ANÁLISE: FIFA 17

Uma excelente jornada que vai muito além da história de Alex Hunter

No ano passado, vimos a disputa mais apertada da última década entre os dois grandes títulos de futebol do mercado, ao menos em termos de recepção da crítica. Para uma considerável parte dos especialistas, PES 2016 igualou e até passou FIFA 16 em termos de jogabilidade. A questão é que, como já falamos em nossa análise, PES 2017 subiu ainda mais o nível de seu já ótimo gameplay, o que colocou um grande peso em cima da EA Sports. Especialmente se a companhia não quiser perder a fatia de mercado dos fãs mais puristas do esporte, que compram o game que tiver a melhor jogabilidade.

Mas parece que vendas não são uma preocupação para a EA entre os fãs de futebol, já que a série FIFA têm dado uma goleada nesse quesito em alguns dos principais mercados. Isso acaba gerando um certo comodismo por parte da companhia, que muitas vezes parece que não se importa muito em trazer grandes novidades em relação ao game do ano anterior. Prova disso está na falta de inovações nos FIFA 15 e 16, exceto por uma série de melhorias gráficas. Basta pensar em como a EA Sports estava trabalhando a toda em games como FIFA 09, FIFA 10, FIFA 11 e FIFA 12, que eram consideravelmente diferentes de seus antecessores. Para o novo game, referente ao ano de 2017, temos uma nova engine gráfica e um modo história completo, com quase 15 horas de gameplay. Será que isso é suficiente para justificar a compra de um novo FIFA?

Gráficos


Frostbite proporciona gráficos de gente grande

A primeira coisa que você percebe ao iniciar uma nova partida é o quão lindo o game está agora. A responsabilidade disso é da excelente engine Frostbite, a mesma que proporcionou os incríveis visuais de Star Wars: Battlefront e impulsiona Battlefield 1. Isso significa que FIFA 17 é, definitivamente, o game de futebol mais belo lançado até hoje. Isso se traduz em detalhes nunca antes vistos, que possibilitaram a inclusão do modo de jogo "A Jornada".

Isso porque a Frostbite é um motor gráfico criado pensando em ter detalhes como personagens humanos com outras roupas além de uniformes, além de oferecer uma maior variedade de emoções. Outra capacidade que não existia antes era a de criar ambientes detalhados como o interior da sede dos clubes e dos vários apartamentos por onde o personagem principal, Alex Hunter, mora na sua trajetória. Mas vamos falar mais sobre isso no trecho da análise sobre a história.

Sobre os gráficos, a iluminação está melhor e mais realista do que nunca. Seja em jogos de dia, de noite, com tempo nublado ou na chuva, a fidelidade de cores se mantém em linha com o que há de melhor no mercado hoje. Só é uma pena que a EA ainda não utiliza sombras em tempo real nas partidas noturnas, que seriam baseadas na posição dos refletores. Outro recurso que falta são as mudanças climáticas em tempo real, onde uma partida começa com tempo claro e termina com chuva, ou vice-versa. Isso é algo que PES já tem faz algum tempo.

FIFA 17 é, definitivamente, o game de futebol mais belo lançado até hoje

Em geral, não tem como achar muitos defeitos na parte visual de FIFA. Os menus seguem simples e belíssimos. Os uniformes e os cabelos dos jogadores agora têm ainda mais movimento, o que é um detalhe legal. E, claro, alguns jogadores mais famosos estão incrivelmente mais parecidos com os reais. Ainda mais aqueles de equipes que receberam uma visita da EA e de sua tecnologia de ponta, usada desde 2011.

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História


Uma nova maneira de vivenciar o futebol virtual

Uma das últimas coisas que eu achava que jamais colocaria numa análise de FIFA era a seção "história". Mas, em FIFA 17, você tem o modo The Journey (ou A Jornada), que traz o conto de Alex Hunter, um jovem fictício da cidade de Londres, na Inglaterra. A bela e primeira cena acontece enquanto Hunter tem uns 10 anos e está jogando o campeonato sub-11. Sua primeira tarefa é acertar um pênalti num gol que tem umas 4 vezes o tamanho do goleiro. O enredo começa forte, com as primeiras horas sendo responsáveis por introduzir um jogador aos bastidores do futebol. Graças ao uso da Frostbite, não apenas os personagens estão incrivelmente fidedignos, como ficaram bem representadas as dependências dos clubes e ambientes como a casa da família Hunter e áreas externas.

