ANÁLISE: Mafia III

Falta de polimento e gameplay repetitivo ofuscam o brilho de uma excelente história

Mafia 3 foi anunciado em agosto do ano passado e, desde então, a máquina do hype tem trabalhado a todo vapor para promover o que poderia ser um dos melhores jogos de 2016. Não faltaram trailers e vídeos de gameplay e, agora, que finalmente pudemos colocar nossas mãos no jogo para experimentar por nós mesmos, fica a pergunta: e aí, o game vale a pena? Confira nossa análise para saber o que achamos de Mafia 3!

Mafia 3 | Ficha técnica



História e Ambientação


Toda boa história merece ser bem contada

Uma coisa que eu já mencionei em análises anteriores é que não se basta ter uma boa história se ela não for contada direito. Uma ótima história merece uma ótima narrativa, e é exatamente isso que acontece em Mafia 3. O jogo não se contenta em ter um enredo interessante que prende o jogador, mas vai além, usando recursos e elementos diferenciados para contar seus acontecimentos, o que torna a experiência ainda mais imersiva e destaca muito bem a qualidade da história. Um diferencial bacana aqui é que as cutscenes são permeadas por depoimentos que se passam no futuro do jogo, de pessoas que às vezes nem apareceram ainda, como se estivessem dando entrevistas para um documentário, ou algo do gênero. Elas ajudam a explicar melhor o impacto das suas atitudes ao longo do jogo, além de oferecerem uma boa "sinopse" do que vai acontecer a seguir.

O jogo se passa em New Bordeaux, uma versão fictícia de Nova Orleans em 1968. A região pantanosa do sul dos EUA é conhecida pela forte de presença de afro-descendentes e as influências culturais trazidas por eles, como algo bastante presente em Mafia 3: o vodu. O choque dessas diferentes influências e suas consequências, como a forte presença do racismo na época, são tratados com maestria pela ambientação do game. Incorporando o protagonista negro Lincoln Clay, os jogadores são expostos à situação vivida por essas pessoas na época (e em grande medida até hoje) e o jogo faz bem em não criar algo como um manifesto, mas sim apenas colocar esse elemento porque ele é algo que existiu e existe, o que contribui para a imersão.

Um exemplo que ilustra bem essa ambientação é estar vagando pelo mundo aberto de New Bordeaux e se deparar com uma loja com uma placa "No colored people allowed" (Pessoas de cor não permitidas). Entrar neste estabelecimento vai fazer o dono NPC tentar expulsar seu personagem e eventualmente chamar a polícia se você não for embora. Esse é o tipo de coisa que não é "esfregado na cara" do jogador, mas que contribui fortemente para a imersão do jogo e para dar uma noção melhor do que seria viver naquela época.

Durante sua jornada, Lincoln vai fazer uma parceria com mais três chefes do crime, entre eles, Vito Scaletta, protagonista do jogo anterior e excelente coadjuvante para o título atual. Há missões paralelas pessoais para cada um de seus aliados, que expandem a história do jogo e se aprofundam nas personalidades e enredos de cada um deles, contribuindo muito para a experiência de Mafia 3. É difícil falar mais da história sem entrar no campo dos spoilers, mas vale dizer que ela causou ótimas impressões aqui na redação.

Jogabilidade


Divertido, mas repetitivo

A "energia" e o entusiasmo que vemos com a história, de realmente tentar fazer algo diferente, infelizmente não é refletido no gameplay. O jogo investe em seu estilo já consagrado por Mafia II e se expande, oferecendo mais coisas para fazer em seu enorme mapa, uma das principais críticas contra o game anterior. Agora, a característica de ser mundo aberto do título realmente se justifica, oferecendo várias missões paralelas, a possibilidade de executar missões da história na ordem em que você escolher e as ações acontecendo de maneira mais natural, inseridas no mundo do jogo. Além das centenas de colecionáveis espalhados pelo mundo de Mafia 3.

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Diferente do jogo anterior, o mundo aberto em Mafia 3 realmente se justifica

Mas quando vamos ao que realmente interessa, a jogatina propriamente dita, a fórmula seguida não demora pra se esgotar. A mecânica do jogo consiste, basicamente, em invadir diferentes localidades para causar prejuízos de todo tipo, quebrando carregamentos de bebida, destruindo caminhões ou conseguindo informações de capangas. O alvo pode mudar, mas o que o jogador está essencialmente fazendo é a mesma coisa em todas as missões. Depois de causados danos suficientes, é conseguida a chance de atacar o chefe do distrito e, depois de assassiná-lo, você designa a localidade para um dos seus comparsas. Nas primeiras vezes é bem divertido, ainda mais porque você tem liberdade para executar as missões se focando mais na furtividade ou chovendo bala pra cima dos inimigos, mas logo a repetição cansa

Uma coisa que agrava, e muito, o tom de repetitividade do gameplay é que alguns cenários são reaproveitados em missões diferentes. Em um momento do jogo, por exemplo, você invade uma destilaria para causar danos contra um dos inimigos. Mais tarde, esse inimigo vai poder ser assassinado e você executa essa missão na exata mesma destilaria. As mecânicas do jogo já são pouco variadas, mas fazer as mesmas coisas no mesmo lugar realmente não lhe incentiva em nada a realizar a missão. 

Outro problema severo do gameplay é a baixa qualidade da inteligência artificial, possivelmente mais um reflexo da falta de polimento do jogo. Mesmo jogando no difícil, os inimigos são péssimos em procurar cobertura, andam completamente expostos de um ponto ao outro e cometem o clássico erro de se esconder atrás de objetos explosivos, só esperando o jogador fazer a festa. Além disso, na hora da furtividade, eles são praticamente cegos e completamente surdos. Matar um capanga a três centímetros de distância de outro não tem problema nenhum, desde que ele esteja de costas. E você pode ainda assobiar para atrair um inimigo que SEMPRE vai andar na sua direção completamente sozinho, facilitando bastante o jogo.

