ANÁLISE: The Witness

"The Witness" é ó novo game de Jonathan Blow, o criador de "Braid", um dos jogos independentes mais cultuados de todos os tempos. Cercado de grande expectativa desde que foi anunciado em 2009, o título aposta todas as fichas em quebra-cabeças que prometem fazer os jogadores arrancarem os cabelos. Será que a fortuna investida e os 6 longos anos de desenvolvimento valeram a pena?

Abaixo você confere a análise de "The Witness", baseado na versão para Playstation 4. O game também está disponível para PC (Steam).


Jogabilidade
Prove a sua genialidade resolvendo todos os quebra-cabeças, se puder

Você acorda num túnel. A sua frente está uma porta. Nela, está um painel cujo desenho mostra um ponto que se conecta a uma linha vertical, que se conecta a outra linha na horizontal e termina num outro ponto menor. Você aperta o botão indicado, mexe no analógico na única direção possível e acaba ligando os dois extremos. A porta se abre: você está pronto para explorar a nova área e resolver o próximo quebra-cabeça. Esse é a descrição, de forma extremamente rasa e minimalista, da mecânica de "The Witness", que apoia todos os seus princípios em puzzles e não faz questão alguma de contar uma narrativa.


A jogabilidade do título é totalmente focada na resolução de puzzles. E já nos primeiros puzzles é possível sentir a complexidade e a profundidade de cada um deles, que possuem padrões únicos e sistemas progressivos de lógica com diferentes níveis de raciocínio. Esse sistema se repete exaustivamente durante toda a aventura, podendo parecer algo que tende a se tornar cansativo com o tempo. Mas o que acontece, felizmente, é o oposto: é extremamente gratificante e capaz de fazer o mais desacreditado dos jogadores a se sentir a pessoa mais inteligente do mundo. A recompensa máxima é a diversão, principalmente para quem é fã do gênero.

A estrutura de "The Witness" é em mundo aberto. Todas as áreas estão abertas para explorar desde o começo, mas não é possível acessar todos os quebra-cabeças logo de cara. É preciso resolver o único disponível em cada área para, na sequência, acessar os níveis seguintes, mais difíceis e mais complexos. O mapa é sub-dividido em 18 seções e cada uma delas traz alguma particularidade que as diferencia de todas as outras. Alguns exemplos de particularidades: sombras aleatórias pela incidência aleatória da luz, os tons agudos e graves de sons, labirintos interligados ou a perspectiva de objetos em relação a posição de outros.

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Listar outras particularidades é desnecessário, pois adiantaria pistas sobre o que esperar de alguma área em específico, arruinando parte mágica de descobrir a relação entre a mecânica e os recursos sensoriais do jogador. Mas é importante ressaltar que, diferente da imensa maioria dos outros games, "The Witness" é capaz de levar o jogador de volta a uma época nos games em que era preciso combinar papel e caneta, desenhar e testar todas as possibilidades para chegar ao resultado certo. Não foram poucas as vezes em que precisei recorrer a este recurso, que se mostrou extremamente funcional e o diferencial absoluto entre a vitória e a derrota. 


Olhando superficialmente, parece que o game é para poucos. Mas isso não é verdade, pois os desafios carregam consigo dois princípios básicos de design extremamente bem executados. O primeiro é jamais subestimar a capacidade de raciocínio do jogador. E o segundo é nunca fazê-lo se sentir inútil pelo simples fato de não ter encontrado a resposta de um puzzle. "The Witness" é difícil, mas justo e absurdamente coerente ao que se propõe. Por isso, se o jogador não conseguiu resolver algum quebra-cabeça, é porque não entendeu a lógica básica dele e não está conseguindo ligar as dicas mais genuínas fornecidas pelos cenários. Ou mais provavelmente ainda: simplesmente não está a fim de pensar muito.

The Witness é difícil e, às vezes, bastante complexo. Mas o game é igualmente justo com o jogador e coerente com as mecânicas que oferece.

E, aqui, vale a maior das críticas a algo que pode acontecer. Não ao game em si, mas ao jogador. Com toda a dificuldade entre a resolução de um puzzle e outro, é bastante comum se sentir frustrado nas horas mais complicadas. Como é da natureza humana buscar caminhos mais fáceis para atingir os objetivos, buscar as respostas dos puzzles em guias espalhados pela internet é cometer o maior dos erros em "The Witness", pois isso simplesmente corrompe toda a genialidade de progressão de como os quebra-cabeças funcionam, influenciando negativamente no impacto da experiência como um todo. Todo aquele papo de descoberta e recompensa vai pelo ralo em questão de segundos. E o que era para ser algo inesquecível é reduzido apenas ao grupo do comum.  


