ANÁLISE: Unravel

Os jogos independentes são feitos, em sua maioria, por pequenas equipes de desenvolvedores que sonham em trabalhar com videogames. Enfrentando dificuldades financeiras e trabalhando muito, todo dia, vários estúdios com títulos de muito potencial e beleza aparecem em plataformas como a Steam, mas, às vezes, acabam caindo no limbo dos games.

Produzido pelo estúdio sueco Coldwood Interactive, "Unravel" tinha chances de acabar se perdendo no mar de indies, mas recebeu apoio da EA Games e, desde sua emocionante aparição na E3 2015, conquistou a atenção de muitos jogadores.

Misturando puzzles e sentimentos, "Unravel" está disponível para PC, PS4 e Xbox One e, na análise abaixo, você pode conhecer melhor esse indie apaixonante que possui uma bela mensagem.


História
Um jogo que vai muito além de ser um jogo

A história de "Unravel" não está presa somente ao game. Há dois anos, o diretor criativo Martin Sahlin criou Yarny durante uma viagem de família. Para ele, o fio que monta o pequeno boneco vermelho  representam as ligações que fazemos na vida. Depois de ter esse insight, Sahlin resolveu transformar a ideia em um jogo. Para a sorte dele, a EA descobriu o título e espalhou a mensagem do game por todo o mundo durante a E3 2015, quando o título foi apresentado oficialmente.

Na ocasião, Sahlin compareceu ao maior evento de games do mundo e, com as mãos tremulas e cheio de emoção, apresentou sua arte para o público, protagonizando um dos momentos mais bonitos que já vi na minha vida de gamer.

Durante o game, o mesmo sentimento continua. Ao estilo "Toy Story" o bonequinho Yarny ganha vida e vai em busca de pequenos objetos de lã espalhados em diversos locais mostrados em fotos de família espalhadas pela casa. Os acessórios em questão representam as memórias da família que costurou o bonequinho. No final de cada fase, as memórias são colocadas num álbum, que conta, de forma mais linear, tudo o que aconteceu no lugar onde o jogo se passa. Nada faz sentido no começo, mas tudo vai ficando mais claro com o passar das fases.

É importante destacar que nenhuma palavra é dita durante "Unravel". A única comunicação direta feita são pequenas frases no álbum que mostra as lembranças. Todo o resto é apresentado em forma de ações e imagens, onde as informações devem ser interpretadas pelo jogador. A utilização desta narrativa mais subjetiva para contar a história da família prende o jogador e acaba criando interesse, mesmo a família não tendo nada de espetacular.

- Continua após a publicidade -

Assim como acontece no indie "Firewatch", o pano de fundo de "Unravel" conta a história de humanos normais, e talvez seja essa simplicidade que acabe marcando o jogador, pois a tua família deve ter passado por alguma das situações que os criadores de Yarny passaram, como separação, partidas inesperadas e a morte de entes queridos.


Uma das páginas do álbum de fotos da família (e o momento em que descobri que Unravel é mais que um jogo)

As mensagens exibidas no álbum de fotos também são bastante valiosas, trazendo, em pequenas frases, experiências ou dicas de como aproveitar melhor os dias de felicidade e superar momentos difíceis da vida. Durante as entrevistas e ações de marketing em que falava sobre o projeto, o criador Martin Sahlin sempre dizia acreditar que os games podem ser mais do que simples entretenimento. Ele conseguiu provar isso com "Unravel", trazendo, no final de cada fase, uma pequena lição de vida que pode se aplicar ao jogador.

"Nós pensamos que os jogos só são bons para entretenimento e escapismo, mas podem ser muito mais do que isso"
 - criador de Unravel 

A trama funciona muito bem como pano de fundo para os puzzles e também traz a mensagem que Sahlin queria passar, onde Yarny representa o amor que conecta a família. Em suma, muita da história de "Unravel" é sobre amor e união, mostrando que coisas simples e feitas com sentimento também merecem destaque no mundo dos games.


Jogabilidade
Plataformas e puzzles com lã divertem, mas podem se tornar cansativos

- Continua após a publicidade -

"Unravel" é um game de plataforma e a jogabilidade consiste em resolver puzzles nas fases para conseguir seguir em frente e pegar os vários objetos feitos à mão. As fases podem ser acessadas nos quadros de família e garantem cerca de 10 horas de jogo, com vários itens pequenos escondidos pela plataforma. 

O principal diferencial em relação a outros games do gênero é o fio de lã que forma o corpo de Yarny, que é peça essencial do gameplay e é utilizado pelo personagem para escalar, criar pontes, arremessar e laçar objetos. O jogador deve ficar atento ao número de nós que faz com os fios, já que ele não é infinito e pode acabar antes de você alcançar outro bolo de linha, que funciona como checkpoint.


Se você não consegue alcançar a linha, é necessário voltar e desfazer alguma coisa

Não existem meios de salvar o jogo no meio da partida, ou seja, se você sair ou morrer logo depois de passar um desafio extremamente difícil, será obrigado a voltar para o checkpoint anterior, o que pode deixar o game cansativo. "Unravel" também oferece a opção de desistir de resolver o desafio e recomeçar do último ponto de checagem, para quando o jogador ficar muito enrolado com os fios, por exemplo.