Todo o incentivo para continuar jogando acaba ficando para a história

O estilo do gameplay é bem divertido no início e vai cansar mais rápido para uns do que para outros, mas posso afirmar com certeza que num jogo grande desses, uma hora, vai se esgotar pra todo mundo. E a partir desse momento a vontade de continuar jogando vai depender totalmente do quanto você gostou da história. Pessoalmente, acredito que o enredo é bom o suficiente para carregar o jogo nas costas, mas isso não justifica, nem torna positivo um gameplay que ficou bem abaixo das expectativas.

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Gráficos e Som


Uma linda cidade cheia de feios bugs ao som de grandes clássicos da música

É aqui que a falta de polimento em Mafia 3 mais traz problemas e realmente faz parecer que o jogo saiu bem apressado. Em qualquer título de mundo aberto são esperados mais bugs que o de costume, mas aqui eles acontecem frequentemente, com personagens atravessando paredes depois de uma execução, enxergando o protagonista através do chão e coisas do gênero. Não só isso, mas vemos também o tipo de coisa que seria evitada com uma fase um pouco mais rigorosa de testes, como aliados atropelando pedestres como loucos ou não conseguindo alcançar o Lincoln quando você pede uma entrega de armas, por exemplo. Ou, pior ainda, simplesmente não foi feita uma animação para o protagonista se arrastar para fora de um carro capotado e ele se "teletransporta" pra rua como se nada tivesse acontecido.

É nos gráficos que Mafia 3 realmente parece ter saído de maneira apressada e sem polimento

Além disso, jogar em qualquer configuração abaixo do high já começa a comprometer muito a experiência, principalmente com as luzes. Em alguns momentos os personagens vão parecer fantasmas enquanto os efeitos de luzes são renderizados e, muitas vezes, eles demoram tanto que nem compensa esperar e você joga como se tivesse caído na farinha mesmo. E isso é pra citar apenas um exemplo. Jogar no high, por sua vez, gera um artefato aqui ou ali de vez em quando.

Esses problemas ficam ainda mais frustrantes porque Mafia 3 poderia ter sido lindo. New Bordeaux ficou impressionantemente bem trabalhada, rica em detalhes e cheia de "vida", com todo tipo de estabelecimento espalhado pelo mapa e regiões bastante diferenciadas, dos pântanos aos centros urbanos. Jogar à noite na chuva, com as ruas cheias de neon e brilho deveria ser espetacular, mas logo alguma coisa buga e tira toda a "magia" do momento.

Já a parte do som quase compensa os problemas dos gráficos. A trilha sonora do jogo é incrível e a escolha das músicas para determinados momentos é nada menos que perfeita. Uma certa cena no bar de Sammy, pai adotivo de Lincoln, vai ficar para sempre registrada em minha memória e não foi só porque ela foi muitíssimo bem pensada na maneira que acontece. Ela só consegue ter o impacto que teve por causa da "cereja do bolo" que foi "Paint It Black" tocando no momento.

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E claro, não é só de trilha sonora que vive um jogo. Os efeitos estão ótimos, as armas soam poderosas, com uma sonoplastia bem variada. E, claro, a dublagem, algo que sempre merece destaque em jogos da 2K, não foi diferente aqui. Excelentes atores dão vida aos personagens e garantem a imersão completa do jogador, especialmente nas cutscenes.

A trilha sonora do game não é nada menos que perfeita

O único ponto negativo que eu daria para a trilha do jogo é que seria bom ter mais algumas músicas. Um jogo de mundo aberto com apenas 3 rádios não demora pra acabar com suas playlists.

Mafia 3 está longe de ser um jogo ruim, mas também não chegou a alcançar as expectativas que foram criadas em torno do seu lançamento. A história e a excelente trilha sonora até poderiam compensar o gameplay repetitivo e pouco inovador, mas os bugs e pouca otimização causados por uma falta de polimento realmente tornam bem mais difícil recomendar o jogo.

Mafia 3 está longe de ser um jogo ruim, mas não chegou a alcançar as expectativas

Quem tiver um hardware legal e se importar mais com a história do que tudo num jogo não precisa esperar para comprar Mafia 3. Para a maioria dos usuários, entretanto, o mais indicado mesmo é ser um pouco mais paciente não só para o preço cair, mas também para que finalmente façam os consertos finais que deveriam ter sido realizados antes do lançamento do jogo.

Conclusão

 

Avaliação: Mafia III

História
10
Jogabilidade
7.0
Gráficos
7.5
Som
9.0

PRÓS
História e ambientação espetaculares
Protagonista interessante que conduz bem o jogo
Trilha sonora perfeita
Vito Scaletta!
CONTRAS
Falta de polimento causa bugs bobos que poderiam ter sido evitados
Gameplay um tanto repetitivo eventualmente cansa
Efeitos de luz muitas vezes deixam a desejar
Só 3 rádios? :(
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  • Redator: João Gabriel Nogueira

    João Gabriel Nogueira

    João Gabriel Nogueira se formou em jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) em 2015 e curte games desde muito antes. Começou com o Master System e o gosto pelos jogos eletrônicos trouxe o gosto pela tecnologia. Escrever notícias e análises de jogos, hardware e dispositivos móveis para o Adrenaline, além de trabalho é uma alegria e um aprendizado.

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