ANÁLISE DE DRAGON BALL Z KAKAROT - Alta dose de nostalgia em game cheio de falhas

RPG de mundo aberto se destaca entre os jogos da franquia, o que não quer dizer muita coisa
Por Mateus Mognon 28/01/2020 19:18 | atualizado 29/01/2020 12:42 comentários Reportar erro

A esfera com uma estrela dourada gira em uma tela laranja mostrando a letra Z, seguida de uma imagem onde céu e mar se encontram, com o logo de Dragon Ball Z surgindo ao som da clássica música Cha-La Head-Cha-La. Essas são as primeiras cenas da abertura de Dragon Ball Kakarot, simulando com fidelidade o início do desenho animado que fez a alegria de muitas crianças no Brasil e no mundo.

Após lançar Dragon Ball FighterZ e fazer sucesso no cenário competitivo, a Bandai Namco resolveu investir em um novo projeto para realizar o sonho de muitos fãs da saga: um jogo de Dragon Ball que é um RPG de mundo aberto, em que você toma o controle dos guerreiros do anime e vive suas aventuras na Terra.

Anunciado originalmente como Project Z, Dragon Ball Z Kakarot chegou prometendo ser o game que iria entregar a experiência mais completa com a famosa saga da franquia, além de se aprofundar em extras da história e trazer novas mecânicas de jogabilidade. 

Será que o título consegue suprir o desejo dos fãs mais ávidos e tem potencial para ser mais do que apenas uma nova adaptação da obra de Akira Toriyama? Após passarmos mais de 30 horas desvendando o conteúdo de Dragon Ball Z Kakatot para PC, descubra o que achamos do game na nossa análise!

Gameplay - Um mundo cheio de (rasas) possibilidades

O primeiro fator que chama a atenção em Dragon Ball Z Kakarot é o seu gameplay. Antes de ser mais um jogo de luta do desenho animado, o novo título é um projeto que adapta o arco mais famoso do anime como um RPG de mundo aberto. Só por causa disso, o projeto tem potencial para ganhar o coração de muitos fãs: você pode encarnar Goku, reviver momentos icônicos da história da saga, treinar, comer, levar bronca da esposa, andar de carro e explorar o mundo em busca das esferas do dragão. 

DBZ Kakarot é o mundo aberto mais abrangente da franquia até agora

O jogo acompanha os quatro arcos principais da saga e permite controlar alguns dos Guerreiros Z na experiência de mundo aberto mais completa e abrangente da franquia até agora. O destaque do sistema de progressão é a árvore de habilidades que acompanha o jogador do início ao fim: todos os personagens principais possuem ataques que podem ser desbloqueados e aprimorados com orbes, adquiridos durante as missões e também coletados ao explorar o cenário. Novos golpes também são liberados durante o treinamento, basta que o lutador atenda aos requisitos necessários e tenha paciência para enfrentar uns clones de si mesmo.

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Além disso, também é possível aprimorar os atributos da equipe de lutadores por meio de um sistema chamado "Fórum da Comunidade", que transforma os personagens em emblemas e permite posicioná-los estrategicamente em tabuleiros com conexões. Dependendo das ligações feitas e a barra de amizade de cada medalhão, o jogador ganha mais pontos e consegue subir o nível do elenco, o que garante bônus em aspectos do jogo que vão desde o combate até a culinária.

Vale destacar, inclusive, que boa parte do game gira em torno de comer e lutar, capturando a essência dos sayajins criados por Akira Toriyama. Enquanto as batalhas fazem a narrativa andar, a culinária, que pode ser acessada em fogueiras ou personagens que cozinham, é essencial para se recuperar após combates mais duros e justifica grande parte da exploração presente no game.

Buscando alimentos

Atividades como a pesca e caçada de animais ou dinossauros, por exemplo, são essenciais para que o jogador consiga recuperar as energias e evoluir no mundo de Dragon Ball Z Kakarot. A presença de afazeres triviais também é um prato cheio para os fãs que sempre sonharam em ir além das lutas nos games da franquia. O problema, porém, é que as mecânicas não ganham tanto aprofundamento. Enquanto a pesca é baseada em Quick Time Events quase impossíveis de perder, a caça gira em torno de correr atrás de animais e atirar bolas de energia em dinossauros com uma mira que não funciona direito. Eu não queria entrar no mérito das escolhas criativas do pessoal da desenvolvedora CyberConnect2, mas fazer Goku e família pescarem usando a cauda também é uma decisão, no mínimo, questionável.

