ANÁLISE: Civilization VI

Mecânica mais ágil mantém a jogabilidade complexa a interessante

Depois de um spin-off um pouco mais ousado que não me convenceu muito, "Civilization VI" "volta à programação normal" com o modelo clássico que consagrou o game de Sid Meyer: lidere sua civilização à glória, da pedra lascada até à viagem espacial (caso Gandhi não te destrua com uma ogiva nuclear antes), 

O game tem uma dura missão: sendo o sexto da franquia, isso significa que está mais que consolidado, então precisa pesar o caminho entre inovar para manter o jogo interessante e, por outro lado, precisa ser o game que os fãs do gameplay complexo e diversificado aprenderam a amar. Será que há motivos para jogar o sexto "Civilization", ou quem já jogou o jogo anterior não tem nada de novo para ver por aqui? Vejamos no restante da análise!

Gameplay


Mais fluido e simplificado, sem ficar simplista

"Civilization" nunca foi um jogo muito simpático para os iniciantes, e dentro do possível esse game faz um bom serviço em tornar as partidas mais acessíveis sem perder a densidade necessária para um bom jogo. Para os inexperientes, um tutorial básico ajuda bastante a se localizar nos elementos básicos do gameplay, enquanto os "vacinados" em games anteriores da franquia podem se dar ao luxo de sair jogando.

O jogo mantém as múltiplas formas de vencer que evoluiu ao longo dos games anteriores: você pode vencer pela dominação cultural, investindo em construções relacionadas as artes, dominação religiosa, convertendo outras nações a sua religião, dominação tecnológica, conseguindo vencer a corrida espacial, ou a boa e velha porrada mesmo, conquistando os outros países na base da guerra. Se tudo der errado para todo mundo, o jogo se encerra no ano 2050 e vence quem fez a maior pontuação. Para os que fazem questão de focar em um dos elementos, dá para definir quais os critérios serão usados na partida.

Civilization VI é excelente em entregar múltiplas possibilidades ao jogador de evoluir sua nação

Essa multiplicidade de "Civilization" permeia o jogo como um todo. Você tem múltiplas fomas de evoluir sua civilização, e tem como "exercer soberania" de várias formas além da simplesmente militar. A pressão cultural, comercial ou religiosa pode ser uma forma de disputar com as demais nações do mapa nas mesas de negociações.

A inteligência artificial do game está bem interessante. Cada povo tem objetivos, e seguir uma agenda semelhante leva à formação de alianças, assim como visões contrastantes acabam levando a inimizade e até à guerra. É muito legal estudar cada nação do mapa e tomar decisões de buscar uma conciliação, muitas vezes cedendo algo, ou partir para o antagonismo. 

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O que é o grande destaque dessa edição, em minha opinião, é o quanto o jogo ficou mais orgânico. "Civilization" sempre foi um jogo de uma interface pesada e de muitos menus assustadores, e ainda continua com muitos deles, mas alguns elementos ganharam um novo dinamismo. O primeiro é as duas evoluções paralelas, a cívica e a tecnológica. Há sempre duas novidades em evolução, o que agiliza as mudanças e dá novidades de forma mais ágil a cada rodada. Outro elemento que melhorou o game são as evoluções das tecnologias baseado em suas práticas: se você guerreia muito, vai ver tecnologias de combate evoluindo baseado nessas ações, assim como fazer muitas obras relacionadas a área econômica evoluem tecnologias relacionadas ao comércio, por exemplo.

Civilization ficou mais simples em alguns elementos, mas continua um jogo denso que demanda tempo para ser dominado

São muitas as coisas a serem levadas em consideração. Lidar com políticas com as cidades-estados que surgem no mapa, as pessoas célebres (artistas, cientistas, etc) e como você irá pocisioná-las no mapa, a construção dos distritos em torno das cidades, o posicionamento das tropas pelo mapa, as políticas que seu governo irá focar, o tipo de governo que você utilizará... a quantidade de coisas a serem administradas em cada turno tornam o gameplay muito viciante, e com potencial para fazer a alegria de qualquer gamer que goste de gerenciar tantos aspectos em conjunto.

