ANÁLISE: Watch Dogs 2

Sequência supera antecessor em todos os aspectos num excelente mundo aberto

O primeiro "Watch Dogs" foi lançado em 2014 cercado de muitas promessas que acabaram não conseguindo sustentar as expectativas de grande parte dos jogadores. Ainda assim, o game vendeu mais de 10 milhões de unidades, impulsionadas por uma campanha de marketing agressiva da Ubisoft

Dois anos mais tarde, "Watch Dogs 2" chega nitidamente com a proposta de querer entregar uma sequência mais coerente e imersiva, além de tentar corrigir problemas do anterior ao mesmo tempo em que também atende aos pedidos e sugestões dos fãs. Será que a lição de casa foi feita?

É isso o que você vai descobrir abaixo na análise de "Watch Dogs 2", baseada na versão para Playstation 4. O game também está disponível para Xbox One. A versão de PC chega em 29 de novembro.  

História


A busca pela liberdade na era da Internet das Coisas 

A história de "Watch Dogs 2" mostra o colapso social de moradores de metrópoles que, cada vez mais conectadas pela Internet das Coisas, perdem a privacidade e têm sua liberdade facilmente controlada por grandes corporações. Marcus Holloway, o protagonista, é um hacker que se junta ao DedSec, grupo insurgente especialista em invadir sistemas avançados de segurança. O objetivo é acabar com a influência das ctOS 2.0, uma evolução das cidades digitais do game anterior. 

O enredo gira torno da ascensão do grupo, que busca espalhar seus ideais revolucionários para o maior número de pessoas possível. De maneira geral, a narrativa combina momentos interessantes e envolventes, sempre denunciando os podres de uma situação fictícia que já não está tão longe assim de acontecer na realidade. A forma como esses eventos são conduzidos é leve, trazendo trechos engraçados e sátiras que escancaram problemas atuais, mas sem parecer bobo ou gratuito demais. 

Diferente do insosso Aiden Pierce, Marus Holloway é carismático já nos primeiros minutos de jogo

E diferentemente do insosso Aiden Pierce do primeiro "Watch Dogs", Marcus Holloway é carismático já nos minutos iniciais de partida. Com uma personalidade compatível com a diversidade cultural de São Francisco, o protagonista vai se descobrindo na "profissão", abrindo espaço para questionamentos pessoais e relações amistosas mais consolidadas. Os personagens secundários também convencem, mostrando trejeitos, gostos e dilemas únicos, ainda que não consigam ser tão relevantes e indispensáveis na trama assim. 

Jogabilidade


Refinamentos e novidades na mecânica garantem uma experiência diversificada

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A jogabilidade de "Watch Dogs 2" reproduz a especialidade da Ubisoft em criar mundos abertos amplamente interativos. Tudo acontece com perspectiva em terceira pessoa e o jogador tem liberdade para se movimentar para onde quiser, cumprindo qualquer tipo de missão da campanha ou objetivo secundário que aparecer pela frente.

E, sem exageros, "Watch Dogs 2" é uma nítida evolução em termos de qualidade e diversidade de situações capazes de entreter e divertir por muitas horas (ao contrário do primeiro game, que logo se tornava repetitivo e maçante depois de algum tempo).  

A mecânica de "Watch Dogs 2" é estruturada em interações com dispositivos eletrônicos, alguns deles conectados à internet. Marcus Holloway pode controlar uma variedade absurda de mecanismos, como câmeras, computadores, celulares, guindastes, empilhadeiras, veículos, semáforos, cancelas, letreiros digitais, antenas parabólicas, janelas, portas, robôs, escadas rolantes, pontes, barreiras e até drones.

A quantidade não apenas é maior do que o jogo anterior, mas é melhor contextualizada com a dinâmica da evolução das cidades inteligentes na era da Internet das Coisas.

O celular de Marcus Holloway é o meio pelo qual o jogador define que tipo de interações pode realizar. Algumas são mais automáticas e previsíveis, como invasões rápidas a celulares de pessoas vagando pelas ruas, permitindo roubar dinheiro, descobrir senhas de residências ou informações sobre a localização de veículos raros.

Outras requerem ações mais cuidadosas e sofisticadas, como a ativação de mecanismos que precisam ser girados e encaixados em tempo real ao ar livre, interligando caminhos de conexões para abrir o cofre de uma grande corporação ou desligar a central de inteligência de uma companhia particular de segurança. 

