Análise de Kingdom Hearts 3 Re Mind - Gameplay empolga, mas limitações e redundâncias derrubam DLC

Tetsuya Nomura entrega mais dúvidas do que respostas em expansão dispensável, mas com chefes desafiadores

Após 359 dias do lançamento de Kingdom Hearts 3, número que possivelmente não é uma coincidência, a Square Enix trouxe ao mercado ReMind, o DLC que expande a história do RPG que ficou famoso por misturar personagens da Disney e Final Fantasy, mas que não vem fazendo isso ultimamente. 

Além de trazer duas novas keyblades para todos os jogadores em um update gratuito, o conteúdo adicional possui uma versão paga que custa até R$ 122 e traz mais história e gameplay para o último título da franquia, que ganhará uma continuação nos smartphones ainda este ano.

O lançamento de Re Mind marca uma nova fase para Kingdom Hearts: como os principais jogos anteriores da franquia foram lançados em uma era pré-DLC, a Square Enix costumava relançar os games integralmente com conteúdos extras. A prática acabou deixando a série famosa por causa de suas alcunhas peculiares, com sobrenomes gigantes e até números quebrados. Agora, só temos que lidar com uma palavra em inglês dividida ao meio, o que já é um grande avanço.

Após conferirmos a expansão no PS4 graças a uma cópia enviada pela Square Enix, confira a nossa análise de Re Mind e se vale a pena investir sua grana na mais nova aventura de Sora e seus amigos. Lembrando que nossa review pode conter spoilers de Kingdom Hearts 3, uma vez que o conteúdo se passa logo após o jogo -- confira nossa review aqui.

História

Com mais de 10 lançamentos desde sua estreia em 2012, a franquia Kingdom Hearts é cheia de reviravoltas e pontas soltas que precisam ser resolvidas, e a missão do DLC Re Mind, para a surpresa de ninguém, é piorar a situação e oferecer ainda mais perguntas, incluindo a extensão de uma incógnita que foi fabricada literalmente nos últimos momentos de KH3. Ao invés de clarear o caminho para os novos rumos que a saga deve seguir, a expansão transporta o jogador novamente para o final de KH3, para você reviver momentos que já jogou e fechar algumas janelas da narrativa, que possivelmente foram abertas de propósito, visto o histórico do diretor Tetsuya Nomura de ficar dando voltas com a história da série.

Oh, sh*t, here we go again...

A história de Re Mind começa exatamente no final de Kingdom Hearts 3 (cuidado com os spoilers adiante) e explica as cenas de conclusão do game, quando Sora misteriosamente desaparece no ar após salvar Kairi, tecnicamente “morta” por Xehanort durante a batalha derradeira entre bem e mal. Assim como mostrado em KH3, o protagonista abre um portal no céu com o “poder do coração” e vai em busca de sua amada amiga. Já no DLC, ele descobre que precisa seguir o exemplo do antagonista da série e violar um dos maiores tabus dos mestres de keyblade: viajar no tempo. 

Sora retorna ao início da batalha final de Kingdom Hearts 3

Segundo as leis criadas por Tetsuya Nomura, Sora volta para o passado em forma astral e, graças a isso, precisa “incorporar” os sete guardiões da luz para reviver a batalha contra Xehanort e chegar até Kairi. Graças ao recurso narrativo, o jogador praticamente revive toda a batalha final, mas pela perspectiva dos outros protagonistas da saga. A escolha de voltar no tempo gera uma série de redundâncias e boa parte do conteúdo do DLC é exatamente igual ao que temos nos momentos derradeiros de Kingdom Hearts 3. Inclusive, praticamente o único mundo realmente explorável é Scala ad Caelum, que ganha apenas alguns cenários a mais acompanhados de puzzles para serem resolvidos.

Por outro lado, vale mencionar que a Square Enix usou a viagem no tempo em prol do "fanservice" e também garantiu alguns momentos diferenciados e empolgantes, como a batalha solo de Mickey, mas que acabam ficando perdidos no meio de tantas repetições.

