ANÁLISE: Hellblade: Senua's Sacrifice

Muita história e pouco gameplay resultando num jogo incrível, mas que não é pra todos

Hellblade: Senua's Sacrifice é desenvolvido pela Ninja Theory com um ambiciosa proposta, apesar de não ser um jogo triplo A. Além de investir muito nos gráficos e no sistema de combate, o jogo procura abordar de maneira consciente o tema de saúde mental, mais precisamente falando de psicose. É um jogo pesado em muitos sentidos e pode ser que o pequeno time de desenvolvedores tenha tentado abocanhar mais do que consegue mastigar, como vamos comentar na review!

História e Ambientação


Um enredo carregado, contado de maneira envolvente

Hellblade é um daqueles jogos em que você sente que "caiu de paraquedas" no meio da história. As coisas já estão acontecendo e, conforme jogamos, vamos entendendo quem é Senua, o que ela está fazendo ali e quais suas motivações. Grande parte do enredo é contado na forma da narração e visões da protagonista, vozes do passado ecoam em sua cabeça e o jogador vai juntando as peças do quebra-cabeças. Essa forma de contar a história não agrada a todos, mas é a melhor opção para o formato deste game e para a mensagem que ele quer passar.

Senua tem dificuldade de diferenciar o que é real e o que está na sua cabeça desde que nasceu. A psicose da protagonista é o tema central do jogo, então faz muito sentido que o game se desenrole de maneira um pouco mais confusa, não muito linear, a fim de aumentar a imersão do jogador no que é a mente da jovem guerreira.

O estilo de contar história de Hellblade pode não agradar a todos, mas é a melhor escolha dentro dessa temática

Conforme avança no jogo, o jogador, assim como Senua, precisa lutar para tentar discernir o que é realidade do que não é. O que realmente aconteceu com a moça e o que a busca dela representa. A experiência fica muito imersiva e ajuda quem está jogando a entender o que uma pessoa na situação da protagonista poderia estar passando. A história exige atenção para ser entendida e nunca trata o jogador como um idiota. Os desenvolvedores esperam que você seja capaz de entender sugestões e alegorias mais subjetivas.

Como um extra, é possível encontrar totens com trechos da mitologia nórdica, algo comparável com um colecionável. Totalmente dispensável para o enredo principal, mas acrescenta mais uma dose de imersão ao game.

Jogabilidade


Sistema de combate divertido, mas repetitivo

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A jogabilidade de Hellblade é bastante simples, mas tem seus pontos fortes, especialmente no combate. O jogo consiste basicamente de andar para resolver uns puzzles simples e depois entrar nos trechos com luta. E se dá pra resumir a jogabilidade do game tão rápido, já dá pra perceber como ele é repetitivo. 

O sistema de puzzles do jogo é todo baseado em perspectiva. Existe um botão de foco, que aproxima a câmera, e olhar no lugar certo no ângulo certo pode destravar uma porta, por exemplo. Atravessar certos arcos também fazem mudanças sutis no cenário que o jogador precisa ficar atento para acessar novas localidades e encontrar o ângulo certo para focalizar numa escultura. 

A mecânica de resolver puzzles olhando casa muito bem com a temática do jogo, que gira toda em torno do que a Senua vê, seja no mundo real ou em sua mente. Isso contribui bastante para a imersão do jogo, mas no início do jogo cansa. Andar pra lá e pra cá procurando o ângulo certo ou o caminho para o lugar que vai dar a perspectiva necessária é um tanto tedioso, principalmente por causa da movimentação de Senua quando não está em combate, que fica truncada, lenta e ainda obriga o jogador a segurar um botão pra correr, o que não faz muito sentido. 

Na parte dos combates o jogo brilha bem mais, mas também não fica isento de críticas. É interessante como as lutas de Hellblade podem ser imensamente satisfatórias, mesmo usando mecânicas bem simples. E muito disso se deve à qualidade de som e capricho nas animações, que fazem com que o jogador "sinta" o impacto de cada golpe, tornando os combates bastante brutais e pesados, no melhor sentido. A movimentação de Senua pelo cenário é lenta e frustrante, mas durante a luta ela se torna o contrário disso, se mostrando uma guerreira ágil e versátil.

