ANÁLISE: Far Cry New Dawn

Game é divertido, mas parece mais uma expansão do que uma continuação

Far Cry New Dawn é o primeiro game da grande franquia que traz uma continuação direta da história em relação ao anterior. O jogo surgiu meio "de repente", sendo lançado relativamente pouco tempo depois de seu anúncio, e dá pra notar que este título está mais para um spin-off como foi o Far Cry Primal do que como um novo título propriamente dito da franquia principal. Ele sai até por um valor menor do que o Far Cry 5. Mas será que vale a pena o investimento, mesmo com esse desconto? Confira na nossa análise!

IMPORTANTE: Como New Dawn é uma continuação direta do game anterior, esta review contém spoilers para Far Cry 5.

História e Ambientação

Far Cry New Dawn se passa em Hope County, 17 anos depois dos eventos de Far Cry 5. O que já começa esquisito, porque as explosões nucleares que encerraram o jogo anterior devastaram todo o território, assim como é retomado por este game. Os 17 anos foram suficientes para renovar toda a fauna e flora do local, que não está quase nada diferente do game anterior, inclusive com grandes árvores. Há apenas bem mais flores e destroços. E coisas rosas. 

Você joga, novamente, como um protagonista "casca vazia". É possível escolher seu gênero e customizar sua aparência, e a pessoa não tem falas, apenas reage aos acontecimentos ao seu redor. O personagem que você controla atuava como capitão da segurança num grupo de benfeitores que viajava pelo estado de trem ajudando as pessoas, antes de serem atacados pelos "Salteadores", uma gangue de bandidos liderados pelas gêmeas Mickey e Lou, as vilãs deste game. Este ataque causa o descarrilhamento do trem e uma fuga do seu personagem com outra sobrevivente, Carmina Rye.

O enredo de New Dawn é fraco, mas é interessante ver o destino dos personagens de Far Cry 5

Para quem não se lembra (ou não jogou), Carmina é a filha de Nick e Kim Rye, personagens de Far Cry 5. Uma das missões do game anterior, inclusive, foi levar Kim ao hospital para ter sua filha. É nessa parte que New Dawn se mostra mais interessante, quando o game nos revela o que aconteceu com tantos NPCs que conhecemos em Hope County e como foi concluída ou continuada a história deles. São acrescentadas algumas pessoas novas, mas o jogo sabe que nos importamos mesmo em saber o que houve com os já conhecidos, e essa é a melhor parte.

Descobrir o que aconteceu com personagens do passado é a melhor parte do jogo porque o enredo de New Dawn em si não é dos melhores. É uma história bastante linear, sem surpresas e com vilãs completamente unidimensionais e sem profundidade. O jogo até tenta trazer algum contexto para as gêmeas e inclusive aumentar a participação delas ao longo da campanha, afinal é um problema recorrente em todos os Far Cry ter vilões que parecem interessantes, mas que mal aparecem ao longo do jogo e raramente lembramos deles enquanto jogamos. A tentativa em New Dawn é bem-vinda, mas não chega a ficar bem realizada.

E o caminho dado para alguns personagens não faz muito sentido. Infelizmente não posso entrar em detalhes para evitar spoilers, mas há algumas mudanças de rumo e escolhas que realmente são difíceis de entender para quem jogou Far Cry 5.

- Continua após a publicidade -

Jogabilidade

A jogabilidade de Far Cry New Dawn é a mesma de sempre. Enquanto tivemos poucas mudanças entre o 3, o 4 e o 5, no New Dawn elas são ainda menores. A principal mudança é que agora você tem uma "base principal", Prosperity. Libertar acampamentos e realizar algumas atividades paralelas libera o recurso etanol, usado para melhorar sua base e as instalações dela. Essas melhorias lhe ajudam no jogo, aumentando o nível das armas e veículos que você pode fazer ou a força de seu personagem e de seus aliados, por exemplo.

