ANÁLISE: Batman: The Telltale Series - Episode 1

Arte excelente e ideias muito originais presas num jogo mediano

O anúncio de que teríamos um novo Batman pela TellTale no ano passado foi uma surpresa para muitos, ainda mais por ser um título completamente diferente, finalmente fora do mundo de Arkham. Ao estilo já consagrado da TellTale, temos o primeiro episódio do jogo, sem previsão ainda de lançamentos dos próximos, mas já podemos analisar o que ele promete para o futuro. Será que vale a pena embarcar nessa aventura mais diferenciada e segmentada do Batman? Confira na análise para saber!

História e Ambientação


Ideias bem interessantes são trazidas, mas falta impacto

A história é de longe a parte mais importante em qualquer jogo da TellTale e, por isso, mesmo tendo apenas um episódio até agora, essa vai ser a parte mais longa da análise e vou me esforçar pra dizer o mínimo possível sobre o enredo para evitar spoilers.

Logo no início do jogo percebemos que a desenvolvedora se distanciou bastante do universo criado pela Rocksteady com a série Arkham, e isso já é digno de elogio. Neste adventure, o Batman acabou de começar sua "carreira" e os criminosos nem concordam ainda se ele existe ou não. É interessante pegar um jogo tão renovado e com arte original do Batman, mas isso já traz um primeiro buraco para a história. Como pode o Homem-Morcego ter acabado de começar a combater o crime e já ter seu modo de operação tão consolidado? Se não fosse pelas pessoas comentando "quem é o Batman" e pelo Comissário Gordon indeciso se persegue ou não o herói, você jamais diria que ele não é o vigilante há anos. Isso não é um problema enorme, mas é perdida uma oportunidade do jogador influenciar mais na formação do herói, tomando algumas decisões na aparência e nas utilidades do traje e dos gadgets, ainda mais num jogo pela TellTale em que nossas escolhas deviam pesar tanto. Mas, reclamações à parte, encontrando o Batman no início de seu legado, o jogador vai poder escolher como ele lida com as coisas, sendo mais brutal ou mais misericordioso com os criminosos, mais persuasivo ou mais violento, etc. Pontos pra isso.

Encontrando o Batman no início de seu legado, o jogador vai poder escolher como ele lida com as coisas - sendo mais brutal ou mais misericordioso com os criminosos, por exemplo

Mas o grande diferencial na história desse jogo não é o Batman, é o Bruce Wayne. Existem centenas de jogos do morcego que colocam o jogador sob o capuz para combater o crime, mas quantos lhe dão a oportunidade de tomar as decisões do órfão multi-milionário de Gotham? Essa é uma ideia muitíssimo original e só daria certo num jogo da TellTale mesmo, afinal, não teria muito o que se fazer como Bruce Wayne num jogo de ação do Batman. Por isso, muitos pontos aqui, especialmente para os fãs de longa data do herói, que não terão a chance de explorar os dois lados da vida dupla do personagem num formato melhor que o oferecido por este game. Só que aqui pesa outro pequeno problema. Para garantir o interesse da história, talvez, a TellTale optou por aproximar os vilões que você enfrenta como Batman da vida pública de Wayne. A ideia, por si só, não é ruim, afinal é uma dinâmica legal interagir com os vilões nas duas formas do personagem, mas às vezes fica um pouco forçado imaginar que todos esses malfeitores teriam contato direto e determinante na vida do playboy mais famoso da cidade sem levantar muitíssimas suspeitas.

Em termos gerais a história funciona e mostra alguma promessa, mas, pelo menos neste primeiro episódio, falta impacto e algum acontecimento marcante. Algo que dê ao jogador aquela expectativa e empolgação para os próximos episódios, que marque o início de uma nova aventura do Batman. Além disso, algumas escolhas aparentemente não têm muito impacto (ou nenhum) no desenrolar da história, o que é bem problemático num jogo da TellTale. Só que, de tudo que foi dito aqui, o que conta menos pontos pra história e ambientação mesmo é, de novo, a insistência em contar e re-contar e contar de novo a morte do casal Wayne naquele beco que traumatizou o jovem Bruce Wayne. Essa é a origem do herói e sua importância é indiscutível, mas até quem não gosta do Batman já conhece esse papo de cor e salteado e cansa ter que ver ele de novo, com direito a flashbacks, toda vez que sai mais um game que comece uma nova franquia do Homem-Morcego.

