ANÁLISE: Journey (PS3)

ANÁLISE: Journey (PS3)

2 horas e 43 minutos. Cronometrei o tempo que "Journey" durou do início ao fim da partida. Para muitos, esse tempo nem de longe se encaixa nos padrões atuais de outros jogos e, por isso, nem chegariam a testar o game. Se você é um desses, só tenho uma coisa a dizer: meus pêsames, você estÁ perdendo uma das aventuras modernas mais tocantes que jÁ rodou em qualquer de plataforma.



Produzido pela Thatgamecompany, a mesma companhia dos elogiados "Flow" e "Flower", "Journey" faz parte dos jogos indies exclusivos da Playstation Network que não tentam, em nenhum momento, parecerem-se com qualquer outro jogo jÁ lançado. Porque digo isso? O título nem mesmo possui um HUB de gameplay (barras de energia, magia, estatísticas, números),  comandos variados, diÁlogos (aqui eles inexistem) e menus avançados. A simplicidade aqui é ímpar e ela se faz valer com harmonia exemplar.


Acha que estou falando baboseira? A menos que você jÁ tenha tido a oportunidade de jogar, recomendo parar por aqui e se ocupar com outra coisa. Caso contrÁrio, segue na leitura para entender por que o título estÁ sendo muito bem recebido pela crítica e jogadores mundo afora.

{break::Enredo e jogabilidade}Como é difícil falar do enredo de "Journey" sem entregar muito... Afinal, o jogo não tem nenhuma espécie de diÁlogo ou qualquer tipo de texto que esclareça ao jogador o que se passa na tela. A única coisa presente é uma forma remota de comunicação feita através da emissão de assovios de diferentes notas musicais. Não, não tem nada a ver com um jogo de música, mas é desta forma que o personagem principal, uma espécie de entidade não- identificÁvel, se guia pelo mundo do game se comunica com outras criaturas de igual singularidade.

A premissa de "Journey" é uma só: atravesse o deserto, as cavernas, algumas construções remotas, algumas colinas de gelo e chegue ao topo de uma montanha aparentemente sagrada. Mas pensa que é só ir andando calmamente pelas paisagens que logo cumprirÁ sua aventura? Ledo engano. O jogo faz questão de te "enganar" e frisar que ali, além de jogador, você também é um espectador interativo, e terÁ que cumprir uma série de puzzles para prosseguir.



Uma vez que se dê alguns passos, você logo percebe que terÁ muito mais a fazer do que o jogo aparentemente oferece num primeiro momento (ficar perambulando pelos desertos). É preciso prestar atenção nos arredores e jogar a favor do vento. Ele é o elemento chave da jornada e o ajudarÁ em todos momentos. Primeiro, é necessÁrio se familiarizar com os comandos. E ainda bem que eles são poucos e muito fÁceis de aprender e se acostumar.

Tudo gira em torno de dois botões, um para pulo-voo (X) e outro para os breves assovios (O – círculo). O personagem possui uma fonte de poderes num lenço envolto em seu pescoço. À medida que descobre a localização de símbolos mÁgicos pelos cenÁrios, o tamanho do pano aumenta, o que significa maior altura nos pulos e maior duração durante os voos (flutuações).



Durante a partida, resolver os puzzles libera a aparição de pequenos pedacinhos de lenços com vida própria presos em cabines de metal enterradas pelos cenÁrios. Além de vagarem por partes específicas dos cenÁrios, o impulsionam a Áreas anteriormente inalcançÁveis e recarregam o poder mÁgico do lenço principal, gasto em outras flutuações. Sendo assim, basta seguir na aventura sempre se utilizando dos vôos para atingir novos locais e explorar novos segredos.



Pelas paisagens, encontram-se fontes de luz que fazem o tamanho do lenço no pescoço aumentar, o que consequentemente aumenta a duração do voo e do alcance das flutuações. Essa situação é essencial para descobrir Áreas mais ao longe ou explorar lugares menos óbvios. É dessa maneira que o título "joga" a todo momento. E é exatamente por essa simplicidade toda que "Journey" emplaca.  Mais do que isso, consegue envolver o jogador de uma forma tão diferente que é muito improvÁvel não gostar do que se controla à sua frente.

{break::Pintura visual e sonora}É claro que toda essa resposta sensorial não acontece somente por causa dos controles. Outros quesitos também têm suma importância no impacto e na experiência como um todo. O visual do título é embasbacante. Para os mais extremistas, preciso adiantar: o foco aqui não é no realismo e muito menos nas texturas super apuradas. Os pontos fortes são a plasticidade, a beleza artística e o design de interação de fases. Por isso, "Journey" consegue ser muito mais atrativo visualmente do que muito jogo hoje em dia que diz ser realista mas que, no fim das contas, acaba falhando miseravelmente.


