ANÁLISE: Spider-Man: Edge of Time

ANÁLISE: Spider-Man: Edge of Time

Você aperta start, vê anti-Venon vindo em sua direção e, quando se dá conta, você já está apanhando. Com essa cena curiosa começo a review, já que como estava mal acostumado a apertar "new game", escolher a dificuldade e então começar a jogar, demorei alguns segundos para ver que o jogo já estava rolando. Para fãs do Homem-Aranha, e especialmente aqueles que gostam de seus games, não é nenhuma surpresa este começo, já que encarnar o herói é sempre assumir a profissão "saco de pancada".

Para aqueles que têm horror aos requentados, já vou avisando: Edge of Time foi lançado um ano após Shattered Dimensions, ambos produzidos pela Beenox e, como é de se esperar, reaproveita muito do gameplay do jogo anterior. Mas também traz algumas inovações na jogabilidade, mesmo que sutis. Este game, por sinal, é o primeiro da empresa depois de receber da Actvision e da Marvel a responsabilidade por futuros games do cabeça-de-teia, mérito das boas críticas obtidas por Shattered Dimensions (nas versões para Xbox 360 e PS3).

Mais detalhes no restante da review. Lá voltamos para a surra que tomávamos de Anti-Venom.

{break::Enredo}Uma das principais críticas ao Spiderman: Shattered Dimensios é que por possuir quatro protagonistas (versões do Homem-Aranha de realidades paralelas), a história do jogo era muito fragmentada, com pedaços alternados entre cada um deles. Neste game, que tem a assinatura do roteirista de HQs Peter David, o enredo é bem mais consistente, focado em dois personagens: o Homem-Aranha 2099 e o bom e velho cabeça de teia tradicional, ainda que este último tenha algumas excentricidades neste game.

O enredo começa de forma abrupta, com o Homem-Aranha do futuro, Miguel O'Hara, tendo uma visão de Peter Parker sendo assassinado por Anti-Venom (aí está nossa surra do começo da review). Essa conexão entre os dois heróis que possibilitou a O'Hara ver a morte de Peter também o tornou capaz de se comunicar com o dito cujo, através de pensamentos. Heim?


Cutscenes do game (aviso: pode trazer alguns spoilers)

Quem curte HQs e super-heróis gosta dos (ou na pior das hipóteses atura) enredos baseados em pseudo-ciências, onde teorias científicas embasam coisas impossíveis ou no mínimo improváveis. Neste game, um vilão do futuro viaja para o tempo atual, e com isto forma uma conexão entre as duas realidades, um fenômeno descrito na teoria do "buraco de minhoca". Essa conexão que acabou cruzando o caminho dos dois super-heróis é a base do enredo deste game, onde os dois homens-aranha tentam salvar o mundo aproveitando essa conexão.

Muito da aventura é baseado no que os personagens chamam de "causalidade quântica", na qual ações de um dos super-heróis influenciam a realidade do outro. Assim, em momentos em que um dos homens-aranhas cai em um beco sem saída, o outro pode fazer modificações e assim conseguir enfraquecer inimigos ou até mesmo mudar a estrutura do prédio onde o outro está. Isto dá muita dinamicidade ao jogo, já que nem sempre as mudanças são propositais, e um esbarrão em um objeto de O'Hara pode fazer um corredor virar uma parede para Peter Parker.

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Apesar de interessante, esse recurso não é completamente dinâmico, já que não há muita liberdade em modificar a realidade do outro personagem. Os momentos em que isso é realizado são definidos pelo enredo, assim como os locais em que o cenário vai subitamente mudar (e se infere que o personagem que você não está controlando é que fez merd*). Apesar de pré-definidos, estes momentos são interessantes e dão um elemento surpresa à trajetória.

A aventura se intercala entre os dois personagens, dando um ritmo divertido ao jogo. Neste jogo em equipe dos dois super-heróis, em muitos momentos um irá depender do outro para conseguir avançar, e não raro você precisa ser rápido para ajudar o outro a tempo (não me pergunte como uma pessoa no presente pode se atrasar para fazer algo para outra pessoa, que está esperando 99 anos depois).

Os personagens estão um pouco estranhos, para quem está acostumado com os quadrinhos. No game temos um Peter Parker cabeça-dura e um tanto egocêntrico, não vendo problema nenhum em por em risco todo o mundo apenas para salvar Mary Jane. Ela, por sinal, é histérica e a maior parte do tempo está gritando.