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Jogabilidade e "Multiplayer"


Crowd Play é uma novidade bem-vinda na desgastada fórmula da TellTale

A jogabilidade de Batman The TellTale Series se dá como todo e qualquer outro jogo da desenvolvedora. Você faz escolhas nos diálogos e responde a comandos de QTE nas cenas de ação. Nessas cenas, aliás, aparece uma espécie de "barra de vida" na forma de um símbolo do Batman e cometer erros reduz essa barra, até o herói "morrer" e você ter que recomeçar a cena. É muito difícil que isso aconteça.

Como só temos o primeiro episódio, é difícil imaginar pra onde vai a jogabilidade do game, mas dois trechos merecem ser mencionados, porque parecem o tipo de coisa que será repetida nos próximos episódios: uma investigação e um ataque planejado.

Começando pela investigação de uma cena do crime, onde você adquire controle livre sobre o Batman e tem que não só colher as evidências, mas também descobrir como elas se relacionam, para reproduzir o que aconteceu. É muito interessante fazer isso pela primeira vez, mas logo o jogador percebe que ele não está jogando de verdade, apenas apertando as evidências na ordem. Errar aqui não lhe permite avançar, então vai ser só ver o que encaixa no que antes de avançar o que, se você não conseguir pela lógica, vai conseguir pela tentativa e erro.

o ataque planejado é mais interessante ainda para os fãs do Batman, mas menos ainda pra quem está vindo pela jogabilidade. Usando um drone e escaneando um cenário, o jogador marca cada um dos capangas que pretende derrubar, escolhendo como vai fazer. Derrubar um lustre na cabeça ou jogar o cara em cima da mesa, por exemplo. Planejar um ataque bem coordenado do herói nesse nível é muito imersivo, mas no fim suas escolhas nem fazem diferença e é "só pelo espetáculo" mesmo.

Cito esses dois momentos porque eles foram diferentes e até bem divertidos no primeiro episódio, mas se forem repetidos nos próximos exatamente com a mesma lógica, vai enjoar, justamente porque suas escolhas não importam. Será bem mais interessante se um ataque mal planejado resultar numa missão desastrosa ou se perder as evidências na cena de um crime atrapalharem toda a investigação do jogador.

No Batman, a TellTale estreou um novo recurso: o "Crowd Play", que é o que chamo de "multiplayer" nesse trecho da análise. Já que a TellTale é tão focada em suas histórias, não é difícil que pessoas que não tenham o costume de jogar se interessem por assistir e tenham vontade de participar. Usando o recurso o jogador ganha um código pra passar pra quem vai participar, que acesso o site da TellTale usando qualquer dispositivo com internet. No site os botões pra participar das escolhas aparecem e as escolhas mais votadas são as que acontecem, assim é possível ter várias pessoas "jogando" ao mesmo tempo. É algo bem diferente da experiência altamente personalizada oferecida em games desse tipo e fica bem interessante especialmente pra adicionar um valor de "replay" ao jogo. Infelizmente, por causa da latência atual, fica difícil usar isso em transmissões ao vivo de jogatinas, já que as escolhas devem ser feitas rapidamente, mas quem sabe no futuro... O recurso é bacana pra quem se interessar e não interfere em nada pra quem não gostar, então esse é o tipo de coisa que sempre conta pontos.

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Gráficos e Som


Batman fica em casa com arte no estilo das HQs, mas dublagem podia ser melhor

A arte original da TellTale para sua versão do Batman tem uma estética muito bem-vinda. O estilo de quadrinhos em cel shading, como seria de se esperar, casa perfeitamente com o universo do herói que teve sua origem nas HQs. Todos os personagens são representados muito bem, com seus traços mais icônicos sendo respeitados, ao mesmo tempo em que a desenvolvedora se dá a liberdade de implementar suas próprias ideias neles. A possibilidade de escolher as cores da "bat-tecnologia" pode ser considerada um recurso supérfluo, mas é o tipo de toque simples extremamente bem-vindo para personalizar a experiência.