Em geral, a história está bem acima do que estamos acostumados a ver no gênero de esporte, inclusive mesmo em grandes produções de Hollywood. Com exceção de alguns filmes de boxe – Touro Indomável, Menina de Ouro e Rocky – assim como a produção sobre Fórmula 1, Rush, contos sobre esporte geralmente pecam em contar uma história de qualidade ou na própria representação da modalidade. Graças ao excelente gameplay da série FIFA, não existem problemas com a representação do esporte. Enquanto a carga dramática poderia ser mais forte e melhor trabalhada, não faltam dramas. Seja na relação complicada com seu melhor amigo, Gareth Walker, ou na dificuldade de encontrar seu lugar no clube, depois que o seu time – e isso vai acontecer de qualquer jeito – contratar o atacante inglês Harry Kane.

A Jornada não é a obra definitiva sobre esportes, longe disso, mas talvez seja a melhor história de ficção sobre futebol dos últimos tempos. Existe um foco excessivo no lado positivo da vida de um jogador de futebol, infelizmente sem entrar em qualquer discussão filosófica sobre o que um atleta deve ou não fazer na sua vida pessoal. A responsabilidade de seguir o legado do seu avô – a lenda fictícia dos anos 60, Jim Hunter – e de superar o fracasso de seu pai nos gramados são ótimos instrumentos para nos imergir no enredo, e a relação de amizade/rivalidade com Walker dá um toque pessoal à coisa, apesar de ter motivações um pouco infantis. No final das contas, o modo é uma maravilhosa adição para a série, com uma maneira bem diferente de vivenciar o futebol virtual. Ela certamente terá uma sequência, onde a EA vai ter a oportunidade de contar uma história mais completa e madura. Até lá, eu definitivamente recomendo A Jornada, especialmente por trazer um ar novo para a série.

O modo história é uma maravilhosa adição para a série, mas a história poderia ser mais completa e madura

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Jogabilidade


Cadê as grandes novidades, EA?

Desde pelo menos FIFA 08, a jogabilidade tem sido um dos pontos altos da série. Só que as novidades nessa área estão meio escassas nos últimos anos, e desde a edição 2014 a equipe da EA não trouxe nenhum grande avanço técnico. Boa de marketing como sempre foi, a desenvolvedora trouxe 4 novidades para o gameplay de FIFA 17, cada uma representada por um dos atletas de capa do game.

A mudança que fica mais aparente desde o começo é a implementação de um novo sistema de jogo de corpo, representado pelo meia do Chelsea Eden Hazard. A principal novidade reside numa tecnologia totalmente nova de proteção da bola e de empurrões. Isso resulta num jogo com muito mais contato físico, especialmente quando os times em campo não são tão habilidosos. Uma partida entre equipes da 3ª divisão inglesa é extremamente diferente de um clássico entre Real Madrid e Barcelona, por exemplo. Mas algo que muda em todos os confrontos de FIFA 17 é que agora é preciso ter mais cuidado na hora de roubar a bola do seu adversário. Com o novo sistema de proteção, os atacantes se posicionam frequentemente entre o defensor e a bola. Para não fazer falta, é preciso acertar o tempo exato da dividida, o que deixou a parte defensiva do jogo muito mais empolgante e dependente da habilidade de quem controla os atletas.

A segunda mudança mais aparente está nas bolas paradas, onde o garoto-propaganda é James Rodríguez, do Real Madrid. Agora é possível ajustar a posição do batedor antes de cobranças de faltas diretas, fazendo com que a bola tome trajetórias muito diferentes. Se posicionando em 90º em relação com a bola, num estilo Ronaldinho Gaúcho, facilita bater acima da barreira e com uma queda rápida para enganar o goleiro. Se posicione mais distante e para o lado oposto, e ficará mais fácil de cobrar uma falta forte e cheia de efeitos, no melhor estilo Roberto Carlos.

Já o atacante do Manchester United, Anthony Martial, representa as novas técnicas de ataque. Elas são bem simples, na verdade. Ao finalizar, basta apertar o botão de chute de novo antes do jogador bater na bola. Com isso, sairá uma finalização rasteira, o que traz uma variedade muito bem vinda para série. Pela primeira vez, é possível fazer chutes fortes de longe, assim como cabeçadas certeiras para o chão. Apertando R1 + Triângulo (PS4) ou RB + Y (Xbox One), se realiza uma bola enfiada no meio dos zagueiros. Por último, segurar RB ou R1 enquanto você faz lançamentos com o goleiro resulta em passes mais direcionados e com menos altura, ideias para criar contra-ataques. Para fechar, tem Marco Reus e o sistema de inteligência ativa, que é nada mais do que algumas melhorias na inteligência artificial dos seus companheiros.

