ANÁLISE: Crackdown 3

Divertido, mas pouco inspirado, exclusivo da Microsoft não consegue dizer a que veio

[Update]: A análise foi atualizada com nossas impressões sobre o segmento multiplayer do jogo, que foi separado na forma do modo “Wrecking Zone”.

Crackdown 3 finalmente chega (depois de muitos adiamentos) para reviver uma franquia que estava adormecida desde 2010, quando seu antecessor saiu para o console da Microsoft de geração passada, o Xbox 360. O desenvolvimento do modo campanha do game – que é objeto desta análise – mudou de mãos novamente, desta vez para o estúdio inglês Sumo Digital. Eles têm larga experiência com jogos de corrida para consoles e de plataforma para dispositivos móveis, mas é a primeira vez que trabalham como desenvolvedores principais de um jogo deste porte numa grande franquia para consoles. Se eles conseguiram enfrentar esse tremendo desafio e sair vitoriosos, você confere em nossa análise completa abaixo!

Jogabilidade

A franquia Crackdown nunca foi de cair em crises de identidade e sempre foi muito clara em suas propostas: dar liberdade total para o jogador explorar um mundo aberto e bastante vertical na pele de um agente superpoderoso. O que era uma grande qualidade no lançamento original de 2007 virou um problema no segundo e agora no terceiro jogo da série, em 2019. Enquanto as mecânicas de jogos evoluíram de maneira considerável nesse período de mais de uma década, parece que Crackdown se mantém parado no tempo. É evidente como Crackdown 3 falha em renovar a jogabilidade da franquia, oferecendo apenas mais do mesmo.

Enquanto as mecânicas de jogos evoluíram desde 2007, parece que Crackdown se mantém parado no tempo

Não há duvidas de que é divertido socar, metralhar e explodir onda após onda de inimigos, mas falta refinamento e profundidade para o game. As batalhas corpo a corpo são pouco inspiradas e se resumem a alguns tipos diferentes de socos. Até há uma bela variedade de armas e o jogador é recompensado por variá-las na hora de enfrentar tipos distintos de inimigos. Mas isso não apaga a maneira pouco inspirada como o combate é implementado, com uma mistura de mira livre e mira automática que não há como customizar. Você pode mirar e atirar livremente, mas ao segurar "LT", você fica travado num único alvo. São poucos os elementos táticos e o usuário é incentivado a atacar com força total quase o tempo todo, já que matar inimigos regenera sua vida e escudo. Isso resulta em batalhas que são mais um teste de paciência e repetição mecânica do que algo realmente empolgante, especialmente contra chefões.

Ao começar um novo jogo em Crackdown 3, é dada a opção de escolher entre 6 personagens diferentes. Através do mundo aberto de New Providence estão espalhados os restos de DNA de outros 15 agentes, que podem ser coletados e usados para desbloqueá-los. Cada um ganha experiência extra em 2 das 5 habilidades diferentes: força, explosivos, agilidade e armas de fogo. Na minha visão, o personagem mais atrativo é de longe o Commander Jaxon, o líder dos agentes que é interpretado por Terry Crews. Todo o marketing recente do jogo gira em torno de sua carismática figura, seu agente tem a modelagem mais diferenciada e sua dublagem é a melhor. De qualquer jeito, basta entrar num dos vários supply points – também usados para viagem rápida – que você conquista durante a campanha para trocar de personagem, o que pode ser feito a qualquer momento.