Outra novidade, que veio para ajudar o jogador a conseguir mais etanol, é a possibilidade de "resetar" um acampamento já tomado. O jogador tem a opção de, a qualquer momento, abandonar um acampamento conquistado em troca de um pouco de etanol. Além do recurso conseguido logo de cara, você pode voltar e retomar o acampamento, o que vai dar ainda mais etanol. Em contrapartida, toda vez que você "reseta" um acampamento, ele volta mais difícil, com mais inimigos de nível maior, para aumentar o desafio. 

As mudanças no gameplay são sutis e trazem elementos de "light RPG"

Falando no nível dos inimigos, essa é outra novidade, que a Ubisoft chama de "light RPG". Os inimigos têm quatro níveis diferentes, que é a maneira do jogo de vincular o progresso da campanha ao nível do seu personagem. É basicamente impossível enfrentar um inimigo nível 4 com uma arma de nível 2, por exemplo. E sua capacidade de abate furtivo também precisa ser melhorada para derrubar os soldados mais avançados.

- Continua após a publicidade -

O sistema de níveis é interessante para não "amarrar" o jogador. Teoricamente você tem liberdade para ir a qualquer lugar do mapa, só não vai dar conta dos inimigos. Mas ao mesmo tempo acaba causando a situação um tanto besta de descarregar todo seu estoque de munição da metralhadora num puma e basicamente tirar metade da vida dele. Sim, os animais também têm níveis.

As diferenças realmente importantes para o gameplay acabam aí, o que é um tanto frustrante. O jogo tem basicamente as mesmas armas e vantagens desde Far Cry 3 e agora já ficou bem cansativo. Principalmente para as armas em New Dawn, porque muito de sua divulgação deu a entender que teríamos alguns equipamentos diferentes e criativos, baseados no improviso das pessoas vivendo nesse cenário pós-apocalíptico. Somente uma das armas é assim, a lançadora de serras. O restante são exatamente as mesmas armas dos jogos anteriores, apenas com algo que eu chamo de "skin de sucata". Ou seja, a funcionalidade das armas é igualzinha, só muda que o silenciador parece uma lata com um saco de lixo por cima. Elas não falham por terem sido feitas com lixo ou usam munição exótica como pregos. Não muda nada além da aparência, da skin.

As armas "improvisadas" do game são as mesmas de sempre com skin de sucata

O jogo usa exatamente o mesmo mapa de Far Cry 5, mas que por algum motivo parece menor, talvez pelo número menor de atividades e pela velocidade de desenvolvimento da campanha. Também não faz muito sentido terem tirado o Far Cry Arcade, que não chegava a ser um recurso "imperdível" no game anterior, mas era um conteúdo extra que podia render mais algumas horas de diversão para os maiores fãs do game.

- Continua após a publicidade -

Não posso deixar de criticar também as "Expedições", uma atividade extra para conseguir recursos. A implementação dessa atividade é interessante pra não ficar muito irritante ter que "farmar" alguns recursos raros para fazer as armas melhores, mas é sempre o mesmo mapa. Cada vez que você vai numa Expedição ela fica mais difícil, o que é até um motivo a mais para mudar o cenário, o que ajudaria a dificultar a atividade, além de torná-la mais interessante. Mas não, é sempre exatamente o mesmo mapa.

PS: Timber é um bom doguinho, mas sdds Boomer.

Gráficos

Os gráficos de Far Cry New Dawn estão ótimos não só em sua qualidade técnica, mas também em sua direção de arte, ou seja, a estética. As pinceladas coloridas em torno do cenário de Hope County, que antes era basicamente marrom, cinza e verde escuro, dão um excelente contraste no visual e tornam o game até mais gostoso de ser jogado, porque chega a ser relaxante observar a natureza enquanto andamos por aí. Ainda mais levando em conta que Far Cry é um game um tanto fácil, então fica como se fosse um passeio mesmo.  

Os modelos das armas, aliás, merece elogios. Apesar da "skin de sucata" ser uma das minha maiores críticas na parte do gameplay, na parte de gráficos e design ficou muito bacana a atenção ao detalhe e a variedade de cada uma, ainda mais com suas evoluções conforme avançam os níveis.