Um breve teaser sobre o futuro da saga

Saindo da redundância causada pela volta no tempo e as raras sequências empolgantes, o DLC traz poucos momentos que vão além de Sora buscando por Kairi. O destino do protagonista após salvar a amiga e sumir no ar, que aparece numa cena secreta de Kingdom Hearts 3, não ganha muito aprofundamento, apesar de ter bastante potencial. A temática só ganha destaque mesmo nos extras de Re Mind (sim, o conteúdo extra possui extras) e a abordagem é tão rápida que acaba servindo como teaser e deixando mais dúvidas do que respostas sobre o futuro da saga. 

O DLC deixa dúvidas interessantes de lado para reciclar o final de Kingdom Hearts 3

Após passar por uma sessão de descarrego contra as versões digitais de chefões nos extras do DLC, o jogador é apresentado a uma nova narrativa envolvendo Yozora, que aparece no mundo de Toy Box em Kingdom Hearts 3. A Square Enix até ousou colocar finais diferentes para o teaser final e continua dando pistas de que um grande crossover com o jogo The World Ends with You pode acontecer, o que aumenta a curiosidade sobre o futuro da série. Além disso, o peculiar trecho de encerramento também prova que Tetsuya Nomura tem sérios problemas em superar dores do passado e toda a nova trama pode ser uma articulação do diretor para reviver o finado Final Fantasy Versus XIII dentro da franquia feita em parceria com a Disney. Para quem tem paciência e consegue acompanhar as viagens desse game designer tão louco quanto Hideo Kojima, ver toda essa construção é muito interessante, mas é uma pena que Re Mind deixa tudo isso apenas como conteúdo extra para priorizar a reciclagem do final de KH3.


Os personagens de Final Fantasy praticamente só estão no jogo porque Riku precisa de ajuda para mexer no computador

Além de introduzir brevemente um enredo adicional, o DLC também traz um pouco de contexto sobre a narrativa principal de Kingdom Hearts (aka a história da "caixa") e dá pistas de que existem possíveis ligações entre os grandes estrategistas da saga e o novo núcleo baseado na falecida versão de Final Fantasy XV. Ainda assim, Re Mind apenas "arranha a superfície" da lore e possivelmente os próximos games da franquia terão cutscenes gigantescas abordando a breve trama revelada na expansão, visando dar explicações aos jogadores perdidos.

Por fim, outro ponto que precisa ser mencionado em relação à história é a participação dos personagens de Final Fantasy, que ganharam destaque em um dos trailers de Re Mind. Infelizmente, o retorno dos rostos conhecidos não vai além de uma cena, já que eles só servem para “ambientar” o lobby de entrada para a luta contra os chefes extras. A tendência é que Leon e seus amigos retornem futuramente, mas o que foi entregue no DLC de Kingdom Hearts 3 é risível.


Achou que teríamos exploração com Riku e personagens de Final Fantasy? Tudo que Re Mind entrega é esse cômodo fechado (que ficou lindo com gráficos da Unreal Engine, pelo menos)

Gameplay

Enquanto a história traz pouco aprofundamento na lore e se aproveita de repetições, o gameplay de Kingdom Hearts 3 Re Mind se escora no "fanservice", mas possui momentos empolgantes. Um dos principais defeitos do jogo base é ausência de chefes difíceis e poucas sequências de jogabilidade com personagens queridos, como a esquecida Kairi. O DLC vem para atender o desejo dos fãs e entregar praticamente isso: além de repetir as lutas do final de Kingdom Hearts 3 com a possibilidade de trocar de personagem, o game também conta com um lobby de chefões que entregam batalhas realmente desafiadoras.


