ANÁLISE DE ROCKET ARENA - Potencial explosivo desperdiçado em modelo de negócio batido

O jogo de tiro "family friendly" da EA Games até diverte, mas precisa de mudanças

Como era de se esperar, o gênero de shooters é dominado por figurões conhecidos pela violência, incluindo franquias como DOOM e Call of Duty. No ano passado, o pessoal da Final Strike resolveu atirar para um lado diferente e apresentou Rocket Arena, um game com armas letais, mas onde ninguém morre.

O projeto nasceu como um jogo de tiro em primeira pessoa focado em partidas multiplayer com times de três jogadores. O game seria publicado pela Nexon e até chegou a ter um beta gratuito no Steam. Porém, ainda em 2019, a publisher pulou fora do barco e Rocket Arena foi parar nas mãos da Eletronic Arts, que lançou o título como uma produção do selo indie EA Originals.

Rocket Arena chegou ao mercado mantendo sua essência de combate "family friendly" em trios e sendo um multiplayer exclusivamente online, mas agora traz perspectiva em terceira pessoa. O jogo foi lançado no PC e consoles com suporte para crossplay, por valores na casa dos R$ 150. Além disso, o produto ainda traz uma loja de itens cosméticos e um sistema de passe de temporada, que mistura conteúdos gratuitos e pagos.

A EA nos liberou o jogo no PC e PS4, o que permitiu usufruir das vantagens do crossplay entre plataformas, e passamos cerca duas semanas jogando Rocket Arena. Após essa experiência, você confere nossas impressões com a produção da Fire Strike Studios.

Jogabilidade

Rocket Arena se passa em um local chamado Craterra, em que todo mundo ama foguetes (?), e o jogador controla os participantes de uma espécie de competição pela glória, que é regida por armas bem explosivas. O elenco traz heróis diversificados e que, no quesito gameplay, seguem os padrões que vemos em outros shooters online com figuras carismáticas. Cada personagem vem com uma arma única e habilidades especiais inspiradas em seu estilo, o que garante várias possibilidades durante as brigas.

O jogo não conta com classes definidas, mas os personagens têm características específicas que se mostram úteis em cada partida. A lutadora Amphora, por exemplo, conta com uma arma de água que pode jogar granadas líquidas e se transformar em um tufão de água, dando bastante dano em brigas "mano a mano". Já a mágica Mirsteen, por outro lado, possui escudos e ilusões, o que torna a jogabilidade mais defensiva e útil em modos estratégicos.

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O elenco de heróis vai aumentar com a chegada de novas temporadas

Todos os competidores também contam com três slots para artefatos especiais de vantagem passiva, que podem ser conquistados e evoluídos durante o gameplay. Os itens conferem diferentes habilidades aos heróis, desde mais velocidade até cooldown reduzido, e dão certa liberdade de customização na jogabilidade: você pode montar um set e aplicá-lo em todos os personagens ou realizar personalizações em cada um dos heróis.

Além disso, todo mundo tem um botão de esquiva, pulo triplo e interações de arma, com impulso de foguete para escalar paredes, o que garante uma jogabilidade mais verticalizada para Rocket Arena. As arenas também incluem consumíveis que trazem mais velocidade, armadilhas e explosivos para o jogo, dando um motivo a mais para explorar os cenários enquanto as brigas acontecem.

As batalhas rolam em mapas pensados para partidas 3 contra 3, que não possuem dano de queda, mas possuem uma cúpula que limita a área de jogo. Como já foi dito, o "family friendly" impera e os jogadores não podem ser abatidos, apenas empurrados pra fora do ringue. A mecânica de batalhas de tiro 100% sem mortes é uma grande ideia, mas a aplicação em Rocket Arena é meio duvidosa. 

As partidas de Rocket Arena são muito poluídas visualmente

As arenas são bem feitas e trazem diversas possibilidades para o jogador se esconder, escalar e evitar tomar pancadas dos inimigos. Cada local também possui suas peculiaridades, como jatos de água e trens que causam dano e podem ser "letais". Na hora da briga, porém, os efeitos acabam passando do ponto com certa frequência. Como todos os personagens utilizam armas que explodem ou são cheias de brilhos e luzes, os combates acabam ficando confusos em batalhas com mais proximidade. Os dois principais modos de jogo, Nocaute Megafoguete (Capture a Bandeira), acabam sofrendo bastante com isso, o que pode desagradar jogadores que curtem uma interface mais limpa. Ainda assim, o jogo consegue entregar momentos de emoção, principalmente quando a equipe está entrosada e você pega o jeito dos personagens.