Gráficos
Estética artística traz visuais lindíssimos

"The Witness" também acerta em cheio nos gráficos. A estética foge do realismo recheado de partículas dos games mais modernos para apresentar uma proposta bem mais artística. Com cores fortes, vibrantes, muitos detalhes e texturas bem empregadas, os cenários são deslumbrantes e extremamente convidativos à exploração. Com algumas horas adentro da aventura, não tem como não se sentir envolvido na ambientação e realmente acreditar que se faz parte daquela ilha cheia de mistérios. 

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É interessante notar também que, embora o mapa aberto esteja longe de ser grande quando comparado com outros games abertos, cada uma das regiões de "The Witness" tem características bastante singulares de vegetação, estruturas de construção, tipos de mecanismos, sombreados e tonalidades, o que demonstra todo um cuidado de criação na variedade de atrativos visuais que colaboram na imersão do jogador. Não existe nenhuma área parecida com outra e, passeando por elas, ou mesmo as olhando de longe, já sabe o que vai se encontrar lá e que tipos de desafios aguardam o visitante. É realmente primoroso.


Áudio
Silêncio intrigante numa ilha paradisíaca

Se talvez exista algum ponto em que "The Witness" possa ser criticado é no áudio. O "problema" desta parte é que quase a totalidade da experiência é jogada sem qualquer tipo de acompanhamento musical. Particularmente, isso não chegou a pesar radicalmente, servindo este mesmo silêncio quase absoluto mais como um elemento de apoio na imersão para se concentrar completamente na resolução dos desafiantes quebra-cabeças.

The Witness não tem trilha sonora: essa escolha de design de som é compensado pela imersão e justificado pela necessidade de vários tipos de puzzles utilizarem sons dos ambientes para serem resolvidos.

Tudo o que existe são sons de preenchimento aos arredores do mundo aberto do game. E isso inclui o barulho do vento, do mar, dos riachos, de madeira estalando, de barras de ferro batendo, de portas ou portões se abrindo, de mecanismos se mexendo e de alguns raríssimos pássaros. Neste último caso, o próprio som dos animais é a chave para resolver uma sequência de puzzles difíceis, o que justifica totalmente a ausência de músicas na aventura.   

Entretanto, ficou bastante claro que essa escolha de design de som pode contribuir para uma jogabilidade mais monótona, gerando uma perda no interesse, por parte de alguns jogadores, de continuar jogando pelo simples fato de não haver uma única melodia sequer. A viagem entre um cenário e outro, por exemplo, que mesmo que sejam bem próximos uns aos outros, são percorridos sem músicas ilustrativas, algo que poderia ser contornado com canções que pudessem instigar ainda mais a vontade de continuar solucionando quebra-cabeças. 

É fácil reconhecer em "The Witness" a genialidade do produtor Jonathan Blow em desenvolver jogos que se tornam não apenas inesquecíveis, mas também futuras referências a outras produções. Exatamente como já havia feito com "Braid", o novo jogo entrega uma experiência que vai muito além da maioria dos outros games do mercado.

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Mesmo sem ter uma narrativa e praticamente não fazer uso de trilha sonora, o level-design primoroso, os quebra-cabeças inteligentes e a imersão constante garantem a "The Witness" o status de ser o primeiro game que realmente vale a pena ser jogado em 2016. Sobretudo para quem gosta do gênero. Mas se este não for o seu caso, é melhor procurar diversão em outro lugar ;)

Conclusão

 

Avaliação: The Witness

Jogabilidade
10
Gráficos
10
Áudio
8

 

PRÓS
Level-design inteligente e executado de forma impecável  
Centenas de quebra-cabeças desafiantes exigem raciocínio aprimorado
Mapa aberto com 18 seções para explorar, cada uma com uma particularidade exclusiva 
Gráficos belíssimos com paisagens deslumbrantes
Efeitos sonoros = imersão constante
CONTRAS
Dificuldade progressiva pode afastar alguns jogadores
Ausência de trilha sonora pode incomodar
Narrativa praticamente nula abre pouca margem para interpretações e hipóteses
Quem não curte puzzles vai perder um dos melhores games do ano
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  • Redator: Andrei Longen

    Andrei Longen

    Jornalista pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Andrei Longen é entusiasta por videogames desde os 7 anos, quando ganhou um Odyssey 2, seu primeiro console. Hoje tem PS4, PS3 e PS Vita e adora caçar troféus em todos os jogos. Colabora no Adrenaline com notícias, análises, artigos, colunas e vídeos.

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