Mas, como disse, o sistema não é perfeito. Por mais que a mecânica do combate seja bem satisfatória, ela não demora a cansar porque os inimigos são muito iguais, não só na aparência, mas nas mecânicas também. Eles até aparecem sempre do mesmo jeito, olhando torto, abrindo os braços, chamando pra briga. Isso logo enjoa. A repetitividade do combate se torna ainda mais evidente quando enfrentamos os chefes, esses sim com golpes e animações diferenciadas. Hellblade brilha muito nessas lutas e mostra como teria sido importante variar mais os inimigos. Se o jogador tivesse que aprender como se defender e se esquivar de novos golpes a cada nova luta, o jogo ficaria bem menos repetitivo e mais satisfatório.

Hellblade melhora exponencialmente na segunda metade do jogo

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E tudo isso que eu disse é válido para a primeira metade do jogo, mas nem tanto para a segunda, quando Hellblade melhora exponencialmente. Os puzzles passam a ser bem mais variados e um pouco mais desafiadores, além de começarem a oferecer alguns perigos, apesar de manterem os combates ainda em trechos separados. Estes, por sua vez, ficam mais intensos e recompensadores por se tornarem mais difíceis, com uma quantidade grande de inimigos de diferentes tipos aparecendo de uma só vez na tela.

A impressão que dá é que as primeiras horas de Hellblade são um imenso tutorial antes do jogo "começar de verdade". O jogo ainda se beneficiaria em mesclar mais a ação com os puzzles e em ter um número mais variado de inimigos, mas o gameplay da segunda metade é incomparavelmente melhor que o da primeira. É uma diferença tão grande que parece até uma "recompensa" por ter aguentado as partes mais chatas do início do jogo.

Gráficos


Gráficos impressionantes não muito bem otimizados

Os gráficos em Hellblade são incríveis e estão entre os melhores que vimos nessa geração, especialmente nas texturas dos personagens e de suas expressões. O rosto e a expressividade de Senua nunca deixa de chamar a atenção ao longo de todo o jogo, algo que é extremamente importante, já que as emoções da personagem são o ponto central da narrativa do game.

Os cenários não são muito variados, mas são ricos em detalhes e muito bem projetados, garantindo uma excelente imersão do início ao fim. Além disso, o design dos personagens, em especial dos chefes, é um trabalho a ser muitíssimo elogiado. O trecho que se passa no "inferno" é um destaque que não vou esquecer tão cedo.

Os gráficos em Hellblade estão entre os melhores que vimos nessa geração

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Hellblade ainda mistura imagens de atores reais no meio do jogo, o que poderia causar uma estranheza. Mas a ideia ficou muito bem implementada porque eles sempre aparecem na forma de flashbacks, ilusões e visões distorcidas. Os desenvolvedores souberam usar a favor deles esse deslocamento causado pelo uso de atores reais num jogo todo renderizado e o efeito final é único e excelente.

Há pontos extras também para a qualidade das animações que, como mencionado na jogabilidade, são muito caprichadas e contribuem demais para a imersão, principalmente no combate, tornando-o fluido e muito satisfatório.

Como nada nessa vida é perfeito, a parte de gráficos peca na otimização no PC, especialmente em GPUs AMD. Alguns trechos do jogo sofrem quedas imperdoáveis no número de frames por segundo. Isso seria perdoável em sistemas que não alcançassem os requisitos recomendados pelo jogo, mas jogando com o hardware mínimo sugerido pela empresa, com os gráficos no "very low" e uma resolução de 720p, ainda teve uma parte que o jogo não conseguia chegar nos 30fps, o limiar mínimo exigido para se ter uma experiência decente. Um patch já foi lançado, mas essa análise se atém a como o jogo chegou.

PC Baratinho encara a psicose de Hellblade!

Áudio


Incrível! De longe a melhor parte do jogo

Os desenvolvedores sugerem o uso dos fones de ouvido logo no início do jogo. Pessoalmente, acredito que isso não deveria ser uma sugestão, mas sim uma exigência. A experiência do game é outra usando os fones, porque é aí que brilha o trabalho impressionante que a Ninja Theory teve com essa parte do game.