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O prólogo serve como um ambiente controlado para introduzir as mecânicas do jogo. Até aí, não há nenhuma surpresa, já que isso é muito comum no mundo dos games. Você pula através dos telhados de prédios coletando suas primeiras orbes verdes de agilidade (uma das partes mais divertidas do jogo), aprende a atirar e a dirigir. Depois de causar um pouco de caos e atrapalhar as operações do chefão daquela área, é hora de enfrentá-lo. O problema é que essa sequência de completar objetivos espalhados pelo mapa até incomodar um vilão o suficiente para poder enfrentá-lo se repete pelo resto do game, sem variação. No fim das contas, parece que Crackdown 3 só consegue oferecer atividades que seriam consideradas missões secundárias em outros jogos, que só param brevemente para dar lugar a batalhas contra chefões. Não existem fases únicas e variadas; você faz mais ou menos a mesma coisa do começo até o final do game. Seria algo aceitável para um título independente, mas não para um jogo triplo A exclusivo e que custa preço cheio.

O problema é que essa sequência completar objetivos pelo mapa até incomodar um vilão e enfrentá-lo se repete pelo resto do game

Gráficos

Crackdown 3 mantém o estilo de gráficos em cel shading (que imita a estética de desenhos animados) de seus predecessores, mas com algumas mudanças. Ao fazer o salto para uma nova geração de consoles e para um novo motor gráfico (a Unreal Engine 4), os visuais ganharam novidades como uma iluminação melhor trabalhada, texturas de maior fidelidade e definição, assim como o uso de materiais realistas para compor o cenário. É uma mistura curiosa de elementos que pode parecer estranha à primeira vista, mas que foi implementada em outros jogos e filmes de animação – e, no final das contas, acaba servindo bem à proposta do game.

O que não quer dizer que o trabalho de arte do jogo seja excepcional, e nem que tenha atingido a visão que seus produtores nos mostraram durante diversas apresentações na E3 ao longo dos anos. O estilo visual de Crackdown deixa a desejar, pois não se sobressai em quase nenhum aspecto e em muitos momentos se apresenta como algo genérico, sem vida. Claro exemplo disso são os personagens, que não trazem muita variação de em sua aparência, nem em sua personalidade. A única exceção é para Commander Jaxon, que é interpretado pelo conhecido ator Terry Crews e empresta seu visual e sua voz. Mas é possível argumentar que seu brilho no jogo vem muito mais das lembranças dos papeis que ele desempenhou em sua carreira do que de algo que seja único de Jaxon – tanto que é possível jogar a campanha inteira como outro personagem. Não que faça muita diferença, já que eles não participam da narrativa e possuem algumas poucas falas gravadas para serem reproduzidas durante o gameplay.

Prática que se tornou comum durante a atual geração de consoles, Crackdown 3 oferece uma experiência gráfica consideravelmente diferente, dependendo de onde você jogá-lo. Por questões de logística, nós avaliamos uma cópia para o Xbox One base, que certamente oferece a pior qualidade visual de todas as versões. No console mais barato da Microsoft, o jogo oferece menos do que se espera de um título first-party, onde as empresas costumam ter um acesso mais profundo ao hardware. Os ambientes são pouco densos e escassos em detalhes, com a cidade grande futurista de New Providence não sendo capaz de oferecer a mesma sensação de povoamento e densidade que jogos como Red Dead Redemption 2 oferecem ou até mesmo que Grand Theft Auto IV já oferecia lá em 2008.

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Ao menos a Sumo Digital fez um bom trabalho de otimização e o jogo roda em 30fps travados na maior parte do tempo. São precisos muitos inimigos e muitas partículas na tela para prejudicar esse desempenho sólido, e às vezes nem isso é capaz. Esse talvez seja um ponto que tenha prejudicado a qualidade gráfica de Crackdown 3. Afinal, é preciso ter performance de sobra para quando o bicho pega, o que não é raro de se acontecer. Em meio ao caos de dezenas de inimigos lançando mísseis, projéteis e raios radioativos em você enquanto tudo explode à sua volta é que se encontra a verdadeira beleza do game da Sumo Digital. Pena que o mesmo não possa ser dito de todos os outros momentos do jogo.