Os chefões extras de Re Mind são criados digitalmente e podem ser enfrentados nessa sala

As lutas durante a história de Re Mind não são complicadas de encarar para quem apenas terminou a história principal de Kingdom Hearts 3, mas os Data Bosses são voltados para quem se dedicou bastante ao jogo base. Se você não quer tomar um sarrafo da Organization XIII digital, é recomendado voltar para KH3, subir o nível de Sora até o talo e conseguir itens especiais, como as keyblades Oblivion e Oathkeeper, adicionadas ao game de maneira gratuita em update lançado com o DLC. 

Os chefões trazidos no DLC vão agradar quem já chegou ao nível 99
 

Por motivos que eu ainda não consegui entender, você precisa começar um arquivo de salvamento separado para Re Mind e a expansão não permite que você explore os diferentes mundos presentes no game original. Assim, se você zerar a história do conteúdo e chegar com level baixo nos chefes extras e quiser dar aquela upada marota, terá que retornar para o jogo base, subir de nível lá e jogar novamente a toda história do DLC para ter acesso aos Data Bosses. 

Enquanto a adição de novos chefões poderosos é bem-vinda e recompensadora para quem platinou Kingdom Hearts 3, a decisão de separá-los do jogo base com certeza vai deixar a experiência frustrante para quem resolveu ir diretamente para a história de Re Mind em busca apenas de respostas para o enredo da saga. Apesar disso, o gameplay, no geral, acaba gerando momentos agradáveis e com certeza oferecerá desafios para quem achou KH3 fácil demais.


Quando não está repetindo conteúdo, Re Mind mostra o outro lado do final de Kingdom Hearts 3 

Além das batalhas contra chefões serem bastante emocionantes, o jogo aproveita, de vez em quando, o olhar paralelo do final de Kingdom Hearts 3 para entregar momentos de história empolgantes. Em alguns casos, é possível jogar com praticamente todos os portadores de keyblades ao mesmo tempo, o que garante batalhas emocionantes e que possuem um visual deslumbrante. Outro destaque fica por conta das interações que acontecem entre as custscenes, que dão um alívio nas longas sequências de história e ajudam a justificar a existência de um DLC focado em uma parte do game que já foi jogada.

Mesma batalha, personagem diferente

Para os fãs mais assíduos a saga, recurso mais atraente de Re Mind é a possibilidade de jogar com personagens queridos da franquia, afinal, Sora protagoniza quase todos os combates de Kingdom Hearts 3. Porém, infelizmente o conteúdo adicional segue a fórmula do jogo base e só dá um gostinho de como é assumir o posto de outro portador de keyblade. As lutas com Kairi, Riku, Roxas e companhia trazem apenas comandos básicos e poucas variações de golpes especiais. As batalhas até empolgam com alguns momentos bonitos e ataques especiais, mas sua aplicação como um dos principais recursos do DLC acaba decepcionando pela falta de aprodundamento.

Certas batalhas são exatamente as mesmas de Kingdom Hearts 3, mas com a opção de trocar de personagem.

Na maioria dos casos em que você tem a opção de variar o protagonista, o jogador simplesmente revive uma batalha do final de Kingdom Hearts 3 que possui uma tela de seleção de personagem no início. Se o jogador quiser, inclusive, é possível até repetir a mesma experiência optando pela luta com Sora. Nesse cenário, fica difícil justificar a ausência do recurso no jogo base, principalmente porque alguns personagens jogáveis, como Riku e Aqua, já tinham mecânicas de combate prontas desde o ano passado. A sensação deixada é que os desenvolvedores queriam fazer mais volume para o DLC com um recurso capaz de chamar a atenção dos fãs para um download que custa mais de R$ 90.

Modo Foto e Kingdom Hearts Orchestra

Saindo da história e jogabilidade, Re Mind também conta com outro recurso extra que vai agradar os fãs mais ávidos da franquia: um modo foto rebuscado e cheio de recursos. Kingdom Hearts 3 já possui um sistema captura de imagens in-game e possui com missões que se aproveitam da mecânica. No caso do DLC, o conteúdo é puramente lúdico, mas possui  tantas ferramentas que consegue gerar diversão para quem esperava por mais novidades da saga.