O som em Hellblade não contribui apenas para a ambientação, mas participa ativamente do gameplay e da experiência final do jogo

A qualidade da dublagem e das atuações já está acima de muitos títulos triplo A que temos por aí, mas a técnica do som, o efeito "binaural" estéreo usado no jogo, acrescentam um nível de imersão raramente encontrado. O som em Hellblade não contribui apenas para a ambientação, mas participa ativamente do gameplay e da experiência final do jogo. Há trechos que o jogador precisa ouvir de onde vem determinado som para avançar, por exemplo, ou as vozes na mente de Senua dão dicas de como prosseguir. O áudio é uma parte indispensável também no sentimento de agonia e de desamparo que muitas vezes o game quer causar no jogador. Ótimo exemplo disso é logo no início, quando a narradora começa a falar e parece que ela está logo ali do lado do seu ombro, sussurrando no seu ouvido.

A trilha sonora é sutil e serve apenas como pano de fundo na maior parte do tempo, mas ela faz um "truque" bastante interessante que merece elogios. Durante os combates mais intensos, quando o jogador está concentrado, a música vai ficando mais alta, mais trabalhada, agitada, ganhando cânticos nórdicos, de maneira gradativa, quase imperceptível. Quando você se dá conta, já está no meio daquela música épica, enfrentando toda uma gangue de inimigos. Perfeito.


Destaque pra música da luta contra Surt

Hellblade é um ótimo exemplo do porquê é problemático ficar dando nota para games. O jogo é um trabalho caprichado e único de arte, uma experiência incrível com uma história inesquecível que não deveria ser ignorado pelos jogadores. Ao mesmo tempo, ele está mal otimizado no PC e quase toda sua primeira metade é tediosa e basicamente chata de se jogar. 

Em resumo, Hellblade não é para todos. O gameplay do título é realmente bom e os combates que vão acontecendo no fim ficam envolventes e muito divertidos, mas o jogo não vai agradar quem não vier pela história. É importante saber que, por melhor que Hellblade seja, o game pode simplesmente "não falar sua língua".

Se não fossem os problemas de otimização e as primeiras horas tediosas do game, ele teria certamente emplacado um selo de diamante

Algo que contribui bastante para os elogios a Hellblade também é seu preço, inversamente proporcional à qualidade do jogo. Um trabalho original e caprichado saindo por menos de R$ 60 (na GOG e na Steam) logo no lançamento faz valer demais o jogo. Na PSN ele pode ser encontrado por R$ 92, menos da metade do que tem sido lançados os triplo A para consoles.

Se não fossem os problemas de otimização e as primeiras horas tediosas do game, ele teria certamente emplacado um selo de diamante. Para quem gostar de uma história bem contada, imersão completa no game e tem bastante paciência para esperar o jogo pegar seu ritmo, Hellblade é indispensável. 

E deixamos aqui um agradecimento em especial à GOG, que nos cedeu uma key do jogo!

Conclusão

 

Avaliação: Hellblade: Senua's Sacrifice

História
10.0
Jogabilidade
8.5
Gráficos
9.0
Áudio
10.0

PRÓS
Um jogo único com uma experiência diferenciada
Combate sólido, responsivo e satisfatório
Lindos gráficos, especialmente nos personagens
Áudio impressionante e evolvente
Enredo pesado contado de uma maneira inesquecível
CONTRAS
Lutas logo ficam repetitivas
Falta variedade nos inimigos
Jogo demora horas para "pegar ritmo"
Falta otimização no PC
Tags
PS4
  • Redator: João Gabriel Nogueira

    João Gabriel Nogueira

    João Gabriel Nogueira se formou em jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) em 2015 e curte games desde muito antes. Começou com o Master System e o gosto pelos jogos eletrônicos trouxe o gosto pela tecnologia. Escrever notícias e análises de jogos, hardware e dispositivos móveis para o Adrenaline, além de trabalho é uma alegria e um aprendizado.

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