ANÁLISE: L.A. Noire (PS3)

ANÁLISE: L.A. Noire (PS3)

Vou logo avisando: "L.A. Noire" é um jogo diferente e, embora lembre, não é, nem de perto, um "Grand Theft Auto" de época, à exemplo do que acontece com "Mafia" e outras séries da mecânica open-world (ou sandbox). Portanto, antes de ler a review, ponha na cabeça que o foco aqui não é a liberdade total de exploração, a criminalidade inconsequente e os minigames desestressantes.



Essa diferenciação do gênero trazida pela produtora Team Bondi em relação à mesmice meio cansada da distribuidora Rockstar Games é extremamente bem vinda e dÁ um ar totalmente renovado ao gênero. Primeiro que, dessa vez, você estarÁ jogando como um policial e, como tal, deverÁ seguir todos os preceitos da lei.

E somente isso jÁ agrega diversos fatores, possibilidades e sensações diferentes a "L.A. Noire", que mostra capacidade para seguir com passos próprios e ser reconhecido pelo potencial que possui sem ter que enfrentar comparações com "GTA".



Quer saber o que faz do game que foi lançado em maio para Playstation 3 (cópia usada nesta review) e Xbox 360 – e chega ao PC no fim deste mês – ser especial e o por quê dele receber elogios unânimes de críticos e jogadores? Leia as próximas pÁginas e descubra.

{break::História}O protagonista da história de "L.A. Noire" é Cole Phelps, veterano condecorado das batalhas da Segunda Guerra Mundial que resolve recomeçar a vida como patrulheiro policial da cidade de Los Angeles, em 1947. Suas obrigações são fazer com que as determinações da constituição dos Estados Unidos e a paz no país sejam mantidas a qualquer custo.

Engana-se quem pensa, contudo, que a tarefa serÁ tranquila. Estamos falando de umas das cidades mais desenvolvidas dos meados do século XX e, como qualquer outra do mesmo porte, também tem seus problemas. Homicídios, sequestros, mortes à queima roupa, estupro, pedofilia, , mutilação, venda ilegal de bebidas e desmanche de veículos são algumas das conspirações que envolvem a trama.



Além disso, o fato de Hollywood ser um dos bairros onde o game acontece atrai muita atenção para oportunistas se instalarem no local e começar a "fazer a festa". Afinal, hÁ muita gente que quer tirar proveito da crescente indústria do cinema. Mas o lado bom da fama também traz o lado não tão glamuroso e, com ele, os perigos de uma das maiores metrópoles do mundo.

É com esses perigos que Phelps vai tentar reconstruir sua vida. Não como adepto ao banditismo ou à criminalidade, mas como defensor da justiça e da igualdade social. E como ele domina técnicas de investigação e relacionamento pessoal – ambas aprendidas na guerra –, tem muita facilidade de arrancar afirmações de suspeitos e criminosos. É exatamente aqui que ele vê a chance para mudar de vida.



Só assim que ele vai poder progredir e, quem sabe, alcançar cargos mais importantes e ganhar respeito no Departamento de Polícia e Investigação local, além de apagar velhas e conturbadas lembranças.

No enredo, tudo o que é mostrado na tela sempre dÁ um detalhe a mais que soma à trama geral do game e, consequentemente, à trajetória do protagonista na carreira como policial investigativo. O "feeling" da Los Angeles de 1947 favorece o envolvimento do jogador com o título, que não hesita em apresentar momentos de suspense e seriedade de cada caso solucionado. Isso só dÁ mais vontade de continuar jogando para saber o que vai vir na tomada seguinte.



O único problema dessa parte é que, com tamanha variedade de situações, casos, diÁlogos e investigações, os que não dominam o inglês ou que não possuem vasto conhecimento de expressões ou gírias podem patinar em alguns momentos e não entender o motivo de todo alarde das cenas. Isso certamente pode comprometer o entendimento de alguns trechos e o divertimento do game como um todo.

{break::Jogabilidade #1 - Exploração open-world}A jogabilidade de "L.A. Noire" é o quesito principal que faz do game ter fôlego próprio e não cair na mesmice de comparações com a série "GTA", para o bem ou para o mal. Primeiro que, embora o mapa de Los Angeles seja grande e cheio de detalhes, vielas, ruas e pontos turísticos para visitar, não é possível andar livremente pela cidade para fazer o que quiser.

