ANÁLISE: The Last Guardian

Trico é uma fera incrível, mas é uma das poucas coisas boas do jogo

The Last Guardian é um jogo que deu o que falar nos últimos anos. O game foi anunciado primeiro para o PS3 com uma explosão de clamor porque estava vindo pelo mesmo time responsável pelo inesquecível clássico Shadow of The Colossus, para o PS2. Problemas no desenvolvimento do game, no entanto, colocaram a existência dele em risco e ele ficou num estado de "vai, não vai" por anos, até ser finalmente confirmado na E3 do ano passado, para o PS4. Por incrível que pareça, o jogo realmente foi lançado este ano. E valeu a pena esperar todo esse tempo? Vamos tentar responder a isso em nossa análise de The Last Guardian!

História


Todos podem se identificar com a amizade de um menino e seu animal

O estilo de contar histórias do time por trás de The Last Guardian pode ser imediatamente identificado por quem jogou Ico e/ou Shadow of The Colossus - e isso é ótimo! Os desenvolvedores não revelam quase nada do enredo no início e dão bastante espaço para sua imaginação preencher as lacunas. Um cuidado especial com a ambientação e o desenvolvimento de cenários ajuda o jogador a ir imaginando o que tudo aquilo significa e o que estaria, na verdade, acontecendo.

O importante em The Last Guardian não é o que aconteceu, é o que está acontecendo

Mas o que The Last Guardian faz de melhor em seu enredo é que o importante não é a história em si, não é o que aconteceu, mas sim o que está acontecendo. É aquela velha máxima do "importante é a jornada". Ver a amizade entre o menino e a grande fera Trico ir florescendo, enquanto você vai aprendendo mais sobre o animal e o que ele pode ou não fazer é uma experiência completamente imersiva e, por falta de um termo melhor, realmente aquece o coração.

Afinal de contas, quantas pessoas não podem se identificar com a história de um menino e seu fiel animal de estimação? Salvas as devidas proporções é exatamente a isso que assistimos quando jogamos The Last Guardian e esse tipo de história, quando bem contada, sempre vai ser comovente.

O Trico é a coisa mais querida que já vimos nessa geração

O objetivo central do jogo, e vamos comentar mais a respeito disso nessa análise, é fazer com que você se apegue ao Trico. E essa, de longe, é a parte melhor realizada em The Last Guardian. O jogo falha em muitas, muitas coisas, como vou explicar a seguir, mas se tem uma coisa que ele fez certo é conseguir me convencer que o Trico era uma criatura viva e a coisa mais querida que já vimos nessa geração.

Jogabilidade


Trico distraído + câmera enlouquecida = frustração sem fim

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Não é difícil encontrar na internet análises e youtubers reclamando da inteligência artificial do Trico, algo que me oponho. É verdade que o animal nem sempre obedece e às vezes é uma luta fazer o bicho entender aonde você quer ir ou o contrário, você entender aonde ele quer ir. Mas não são assim os animais? Se a IA de Trico tornasse o animal completamente obediente e responsivo seu comportamento logo pareceria robótico, estragando justamente a característica central deste game, que é fazer ele parecer uma criatura viva, com a qual você pode se apegar. Enquanto pode ser frustrante ter que ficar repetindo comandos para o Trico, na minha opinião, este é um preço pequeno a se pagar pelo resultado final da inteligência artificial mais realista que já vi num animal em um jogo.

Às vezes é uma luta fazer Trico entender para onde você quer ir. Mas não são assim os animais?

O problema verdadeiro que vem desse comportamento está no real problema de The Last Guardian e o pior aspecto do jogo: a câmera. Pouco responsiva e desgovernada, você vai perder a conta de quantas vezes a câmera vai lhe atrapalhar a ir ao ponto onde você quer ir. Num game verticalizado como este, envolvendo muitas escaladas, diversas vezes você vai ter que posicionar a câmera de maneira que direcione o protagonista para a direção que você quer que ele vá quando empurra o analógico, mas algum movimento absurdo e repentino do ângulo de visão vai acabar fazendo você pular em direção a um abismo, que nem um suicida bêbado. E isso potencializa também a dificuldade de dar alguns comandos para o Trico, o que pode ser interpretado como problema da IA.

O real problema de The Last Guardian e o pior aspecto do jogo é a câmera

The Last Guardian, no fundo, é um game de puzzles. Cada novo cenário apresenta uma sala que você tem que descobrir como passar para seguir avançando. Esses puzzles nem sempre são bem realizados e na maioria das vezes você não vai conseguir entender o que o jogo espera de você, nem onde deve ir. No fim o jogador acaba fazendo algo porque "é o que dá pra fazer" e passar de um puzzle assim não dá aquela satisfação de ter resolvido a charada, só um alívio de ter se livrado dela. E isso é bem problemático num game de resolver quebra-cabeças.

