ANÁLISE DE FINAL FANTASY 7 REMAKE - Novo combate empolga muito, mas falta o resto do jogo

Primeira parte do remake oferece uma quantidade satisfatória de horas, apesar do formato
Por João Gabriel Nogueira 06/04/2020 07:00 | atualizado 06/04/2020 11:56 comentários Reportar erro

Parece que este dia nunca chegaria, mas aqui estamos: uma review de Final Fantasy 7 Remake! O game existe - em partes - e nós jogamos - a primeira parte. Será que todos esses anos de espera valeram a pena? Vamos conferir na review!

HISTÓRIA E AMBIENTAÇÃO

A história de um remake é sempre onde dá pra ser mais parecido com o antigo. E, no caso deste, que é apenas uma parte, não vou avaliar a história pelo que eu já sei, mas apenas pelo que aparece nessa primeira parte de Final Fantasy 7 Remake e a maneira que ela é contada neste jogo.

Final Fantasy 7 Remake é um jogo que não tem pressa, e admiro isso. Apesar do game começar no meio da ação, ele não economiza tempo na hora de desenvolver seus personagens, mostrar suas rotinas, seus sonhos e suas histórias. O jogador é levado pelos caminhos de vários dos membros de seu grupo para conhecê-los melhor e, por tabela, saber um pouco mais sobre Cloud - possivelmente o personagem mais sem graça do game.

O game não tem pressa e faz um bom trabalho de desenvolver seus personagens

Existe a história entre os personagens e o enredo do mundo em volta deles, que fica bem mais complexo e cheio de conspirações. Não chega a ficar tão profundo como o que vemos nos relacionamentos do protagonista, e os vilões que aparecem aqui são um bocado clichê, mas dá pra ver que eles acabam não sendo o principal eixo da história. Logo no início da aventura o game já nos entrega visões do verdadeiro antagonista: Sephiroth. Mas nessa primeira parte do remake ele não passa muito disso, visões desconexas e sem sentido.

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Temos apenas a primeira parte do jogo original, mas ela não é nada curta. Foram mais de 20 horas de campanha e até que foi feito um bom trabalho na segmentação do jogo, de modo que a história não termina, mas ainda passa um senso de “fechamento” para este primeiro momento.

Não chega a justificar o formato em “prestações” do jogo, até porque justamente quando a trama começa realmente a pegar embalo, com descobertas e acontecimentos que serão importantes ao longo de toda história, é mais ou menos quando chegamos ao final.

GAMEPLAY

Jogar Final Fantasy 7 Remake, por bem ou por mal, é uma experiência completamente diferente do game original. Não só na questão do combate, mas todo o ritmo do jogo no geral. É importante entender, antes de mais nada, que o game mudou de gênero, passando de um JRPG tradicional para algo muito mais próximo de um RPG de ação propriamente dito, e isso impacta não apenas nas lutas, mas em como se dá o desenrolar da campanha.

O game mudou de gênero, se tornando uma experiência bem diferente do original

Fãs do clássico e de JRPGs tradicionais vão perceber que o game está bem mais cinematográfico, investindo bastante nas cutscenes e nas conversas durante o gameplay. Isso significa que o jogo pega mais o jogador pela mão também, obrigando a andar devagar em alguns cenários para acompanhar outro personagem enquanto eles conversam pontos importantes da narrativa. No início do game isso chega a ser frustrante, porque há uma grande quantidade de conteúdo pra despejar, tanto no sentido do lore e da história, como nas mecânicas de gameplay. Acabamos ficando amarrados, sem liberdade para explorar e sem aquela sensação de descoberta que temos quando podemos andar livremente pelo cenário de um RPG.

Isso melhora bastante com o desenrolar do gameplay, que vai dando mais liberdade ao jogador aos poucos, mas nunca passa completamente a sensação de que o game está tentando, de certo modo, controlar nossa experiência. Dá pra notar perfeitamente “pedaços” em que ficamos restritos, um de cada vez. Tem até um sistema de missões opcionais que poderia ser bem interessante, mas você só pode executá-las naquele momento específico do game, ou não vai ter mais volta, o que acaba com qualquer sensação de ter uma escolha.