Ao menos a Sumo Digital fez um bom trabalho de otimização e o jogo roda em 30fps travados na maior parte do tempo

Áudio

O design de áudio é, em certos aspectos, um dos fatores de maior destaque. Isso fica claro quando se está saltando através de lugares altos da cidade e, de repente, ouve-se um barulho grave e oscilante, como se fosse um grande sinal de neon consumindo quantidades obscenas de energia. Se você estiver usando fones de ouvido, poderá perceber perfeitamente de que lado vem esse som e então usar essa percepção para caçar a orbe que está escondida num lugar próximo. Talvez esse aspecto seja fundamental para a diversão que é coletar esses colecionáveis em Crackdown 3. O mesmo pode ser dito de armas disparando, explosões e todos os elementos caóticos que se apresentam durante o combate. Eles são bem representados pela parte sonora, que garante uma excelente imersão nesse mundo futurista.

Na maior parte do tempo, a trilha sonora é composta por uma música eletrônica minimalista e ambiental, apenas para gerar uma sensação de suspense e tensão – da mesma forma que em filmes dos gêneros de ação ou thriller. Só em batalhas mais tensas como contra chefões que a coisa realmente evolui para um dubstep, que dá um melhor ritmo para a parte sonora. Para quem acompanhou a parte de marketing e promoção do jogo, fazem falta as trilhas de rap que foram usadas na maioria dos trailers de Crackdown 3, e poderiam trazer uma dimensão extra para uma coletânea de faixas que acabou sendo bastante genérica.

História e ambientação

Os jogos anteriores da franquia nunca foram de investir numa narrativa elaborada, e Crackdown 3 não é diferente. Mal é possível dizer que há um enredo aí, tanto que todos os trailers do jogo enfatizam apenas tiros e explosões. A história é rasa e envolve um megacorporação maligna conhecida como TerraNova, que cometeu todos os tipos de crimes possíveis em nome da ganância. Algo que já se tornou um clichê em termos de narrativa, noção que o game não faz a menor questão de subverter ou desafiar por um momento sequer. A companhia controla a cidade de New Providence com seu dinheiro e influência política, que ela usa para oprimir os cidadãos e explorar os recursos naturais de maneira nada sustentável ou prudente.

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Mal é possível dizer que há um enredo aí, tanto que todos os trailers do jogo enfatizam apenas tiros e explosões

A TerraNova possui 3 divisões diferentes – logística, indústria e segurança – cada uma com seu próprio chefão. Isso faz com que existam 9 inimigos no total: contando líderes e vice-líderes de cada área mais Elizabeth Niemand, a CEO da empresa. Nenhum deles é particularmente bem dublado ou possui nuances em sua construção. Todos possuem apenas a característica de serem maus e de fazerem coisas ruins por motivos malignos. Não há uma história de tragédia pessoal que explique suas filosofias ou por qual motivo eles fazem o que fazem.

Mas tudo bem, essa não é a proposta de Crackdown, uma série que foca em seu mundo aberto e na liberdade que confere ao jogador. O que seria ótimo se a ambientação compensasse a falta de um enredo coeso, algo que está longe de acontecer. Com a sua ajuda, os cidadãos organizam grupos para combater as forças de segurança da TerraNova, mas isso nunca chega a ter um impacto para o jogo. Não é apresentado qualquer líder de algum desses grupos e todo mundo usa modelos de personagem genéricos. Algo que também fica claro nas pessoas que caminham nas ruas, que possuem rotinas pouco elaboradas e conversas nada interessantes. Falta aquela sensação de que os personagens estão vivendo suas vidas cotidianas, que é comum em jogos de mundo aberto da Rockstar ou em títulos como The Witcher 3.

Multiplayer

Durante uma das primeiras aparições públicas de Crackdown 3 na Gamescom 2015, o “poder da nuvem” foi apresentado como um dos principais atrativos do game. A Microsoft estava trabalhando com uma empresa chamada Cloudgine para implementar um complexo sistema de destruição de construções impulsionado pelo poder de processamento dos servidores Azure. Isso acabou não se concretizando no modo campanha do jogo, mas o sistema de destruições foi adicionado no multiplayer, que foi lançado na forma de um download diferente sob o nome de Wrecking Zone.