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Algumas das melhores missões na campanha do game são baseadas em infiltração. Marcus é capaz de usar cobertura e movimentos básicos de parkour para subir em plataformas, se esconder atrás de muros e driblar vigias altamente armados. A execução desse sistema é simples e não chega perto da profundidade de clássicos do gênero.

Mas é possível abater um a um silenciosamente com ataques pelas costas, colocando todos para dormir com um taser ou, ainda, e definitivamente a opção mais divertida, usar um carrinho de controle remoto para completar o desafio inteiro a distância sem expor a localização do protagonista.    

"Watch Dogs 2" ainda oferece um amplo sistema de habilidades. Completar as missões principais ou secundárias (corridas, transporte de passageiros, roubos de encomendas, selfies em pontos turísticos, entre outros) garante novos seguidores aos ideais da DedSec. Quanto mais objetivos cumprir e atividades participar por são São Francisco, o jogador cada vez mais cresce em notoriedade pública entre os insurgentes.

E isso é automaticamente convertido em novos seguidores que, quando atingem uma quantidade específica, liberam pontos de habilidades por vez para gastar numa diversidade de especialidades. Entre elas melhorias de desempenho nos combates, hack de veículos, recursos extras nas ações gerais de hackear, perturbações pela cidade e novas bugigangas para usar durante a jogatina.

Multiplayer online


Diversidade de tarefas para se divertir com amigos 

Uma das grandes atrações de "Watch Dogs 2" é o multiplayer online. Com uma variedade de missões em mundo aberto, o jogador pode facilmente entrar em partidas cooperativas com amigos, invadindo propriedades particulares, roubando encomendas de magnatas ou libertando outros membros DedSec feitos de refém.

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As mecânicas disponíveis seguem as da experiência solo: movimentação em terceira pessoa com muitos dispositivos para hackear, infiltração de áreas proibidas, dispositivos para controlar e tiroteios em terceira pessoa à base de muita cobertura.   

Ao mesmo tempo, é possível invadir outros jogadores e roubar informações privilegiadas, conseguindo mais prestígio em São Francisco e um maior número de seguidores para aumentar no nível geral do game, o que, de quebra, também garante mais pontos de habilidades para gastar como quiser.

Da mesma forma, uma vez conectado à internet durante a jogatina, é possível também ser invadido por qualquer outro jogador, iniciando uma busca pelo hacker invasor, que pode se disfarçar entre os pedestres, se esconder em veículos ou simplesmente partir para o fogo aberto. O jogador precisa planejar e estar bem equipado para reagir às situações mais adversas.  

Tudo isso funciona para ocasiões mais isoladas, em que é necessário recorrer a opções no celular de Marcus para se conectar ao ambiente online do jogo. Já a prometida experiência online sem cortes (seamless), amplamente divulgada pela Ubsioft como um dos destaques de "Watch Dogs 2", simplesmente não está disponível. 

Embora a empresa tenha recentemente lançado uma atualização para corrigir o problema, a modalidade continua não aguentando interações contínuas entre jogadores, que constantemente são desconectados e precisam novamente acessar as mesmas opções para encontrar novas partidas online, impedindo a exploração plena e descompromissada de São Francisco com um parceiro de jogatina.  

Gráficos


Ambientação espetacular 

"Watch Dogs 2" tem gráficos lindíssimos. O destaque fica para a ambientação: a especialidade da Ubisoft em recriar cenários gigantescos baseados em lugares reais do mundo transborda na tela do jogador com uma São Francisco impecavelmente detalhada por todos os cantos. Os principais pontos turísticos, as vielas, os conglomerados urbanos, as residências luxuosas, o píer de embarcações, o Vale do Silício e até mesmo a icônica prisão de Alcatraz estão no jogo.

Tudo é apresentado de forma bastante caprichada, com texturas bem empregadas e uma composição visual colorida extremamente convidativa a seguir explorando. Algo que destoa totalmente da fria, monocromática e desinteressante Chicago do jogo anterior. O mesmo cuidado vale para as expressões faciais, além do design de vestimentas e da suavização dos movimentos dos personagens, que estão convincentes e colaboram muito na imersão da aventura. 

