ANÁLISE DE PREDATOR: HUNTING GROUNDS - Ao invés de sobreviver na floresta, fuja para as colinas

Disponível no PS4 e Epic Games Store, o novo multiplayer da Illfonic tem muito potencial, mas não consegue entregá-lo

Com um nome nada fácil de escrever, Arnold Schwarzenegger estampou cartazes de filmes nos anos 80 ao dar vida não somente ao Exterminador do Futuro, mas também para Dutch, o soldado que protagoniza o primeiro filme do Predador. Mais de 30 anos depois, o ator agora é conhecido como ex-governador da Califórnia, e seu rival no longa-metragem oitentista é o destaque de um dos principais lançamentos de games de abril de 2020: o multiplayer assimétrico Predator: Hunting Grounds.

Desenvolvido pela Illfonic, a empresa por trás de Friday The 13th, o game apresentado em uma das primeiras edições da conferência State of Play passou por diversas feiras, inclusive a Brasil Game Show. Além disso, o jogo teve um grande beta um mês antes de seu lançamento, o que garantiu mais feedback do público e aprimoramentos para a sua fórmula, que coloca quatro soldados para lutarem contra o caçador alienígena.

 Agora, o jogo já está disponível para compra no PS4 e Epic Games Store, e após uma semana de intensos gameplays, nós contamos se vale a pena investir no jogo do Predador. Confira a análise!

Foco no multiplayer

Quando pensamos na trajetória do Predador na indústria do entretenimento, não é difícil imaginar o vilão em um multiplayer assimétrico. Utilizando sua experiência com o jogo de Sexta-Feira 13, a Illfonic traduziu os primórdios da franquia para um game que coloca quatro jogadores incorporando soldados em missões na floresta, com um quinto jogador assumindo o papel de caçador.

Levando em conta que a essência do filme de 1987 é exatamente essa - uma equipe especial sendo caçada pelo Predador - não fica muito difícil acertar o tiro na parte de gameplay. Por outro lado, a simples aplicação de uma fórmula que funciona em um filme de 107 minutos não é garantia de sucesso para um jogo que custa R$ 150 no PlayStation 4 e ainda exige assinatura da PlayStation Plus.

Para um gameplay balanceado, é necessário ter quatro soldados e um quinto jogador assumindo o papel de Predador

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Em Predator: Hunting Grounds, todo o conteúdo gira em torno dos embates entre a equipe de soldados e o Predador. Ao todo, o game conta com três arenas em que se passam os combates, que duram no máximo 15 minutos. Seguindo a vibe presente no filme original, os quatro soldados são enviados para o ambiente desconhecido para cumprir uma série de missões, que contam localização e até dublagem no nosso idioma. Ao chegarem lá, porém, as guerrilhas não são os únicos inimigos encontrados: um alienígena caçador se esconde na floresta e tem sede pelo sangue dos jogadores.

Na parte dos soldados, o gameplay conta com bastante variedade nas missões, mas que não possuem conexões e só estão lá para movimentar os jogadores: cada partida de um quarto de hora traz objetivos para serem cumpridos no mapa, que normalmente traz uma área bem aberta, com vegetações densas, poças de lama e um visual interessante, de maneira geral. Os pontos estratégicos do mapa são preenchidos com inimigos controlados por IA, que estão lá para atrapalhar o time de jogadores em suas tarefas.

Como o próprio nome do jogo indica, o Predador é a grande atração

Em diversos momentos, a jogabilidade se asemelha bastante ao que temos nas missões de posto avançado de Far Cry 5, em que o jogador deve invadir uma base de maneira furtiva e aniquilar os inimigos. No jogo da Illfonic, porém, os elementos de stealth são praticamente inexistentes e os objetivos são mais elaborados, o que ajuda a criar dinâmicas com a principal atração: o Predador. 

Enquanto os quatro jogadores que assumem o papel de soldados estão cumprindo missões, um quinto participante assume o papel de Yautja e precisa aniquilar os humanos. Como Predador, é possível utilizar as principais ferramentas do personagem, desde visão térmica até armas clássicas, como lança e discos inteligentes. Tudo isso, porém, não vem acompanhado de um pingo de narrativa e o vilão só está ali para coletar crânios. 