Outro ponto da jogabilidade que gera certo incômodo é o ritmo das partidas. Mesmo com a utilização de itens especiais, até mesmo os personagens mais rápidos contam com uma movimentação travada. O tempo de saída e retorno da arena também pode ser muito longo, o que acaba tornando alguns momentos do gameplay frustrantes. Se você está em um túnel ou caverna e toma um dano letal, por exemplo, o controle do personagem é perdido e o jogo fica te jogando de um lado para o outro até achar uma borda para te atirar fora do mapa. Quando a partida está muito desbalanceada ou alguém desiste durante o matchmaking, existe grande chance do jogador acabar em um ciclo de ida e volta da arena.

Os outros modos de jogo que aparecem no game são o Foguetobol, uma mistura de batalhas com futebol, e Caça ao Tesouro, que coloca os jogadores para brigar por um baú e coletar moedas durante a partida. Os objetivos extras para serem realizados acabam trazem um ar mais casual para o game, grantindo uma diversão mais descompromissada em relação ao que vemos na grande maioria dos jogos de tiro. Apesar disso, ambos também podem virar um inferno visual, contam com limitações de conteúdo e se tornam enjoativos rapidamente, algo que pode ser resolvido com mais mapas em futuras atualizações.

Trecho de uma partida de Foguetobol.
O Adrenaline não se responsabiliza por AVCs ao assistir o gameplay

Infelizmente Rocket Arena não dá muitas opções de seleção de jogo fora das partidas customzadas e a escolha do modo de partida normalmente fica nas mãos do matchmaking do game. Por outro lado, essa falta de liberdade ajuda a encontrar jogadores de maneira mais rápida. Isso não quer dizer, porém, que você não vai ter que esperar. Durante minha jornada no modo casual e ranqueado nos dias de estreia do game, tive que esperar até 10 minutos para entrar na arena. Para um lançamento, é uma média bem preocupante. Os brasileiros também acabam sendo empurrados para servidores no exterior com frequência, o que torna o ping 200 um padrão durante a jogatina. 

O jogo não tem modos offline, as partidas online tem ping alto e o PvE só está ali para marcar presença

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Assim como acontece em jogos como Predator: Hunting Grounds, a recomendação dos desenvolvedores para evitar esse tipo de problema é sempre levar um grupo de amigos para as partidas com você. Porém, quando o game tem um custo e características que podem desagradar certos perfis de jogadores, fica difícil dizer para você arrastar seus amigos para Rocket Arena. Afinal, estamos falando de diversão, não de um esquema de pirâmide.

Por fim, vale ressaltar que Rocket Arena também chegou ao mercado com um modo contra a IA, que coloca o time de três jogadores para batalhar contra uma equipe inimigas de robôs. A modalidade PvE é tão limitada que mais parece um tutorial simples para equipes iniciantes. Talvez a Fire Strike Studios invista com mais carinho nessa parte do jogo futuramente, mas o que temos atualmente não merece mais atenção que essas poucas linhas.

Considerando a temática amigável do game, a adição de suporte para multiplayer local seria uma boa jogada, já que ajudaria a fechar times e poderia render ótimos momentos de família em jogo, uma pena que não temos nem menção para essa possibilidade. O preço cobrado também faz pensar em como um modo história daria mais opções ao jogador e ajudaria a expandir o mundo de Rocket Arena, mas o que temos é uma construção de universo rasa e que se escora em visuais chamativos.

Visual e construção do universo

Os gráficos feitos na Unreal Engine de Rocket Arena não saem muito da média, mas é interessante notar que o jogo mira em um público mais jovem e não tem medo de esconder o interesse em alcançá-lo. O game chegou ao mercado com 10 heróis e, ao olhar para cada um deles, fica muito difícil não fazer pontes com produções da Disney, Pixar e outros grandes estúdios com animações que emplacaram na cultura pop.

Amphora e Kayi, personagens de água e gelo de Rocket Arena, parecem retiradas de um spin-off de Frozen, por exemplo. Já Boone possui uma vibe de Jurassic Park animado, enquanto Blastbeard possivelmente tem algum parente em Sea of Thieves. Um clima parecido está presente nas arenas: o design de cada local de partida, que é a parte que mais chama a atenção visualmente, tem muita cara de parque temático de diversões, o que pode agradar a criançada e surpreender adultos que gostam de gráficos mais detalhados.

Apesar de meio "bootleg", essa familiaridade presente nos personagens e cenários acaba ajudando a simpatizar com os membros de Rocket Arena, já que não existe muita história no game atualmente. A narrativa por trás de cada personagem é resumida em literalmente três parágrafos, que podem ser lidos no site do jogo ou no menu in-game.

O primeiro passe de temporada já chegou e trouxe uma nova personagem para o game, a simpática Flux. Porém, o jogo segue sem grande aprofundamento na narrativa. Considerando que jogos como Overwatch se escoravam em uma lore de peso (pelo menos no lançamento) para justificar seu alto valor, o mínimo que a desenvolvedora podia fazer era dar mais atenção para a história dos personagens do game.