A principal crítica fica por conta dos modelos dos personagens. Os coadjuvantes da campanha até que são interessantes e caprichados, mas os NPCs "figurantes" do jogo usam modelos bastante repetitivos, principalmente os inimigos. Num jogo que já inova tão pouco como New Dawn, matar exatamente o mesmo modelo de personagem pela centésima vez realmente enfatiza aquela sensação de "mais do mesmo" que temos ao longo de todo o game.

Áudio

A parte de áudio de New Dawn poderia ser tão boa quanto a do game que o antecede, mas o jogo perde um pouco na dublagem. A trilha sonora original não tem grandes destaques, mas não é ruim, sendo competente e servindo ao seu propósito de encaixar com o "clima" do gameplay. O jogo incorpora também algumas músicas de artistas famosos que muitas vezes ficam bem colocadas (por algum motivo os Salteadores adoram Die Antwoord). Na verdade eu gostaria de ver mais dessas músicas aparecendo ao longo da campanha, não apenas tocando nos rádios e alto-falantes dentro do jogo. Run The Jewels combina demais com a estética do game.

O game poderia ter aproveitado melhor seu uso de músicas licenciadas

A dublagem perde um pouco principalmente porque temos o retorno de dubladores do Far Cry 5 tentando fazer suas vozes parecerem uma versão mais velha de seus personagens. E isso tem resultados variados, que nem sempre são muito bons. O jogo é totalmente localizado em português também, o que é sempre digno de elogios, e a qualidade dos atores não deixa em nada a desejar em relação ao original. A crítica para a dublagem em português brasileiro fica por conta da tradução, não dos dubladores. Em alguns casos o texto até tenta localizar melhor as falas para nossos coloquialismos (com muitos palavrões), mas em outros eles fazem aquela tradução direta que fica com muito jeito de Google Tradutor e compromete um pouco a experiência. 

A parte de sonoplastia também merece elogios. Claro que muitos dos efeitos de som usados aqui são reaproveitados do que foi estabelecido em Far Cry 5 e até em games anteriores, mas continua sendo um ponto de qualidade do jogo, na variedade dos sons das armas, dos personagens e até de sons contextuais, como quando um inimigo é marcado, por exemplo. O feedback sonoro funciona de uma maneira muito bem aliada ao gameplay.

Far Cry New Dawn é um ótimo jogo dispensável. A frase pode parecer um paradoxo, mas não é. As mecânicas de Far Cry não deixaram de ser boas só porque foram repetidas à exaustão. O game continua mesclando muito bem a furtividade com tiroteios, implementando um ótimo ritmo para liberar suas habilidades e armas melhores. Aliando-se a isso os belos gráficos e ótimo trabalho de som, não tem como dizer que este jogo não é bom.

Mas isso também não significa que o game é indispensável. O enredo é fraco e o gameplay não traz nenhuma novidade que realmente faça valer o investimento. Além disso, por ser uma continuação direta do Far Cry 5, New Dawn se coloca numa situação ainda mais difícil: quem jogou os games anteriores vai estar ficando saturado de suas mecânicas a essas alturas, e quem não jogou vai ficar "boiando" na narrativa e perder justamente a melhor parte do enredo, que é quando ele se amarra ao Far Cry 5.

Far Cry New Dawn é um ótimo jogo dispensável.

Acredito que Far Cry New Dawn vai ser uma ótima pedida para os fãs da franquia que simplesmente não se cansam do estilo do jogo e querem apenas a chance de brincar um pouco mais com as mecânicas. O jogo vai servir muito bem para essa galera, mas mesmo neste caso eu recomendo esperar uma promoção.

Conclusão

 

Avaliação: Far Cry New Dawn

História
6.5
Jogabilidade
8.0
Gráficos
9.0
Áudio
8.0

  • Redator: João Gabriel Nogueira

    João Gabriel Nogueira

    João Gabriel Nogueira se formou em jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) em 2015 e curte games desde muito antes. Começou com o Master System e o gosto pelos jogos eletrônicos trouxe o gosto pela tecnologia. Escrever notícias e análises de jogos, hardware e dispositivos móveis para o Adrenaline, além de trabalho é uma alegria e um aprendizado.

O que você achou deste conteúdo? Deixe seu comentário abaixo e interaja com nossa equipe. Caso queira sugerir alguma pauta, entre em contato através deste formulário.