Apesar destes usos estranhos dos personagens do mundo do aranha, justificados por se tratar de uma realidade modificada pela vinda do vilão do futuro, a história bem trabalhada é o grande mérito deste game, mantendo a atenção do jogador especialmente no seu começo dinâmico. Mas nem tudo são flores, vamos ao gameplay.

{break::Jogabilidade}Como é de se esperar em uma empresa que lança um novo jogo apenas um ano após o anterior, temos aqui muito reaproveitamento dos elementos de Shattered Dimensions no jogo Edge of Time (ou como gostam de dizer os avessos a este tipo de comportamento das produtoras, muito foi "requentado"). Apesar de ser a favor da inovação, não sou um xiita do "quero tudo novo", e acho que as desenvolvedoras devem reaproveitar os elementos positivos de suas franquias.

Felizmente a Beenox manteve muito do gameplay ágil do protagonista, algo que garantiu a repercussão positiva de seu game anterior. Os homens-aranha continuam se movimentando de forma rápida, e é divertido se deslocar pelo cenário com o bom e velho "web swing", ou se esquivar dos inimigos e contra-atacar, coisas que receberam poucas mudanças em relação ao jogo anterior.


Video com trecho do gameplay

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A principal mudança é o fim da função esquiva no botão L2 combinado com direcionais (ou LT com os direcionais, no Xbox 360), que foi substituída por outra forma de desviar que utiliza um "Homem-aranha falso" em sua posição anterior, enquanto você ganha tempo para ir para outra posição, no Spiderman 2099, ou uma esquiva automática no cabeça-de-teia tradicional. É uma pena, já que a função do L2 era muito útil por ser uma forma rápida de desviar de um inimigo e, simultaneamente, o jogo rotacionava a câmera no sentido de seu inimigo. Agora, só no manual mesmo para fazer isto, e a melhor esquiva... acaba sendo saltar por cima do inimigo. É o que tem pra hoje...

No restante os comando são bem parecidos com os presentes em Shattered Dimensions, com uma série de combos e a possibilidade de liberar novos ataques ao longo do jogo, sendo possível notar uma leve simplificação no mecanismo de combate (o fim das esquivas manuais é um exemplo disso). Os golpes desloqueáveis, aliado a novas roupas e habilidades disponíveis, dão algum interesse do replay no game e são um elemento muito presente nos games do Homem-Aranha.

O grande problema na jogabilidade é a construção das fases. Em geral, o game tem uma mecânica repetitiva, em que você precisa chegar em um cenário, bater nos vilões ou conseguir chaves, ou mover alavancas ou ativar computadores. Muitas vezes é preciso ficar reunindo/movendo/ligando vários deles em um mesmo local, tornando as coisas cansativas. "Por que tudo aqui tem que ser em três?" pergunta Peter Parker ao ter que ativar três reatores, criticando seu próprio jogo.

Outra coisa que o game ficou devendo foram alguns trechos que quebrassem esta lógica, como acontece em diversas partes em Shattered Dimensions. É o caso da luta com chefões como o Homem-Areia. Um exemplo da repetição é o trecho com a Gata Negra, onde é preciso derrotá-la, depois enfrentá-la novamente e simultaneamente com dois clones dela. Depois, você deve combatê-la com mais três clones, depois quatro...


Mantendo a tradição dos games do Aranha, é possível desbloquear novas roupas e golpes ao longo do jogo

A campanha é curta, em torno de seis horas, e mesmo com a possibilidade de liberar novos itens, as fases e seus objetivos em cada missão são desinteressantes e fica difícil querer jogar novamente, exceto se vocês for um "caçador de conquistas".

{break::Gráficos e Áudio}No game vemos uma evolução, por parte da Beenox, no design dos personagens. As modelagem dos protagonistas está melhor trabalhada, e os movimentos parecem mais fluídos, principalmente as animações dos golpes. Em contrapartida, os cenários possuem uma qualidade inferior à presente no game anterior, com alguns cenários sem muito detalhes, texturas e modelagens muito simples e uma série de espaços desinteressantes. Não raro passamos por várias salas que têm todas "a mesma cara".