Por mais que algumas interfaces e alguns recursos tenham sido modificados e simplificados, "Civilization VI" continua sendo um jogo muito pesado para os novatos, sendo que a quantidade de fatores a serem levados em consideração vão demandar várias partidas para serem compreendidos. Para os iniciantes, é preciso controlar a frustração inicial e optar por níveis de dificuldade baixo para começar, ou mesmo usar o tutorial para dominar os conceitos básicos. Falando em tutorial, recomendo ele apenas para os jogadores que nunca jogaram nenhum "Civilization" ou mesmo jogos de estratégia no passado: ele te leva tanto pela mão que quase se torna irritante.

Gráficos


Excelentes evoluções na estética

O novo game trouxe boas evoluções na estética. "Civilization" é um game pesado quando falamos de elementos da interface, e dentro do possível essa nova edição conseguiu colocar "tudo que precisa na tela" sem tornar o resultado final em algo... muito feio. Ainda há espaço para evoluções em muitos menus, e há telas que a primeira vez que surgirem causam aquele pânico de "nem sei por onde começar a olhar". 

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Observando o jogo em si, o uso das cores e o visual cartunesco dos elementos é bastante acertado, e é possível ver uma grande quantidade de informações só de olhar para o mapa. Com o tempo o jogador ganha experiência suficiente para identificar os elementos, e saber que mandou um soldado passar por um campo plano e que isso terá um determinado impacto em seu deslocamento, ou que se optar por cortar por uma floresta será penalizado em mais rodadas para concluir a viagem. Informações como rotas comerciais, recursos exclusivos e presença ou não de unidades são fáceis de serem abstraídas rapidamente na medida que você fica mais experiente.

Os gráficos cartunescos conseguem passar muita informação ao jogador, algo importante para suas decisões

Em termos gerais, a apresentação está do jogo está muito bem feita. Os líderes de cada nação têm uma modelagem e animações divertidas (e claro, como é cartunesco, bastante estereotipadas), e é muito legal ver a cara de decepção de Gandhi porque não quer uma embaixada dele em sua capital, ou ver o Saladino "todo pimpão" porque você abriu as fronteiras para ele passar com seus milhões de mamelucos, para bater em outra nação que você não simpatiza muito.

Áudio


Algumas músicas e efeitos para dar ânimo às partidas

Talvez o elemento mais desinteressante de "Civilization VI" seja a trilha sonora. Existem uma serie de composições que fazem o pano de fundo para sua jogatina, e inclusive há variantes para diferentes nações e ou situações no gameplay. Porém, em geral, não há nada de grande destaque nas músicas presentes, e eventualmente cheguei a me aborrecer com algumas. A música do coral no carregando está entre as que mais me saturou, por seu misto de repetição e dos carregamentos do jogo serem um tanto longos.

Os efeitos de som e músicas são caprichados, mas com o tempo se tornam repetitivos

Os sons de combate ajudam na imersão das partidas, mas eventualmente você acaba se cansando, já que não variam muito. Todo deslocamento de cavalo vai ser o mesmo galopar, toda briga de infantaria vai ser o mesmo tipo de tiros. Não acho que essa mesmice de alguma forma comprometa a qualidade do jogo, só abre espaço para jogar desligando a música do game em si e abrindo a opção do jogador de colocar sua própria biblioteca musical para ocupar os ouvidos. 

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Falando dos efeitos de som, uma das coisas mais interessantes foi a escolha de citações para cada tecnologia desenvolvida. Há um senso de humor bastante inteligente em várias das referencias utilizadas, um toque muito acertado dos desenvolvedores. No final das contas, porém, eventualmente também me cansou a voz pausada do narrador lendo essas citações, já que na maioria das vezes eu terminava de ler na tela muito antes dele chegar a metade do caminho, e a repetição das mesmas referências também tornou isso monótono depois da segunda partida.