Quer dizer, é. Mas, seja a pé ou de carro, isso pode ser feito apenas quando alguma missão jÁ tiver sido iniciada. É que, como o foco do jogo não é deixar o jogador livre para barbarizar cruelmente da maneira que desejar (premissa bÁsica de qualquer "GTA"), cada missão começa com um breve estudo do crime no Departamento de Polícia e Investigação local, para depois conduzir o jogador à viatura policial.



JÁ com o próximo caso ativado, é somente dessa forma que se pode vasculhar a cidade do jeito que bem entender. Mas como estamos controlando um patrulheiro policial que deve preservar a paz e prezar pela justiça social, não pense que poderÁ sair atirando em quem quiser ou roubar carros à vontade. Esses tipos de crimes, tão banais na badalada franquia da Rockstar, não funcionam aqui e em momento algum se encaixam no contexto da trama.

E ainda bem que é assim. Embora pareçam restrições são, na verdade, diferenciações no gênero open-world de títulos de ação em terceira pessoa, que jÁ apresentam certo cansaço devido à fórmula quase sempre igual. O que pode ser chamado de inovação é o sistema de investigações de "L.A Noire". Totalmente intuitivo de fÁcil de aprender, os controles são precisos e as respostas rÁpidas. Basta jogar um ou dois casos para ter noção de todos os comandos e jÁ se sentir preparado para desvendar qualquer caso que aparecer pela frente.

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E é aqui que o game ganha destaque. Como policial com dons investigativos, você deve trabalhar para ajudar na dissolução de cada crime. Ao receber uma missão, é necessÁrio ir até a cena do crime, coletar as pistas necessÁrias, apontar possíveis suspeitos, interrogÁ-los e colocar o verdadeiro bandido atrÁs das grades. Mas cada uma dessas etapas possuem módulos de jogabilidade distintas.



Após entrar na viatura, basta dirigir até o ponto indicado no mapa mostrado na tela para chegar ao local do crime e iniciar a investigação. Mas pensa que existe um traçado que mostra o caminho exato a seguir? Lendo engano: estamos em 1947 e o Sistema Global de Posicionamento (GPS) ainda não existia. Portanto, cabe ao jogador escolher o caminho a seguir e ir por conta própria ao ponto marcado, mas sem ajuda externa.

Isso traz uma certa sensação de liberdade ao game, que faz você usar um pouco da sua intuição e usar caminhos diferentes apenas por ir na direção da marcação. Contudo, pode gerar frustrações e um pouco de incômodo aos mais preguiçosos ou aqueles que estão acostumados com "GTA", cujo caminho, embora sem sempre o mais rÁpido, é mostrado a todo instante.

{break::Jogabilidade #2 - Investigaçoes policiais}Chegando à cena do crime, é hora de começar a investigação. O primeiro passo é fazer uma varredura na Área e checar todos os cantos atrÁs de indícios que possam facilitar na hora das conclusões finais e nos futuros interrogatórios de testemunhas e suspeitos. Como cada prova é importante, vale passear pelos arredores para verificar itens menos óbvios. 



Cada uma das provas obtidas é automaticamente anotada no caderninho auxiliar de Phelps, que traz o resumo das informações mais importantes do caso coletadas até aquele momento. É a partir do entendimento de cada uma dessas pistas que se obtém o endereço de locais importantes que ajudam a desvendar cada caso, bem como o nome das pessoas que potencialmente estão envolvidas o crime.

Para saber que evidências podem ser obtidas, basta ficar atento aos sons auxiliares que surgem na partida. Se houver um som de piano calmo, é porque ainda existem alguns itens que podem ser verificados. Se o controle vibrar rapidamente, então, basta checar o mais próximo que certamente é uma das pistas coletÁveis. Se uma sirene sinfônica tocar, é porque as pistas do local terminaram, podendo seguir para a próxima etapa.



A partir disso, basta ir aos locais estabelecidos, que variam de acordo com cada situação (podem ser uma casa, conjunto de apartamentos, loja comercial, bosque, pÁtio abandonado, oficina, etc) e começar a vasculhar mais cantos, além de ir atrÁs de pistas complementares e começar com os interrogatórios. Mas antes das entrevistas, é recomendado acumular o mÁximo de evidências possível, e isso serÁ essencial para ganhar confiança, subir de nível, alcançar cargos mais relevantes e progredir na história.



Basicamente, é dessa maneira que "L.A. Noire" funciona. Mas é impossível continuar descrevendo a jogabilidade sem falar da parte grÁfica do game, principalmente quando se refere às expressões faciais dos personagens. Por isso, acesse a próxima pÁgina e continue o raciocínio.