Outro aspecto presente em Dragon Ball Kakarot são os meios de transporte, que também podem agradar os fãs, mas possuem um desenvolvimento superficial. Enquanto o andador robótico e o carro podem ser utilizados somente em corridas de "Time Attack", a nuvem voadora perde a graça rapidamente, já que voar sem ela é bem mais rápido e divertido, além de consumir pouca energia. Assim como nos combates, essa parte do jogo deixa um gostinho de que ter suporte para multiplayer seria interessante e traria uma competitividade amistosa ao game. Porém, como a experiência é estritamente single-player, o jogador tem que aproveitar tudo sozinho.

E as lutas?

O combate de Dragon Ball Z Kakarot, um dos principais cernes do game, é marcado pela simplicidade. Enquanto FighterZ traz uma veia mais competitiva com suas lutas em 2D e a franquia Xenoverse conta com diversas opções de combos em ambientes tridimensionais. O novo título segue a pegada 3D, mas com uma abordagem mais branda. O game aposta em uma palheta de ataques especiais que pode ser acessada facilmente e praticamente todos os golpes básicos são concentrados em um único botão, que pode ser combinado com outros uma vez, durante a finalização do combo. Dependendo do quão alto é seu nível em comparação aos adversários, é possível ganhar uma briga simples pressionando B/Círculo repetidamente, com apenas uma mão. Em lutas contra chefes, porém, o desafio felizmente é maior. 

O sistema de combate é simples, mas os chefes conseguem ser mais desafiadores

No quesito "quebra pau", o destaque são as mecânicas de esquiva: o jogador possui um botão dedicado ao "teleporte", o que deixa a experiência próxima das batalhas do anime e faz com que até mesmo combates triviais tenham um visual de briga colossal. Em algumas batalhas mais importantes, o jogo também aproveita os cenários 3D destrutíveis e utiliza ângulos de câmera diferentes quando o "chefão" vai dar um golpe especial, criando situações de "bullet hell" que animam as partidas. Porém, isso é exceção em grande parte dos combates, tanto em brigas de grande porte quanto em encontros que ocorrem com inimigos no mundo aberto.


Para ter com quem brigar no mundo aberto, DBZ Kakarot encheu o universo de soldados do Freeza, robôs e Saibamans  

Graças ao sistema de combate simples e a grande quantidade de conteúdo, a dica é seguir a diagramação de anime que está presente no jogo e consumi-lo de maneira tranquila. Apesar de os personagens evoluírem, os cenários mudarem e a árvore de habilidades garantir novos ataques de tempos em tempos, o gameplay e as longas sequências de cenas podem se tornar cansativos quando degustados em uma tacada só. Logo, fazer pausas e aproveitar o mundo aberto gradualmente pode tornar a experiência bem mais agradável para os fãs de carteirinha da saga.

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História - um novo olhar para a caminhada de Goku, mas com a mesma roupagem

Diferente dos games mais recentes da franquia, o novo jogo da Bandai Namco tira um pouco dos holofotes das lutas para entregar uma experiência single-player focada na história e não decepciona quando o assunto é quantidade de conteúdo. O objetivo de DBZ Kakarot é não apenas ser uma experiência abrangente envolvendo a saga, mas também ser uma espécie de "enciclopédia interativa" para quem cresceu assistindo Dragon Ball Z. 

DBZ Kakarot é uma enciclopédia interativa do anime

Em sua campanha principal, o jogo passa por todas as quatro sagas de Dragon Ball Z: a luta contra os Sayajins, a ameaça de Freeza, a chegada de Cell e, por fim, o surgimento do lendário Majin Boo. Aproveitando a roupagem de RPG de mundo aberto, o game também possui uma série de missões secundárias canônicas que auxiliam a expandir a história do universo, trazendo detalhes que vão além do que vimos nas animações.

Dragon Ball Z Kakarot deixa o mundo totalmente aberto após a conclusão da história, o que permite fazer missões secundárias que ficaram para trás

No quesito narrativo, Dragon Ball Z Kakarot brilha ao apresentar versatilidade em expandir a história que muitos fãs já conhecem. Além de trazer missões secundárias enquanto o jogador explora o mundo ao seu redor para dar andamento à trama principal, o título também conta com "períodos de intervalo". A novidade aproveita os vácuos temporais que acontecem entre cada saga e dá tempo de sobra para explorar todo o universo presente no game. Ao final da história, também é possível voar livremente pela Terra e até visitar locais no espaço, dando conteúdo de sobra para quem curte o desenho animado e quer saber tudo sobre o universo.