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Observando de forma geral, o game não possui gráficos que impressionem, especialmente com a presença forte de serrilhados, mais próximo do aceitável do que de algo exuberante. O futuro com "cara de Tron" é o auge dos cenários pouco cativantes, muito escuros e quase sempre monocromáticos. Em geral, os cenários são bem claustrofóbicos, sem espaços amplos, o que deve esfriar os ânimos daqueles com saudades dos antigos games do Homem-Aranha nos quais era possível se deslocar pela cidade.


O áudio do game é bom, com efeitos sonoros e trilhas de qualidade que dão ritmo ao repetitivo gameplay. As atuações dos dubladores melhoraram muito e, junto com o enredo, são os pontos fortes deste jogo. A Beenox  também manteve seu protagonista bastante tagarela, soltando sua opinião a cada cômodo que você entra, o que dá ares cômicos a diversas partes e compensam em parte a falta de empolgação que causa o cenário ou a natureza de suas missões.

{break::Conclusão}A comparação com o game anterior, Shattered Dimensions, é inevitável. Enquanto o jogo do ano passado trazia uma série de missões interessantes e fases desafiadoras, a Beenox lançou um game engessado e com fases pouco expressivas. Apesar de o mundo estar em risco, e realidades temporais colidirem, a maior parte do tempo você está desligando computadores, puxando alavancas e juntando chaves de guardas.

Dois elementos que tornavam a franquia interessante foram mantidos, como a jogabilidade ágil e responsiva do personagem (com a infeliz baixa do botão de esquivas) e também os diálogos e o jeito irônico do protagonista, o tempo todo satirizando os inimigos, as situações e a si mesmo.

E infelizmente, só rindo mesmo para encarar as repetições excessivas, que têm seu auge na luta contra Felícia (ou Black Cat), e que por mais que a versão 2099 tenha lá seus dotes interessantes, chega uma altura que ninguém mais aguenta vê-la (algo entre a terceira e quarta vez que você precisa enfrentá-la no mesmo cenário). A  Beenox ficou nos devendo alguns momentos exóticos, com situações que quebrassem com o constante estilo Hack 'n slash presente em todo o jogo, como fez nos momentos stealth com o personagem Noir do game anterior. Ou com lutas empolgantes contra os chefões, algo presente não apenas nos games da Beenox, mas também em títulos anteriores do Homem-Aranha, ao invés do ciclo repetitivo de bater sempre da mesma forma, na mesma pessoa.


Lá vou eu bater nela pela quinta vez...

Edge of Time é um daqueles casos em que o game é superado pelo seu antecessor, e tem como mérito apenas o seu enredo mais interessante e bem trabalhado que o anterior, porém mal executado na jogabilidade. Afinal, o mundo pode ser destruído por conta da causalidade quântica e aqui está você, puxando três alavancas para abrir uma porta.

Um dos raros momentos diferentes é quando O'Hara inverte a gravidade para subir ao topo de um prédio, literalmente caindo para cima. Nessa parte temos a única mudança grande no gameplay, quando precisamos nos esquivar em queda livre. É pouco, e já era algo presente no game anterior. Duvido que alguém se incomode se a Beenox opte por um ciclo de desenvolvimento maior, quem sabe dois ou três anos, para assim entregar uma experiência de jogo mais rica e variada.

Este jogo só deve interessar aos grandes fãs do Homem-Aranha, que vão se divertir com as diversas frases cômicas do personagem ao longo do jogo e o enredo interessante, ou quem gosta muito de jogos de ação com super-heróis e já jogou os medalhões como os games do Batman. E principalmente, Edge of Time é uma opção para aqueles que já jogaram Shattered Dimensions, pois se você se encaixou no perfil do começo do parágrafo, o game do ano passado é possivelmente um investimento mais interessante. Se está em dúvida entre os dois jogos, fique com Edge of Time se faz questão de uma história bem trabalhada. Ou fique com Shattered Dimensions, se está mais preocupado com um gameplay interessante.

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  • Redator: Diego Kerber

    Diego Kerber

    Formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Diego Kerber é aficionado por tecnologia desde os oito anos, quando ganhou seu primeiro computador, um 486 DX2. Fã de jogos, especialmente os de estratégia, Diego atua no Adrenaline desde 2010 desenvolvendo artigos e vídeo para o site e canal do YouTube

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