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Como o jogo, além de ser pago, possui um sistema de passe de temporada e receberá atualizações no futuro, quem sabe tenhamos mais novidades para tornar os heróis e o universo de Rocket Arena mais cativante. Assim como o gameplay, porém, tudo fica na base da promessa de que as coisas serão expandidas.

Na parte de áudio, a dublagem em inglês mantém um nível decente de qualidade e garante certa imersão com a presença de um narrador, mas as falas são bem limitadas e se tornam repetitivas com facilidade, como a maioria do jogo. O game também vem com legendas em português, mas, como a EA está apoiando o projeto e existem tantas formas de monetização in-game, dava pra rolar uma dublagenzinha também, né? Ao que tudo indica, o Brasil não é muito o foco do produto, mas opções para gastar dinheiro em Rocket Arena é o que não faltam.

Modelo de negócios

Mesmo com erros e acertos dentro do jogo, o principal problema de Rocket Arena está fora dele. O jogo foi lançado por R$ 150 e, logo após chegar ao mercado, já possuía uma estratégia de microtransações engatilhada. Seguindo os padrões que temos em jogos atuais, o Season Pass traz um sistema de níveis com diversos conteúdos que podem ser liberados durante o gameplay, mas somente por quem pagou pelo passe de temporada. O jogo também possui uma loja com itens que podem ser adquiridos com créditos ganhos durante as partidas, mas que também aceitam a moeda comprada com dinheiro real.

Durante o lançamento de Rocket Arena, todos os jogadores que adquiriram o game também receberam uma quantidade suficiente de moedas para comprar o passe de temporada, com valor aproximado em reais ao preço do jogo. A atitude pode ser vista como um agrado da desenvolvedora, mas também parece uma espécie de "microtransação obrigatória" e um incentivo para gastar mais dinheiro. Afinal, se o game conta com tantas opções de monetização, por que não distribuí-lo de maneira gratuita e garantir mais jogadores, populando os servidores e diminuindo as filas de espera nas partidas?

Felizmente, o conteúdo pago se resguarda a itens cosméticos, o que garante uma experiência que não é Pay to Win, e a desenvolvedora promete que vai liberar com frequência mais modos de jogo, mapas e personagens para Rocket Arena, como já aconteceu logo após o lançamento. Só o futuro dirá se o game vai conseguir se sustentar dessa maneira, e você terá que literalmente pagar para ver se isso vai acontecer atualmente.

Conclusão

Rocket Arena é um daqueles curiosos casos em que o jogo funciona, mas não traz grandes diferenciais e definitivamente não se sustenta com o que entrega. O game possui certos aspectos de jogabilidade que podem desagradar jogadores mais exigentes, mas entrega uma experiência divertida para quem aceita o seu estilo e está disposto a lidar com um tufão de efeitos visuais a cada partida. Porém, todo o clima "family friendly" fica escondido atrás de um preço que é alto para o conteúdo entregue e que vem acompanhado de um sistema de passe de temporada com microtransações. 

Com tantas opções gratuitas, é impossível recomendar Rocket Arena atualmente

A barreira de preço com certeza vai dar vantagem para outros jogos que miram no mesmo público e que são gratuitos, como o já popular Fortnite. Ou seja, se você está em busca de um jogo para a família, vale mais a pena dar uma chance ao battle royale da Epic Games que investir dinheiro em um game pago que não traz modo solo, não possui multiplayer local e nem uma história aprofundada para dar sentido aos seus personagens.

Rocket Arena está longe de entregar o que cobra atualmente e definitivamente não é recomendado para quem tem um pouco de amor ao seu dinheiro. Esse cenário pode mudar com o lançamento de novos conteúdos e fatores mercadológicos, como possíveis quedas do preço e a chegada do ao Origin Access, mas isso só o futuro nos dirá. Nossa maior referência no gênero de "multiplayer de heróis pago" é Overwatch e, bom, o prognóstico não é nada positivo. 


RECOMENDA? NÃO Com tanta opção gratuita, não tem sentido investir em Rocket Arena atualmente
PRÓS
Cenários bonitos
Personagens variados
CONTRAS
Lutas bagunçadas
Construção de universo pífia
PvE limitado, sem single-player ou multiplayer local
Modelo de negócio
  • Redator: Mateus Mognon

    Mateus Mognon

    Mateus Mognon é formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina. Vencedor do prêmio SET Universitário na Categoria Reportagem Digital, atua nos sites do grupo Adrenaline desde 2014. Atualmente, colabora para os veículos com notícias, análises e artigos envolvendo tecnologia e games.

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