Diga adeus ao grinding

Esse ritmo mais dinâmico e controlado acaba dando uma linearidade ao game que, somada ao novo sistema de combate, elimina também o “grinding” - que é quando ficamos andando em círculos matando inimigos para ganhar níveis. Aliás, falando no combate, chegou a hora de comentarmos onde o remake de Final Fantasy 7 mais brilha.

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As batalhas em Final Fantasy 7 Remake são fenomenais. E digo isso admitindo sem problemas que sou muito fã de sistemas por turnos e sinto falta de aparecerem mais games com esse formato. Mas o sistema de combate que criaram para este game ficou tão bom que não posso reclamar.

Como todos já sabem, as lutas no remake são “livres”. Você tem controle total sobre o personagem e um botão de ataque. Mas isso é apenas a superfície - o centro do combate está nas barras de ATB, que são também a “herança” do estilo de jogo por turnos. 

Cada personagem tem dois níveis em suas barras de ATB, e elas são preenchidas lentamente com o tempo ou um pouco mais rápido quando o personagem ataca. Encher a barra permite executar um Comando, que pode ser o uso de uma Habilidade, Magia ou Item. Usar um Comando geralmente gasta um nível da barra, mas tem algumas habilidades que gastam dois.

Uma excelente mistura de ação e estratégia

E é aqui que o combate ganha um importante elemento estratégico, além de ficar muito mais intenso. Você precisa ficar atento não somente aos inimigos, mas também às barras de ATB do seu personagem e de seus aliados, bem como lembrar as magias e habilidades que cada um tem para usar de maneira complementar em embates difíceis. Não apenas isso, mas cada personagem luta com um estilo bem diferente do outro, então em algumas lutas você vai preferir controlar mais o Cloud, em outras o Barret, e por aí vai… Sem mencionar os momentos que você precisa alternar de personagem para preencher sua barra de ATB mais rapidamente, mesmo sem ser a pessoa que você queria estar usando naquele momento.

É um malabarismo de comandos, mas que é muitíssimo satisfatório quando as coisas “cliquem” e o jogador pega o jeito do negócio. Até por isso, as lutas mais difíceis são as mais divertidas, porque são elas que realmente vão exigir uma estratégia e não apenas um button mashing pra seguir em frente.

Minha principal crítica ao estilo de combate do game é não termos a possibilidade de definir melhor o comportamento da IA dos aliados. Em outros JRPGs de ação com equipes nesse estilo não é incomum termos opções para definir alguns parâmetros da maneira que os personagens lutam quando não estão sendo controlados pelo jogador, como seu nível de agressividade e economia de itens, por exemplo. Entendo que em Final Fantasy 7 Remake as IAs não poderiam ficar muito independentes porque o propósito aqui é que o jogador defina seus comandos com as barras de ATB, mas poder pelo menos determinar se os personagens serão mais agressivos ou ficarão mais na defensiva durante as lutas teria sido muito bom.

Claro que outro elemento estratégico dos combates que eu não poderia deixar de citar é a preparação antes deles - as matérias e equipamentos. E é aqui que os jogadores veteranos vão se sentir mais em casa, já que nessa parte não tinha muito o que mudar. Um diferencial importante aqui é o sistema de upgrades para as armas. Conforme ganhamos níveis de combate é possível também melhorar as armas dos personagens, algo que é muito interessante principalmente pela variedade. Com essa possibilidade você não troca uma arma por uma nova por ela ser diretamente melhor ou pior - todas as armas podem ser atualizadas ao longo do jogo e a escolha fica sendo estratégica, com cada arma oferecendo qualidades diferentes.

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Melhorar as armas traz mais uma camada de variedade e estratégia

As matérias ganham também uma variedade renovada, até porque o novo estilo do combate abre um novo leque de possibilidades. Mas a experiência de navegar por horas em menus tentando definir o melhor setup possível é bem semelhante a um clássico JRPG.