Falta de acabamento decepciona

Enquanto o jogo capricha na quantidade, a qualidade na hora de contar história acaba deixando a desejar. As cutscenes que possuem um visual que impressiona são escassas e boa parte dos momentos em que o jogo realmente derruba o queixo dos jogadores podem ser vistos no trailer de lançamento, disponível neste link. Geralmente, porém, as sequências voltadas para contar a narrativa de maneira direta possuem movimentações travadas e ângulos duvidosos -- não é raro ver os personagens pelas costas durante os diálogos, uma técnica que permite economizar nas animações de fala.


Você não precisa animar a boca do Trunks se eles estiver falando de costas. *insira o meme de ideia genial*

Além disso, o estúdio responsável pelo game não poupou na hora de reciclar recursos narrativos presentes em outros títulos da série, incluindo mecânicas que acabam atrapalhando a cadência do storytelling. Uma delas são as caixas de texto que só continuam se o jogador pressionar um botão. Enquanto as cutscenes renderizadas entregam uma experiência mais imersiva, ficar clicando toda hora para cada linha de fala passar na tela acaba atrapalhando o andamento do jogo na maioria das vezes. 

Outro ponto que eventualmente quebra a imersão na narrativa é a forma como alguns elementos de RPG foram implementados na história. Quando o jogo depende de griding e possui um sistema de níveis, é bastante válido colocar alguns respiros na história e dar espaço para o jogador evoluir antes de momentos importantes. Porém, fazer isso literalmente no momento em que a briga vai começar, quando herói e vilão estão se encarando, não funciona muito bem. Afinal, sair voando pela área aberta do jogo e fazer favores para transeuntes em troca de XP enquanto o planeta está prestes a ser destruído não parece uma decisão sã nem mesmo para o Goku.

Cortes na história e grande quantidade de extras

Saindo do formato e indo para o roteiro, a história contada em Dragon Ball Z Kakarot deve agradar os fãs mais ávidos da saga, pois é uma adaptação direta de toda a série que fez a infância de muitos brasileiros, mas possui certos aspectos que atrapalham seu principal objetivo. Infelizmente a desenvolvedora acabou cortando muitas cenas icônicas da animação e fazendo mudanças para "acelerar" o jogo em alguns momentos. Sabe o famoso "It's over 9000"? Pode esquecer... Além disso, algumas partes da narrativa, principalmente na saga Boo, sofreram com o que parece ser a "pressa" dos desenvolvedores. Boa parte da introdução do último capítulo e também a sequência que se passa literalmente dentro do vilão -- que poderia render um gameplay diferenciado -- são resumidas em poucas caixas de texto em tela preta

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Ainda assim, o jogo vale a pena para quem curte a história da saga por causa da recriação de grande parte dos momentos icônicos do desenho e também dos extras, que mantém o nível de qualidade do roteiro do anime (ou seja, não espere uma indicação ao Game Awards de Melhor Narrativa). As missões secundárias e inserções cumprem o papel de expandir o universo da obra e, apesar de seguirem uma fórmula preguiçosa, conseguem divertir e justificar a existência de Dragon Ball Z Kakarot. Saindo da parte jogável, a Enciclopédia Z, presente no menu, também conta com leituras adicionais que trazem mais detalhes sobre o universo criado por Toriyama, com tudo localizado em português brasileiro.

Gráficos e som

Assim como acontece na história, os gráficos de Dragon Ball Z Kakarot não impressionam pela qualidade, mas ganham valor graças à nostalgia. Voar pelos ambientes abertos inspirados no mundo do anime é tão bom que você simplesmente esquece de outros problemas presentes no jogo. A coleta de medalhas e bolinhas coloridas, que podem ser ganhos em grandes quantidades em missões, ganha significado quando você começa a cortar os céus com um dos Guerreiros Z. O destaque fica para a recriação de locais como a região da casa do Goku, as Terras Sagradas de Karin e as cidades, que trazem belos ambientes e são uma viagem para dentro do universo do desenho animado.

Enquanto os ambientes abertos dão uma levantada no gameplay, a ausência de detalhes acaba tirando a profundidade da experiência. Praticamente todos os itens que podem ser coletados são representados por uma bolinha brilhante. Isso vale tanto para as maçãs e carnes que você coleta explorando o mundo até apetrechos mais importantes, utilizados durante missões. A diversidade nos modelos de carros, inimigos e até golpes não variam muito durante o andamento da história também, algo que poderia ser aprofundado se considerarmos o teor aberto do game. Por outro lado, a CyberConnect2 caprichou nos efeitos de partículas, o que torna o visual de ataques especiais e transformações mais chamativo.