Olhando para o tamanho dos parágrafos anteriores, e vendo o marketing muito bem feito da EA, parece que FIFA 17 traz grandes avanços em termos de mecânicas e gameplay. Mas afirmar isso seria um grande exagero. Na verdade, o jogo ainda passa a mesma sensação de FIFA 16, e suas mecânicas não são muito diferentes do que FIFA 14 já oferecia. O ritmo das partidas está um pouco mais acelerado e mais divertido. Mas eu diria que PES 2017 já oferece um gameplay tecnicamente muito próximo da série da EA Sports, e que ainda por cima é mais divertido.

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PES 2017 oferece um gameplay tecnicamente muito próximo de FIFA 17, e ainda por cima é mais divertido

Áudio


Narração está cansando, mas a trilha sonora está tão sensacional como sempre

A narração segue utilizando as vozes de Tiago Leifert e Caio Ribeiro, o que em geral não chega a ser um problema. Afinal, ela está bem completa e é bastante competente. Mas ela incomoda e muito no modo Jornada. Primeiro, porque a história só está disponível em inglês com legendas em português. Então, sair de uma cutscene com a dublagem original e entrar no jogo e para ouvir uma narração em português quebra um pouco clima. Mas o principal motivo é que falta emoção e sobram muitas brincadeiras nos comentários da dupla. Isso tira – e muito – a imersão do jogador na história. Sem contar que não gera a tensão necessária para certos momentos-chave da história. Definitivamente, nesse quesito, a narração em inglês traz muito mais emoção.

O barulho dos torcedores é um espetáculo à parte. A série sempre teve uma coleção muito completa de gritos de torcida, especialmente para os times dos grandes campeonatos da Europa, como Inglaterra, Alemanha e Espanha. Mas agora, além de ter uma variedade ainda maior deles, parece que a torcida reage de maneira natural ao que acontece dentro de campo. Se o jogo está apertado ou o time está indo bem, os torcedores vão cantar com mais frequência e entusiasmo. Eles parecem bem mais cientes do que acontece no campo. No Brasil, infelizmente só ouvi o grito de duas torcidas até agora: de Palmeiras e São Paulo. Os palmeirenses gritam coisas como "Palmeiras minha vida é você" e "Porco", enquanto os são-paulinos cantam "É tricolor", mas nada além disso.

A narração é completa e bastante competente, mas falta emoção e sobram muitas brincadeiras

A trilha sonora de FIFA sempre trouxe uma aura muito própria para a série, com um estilo muito bem definido numa mistura perfeita de indie rock, música eletrônica e excelentes artistas de países periféricos. Gente como Kings of Leon, Kasabian, MGMT, Grouplove e Franz Ferdinand já estavam tocando nos games da série antes de fazerem sucesso mundial. Para FIFA 17, a EA trouxe nomes conhecidos como Beck, Two Door Cinema Club e Bastille. Mas também tem faixas de excelentes artistas novos. São 50 músicas de mais de 15 países, de vão desde electronic dance music (EDM) e hip-hop até folk-pop. Segundo a EA, levou quase um ano para juntar essa galera toda nessa trilha sonora. Considerando a qualidade da seleção, não duvido nem um pouco disso. E valeu muito à pena.

 

Modos de jogo


Onde o jogo brilha, com diversão suficiente para um ano inteiro

Tirando a história de Alex Hunter, FIFA 17 continua sendo uma jornada longa e muito completa, que deve render centenas de horas para os jogadores mais viciados, como acontece todos os anos. Para começar, mais uma temporada do Ultimate Team significa a oportunidade de perder horas e horas colecionando e trocando as famosas cartas até conseguir seus jogadores favoritos. O modo ainda tem a novidade do FUT Champions, que todo dia tem um campeonato com requisitos de entrada diferentes. Ao ganhar um desses torneios ou ter disputado a 1ª divisão das temporadas online do Ultimate Team naquela semana, você se classifica para a Weekend League. Como o nome já diz, ela acontece em todos os fins de semana, e vai garantindo os melhores prêmios que o Ultimate Team vai oferecer este ano. Melhor do que isso: para quem jogar no Xbox One ou PS4, será possível até se classificar pra FIFA Interactive World Cup dessa maneira. Essas novidades deram um novo fôlego para o modo, e aproximam o FIFA mais do que nunca para o mundo dos e-Sports.