Sem enrolações, o destaque do jogo nesse ponto é a areia. Seja nos grandes desertos, nas dunas, nas cavernas, estruturas rudimentares ou no sopé de uma montanha, é um elemento que parece ter vida e chega até mesmo a se "mexer" sozinha em resposta à influência o vento. Assim como o movimento do personagem sobre ela, a resposta de distorção das suas "pegadas" e do seu deslocamento é bastante convincente. Posso arriscar tranquilamente que, por vezes, é fÁcil se lembrar do que acontece nos cenÁrios arenosos de "Uncharted 3: Drake's Deception". Embora com uma produção bem mais em conta – em orçamento e tamanho – do que o blockbuster da Naughty Dog, o resultado é muito parecido e agrada igualmente.

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JÁ a iluminação surpreende por diversos momentos. Em um deles, por exemplo, lÁ estÁ você deslizando sossegadamente pelos cenÁrios na busca do próximo desafio e, de repente, a tela gira 90° horizontalmente, passando de um plano em terceira pessoa tradicional (você vê as costas do personagem) para uma visão 100% lateral, que lembra a conhecida dinâmica dos jogos de plataforma 2D (sprites). Só que, como você estÁ descendo uma colina, a câmera mostra o movimento a direita para esquerda, fazendo questão de ressaltar o por de sol ao fundo, iluminando toda a areia brilhante pela qual você agora desliza. É um dos momentos mais tocantes e belos artisticamente que jÁ presenciei num jogo.



Fora isso, a composição sonora funciona aqui como a cereja do bolo da produção. O som de flautas e de instrumentos mais serenos compõem canções variadas que tocam a todo momento e transmitem uma sensação de paz e solidão únicas. Um caso muito similar que cito aqui com muito gosto é "Shadow of the Colossus" (2005, Playstation 2), pois o mistério que abrange o mundo do game e transparece em cada momento da aventura é potencializado com as músicas que tocam nesse meio termo. Levando em conta que as variações de tom, ritmo e cadência de cada uma delas consegue adicionar um algo a mais, é fÁcil identificar que o encaixe das melodias nas mais diversas situações foram escolhidas a dedo – e a ouvidos.

{break::Desbravando o desconhecido em companhia}A aventura solo, que jÁ é extremamente divertida e única por si só, ganha uma cara renovada com a presença de uma modalidade multiplayer online. Sim, caros, "Journey" também pode ser jogado em grupo. Ou melhor, em dupla. Durante partida, o jogo estÁ o tempo todo conectado à internet e, a qualquer momento, um outro jogador, de qualquer parte do mundo que esteja jogando no mesmo cenÁrio que o seu, pode se juntar à sua jornada.

Num primeiro momento, a ideia parece um pouco retrógrada. Isso porque o jogo não permite comunicação por mensagem em textos e por voz. Além disso, nem sequer mostra o nick do outro jogador para que, em caso de necessidade – ou curiosidade –, possa-se entrar em contato para combinar partidas futuras ou objetivos secundÁrios. Mas, pensando bem, não é exatamente essa a proposta do game? Lembram-se do protagonista não identificÁvel, da ausência de texto, diÁlogos e detalhes do enredo? Pois é, esses elementos todos também funcionam aqui.



Tudo o que existe para aproximar os dois jogadores, agora vagando numa imensidão quase infinita é o botão círculo (O) do controle. Da mesma forma que a aventura solista, a emissão de nota musciais é a única forma de comunicação entre ambos. Jogada bastante minimalista e inteligente da Thatgamecompany, uma vez, ao mesmo tempo em que se deseja dizer algo ao novo companheiro, por vezes serÁ preciso decifrar o que ele quer de você, como uma ajuda em um puzzle, alguma Área nova que quer mostrar, recarregar o lenço de flutuação, e assim por diante. É uma situação envolvente que lembra muito a comunicação rudimentar entre alguns animais (uso do instinto) e humanos ou de duas pessoas que não conhecem a língua de origem da outra.

Além disso, não existe tela de matchmaking ou de espera para as ações começarem. Nem mesmo opção de convite ou organização de pequenas mensagens para preparar a aventura estão lÁ. Basta você estar logado à Playstation Network que alguém logo aparecerÁ na sua cola. O contato imediato, por ser inesperado e em tom surpresa, causa estranheza momentânea pela dúvida do que exatamente fazer. Você agora tem um ser da mesma espécie, no mesmo mundo e com os mesmos objetivos que o seu. Sendo assim, basta seguir normalmente e ir completando os puzzles, mas agora com a ajuda de um parceiro que, por mais que esteja próximo, você nunca chegarÁ a conhecê-lo de verdade. E é exatamente nesse antagonismo do falso-conhecido que "Journey" agrada mais ainda no online.