Na parte de som, Dragon Ball Kakarot conta com a dublagem original em japonês ou inglês, mas com legendas em nosso idioma. Para a infelicidade do público alimentado pela TV Globinho, o título não vem com a clássica dublagem brasileira, o que com certeza daria uma nova dimensão para a experiência com o jogo. A trilha sonora clássica também agrada e consegue aumentar a emoção de grandes lutas. Por outro lado, tanto a playlist quanto as falas dos lutadores sofrem com constantes repetições durante a exploração do mundo aberto. 

As falas dos personagens se repetem com grande frequência durante a exploração

Por fim, vale ressaltar que o desempenho do game no computador também merecia mais atenção da desenvolvedora. Enquanto a ausência de suporte para ultrawide não deve incomodar muitos jogadores, o tratamento com a taxa de frames pode gerar revolta em mais consumidores: atualmente, a única forma de tirar o jogo dos 30fps é desligando o V-Sync, o que aumenta o framerate para o máximo de 60 quadros por segundo, independente do seu sistema. Além disso, animações renderizadas de ataques especiais, como é o caso do Dragon Fist de Goku, também derrubam o desempenho durante sua execução. Felizmente a comunidade do computador é mais do que autossuficiente e já está resolvendo as falhas por meio de modificações. Ainda assim, vale a pena ficar de olho nesses detalhes, dona Bandai Namco e demais estúdios.

Conclusão

Após me divertir revivendo momentos da minha infância em Dragon Ball Z Kakarot durante dezenas de horas, fica evidente que o título está longe de ser um bom jogo, mas consegue o feito de ser uma das melhores experiências da franquia na geração atual. O game não se destaca no gênero de luta e também não é exemplo de um grande RPG, por isso não é uma boa pedida para quem espera um produto que seja muito bom em um desses segmentos.

Por outro lado, a produção da Bandai Namco com a CyberConnect2 traz aspectos que vão agradar os fãs da franquia e o produto é um ótimo colecionável inspirado no clássico anime de Akira Toriyama. Mesmo não sendo perfeito, o projeto consegue superar a família Xenoverse e traz capacidade de oferecer muita diversão para quem já ama o universo representado e tem dinheiro para investir nessa paixão. 

Kakarot não é um jogo de qualidade, mas é uma grande adaptação da saga Dragon Ball Z

Mantendo as devidas proporções, existe a chance de Dragon Ball Z Kakarot se tornar tão marcante quanto títulos como The Simpsons: Hit and Run, game icônico do PS2 que gerou boas memórias para muitos jogadores ao simplesmente mostrar que dá para entregar uma boa dose de diversão ao transportar um desenho animado para um jogo de mundo aberto. Não podemos esquecer, porém, que o projeto da Bandai Namco foi lançado para a geração atual e sai por preços de até R$ 250, o que deixa a espera por uma promoção mais interessante para quem busca por um melhor custo-benefício. 

Enquanto a história possui alguns cortes e é contada de maneira preguiçosa e sem muito cuidado por boa parte do tempo, a jogabilidade em mundo aberto e os extras, tanto na narrativa quanto em gameplay, conseguem entregar uma experiência que chama a atenção, mesmo cercada de superficialidade e pouco acabamento. Para quem está em busca de uma peleia digna do desenho animado, Dragon Ball FighterZ ainda é a melhor opção, mas quando o assunto é quantidade, é difícil superar o poder de Dragon Ball Z Kakatot, mesmo que todo o conteúdo venha embalado em um jogo medíocre.


RECOMENDA? NÃO É divertido, mas só vale a pena mesmo para fãs da saga
PRÓS
Voar no mundo aberto é delicioso
Grande quantidade de conteúdo sobre a saga 
Progressão que acompanha a evolução dos personagens
CONTRAS
Falta de acabamento na maioria das cenas e cortes na história
Ausência de detalhes nos itens do mundo aberto
Combate simples e mira que poderia ser melhor
Pouco aprofundamento em mecânicas diferenciadas
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  • Redator: Mateus Mognon

    Mateus Mognon

    Mateus Mognon é formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina. Vencedor do prêmio SET Universitário na Categoria Reportagem Digital, atua nos sites do grupo Adrenaline desde 2014. Atualmente, colabora para os veículos com notícias, análises e artigos envolvendo tecnologia e games.

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