Para quem prefere jogar contra o computador, o Modo Carreira ficou bem mais robusto. Agora o jogador é responsável por gerenciar aspectos do clube como a situação financeira e exposição da marca. Além disso, as diretorias também vão colocar mais ou menos pressão para o desenvolvimento de jogadores jovens ou para que se tenha sucesso em competições nacionais ou internacionais. Um clube como o Real Madrid, por exemplo, vai colocar a pressão para você estar sempre no topo da tabela e chegando longe na Champions League, mas não vai reclamar se você gastar muito dinheiro para isso.

Enquanto isso, um clube como o West Ham, que é conhecido por revelar jogadores importantes, vai pedir que você esteja sempre atento a novos talentos da sua categoria de base. Porém, você não precisará fazer mais do que estar na metade de cima da tabela e aumentar um pouquinho a exposição da marca do seu clube. O sistema financeiro está mais complexo de ser gerenciado e visualizado, o que vai ser ótimo para quem adora gráficos coloridos. Em geral, o modo está bem mais realista e completo. Ele está mais interessante tanto para quem vai pegar um time menor e fazê-lo crescer, quanto para quem quer ter os desafios que comandar uma grande equipe. Porém, as ligas mais indicadas para isso seguem sendo o Campeonato Inglês e o Alemão, pois eles são os que possuem a maior atenção ao detalhe por parte da EA. Seja pela licenças de placares, gráficos de transmissão e placas de publicidade, ou pela maior quantidade de jogadores com seus rostos reais, essas são as opções que trazem a maior imersão.

O que talvez seja o menos atrativo de todos é o Campeonato Brasileiro. Depois de ter vários clubes do país disponíveis em FIFA 16 com seus elencos reais, a EA retrocedeu e perdeu os direitos de usar a imagem e os nomes dos atletas. Isso resulta numa Liga do Brasil com 18 equipes recheadas de jogadores com nomes como Vieirundinho, Gabri Prestão e Kaíquão Castro. E, enquanto os nomes, escudos e uniformes são totalmente licenciados, faltam duas equipes: Flamengo e Corinthians, que são exclusivas de PES 2017. Para compensar, a EA incluiu 5 equipes da 2ª divisão: Avaí, Criciúma, Goiás, Joinville e Vasco da Gama. Infelizmente, todos esses times também possuem jogadores genéricos, e não há uma previsão de quando a EA vai lançar uma atualização para resolver isso. Mas, até lá, seguimos sem essas equipes no Ultimate Team.

Não tem jeito: FIFA 17 mantém a coroa dos jogos de futebol. O único motivo para escolher PES 2017 neste ano é se você for um purista que está atrás de quem tem a melhor jogabilidade. De resto, a série da EA Sports se mantém superior em quase todos os quesitos. Especialmente em termos de gráficos e da absurda quantidade de modos de jogo, onde PES não tem nem chance. Para fechar o caixão, FIFA 17 ainda conta com uma história completa de umas 15 horas de duração e com licenças que a Konami nem sonha em adquirir.

FIFA 17 mais do que compensa a falta de inovações no gameplay com a reprodução visual mais autêntica do mundo de futebol, modos como Ultimate Team e Carreira que vão entreter tranquilamente por mais um ano e com uma boa história. Um multiplayer estável e bem povoado e uma excelente e variada trilha sonora fazem com que a experiência fique ainda mais agradável. Mais uma vez, a EA fez exatamente o necessário para justificar uma nova edição para a série. Quem sabe A Jornada: Parte 2 traga a ousadia que a série precisa.

Conclusão

 

Avaliação: FIFA 17

Multiplayer
9
Jogabilidade
9
Gráficos
10
Áudio
8
História
8.5

PRÓS
Gráficos excepcionais
Boa história
Jogabilidade segue consistente
Multiplayer estável e variado
Excelente trilha sonora
Fidelidade das grandes ligas
CONTRAS
A Jornada poderia ser mais ousada
Jogadores do Brasileirão não licenciados
Narração brasileira está cansando
Faltam inovações no gameplay
  • Redator: Carlos Felipe Estrella

    Carlos Felipe Estrella

    Apaixonado por games desde os 6 anos de idade, quando ganhou um Playstation 1. Em 2005 migrou para o PC, e aí começou a se interessar por tecnologia. Formado jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina.

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