Dito isso, não espere qualquer experiência single-player no jogo ou uma história mais aprofundada, pois o foco total de Hunting Grounds é o multiplayer assimétrico competitivo.

Jogabilidade

Apesar de ser limitado a um conjunto de mapas com missões que seguem um mesmo padrão, as partidas de 15 minutos conseguem entregar dinâmicas que agradam. Para garantir equilíbrio no embate de quatro contra um, o protagonista do game conta com bastante vida e habilidades poderosas. O jogador que assume o papel de Predador tem uma barra de energia generosa que garante o uso de habilidades como camuflagem, sensor térmico e de áudio, além de armas clássicas do arsenal do personagem. Usando essas ferramentas, o caçador precisa encontrar e aniquilar os adversários antes que eles cumpram seus objetivos e cheguem ao helicóptero.

Entre o conteúdo entregue no game, a jogabilidade com o Predador é a mais original e inovativa. O Yautja aproveita a verticalidade dos cenários de floresta e pode subir em árvores e construções com facilidade, cortesia das mecânicas de pulo e parkour. Já na parte ofensiva, o personagem conta com golpes fortes e um conjunto diversificado de armas clássicas, que podem ser desbloqueadas no sistema de progressão do game, além de uma pistola de cura, que pode ser utilizada após um período de espera.

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Na maioria do tempo, a jogabilidade com os soldados é regida por um sistema de tiro genérico, mas que vem acompanhado de bastante ação. O mapa com vegetação densa e diversas construções espalhas é populado por uma inteligência artificial meio burra, mas que consegue atrapalhar durante momentos decisivos. Para garantir diversidade ao grupo de jogadores e impedir que o Predador decore as ações dos humanos, o título também possui um conjunto variado de missões, com objetivos que fazem a equipe se movimentar para locais diferentes, o que garante partidas rápidas, mas dinâmicas. 

A lama é a das principal ferramenta do gameplay para os soldados

O destaque do gameplay dos seres humanos fica por conta da principal funcionalidade inspirada no filme original da franquia: o uso de lama. A equipe de quatro jogadores pode dar uma de Dutch e se sujar com barro para escapar do sensor térmico do Predador, ganhando uma vantagem furtiva contra o caçador e também contra inimigos da IA. O uso da mecânica exige que o caçador faça buscas mais detalhadas e preste atenção no som de tiros e alarmes para encontrar os soldados. Quando os usuários jogam em grupo e aproveitam o ambiente, a briga contra o grandalhão fica bastante acirrada e cheia de momentos empolgantes.

Mesmo entregando uma experiência que funciona, o jogo ainda não aproveita todo o potencial de sua propriedade intelectual e deixa a desejar em certos aspectos. A lama não é só a principal arma furtiva dos soldados, como também a única. Entre todo o arsenal que pode ser desbloqueado, a equipe de soldados não conta com mais mecânicas voltadas para o stealth, como armadilhas para surpreender o Predador e incapacitá-lo. Você nem mesmo pode ter uma Claymore ou mina terrestre. Salvo exceções como armas de distração, que podem ser úteis em fugas, o game empurra os jogadores para uma briga de força bruta contra a máquina mortífera.

Nesse contexto de embate direto, os jogadores podem chegar a diferentes desfechos, como o Predador assassinando todo mundo, a equipe escapando ou o monstro sendo derrubado e seu corpo transportado para pesquisa. O final mais empolgante, porém, é inspirado no filme: antes de morrer, o caçador pode ativar uma bomba em seu pulso e se explodir, levando os inimigos que estão por perto. A diferença aqui fica por conta da possibilidade dos soldados desarmarem a bomba, basta decifrar rapidamente um código na linguagem Yautja. Entre tudo que acontece no multiplayer assimétrico, esse é, de longe, o momento mais empolgante.