O que cabe inclusive uma pequena crítica. Acredito que os menus poderiam ser um pouco melhores. com mais opções de organização para os itens e matérias e, principalmente, a opção de mudar os equipamentos diretamente dos menus de lojas. Apenas um detalhe, mas que teria sido melhor. Também seria bem-vinda uma maneira de usar vários itens de uma vez fora das batalhas.

- Extras e Minigames - 

A parte mais fraca desse primeiro pedaço do remake. Não temos muito conteúdo extra para liberar, apenas trilhas sonoras que são encontradas no formato de discos dentro do game. Levando-se em conta que isso é um remake, existiria toneladas de coisas bacanas para o jogador encontrar pelo cenário na forma de itens, como artes conceituais tanto do jogo original como do novo, ou opções para mudar o estilo do menu e ficar com as artes de antigamente, esse tipo de coisa. Mas realmente ficamos limitados aos discos apenas.

E há também os minigames, tanto opcionais como obrigatórios. São bem poucos e, pessoalmente, não os considerei muito divertidos. Principalmente os obrigatórios, ficando no meu caminho de continuar enfrentando os combates e me divertindo. O fato de não serem muito legais acaba tornando uma vantagem o fato de serem poucos, mas melhor seria se fossem vários e bem bacanas.

A única exceção que faço aqui é para o trecho do Honey Bee Inn, que é simplesmente espetacular e serve como o exemplo perfeito do porquê sempre vou preferir RPGs japoneses.

GRÁFICOS

Os gráficos de Final Fantasy 7 Remake estão realmente impressionantes - e bem otimizados. Não é necessário esperar por longas telas de carregamento e os cenários já aparecem prontos para jogar. Foram raros os casos em que aconteceu o atraso de alguma textura aparecer, algo que não é incomum em jogos modernos que tentar reduzir seu tempo de carregamento.

Existe uma riqueza muito caprichada nos detalhes dos cenários e que é extremamente bem-vinda, afinal a parte 1 do remake se passa toda em Midgar. É um tanto limitante fazer vários mapas com um tema geral de “metal e lixo”, mas foi conseguido um feito realmente bonito no game. Além de uma variedade excelente, foi feito um ótimo trabalho em dar “personalidade” para cada Setor. Os setores da cidade baixa são como pequenos vilarejos isolados e cada um tem o seu estilo, sua característica. Daria pra saber onde você está a qualquer momento.

Cada setor tem uma personalidade própria e um estilo

O design dos monstros e inimigos também ficou muito interessante, mostrando um esforço em trazer novidades ao mesmo tempo em que são respeitadas as ideias que deram vida a eles no game clássico. Às vezes até destoa um pouco, como no caso dos Varredores e Cortadores, que parecem robôs feitos de sucata, não um sistema de defesa avançado de uma mega corporação como a Shinra. Mas é entendível que os desenvolvedores não quiseram se distanciar muito do design original desses inimigos.

Mas claro que o grande destaque aqui vai para os personagens, como não poderia deixar de ser. Os criadores do remake sabem bem que Final Fantasy 7 conseguiu tantos fãs ao longo dos anos principalmente por causa de sua história e personagens, então é feita justiça a eles com um capricho especial no seu design, principalmente na expressividade dos olhos e da face. É mantido um estilo anime que limita um pouco o número de expressões que eles conseguem fazer, mas os olhos conseguem transmitir muita coisa.

Os efeitos do combate também são admiráveis. As faíscas, magias, animações, tudo feito com cuidado, passando uma sensação satisfatória de impacto, além do cuidado extra que o novo formato do jogo exige - afinal precisamos ver as animações dos inimigos para prever e desviar ou nos preparar contra certos ataques.
Só fiquei um pouco decepcionado com a água no jogo, que não ficou das melhores. Tem todo um trecho nos esgotos que envolve mexer no nível da água e ela parece gelatina. 

ÁUDIO

O game mantém seu nível de qualidade e capricho também no áudio. As músicas, tanto novas como antigas repaginadas, oferecem uma excelente trilha sonora que já é consagrada na memória de muita gente, então é o trabalho técnico e efeitos sonoros que mais chamam a atenção.