Não é preciso passar muito tempo em partidas multijogador de Crackdown 3 para perceber que essa promessa nunca foi entregue. A estética muda completamente, com o cenário urbano futurista do modo campanha sendo substituído por prédios menos complexos e ainda menos inspirados. O ambiente parece vazio e o sistema de destruição faz as construções parecerem feitas de papelão cenográfico em muitos momentos.

A jogabilidade mantém todos os elementos do jogo principal, para o bem ou para o mal. A parte mais positiva é a liberdade para usar seus jatos para pular os grandes prédios do mapa, trazendo uma grande verticalidade para o Wrecking Zone. A pior parte é a adoção do sistema de mira automática, que tira praticamente qualquer fator de habilidade e significa que quem ver seu inimigo primeiro irá matá-lo. Ter apenas um máximo de 10 jogadores numa partida e nenhum suporte para a criação acabam selando o destino de uma experiência nada impressionante.

Não tem como discutir: Crackdown 3 é uma experiência muito divertida e que oferece um extenso playground para o jogador experimentar. Pular pelos telhados coletando orbes é algo delicioso e as batalhas podem realmente brilhar nos seus momentos mais caóticos.

Crackdown 3 é uma experiência muito divertida e que oferece um extenso playground para o jogador experimentar

O problema é que não faltam jogos com esse estilo no mercado de hoje, e é preciso de algo para se diferenciar. A franquia Just Cause tem proposta parecida e consegue elevar a confusão a níveis muito maiores do que Crackdown. O próprio Xbox One tem um outro exclusivo que faz isso com muito mais personalidade, dinâmica e melhor ambientação: Sunset Overdrive. Isso sem contar que sua desenvolvedora, a Insomniac Games, virou a casaca para o PS4 e fez o ótimo Homem-Aranha com sua incrível mecânica de se balançar por Nova York usando suas teias.

Crackdown 3 não tem nada disso. Esse elemento especial deveria ser a destruição em massa impulsionada pela nuvem da Microsoft Azure, mas que acabou sendo retirada do modo campanha. Ainda será possível dizimar prédios inteiros no modo multiplayer competitivo Wrecking Zone, que não foi disponibilizado em tempo hábil para esta análise*. Mas os vídeos de jogabilidade divulgados até agora não são muito promissores.

De qualquer modo, Crackdown 3 poderia e deveria oferecer mais

De qualquer modo, Crackdown 3 poderia e deveria oferecer mais. Seja pelos 6 anos que passou em desenvolvimento – com um atraso de quase 3 anos para seu lançamento – seja por ser um exclusivo produzido pela Microsoft Studios com um belo orçamento por trás, seja pelo preço triplo A de R$ 200 que é cobrado por ele. Por outro lado, sua diversão burra (no melhor sentido) e caótica certamente vale uma assinatura do Xbox Game Pass por ao menos um mês – ainda mais se você tem interesse em outros jogos do serviço.

*Vamos jogar o Wrecking Zone depois do lançamento e atualizar a análise assim que possível.

Conclusão

 

Avaliação: Crackdown 3

História e Ambientação
5
Gráficos
7
Jogabilidade
8.5
Áudio
8
Multiplayer
4

PRÓS
Diversão de sobra
Coletar orbes continua sensacional
Ótimo design de áudio
Liberdade no gameplay
CONTRAS
Missões repetitivas
História é fraca e cheia de clichês
Gráficos abaixo do esperado
Trilha sonora genérica
  • Redator: Carlos Felipe Estrella

    Carlos Felipe Estrella

    Apaixonado por games desde os 6 anos de idade, quando ganhou um Playstation 1. Em 2005 migrou para o PC, e aí começou a se interessar por tecnologia. Formado jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina.

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