Olhando puramente para o conceito, Predator: Hunting Grounds consegue aplicar certos aspectos da mitologia do personagem e entregar um gameplay que é simples e divertido, principalmente entre amigos. Porém, o jogo é atrapalhado por algumas pedras no caminho, que estão presentes no conteúdo e até mesmo na própria fundação do título.

Matchmaking e progressão

Apesar de o Predador estampar a capa e o título do game da Illfonic, o primeiro grande vilão que todos os jogadores enfrentam em Hunting Grounds é a tela de lobby. Quem não fez uma pesquisa de campo prévia ou simplesmente pulou na selva do game por causa do icônico personagem da Fox sofreu para jogar no lançamento. Graças a problemas no sistema de matchmaking, encontrar uma partida após esperar cerca de 20 minutos era sorte durante as primeiras 24 horas do game no mercado. Detalhe: nem mesmo o suporte para crossplay entre PC e PS4 salva o título.


Se você quer comprar o jogo do Predador, já é melhor se acostumar com o visual da tela de menu

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Para conseguir desfrutar do game, eu literalmente montei uma equipe de soldados: busquei por ajuda no Twitter, Discord e grupos do Facebook para conseguir juntar um time e fechar uma partida privada. Felizmente, um patch de 1,5 GB já foi liberado para o game e melhorou a montagem dos jogos. Ainda assim, você precisa de pelo menos uns cinco minutos para encontrar partidas como Predador atualmente (se você estiver com sorte). Lembrando que o lançamento é o período em que o game está em seu auge e muitos usuários ainda estão descobrindo os conteúdos disponíveis.

Além disso, o sistema de montagem de partidas aleatórias da Illfonic não tem vergonha em desbalancear o gameplay. Enquanto o objetivo é colocar quatro jogadores contra o Predador, alguns jogos são fechadas com menos usuários na equipe humana. Se o jogador quiser, dá para entrar no campo de batalha sozinho contra o monstro. A possibilidade de um combate mano a mano no maior estilo Schwarzenegger é interessante, mas como a fórmula continua a mesma, o que temos é apenas um multiplayer assimétrico que é assimétrico demais. 

Se os jogadores quiserem acabar com a espera por partidas, é possível entrar até mesmo em um embate um contra um, o que desbalanceia totalmente o gameplay

A Illfonic também apostou em um sistema de progressão com níveis para manter os jogadores engajados com o game. Com a experiência ganha nas partidas, os usuários desbloqueiam armas, equipamentos e classes para os soldados e Predador. Enquanto o bloqueio por level funciona para manter os usuários interessados por mais tempo, a escolha também acaba limitando as possibilidades de customização de jogabilidade para quem está começando. Além disso, os itens básicos que estão disponíveis desde o começo, principalmente para os soldados, garantem diversão e o mínimo de competitividade logo de cara, o que acaba tornando o restante dos equipamentos apenas um extra.

Além dos níveis, o jogo também conta com pontos de experiência, que são ganhos durante as partidas e podem ser utilizados para desbloquear cosméticos e loot boxes, com sorteio de itens visuais variados. O sistema adotado pela desenvolvedora garante opções interessantes de personalização, mas ainda existe uma grande carência de conteúdo. Se você sonhava em recriar o embate entre Predador e Arnold Schwarzenegger dentro de Hunting Grounds, é melhor nem alimentar expectativas: apesar de ser um título licenciado, o produto não conta com referências aos soldados presente na série de filmes e tudo que temos é um sistema de montagem de personagem com poucas opções disponíveis.

Considerando o formato e o sistema aplicado em Predator: Hunting Grounds, tudo indica que teremos mais conteúdos chegando ao game futuramente, o que pode incluir mais referências aos filmes. Ainda assim, em seu estado atual, o jogo do Predador não conta com conteúdo suficiente para justificar seu valor de R$ 150, principalmente quando o potencial máximo do game só pode ser aproveitado quando um grupo de pelo menos cinco pessoas adquire o produto.