Elogio particularmente a riqueza de detalhes que tornam o game mais imersivo. As conversas que podemos ouvir na rua enquanto andamos e como elas mudam dependendo do momento do game - grande destaque para a luta no coliseu que é narrada “de verdade”, com os comentaristas realmente falando sobre os acontecimentos em tempo real, inclusive mencionando invocações, etc.

E os efeitos sonoros são tão importantes quanto as animações e efeitos visuais para ajudar na sensação de impacto das lutas, e torná-las muito mais intensas. Acompanhados da trilha clássica reformulada, eles ajudam a tornar as lutas contra os chefes o grande ponto alto deste jogo.

Dublagem excelente em japonês e inglês, mas faltou português

E claro que não podemos deixar de falar da dublagem, uma grande novidade em relação ao game original.

O trabalho é excelente na maior parte dos casos. Em inglês, o dublador de Cloud faz um trabalho perfeito e Tifa também não deixa a desejar. Aerith dá pra sentir um pouco a atuação e Barret realmente deixa muito forçado, mas nada que chegue a estragar a experiência. Curiosamente, esse é o primeiro jogo japonês que acabo preferindo jogar com a dublagem em inglês do que japonês. Possivelmente por causa da estética dos personagens… É uma pena, de qualquer forma, que não tenhamos a opção da dublagem em português brasileiro. Um jogo sendo feito aos pedaços por causa do seu imenso tamanho talvez poderia reservar um pouco de seus recursos para ser localizado num dos maiores mercados de games do mundo também. Pelo menos dá pra deixar os textos e os menus traduzidos.

CONCLUSÃO

A primeira parte de Final Fantasy 7 Remake está excelente e promete muito. O combate é simplesmente fenomenal e empolgante, fazendo o jogador pensar e suar ao mesmo tempo. As mudanças no ritmo do game e deixar o jogador um pouco mais “amarrado” não vão agradar todo mundo, mas ver a história recontada com essa qualidade gráfica e personagens tão queridos ganhando uma nova vida na tela realmente fazem este game valer a pena. É o mesmo enredo, só que expandido e contado numa nova experiência.

Mas - e esse é um grande MAS - não vi nada aqui que justifique mutilar o game em diversos pedaços. Muito menos cobrando o preço de um jogo completo por cada parte: R$ 250 na PSN. E a situação fica ainda pior porque nem sabemos quantas partes serão no total. Ou seja, você não sabe quanto vai ter investido no fim das contas. Também não sabemos quanto tempo vamos ter que esperar entre cada parte.

O jogo é excelente, pena que está incompleto

Dá pra sentir que a produtora está aproveitando um pouco da “moral” que tem este grande clássico e provavelmente seu plano vai dar certo, mas não posso dizer que tenha qualquer vantagem para o jogador esse sistema de lançar o jogo em várias partes. No fim das contas certamente o resultado vai ser um jogo imenso, mas temos vários outros jogos igualmente enormes que não precisaram ser divididos em suaves prestações.

De todo modo, seria injusto com o trabalho dos desenvolvedores classificar este game como “não recomendado” depois que eu me diverti tanto enfrentando seus chefes e conhecendo de novo esse bando estranho de heróis. Só espero que esse “gostinho” sirva pros jogadores ficarem mais pacientes e exigirem que a segunda parte seja todo o resto do game.


RECOMENDA? SIM Jogo está incrível, apesar de não estar completo
PRÓS
Lindos gráficos e animações de qualidade
Ótima dublagem
Combates intensos e estratégicos
História sem pressa, desenvolve os personagens
Performance no Honeybee Inn
CONTRAS
Não tem dublagem em português
Sem configuração de comportamento da IA
Minigames sem graça obrigatórios
Sem informações sobre as partes futuras
Tags
ps4
  • Redator: João Gabriel Nogueira

    João Gabriel Nogueira

    João Gabriel Nogueira se formou em jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) em 2015 e curte games desde muito antes. Começou com o Master System e o gosto pelos jogos eletrônicos trouxe o gosto pela tecnologia. Escrever notícias e análises de jogos, hardware e dispositivos móveis para o Adrenaline, além de trabalho é uma alegria e um aprendizado.

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