Afinal, você é mais daqueles que gostar de liderar, adiantar a resolução dos segredos para fazer tudo mais rÁpido ou gosta de ir com calma e aproveitar a companhia num vasto local hostil e cheio de magia? É algo a se pensar e, mais necessÁrio, frisar: o senso de parceria, trabalho em conjunto, confiança e afeição por/em algo/alguém que não chega nem próximo de ser concreto mas estÁ ali como um refúgio à sua solidão, só reforçou a necessidade quase obrigatória de ter alguma coisa a quem recorrer e com quem passar por todos os desafios. É nesse tipo de situação que o jogo faz questão de brincar com o jogador. O tempo todo.


Quando você se dÁ conta, lÁ se foram mais 2:45h de aventura conjunta sem esforço, vendo o reflexo do seu "eu jogador" passar pelos mesmos caminhos, dificuldades e surpresas. Mas sempre reagindo de maneira diferente ao seu próprio padrão de jogar o game. É realmente interessante acompanhar essa evolução.

{break::Nenhum jogo é perfeito...}"Journey" é tocante, emocionante, envolvente e único. Lendo essas quatro palavras tem-se a impressão que o game é isento de defeitos que poderiam ser melhor trabalhados. Infelizmente não é bem assim e, antes de dar decidir o score final, é preciso ressaltar seus – poucos – problemas.

Primeiro: a duração. Como frisei na primeira pÁgina desta anÁlise, é possível passar por toda a aventura em menos de três horas. Para muitos, pagar US$ 15 num jogo tão curto é quase o mesmo que comprar um DLC com apenas quatro mapas refeitos de jogos anteriores. Sendo assim, concordo em partes. Completar o game pela primeira vez é quase certo ter a sensação de que o título poderia ter sido mais longo (sem exageros desnecessÁrios) e com desafios mais duradouros.



Segundo: não se engane, os puzzles estão lÁ. Mas eles são um tanto simplórios, fÁceis e não apresentam uma variação sequer para renovar os desafios em cada retorno. E isso é realmente uma pena, levando em conta que você provavelmente irÁ querer retornar para continuar jogando e explorar o desconhecido, mesmo que tenha que passar por tudo o que jÁ conhece e repetir os mesmos caminhos.

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Terceiro: por mais que os cenÁrios sejam grandiosos, grandes, lindos, bem desenhados e pareçam chamar o jogador para conhecer seu mundo com mais afinco, a localização dos segredos, itens de coleta e pontos decisivos do enredo ficam sempre num mesmo lugar. Só cabe mesmo a você decidir por qual duna/estrutura/caverna irÁ passar para chegar até eles. Talvez um design de fases variado, com opções diversificadas de interação – e segredos extras – para interagir trouxesse maior dinamismo e consistência ao pacote como um todo.



Mas nem por tudo isso, "Journey" pode ser considerado menos que incrível. EstÁ em um patamar acima de experiência virtual-humana que merece o mínimo de atenção de qualquer tipo de jogador. Se não gostar, tudo bem, você estÁ no seu direito subjetivo de gostar ou não de alguma coisa. Assim como eu estou no meu de poder classificÁ-lo como uma das mÁximas expressões artísticas modernas nos videogames. Digamos que ele me fez rever conceitos sobre jogos indies, naturalmente modestos em termos de produção e investimento e distribuídos somente em redes online que, convenhamos, raramente chamam atenção pela simplicidade demasiada que apresentam. Felizmente, quebrei a cara e finalizo, sem medo, que esses foram os melhores US$ 15 que jÁ gastei em qualquer coisa relacionada à indústria dos jogos eletrônicos.


PRÓS
Jornada inesquecível
Controles acessíveis, precisos e interativos
Visual belíssimo
Atmosfera muito imersiva
Encerramento da história
Composição sonora incrível
Co-op online transcende o senso de aventura
CONTRAS
Curta duração (cerca de 3h)
Puzzles simplórios
US$ 15 pode ser um pouco caro para alguns em virtude da duração
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  • Redator: Andrei Longen

    Andrei Longen

    Jornalista pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Andrei Longen é entusiasta por videogames desde os 7 anos, quando ganhou um Odyssey 2, seu primeiro console. Hoje tem PS4, PS3 e PS Vita e adora caçar troféus em todos os jogos. Colabora no Adrenaline com notícias, análises, artigos, colunas e vídeos.

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