Gráficos e som

Enquanto o próprio conteúdo do game já coloca o preço da obra em xeque, a parte técnica do jogo também deixa a desejar no PlayStation 4. A versão do game rodando no PlayStation 4 Slim sofre com quedas de frames e possui um visual cheio de defeitos, que acabam roubando a cena das paisagens florestais mais realistas. Os problemas incluem baixa resolução em certas partes do cenário, renderização de texturas limitada e falhas no anti-serrilhado.

Mais do que um incômodo visual, os empecilho acabam atrapalhando no gameplay. Os deslumbrantes cenários de floresta tropical presentes no game funcionam em curta distância, mas basta que o jogador olhe para cima ou tente acertar um alvo à distância para as tudo ficar mais complicado. Considerando que que o objetivo do game é realizar abates sem ser visto e acertar um monstro que se camufla e dá pulos gigantescos, fica difícil defender o jogo. 

Enquanto os gráficos não se destacam, o áudio funciona bem

Por outro lado, é importante ressaltar que o time da Illfonic se garantiu, pelo menos, na parte de áudio. Além de contar com a trilha sonora do icônico filme de origem do Predador, Hunting Grounds também capricha ao ter uma mixagem de qualidade e que funciona de maneira amplamente integrada no gameplay, com cada passo ou tiro fazendo a diferença em alguns momentos.

A dublagem é satisfatória e o título também possui uma floresta viva e com barulhos icônicos de mato, trazendo uma ambientação que lembra o clássico filme dos anos oitenta. O protagonista do multiplayer assimétrico também não foi deixado de lado e podemos ouvir sons icônicos do Caçador Alienígena, que servem como guia para os soldados durante momentos mais intensos da jogabilidade.

Conclusão


O Predador tem movimentação avançada e recursos como camuflagem 

Com tantos desdobramentos que já aconteceram em 2020, o lançamento de Predator: Hunting Grounds não tem poder para estar entre os destaques e nem mesmo as piores desgraças dos games até o momento. Em seu estado atual, o título está longe de valer os R$ 150 cobrados no PS4, nem mesmo os R$ 79 praticados na Epic Games Store.

Apesar de seus problemas de lançamento e a dificuldade para achar partidas, o jogo do Predador oferece uma diversão simples e rápida quando você consegue reunir um grupo de cinco pessoas para aproveitar o quanto quiser. O problema, porém, é que o título depende totalmente disso, já que não traz conteúdos além do modo multiplayer assimétrico. 

Predator: Hunting Grounds funciona, mas está longe de valer o preço cobrado

O jogo também oferece uma experiência de gameplay inovadora com o Predator e se garante com sua parte de tiro em primeira pessoa trazendo diferentes missões de PvE. Porém, o jogo se escora em um sistema de progressão que não aproveita muito bem da propriedade intelectual abordada e deixa de lado fatores da mitologia do personagem que poderiam adicionar tanto na parte de jogabilidade quanto nos itens cosméticos.

Ainda não temos notícias de mais conteúdos para o produto, mas, como temos o apoio da Fox no projeto, o mínimo que podemos esperar são mais arenas e skins baseadas em longa-metragens da franquia. Ainda assim, como não temos nem um visualzinho inspirado no Dutch de Arnold "Chuazenéguer", a dica é ter cautela: ao invés de correr direto para a floresta de Hunting Grounds e abraçar o Predador e seu preço nada convidativo, corra para as colinas e aguarde um fim de semana gratuito ou uma bela promoção para ver se o jogo vale a pena para você.


RECOMENDA? NÃO Os problemas fazem você esquecer dos eventuais momentos de diversão
PRÓS
Jogabilidade PvE com missões diversificadas
Gameplay divertido com Predador
Ambientação e referências ao filme original
CONTRAS
Inteligência Artificial meio burra
Matchmaking demorado
Ausência de mecânicas furtivas e armadilhas
Não tem o Arnold Schwarzenegger
  • Redator: Mateus Mognon

    Mateus Mognon

    Mateus Mognon é formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina. Vencedor do prêmio SET Universitário na Categoria Reportagem Digital, atua nos sites do grupo Adrenaline desde 2014. Atualmente, colabora para os veículos com notícias, análises e artigos envolvendo tecnologia e games.

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