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Gráficos e Som


Um lindo cenário a uma taxa sofrível de FPS

É impressionante o trabalho, o capricho e a atenção aos detalhes dos desenvolvedores em The Last Guardian. A maior parte do cenário ilustra o que parece os escombros de um imenso templo, uma cidadela, construída em penhascos. É a quantidade certa de destruição e crescimento de plantas para caracterizar um lugar desolado, abandonado, mas que você ainda consegue reconhecer o que algumas daquelas representava e para que elas serviam. Tudo isso ajuda muito na ambientação e a instigar o mistério.

É impressionante o trabalho, o capricho e a atenção aos detalhes dos desenvolvedores em The Last Guardian

Trico então, nem se fala. Cada pena individual do corpo dele, as cores do animal e os olhos dele principalmente são impressionantes. Há inúmeras animações para todo tipo de comportamento do animal e ele nunca decepciona.

E tudo isso seria maravilhoso e digno de uma excelente nota se o console tivesse condições de segurar uma taxa decente de quadros por segundo. E isso não é apenas má vontade com o vídeo game. Algumas quedas de quadros, ou mesmo que o jogo fique em menos de 30fps, mas que pelo menos mantivesse uma taxa consistente de frames por segundo, isso seria perdoável. Mas as quedas aqui fazem parecer que está tudo em câmera lenta e acaba com a imersão do game.

Um jogo desse estilo trabalha muito com seu senso de deslumbramento. Sair de uma construção e ver pela primeira vez o tamanho do lugar em que você está devia causar um "ooooh" que é imediatamente quebrado pelo jogo mal se segurando acima dos 20fps.

Tudo isso seria maravilhoso e digno de uma excelente nota se o console tivesse condições de segurar uma taxa decente de quadros por segundo

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A parte de som é consistente. Não chega a impressionar, mas é digna de elogios. O jogo tem uma bonita trilha sonora, uma ótima variedade de rugidos e grunhidos para Trico e um idioma inventado que realmente parece alguma língua antiga e remota que as pessoas pudessem um dia ter falado, o que ajuda muito na imersão e dá uma sensação de "fábula" ao game.

É difícil dizer o que exatamente deu errado que resultou nos problemas de The Last Guardian, mas não é absurdo imaginar que os problemas que causaram tantos anos em desenvolvimento tiveram algo a ver com isso. No fim, parece que enquanto os desenvolvedores tiveram um cuidado absurdo em fazer uma ambientação incrível e tornar o Trico apaixonante, a mesma atenção não foi dada em fazer um bom jogo.

Vale a pena jogar The Last Guardian pela sua originalidade. Mas prepare a sua paciência antes de tentar

The Last Guardian é extremamente original e um game completamente diferenciado. Fazer um jogo assim é sempre digno de elogios, mas você não pode sustentar um game apenas em sua originalidade e errar nas coisas mais básicas envolvidas em qualquer game, como o controle de câmera, por exemplo.

Concluindo, este não é um jogo para todo mundo. Para quem jogou Ico e Shadow of The Colossus, vale muito a pena experimentar. Para quem está procurando alguma coisa nova e cansou da mesmice que muitos triplo A se tornaram atualmente, eu diria até que The Last Guardian é imperdível. Embaixo de todos esses problemas existe um jogo incrível, que merecia um lançamento bem melhor que este.

Embaixo de todos esses problemas existe um jogo incrível, que merecia um lançamento bem melhor que este

Conclusão

 

Avaliação: The Last Guardian

História
9.5
Gameplay
6.0
Gráficos
7.0
Som
8.5

PRÓS
Trico realmente parece uma criatura viva e inesquecível
Uma bonita história sobre um menino e seu animal
Cenário e ambientação caprichados e bem desenhados
Ideia original e única
CONTRAS
Uma das piores câmeras dos últimos anos
Puzzles são pouco intuitivos, na base da tentativa e erro
Quedas assustadoras na taxa de quadros por segundo
  • Redator: João Gabriel Nogueira

    João Gabriel Nogueira

    João Gabriel Nogueira se formou em jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) em 2015 e curte games desde muito antes. Começou com o Master System e o gosto pelos jogos eletrônicos trouxe o gosto pela tecnologia. Escrever notícias e análises de jogos, hardware e dispositivos móveis para o Adrenaline, além de trabalho é uma alegria e um aprendizado.

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