Consegui reunir todo mundo que é, já foi ou tem parte do Sora em apenas uma imagem 

O modo de fotografia pode ser encontrado no menu “Data Greeting” e permite que o jogador entre em ambientes dos mundos presentes em Kingdom Hearts 3 para realizar composições. A funcionalidade inclui personagens principais e secundários em diferentes versões, inimigos, acessórios e até mesmo ataques para serem utilizados na montagem de cenários. Para quem é fã da saga e quer encontrar justificativas para pagar R$ 90 em um download adicional, a novidade pode ser um grande atrativo. Vale ressaltar que a edição completa da expansão também vem com as músicas da Kingdom Hearts Orchestra, que toca a bela trilha sonora dos games da franquia. Para os fãs mais fieis, o combo é perfeito para aproveitar ao máximo os belos gráficos e trilha sonora do mais recente título da série.

Conclusão

Com lutas épicas tirando proveito da conhecida jogabilidade da franquia, Kingdom Hearts 3 Re Mind traz o que é necessário para agradar quem já fez tudo que o jogo base oferece e está ávido por mais conteúdo da saga. Além de trazer chefes realmente difíceis e uma batalha final que deixa uma grande incógnita para o futuro da série, o jogo também conta com sequências de ação empolgantes com os guardiões da luz, algumas “migalhas” para quem queria descer a porrada com a Kairi e um novo modo de fotografia bastante robusto.


O DLC conta com momentos e lutas empolgantes, mas não entrega conteúdo suficiente para justificar seu preço elevado 

Por outro lado, grande parte do DLC é praticamente o final de Kingdom Hearts 3 reempacotado em um novo download, custando mais de R$ 90 e que possivelmente terá seus principais pontos de história contados em uma grande custscene dentro dos futuros jogos da franquia. A presença dos personagens de Final Fantasy também é pífia e, assim como o gameplay com os novos personagens jogáveis, serve apenas como uma espécie de isca para atrair jogadores interessados no futuro da saga. 

Conteúdo pode agradar fãs mais fanáticos, mas vale a pena esperar uma promoção

Em um ano em que teremos Cyberpunk 2077, Resident Evil 3 e até Final Fantasy 7 Remake, que é feito por Tetsuya Nomura, investir cerca de R$ 100 em Re Mind não é uma boa ideia, principalmente para quem ainda não faz parte dos menos de 5% de jogadores que platinaram o jogo base no PS4 ou alcançaram todas as conquistas no Xbox One. Com isso em mente, vale a pena esperar uma bela promoção para colocar o conteúdo extra na sua biblioteca. Enquanto isso, a dica é aproveitar o tempo para ir preparando seu save, afinal, um update gratuito trouxe duas keyblades para o game base e a luta com chefões casca grossa do DLC não permite que você volte para dar aquela upada marota.


RECOMENDA? NÃO Conteúdo entregue no DLC não justifica o preço cobrado
PRÓS
Lutas desafiadores com MUITOS chefões
Sequências de ação inéditas (e raras) 
Novo modo fotografia
CONTRAS
Repetição de conteúdos de Kingdom Hearts 3
Participação pobre de personagens de Final Fantasy
Combate limitado com novos personagens jogáveis
Pouca exploração e save separado para o DLC
  • Redator: Mateus Mognon

    Mateus Mognon

    Mateus Mognon é formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina. Vencedor do prêmio SET Universitário na Categoria Reportagem Digital, atua nos sites do grupo Adrenaline desde 2014. Atualmente, colabora para os veículos com notícias, análises e artigos envolvendo tecnologia e games.

O que você achou deste conteúdo? Deixe seu comentário abaixo e interaja com nossa equipe. Caso queira sugerir alguma pauta, entre em contato através deste formulário.