Multiplayer


Tem seus modos, mas nada que torne o jogo muito interessante para jogar com amigos

"Civilization" sempre foi um jogo um tanto difícil de ser combinado com multijogador. A longa duração das partidas e a falta de agilidade de um game em turnos complexo tornam ele a coisa menos divertida do mundo para chamar os amigos para jogar. Você precisa encontrar um balanço entre o comprometimento quase religioso com uma partida que durará vários dias ou semanas, ou jogar uma partida em modo "acelerado" que acaba impactando negativamente na mecânica do jogo, que em geral é bem paradona mesmo.

Civilization ainda funciona melhor em sua experiência single-player

Existem modos mais rápidos com objetivos mais específicos, limitando o gameplay a determinadas eras, além de toda a abertura a novas possibilidades graças a facilidade de criar mods para esse game. As partidas podem ser feitas online ou através do tradicional "hotseat" onde os jogadores utilizam o mesmo PC e vão "passando a vez". É difícil conseguir a mesma experiência que temos na campanha solitária, já que é preciso encontrar um balanço entre agilidade da partida e duração suficiente do embate, além de definir os objetivos e limitações de forma a tornar a partida interessante sem ficar cansativa demais.

O ponto positivo é que a desenvolvedora deu os instrumentos para que o multijogador aconteça, e que os jogadores tenham possibilidades de tentar modos até achar algum interessante. Porém a experiência sempre sofre perdas comparado ao single-player que, sem dúvidas, é o carro-chefe desse game.

"Civilization VI" é facilmente um dos melhores games do ano e também concorrente ao melhor game exclusivo para PC. Em muito ele se "escora" nas mecânicas e elementos clássicos da serie de Sid Meyer, mas traz elementos novos o suficiente para interessar aos gamers mais experientes da franquia. Há evoluções interessantes nas mecânicas e nas interfaces, mas ele ainda é um jogo pesado de ser aprendido por novatos. Porém ele é muito recompensador, e a sensação de liberdade e desafio em cada tomada de decisão irão motivar muito o jogador a realizar múltiplas partidas completas, buscando novas estratégias, tomando novos rumos e testando novas civilizações e mapas. 

O jogo em si não nasce com uma variedade muito motivadora de modos ou cenários, sendo que você irá basicamente gerar novas partidas e sair jogando. Porém, como já vimos em outros games da franquia, a filosofia por aqui é a ampla abertura para mods. Cada vez mais deve "pipocar" conteúdos gerados pelos usuários na Oficina do Steam, mérito dessa excelente base para esse tipo de conteúdo que é "Civilization". Apesar dessa abertura, eu gostaria que o jogo já chegasse com mais conteúdo, como os clássicos mapas em que temos uma situação pré-determinada com objetivos a serem realizados, por exemplo.

Para os fãs da série ou para aqueles que querem um jogo de estratégia desafiador e complexo, "Civilization VI" é uma compra certa que vai garantir horas de incursões bélicas, negociação com outras nações e organização das contas de sua civilização. É o típico jogo do "só mais uma rodada" que termina em procrastinação e horas de sono a menos, mas sem nenhum arrependimento por serem horas bem investidas em diversão.


Conclusão

 

Avaliação: Civilization VI

História
9.5
Jogabilidade
9.5
Gráficos
9.0
Áudio
8.0
Multiplayer
8.0

PRÓS
Jogo complexo e interessante
Bons gráficos
Múltiplas formas de administrar e vencer
Abertura para Mods
CONTRAS
Difícil de ser dominado
Pouco conteúdo adicional
Tags
  • Redator: Diego Kerber

    Diego Kerber

    Formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Diego Kerber é aficionado por tecnologia desde os oito anos, quando ganhou seu primeiro computador, um 486 DX2. Fã de jogos, especialmente os de estratégia, Diego atua no Adrenaline desde 2010 desenvolvendo artigos e vídeo para o site e canal do YouTube

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