualidade dos gráficos é OK, com essa variação entre algumas coisas muito bem e outras que ficaram devendo em muito no capricho. Nesse ponto também é relevante destacar que não foi fácil rodar o game no PC, com problemas especialmente em meu sistema com um Ryzen 5 2600, que me forçou a jogar com a taxa de quadros trava a 30fps para ter estabilidade.

Um trabalho que a Ubisoft vem caprichando no Brasil é na localização. Watch Dogs Legion é totalmente adaptado para o português brasileiro, o que inclui a tradução de todas as interfaces, além de um trabalho profissional de dublagem.

Um mundo aberto e bugado

O gameplay tem elementos bem interessantes. O jogo dá muita liberdade para o jogador de decidir como vai abordar cada missão, algo que varia do hacker/ninja que passa despercebido em toda a fase, ou o Rambo que explode a porta e atira em tudo que respira.

Os gráficos oscilam de efeitos impressionantes até elementos de baixa qualidade

As missões apresentam algumas variações, mas na essência a maioria é sobre invadir locais e roubar dados ou modificá-los. E o jogo é bem satisfatório nessas invasões, com a possibilidade de pular de câmera em câmera para estudar as possíveis rotas de invasão, abusar de drones e robôs-aranha para explorar e hackear as estruturas e, em alguns casos, fazer a missão inteira sem nem sequer pisar dentro da área que você está invadindo. 

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Esse é o momento em que o jogo brilha, pois a grande variedade de agentes possíveis de serem recrutados e suas particularidades, unidos a janela de tecnologias e equipamentos que podem ser evoluídos e equipados neles, fazem com que o jogo ganhe muitas possibilidades de abordagem, desde o agente que fica temporariamente invisível até aquele que abate de surpresa com uma chave inglesa.

As varias possibilidades para finalizar uma missão tornam o jogo muito interessante, e planejar e executar as invasões são o ponto alto do gameplay

O jogo tem seu ponto alto nas possibilidades de recrutamento. Qualquer pessoa na rua pode ser analisada, com pontos fortes e fracos levantados nesse relatório e, depois de fazer uma missão para ajudar essa pessoa e "convencê-la" do valor da causa do DedSec, ela passa a ficar disponível no seu quadro de agentes. Essa combinação de habilidades inatas com a árvore de tecnologias são uma das minhas partes favoritas desse game, com o recrutamento e organização de diferentes agentes para diferentes missões. Dá pra ter o seu agente "porradeiro", o especialista em armas e o ninja, tudo fazendo a combinação adequada de talentos e equipamentos.

Mas é também no gameplay que temos um dos maiores problemas da experiência com Watch Dogs Legion: a inteligência artificial. Basta alguns minutos circulando pela cidade para ver de tudo, desde atropelamentos até personagens andando de forma aleatória pelo meio da rua. Só de ficar parado na calçada já é normal acontecer agressões verbais para o seu personagem, sem motivo nenhum. 

Isso se replica nas missões. Quando a missão "desanda" e você começa a ser perseguido pelos guardas e drones de segurança, dá pra ver a ineficiência da AI, com a procura pelo seu personagem acontecendo de forma bastante "destrambelhada". Já vi de tudo, desde NPC não conseguindo sair do carro até guardas subindo estruturas impensáveis durante a perseguição. 

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Legion também adiciona uma nova possibilidade: o multijogador. Você pode jogar missões em conjunto com amigos, ou de forma competitiva buscando ser o mais rápido. É um adicional interessante de se experimentar, mas o central da experiência ainda é claramente pensado para a campanha em um jogador e, para piorar, não apenas não saiu como o lançamento do jogo, como acaba de ser adiado para 2021. Ao menos esse elemento inacabado foi adiado, e não "lançado como está".

Conclusão

Watch Dogs Legion fez uma aposta em algo bastante diferenciado para o novo game. Acho que encaixou perfeitamente na proposta e deu um novo fôlego para a franquia. O conceito de múltiplos personagens "NPC" jogáveis e recrutáveis, podendo se tornar agentes do DedSec, ganha destaque. Essa sigla, inclusive, perde mesmo o seu sentido já que praticamente qualquer personagem é jogável)

Esse arranjo casa perfeitamente tanto do ponto de vista do enredo, com a "legião" de hacktivistas lutando para salvar o dia, quanto do ponto de vista da jogabilidade, criando a mecânica de recrutamento e de gerenciamento da equipe que torna o gameplay variado e interessante.

O problema é que o mundo não ajuda, e nisso eu me refiro o jogo em sua totalidade. A Ubisoft pecou em muito dos detalhes e polimento, com gráficos que oscilam bastante de qualidade dependendo das cenas e localidades, uma inteligência artificial agindo de formas inconstantes e quebrando com a imersão de tempos em tempos e até detalhes bobos roubam a atenção, como o efeito preguiçoso do personagem nadando (que rendeu comparações pouco elogiosas) e o efeito ragdoll bem tosco, em acidentes de trânsito, por exemplo.

Infelizmente essa falta de capricho impacta negativamente no jogo como um todo, e mostra que um tempo maior de desenvolvimento ou, quem sabe um futuro jogo melhor consolidado, tem muito potencial. Como está, o jogo tem seus pontos altos e vários momentos divertidos, mas ficou devendo melhor acabamento para atingir um nível mais elevado. Ao longo de minha jogatina tive ótimos momentos de diversão, mas não demorava muito para encontrar algum defeito para tirar o brilho do game.

Considerando que a Ubisoft ainda não terminou ele, com o modo multijogador adiado para 2021, dá para fazer o mesmo e esperar para pegar ele em uma promoção, quando estiver completo e, quem sabe, melhor otimizado no PC.

RECOMENDA? NÃO Legions traz excelentes ideias mas ficou devendo mais capricho na execução
PRÓS
Dá pra recrutar qualquer NPC
Agentes, equipamentos e formas variadas de resolver a missões
Trama variada com diversos assuntos pertinentes
Totalmente traduzido para o PR-BR
Modos cooperativo/competitivo...
CONTRAS
... que ainda não está disponível
Inteligência artificial bastante ruim
Problemas de performance no PC
Falta de polimento e capricho
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  • Redator: Diego Kerber

    Diego Kerber

    Formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Diego Kerber é aficionado por tecnologia desde os oito anos, quando ganhou seu primeiro computador, um 486 DX2. Fã de jogos, especialmente os de estratégia, Diego atua no Adrenaline desde 2010 desenvolvendo artigos e vídeo para o site e canal do YouTube

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