Esse estilo de arte, como qualquer outro, não agrada todo mundo. Há quem considere importante levar os gráficos ao limite do que é possível para gostar de um jogo e é claro que esse nunca foi o foco da TellTale. Sem problema, gosto é gosto. Mas é indispensável destacar aqui que, tudo bem, se abrimos mão de gráficos de última geração em troca de um estilo artístico diferenciado, o mínimo que esperamos é ver esses desenhos de maneira fluida e sem engasgos. Infelizmente, pelo menos no PC, não é isso que ocorre no Batman da TellTale. Há alguns engasgos e perdas de frames, principalmente em transições de cenas e algumas animações ficam simplesmente desajeitadas mesmo. Isso não seria um grande problema e totalmente perdoável num Witcher 3 da vida, mas num adventure em cel shading fica difícil de perdoar.

Já na parte de som o game não vai muito além do mediano. Nada que se destaque negativa ou positivamente. A música tema é boa, mas a trilha sonora não é variada. Alguns trabalhos de dublagem são melhores que os outros, em especial o de Batman e do Harvey Dent, mas no geral as vozes funcionam. A falta da localização do áudio em português, entretanto, vai fazer falta para muitos jogadores, especialmente porque há erros de tradução nos textos. Nada gritante que comprometa a história, mas aquele tipo de errinho aqui ou ali que prejudicam um pouco a imersão do game.

A TellTale mostrou uma tentativa honesta de entregar uma visão diferente sobre o Batman, distante do sucesso já conseguido pelos games que levam Arkham no título e com um foco inédito na identidade pública do personagem, Bruce Wayne. Enquanto a ideia é digna de elogio e vai ser apreciada especialmente pelos fãs do herói, o resultado final, como jogo, não é dos melhores. Os engasgos na performance, "forçadas" na história, erros de tradução e dublagem de qualidade variada apagam o brilho de um game que poderia ter sido bem melhor.

O Batman da TellTale vai ser apreciado pelos fãs do herói e desse formato de jogo, mas o resultado final não é dos melhores

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No PC não é possível comprar os episódios separadamente, então o valor cheio de R$ 46 e sem data marcada pro lançamento dos próximos, fica mais difícil recomendar este game na plataforma. Nos consoles é possível comprar apenas o primeiro episódio por R$ 15,50 na PSN ou R$ 19 na Xbox Live, o que o torna bem mais palatável! É mais fácil perdoar os defeitos de um jogo quando o investimento é menor. Se não gostar do primeiro é só não comprar os próximos.

Se o game evoluir bastante nos próximos episódios, talvez o pacote da aventura completa valha mais a pena, mas isso a gente diz na próxima análise, dos 5 episódios como um todo.

Conclusão

 

Avaliação: Batman: The Telltale Series - Episode 1

História
8.0
Jogabilidade
7.5
Gráficos
7.5
Som
7.0

PRÓS
Arte bem feita e ótima estética dos personagens
História mostra promessa
Único formato possível pra explorar as duas identidades do herói
Escolher o "tipo de Batman" que você quer ser
Distanciamento da série Arkham
CONTRAS
Alguns engasgos não justificados na performance
História parece um pouco forçada às vezes
Falta impacto nos acontecimentos do primeiro episódio
Erros de tradução nos textos em português
Chega de ficar recontando a morte dos pais do Batman
  • Redator: João Gabriel Nogueira

    João Gabriel Nogueira

    João Gabriel Nogueira se formou em jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) em 2015 e curte games desde muito antes. Começou com o Master System e o gosto pelos jogos eletrônicos trouxe o gosto pela tecnologia. Escrever notícias e análises de jogos, hardware e dispositivos móveis para o Adrenaline, além de trabalho é uma alegria e um aprendizado.

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