As combinações com a linha não variam muito, o que acaba tornando os puzzles repetitivos em algumas fases. As mecânicas com a lã funcionam muito bem, mas não existe um jeito de medir a quantidade de fio que ainda resta para ser gasto, apenas pequenas alterações no corpo de Yarny e alguns nós quando a linha chega ao fim. Isso acaba deixando o jogador sem saber a quantidade de linha que pode gastar em cada puzzle.

Na questão da dificuldade, o jogo é relativamente desafiador e traz vários obstáculos que vão te deixar com raiva de ser um boneco de lã. O personagem é muito pequeno e, por causa disso, o jogador enfrenta inimigos como crustáceos, roedores, insetos e aves, dependendo do local. Além dos animais, a natureza também impõe dificuldades: a chuva, neve e o vento deixam o personagem mais lento e a água, bom, a água vai te matar várias vezes.

A física do game é bem trabalhada quando relacionada aos fios: os balanços e variações de velocidade funcionam muito bem em acrobacias com a lã. Por outro lado, talvez nem Einstein consiga explicar a relação de força e fragilidade de Yarny. Ao mesmo tempo em que o personagem morre quando leva pancadas, ele consegue arrastar objetos de ferro e pedras com facilidade. Obviamente, isso é um fato que não influencia na jogabilidade, mas me deixou curioso. Isso é a força do amor? Quem sabe...

- Continua após a publicidade -

Resumindo, o indie é um bom game de plataforma e traz uma jogabilidade desafiadora, mas que pode acabar se tornando cansativa, tudo depende do seu amor por puzzles e a vontade de continuar a história. Se você quer apresentar os videogames para alguma pessoa (pais, filhos, namorada(o}, "Unravel" é uma boa opção, já que é muito bonitinho, simples e divertido. 


Gráficos e Áudio
Música leve e mundo cheio de detalhes garantem uma experiência imersiva

Na questão gráfica, "Unravel" traz um mundo adaptado a escala de Yarny, com bastante beleza e riqueza de detalhes. O game é ambientado no interior, com vários objetos do campo, zonas com floresta e neve.

É possível ver desde as falhas nas pedras até o musgo das madeiras. No geral, os objetos são bem definidos e carregam os detalhes e a beleza mostrados desde a apresentação do jogo de uma forma bastante satisfatória. Os humanos que aparecem e o próprio Yarny também possui uma estética gráfica bastante satisfatória.

 

 

O álbum de fotos traz, em sua maioria, imagens reais e que criam um contraste interessante e que aumentam a imersividade na história. É como se você viajasse pela vida da família retratada. 

Na versão de PC, o jogo possui requisitos modestos e alcançar um nível gráfico bom não é difícil. Um ponto que também chama a atenção é a simplicidade dos menus do game. Tudo é muito direto e com poucas opções oferecidas. No Menu Inicial, por exemplo, só existem as opções "Continuar" e "Novo Jogo". Na hora de configurar os gráficos, não existe uma grande variedade de combinações, o que acaba deixando as configurações bastante limitadas.

A trilha sonora, os gráficos e os dois planos da plataforma se encaixam perfeitamente e formam uma bela experiência audiovisual

A trilha sonora se encaixa perfeitamente com as situações ilustradas em cada fase e os ruídos naturais, como vento, chuva e trovões, são bastante fiéis, melhorando a experiência de imersão. Aliados ao plano desfocado atrás da plataforma principal onde Yarny caminha, vários detalhes passam e enriquecem ainda mais a experiência durante a jogabilidade.

Em suma: nos quesitos técnicos, "Unravel" traz um micro-mundo muito bem adaptado e apresentado, que dá suporte para a subjetiva história do jogo e serve muito bem como plataforma para os desafios, entregando uma bela e divertida experiência. A falta de opções no Menu limita as configurações e ao mesmo tempo deixa claro que o game ainda é um indie, apesar de carregar o logo da EA Games. 

Trazendo uma história bastante subjetiva e cheia de lições, "Unravel" é um jogo que, além de entreter, mostra como os games também podem carregar belas mensagens. Com uma experiência audiovisual muito rica, o indie consegue ser divertido, emocionante, fofo e humano, tudo isso com pouquíssimas palavras utilizadas.

Apesar de não trazer nada de extraordinário, o indie da Coldwood tem em sua simplicidade a essência pura de ser um videogame, divertido e com uma história marcante. "Unravel" talvez não será destaque em grandes premiações ou cultuado como outros jogos independentes, mas ainda assim é um ótima experiência, principalmente se você gosta de coisas simples, mas feitas com muito carinho.

Conclusão

 

Avaliação: Unravel

História
9.0
Joabilidade
8.0
Gráficos
9.0
Som
8.0

PRÓS
História subjetiva que funciona
Jogabilidade simples que agradará até quem não gosta de puzzles
Fases desafiadoras
Cenários bem construídos, detalhados e bonitos
É TÃO FOFINHO!
CONTRAS
Pouca variedade de combinações com a linha
Jogabilidade pode acabar cansando alguns jogadores
Tags
  • Redator: Mateus Mognon

    Mateus Mognon

    Mateus Mognon é formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina. Vencedor do prêmio SET Universitário na Categoria Reportagem Digital, atua nos sites do grupo Adrenaline desde 2014. Atualmente, colabora para os veículos com notícias, análises e artigos envolvendo tecnologia e games.

O que você achou deste conteúdo? Deixe seu comentário abaixo e interaja com nossa equipe. Caso queira sugerir alguma pauta, entre em contato através deste formulário.