Quem já visitou São Francisco vai se sentir como se estivesse novamente na cidade, tamanha a fidelidade na recriação dos ambientes, pontos turísticos e manifestações culturais

O que não ficou bem otimizado em "Watch Dogs 2" foi o desempenho do jogo. Existem quedas de quadros frequentes que, embora não cheguem a comprometer a diversão, são altamente perceptíveis e certamente vão incomodar os jogadores mais exigentes. Esses casos acontecem em áreas mais abertas de transição entre cenários específicos, chegando a ser bastante bruscos numa simples mudança de bairro ou de rua. E mesmo que uma atualização tenha sido lançada recentemente, os problemas ainda persistem, sobretudo nas partidas online.   

Áudio


São Francisco de todos os ritmos

"Watch Dogs 2" também manda bem no áudio, em que a trilha sonora original sabe balancear os contextos das situações no game. Nos momentos de infiltração com hack, por exemplo, surgem melodias misteriosas, instigantes e igualmente motivadoras, mas sem parecerem forçadas para a proposta do jogo. Afinal, a ideia não é atingir a seriedade militar de um "Metal Gear Solid". Já nas perseguições e nos tiroteios frenéticos, as composições são bem agitadas e pesadas, reforçando o impacto do caos gerado pela naturalidade da experiência.

"Watch Dogs 2" também traz uma seleção de músicas comerciais que podem ser ouvidas a qualquer momento. Primeiramente, existem 6 rádios únicas que contornam os gêneros rock, pop, eletrônico, rap, hip-hop, clássico, internacional e praia (local). Ao longo do game, basta se aproximar de algum lugar quem tenha uma nova canção para automaticamente adicioná-la ao aplicativo multimídia de Marcus. Embora a variedade de rádios e de músicas pudesse ser maior, a maioria delas combina com a diversidade de manifestações culturais e paisagísticas de São Francisco.

Fora isso, a dublagem brasileira está entre as melhores já feitas para qualquer jogo já lançado no país, com vozes e falas quem combinam com os trejeitos dos personagens e interpretações que nunca soam imprecisas, descuidadas ou forçadas. O trabalho é realmente primoroso. Ainda assim, existem trechos que passaram despercebidos pela tradução: é raro, mas é possível encontrar NPCs falando em vários idiomas (o que, por um lado, evidencia a pluralidade cultural de São Francisco) e rádios com comentários e narrações totalmente em inglês.  

"Watch Dogs 2" facilmente supera seu antecessor em todos os aspectos. Além de personagens carismáticos, a história e a mecânica de jogabilidade se aproveitam extremamente bem da temática hacker, oferecendo missões principais empolgantes e secundárias bastante diversificadas e divertidas. Além disso, São Francisco está impecavelmente recriada e atua como um nítido parque de diversão para o jogador, que pode usar diversas habilidades e bugigangas eletrônicas para interagir com tudo o que tiver vontade. É uma das experiências em mundo aberto mais completas, coerentes e imersivas já criadas pela Ubisoft.

Conclusão

 

Avaliação: Watch Dogs 2

Jogabilidade
9.5
História
8.0
Gráficos
9.0
Áudio
9.0

PRÓS
São Francisco é palco perfeito para uma experiência em mundo aberto
Marcus Halloway é extremamente carismático
Mecânica de hack ampliada agrega mais interatividade na forma de cumprir missões
Diversidade de atividades secundárias garante muitas horas extras de diversão
Sistema de evolução de habilidades explora bem a temática hacker  
Ótima variedade de veículos, armas e equipamentos de combate
Belos gráficos, trilha sonora diversificada e dublagens competentes
Humor conveniente, sátiras divertidas e piadas coerentes 
Adeus, "UbiTowers"
CONTRAS
Online parcialmente indisponível
Quedas constantes de frame incomodam
HUD às vezes poluído demais
Sensibilidade de direção dos veículos demasiadamente alta
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  • Redator: Andrei Longen

    Andrei Longen

    Jornalista pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Andrei Longen é entusiasta por videogames desde os 7 anos, quando ganhou um Odyssey 2, seu primeiro console. Hoje tem PS4, PS3 e PS Vita e adora caçar troféus em todos os jogos. Colabora no Adrenaline com notícias, análises, artigos, colunas e vídeos.

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