{break::GrÁficos}É impossível falar dos grÁficos de "L.A Noire" sem citar as expressões faciais do game e, por isso, jÁ adianto que estão entre as melhores jÁ vistas em algum jogo eletrônico. Isso só foi possível graças à novíssima tecnologia MotionScan. Capaz de capturar os detalhes mais imperceptíveis de cada músculo do rosto, permite reproduzir todos os movimentos com altíssima fidelidade de execução e sem perdas de qualidade.



Mas além da mera capacidade técnica, o que a Team Bondi quis fazer foi algo um tanto raro nos jogos atuais: aliar o capricho visual à jogabilidade do game. E isso fica bem estampado nas investigações. Seja nas conversas com testemunhas ou nos interrogatórios com os suspeitos, as expressões faciais têm papel de importância extrema na hora de reconhecer as alterações nos rostos.

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Por exemplo, quando Phelps faz uma pergunta a uma pessoa que estÁ disposta a ajudar com as investigações, ela vai olhar seguramente nos olhos investigador, de maneira firme, sem gaguejar ou deixar dúvidas. Mas quando um suspeito tenta mentir e enrolar o policial, começa a desviar o olhar, sem conseguir olhar diretamente, além de deixar as sobrancelhas arqueadas, demonstrar espanto, ficar inquieta e transpassar um ar de preocupação.

Os que não querem falar a verdade podem ainda mostrar comportamento agressivo e irritado com a presença de Phelps no local. Mas isso não é tudo: podem também começar a fazer ironias, com sorrisos e olhares desafiadores, como se estivessem testando o policial. Os que tem vergonha de estarem envolvidos nos casos, por algum motivo de proteção própria ou medo, fazem declarações inseguras com a cabeça abaixada e expõem expressões de tristeza e insegurança nas declarações, seguido de mordidas nos lÁbios e mãos agitadas.



Perceber cada uma dessas expressões é fundamental para avaliar se a pessoa estÁ falando a verdade ou mentido. Se for pela primeira, basta seguir para a próxima pergunta. Pela segunda, terÁ que apresentar uma prova anteriormente coletada para justificar a decisão de considerar tal afirmação falsa. Não é difícil se sentir um investigador numa hora dessas. Muito pelo contrÁrio: a sensação de poder durante os julgamentos é inigualÁvel.

Aqui chegamos, em suma, à premissa da jogabilidade do título. Contudo, vale uma ressalva. Por essa mecânica não se alterar durante todo o modo campanha, o processo se torna repetitivo após a resolução de alguns casos. Embora tenham temÁticas e assuntos bastante diferenciados, o sistema basicamente não muda, o que pode desagradar alguns e enjoar pela repetição das ações. Mas, ainda assim, compensa pelo divertimento proporcionado.



Fora isso, o visual de "L.A. Noire" é bastante detalhista. As cores são vivas, o design dos personagens convence e as texturas, embora em alguns momentos sejam um tanto indefinidas (close em alguns objetos), são muito bem feitas e agradam aos olhos. O que realmente chama a atenção, contudo, é o cuidado da Team Bondi com a reprodução de Los Angeles de 1947. Tudo estÁ ali: carros, trajes, roupas, acessórios e arquitetura condizente com a época contribuem à atmosfera de seriedade e suspense que o game transmite.

{break::Áudio}Falou em Los Angeles de 1947, falou em músicas de época. E é isso que você vai encontrar durante toda a jogatina. Esteja Phelps num bar, num quiosque, num minimercado, vasculhando alguma propriedade, dirigindo sua viatura ou na delegacia, é quase certo que alguma canção daquela década esteja tocando nos arredores, em algum rÁdio ao longe. Quando estiver manejando, inclusive, é possível acessar a K.I.T., a rÁdio virtual que toca as melodias mais consagradas.



As trilhas secundÁrias, aquelas que tocam ao fundo durante as cenas, também têm destaque. Um caso onde a violência seja de nível mais brutal logo aciona batidas mais drÁsticas e sinfonia de puro suspense musical. É assim até chegar à cena do crime, onde a calmaria reina ao lado da agonia. Perseguir um suspeito, seja a pé ou de carro, também tem seus momentos mais emocionantes. Basta se deixar levar pela ocasião.



Além disso, outro fator que chama atenção são as dublagens. São absurdamente bem feitas e são de extrema importância na resolução dos casos. É na hora das entrevistas com as testemunhas ou com os suspeitos que elas mostram sua grandeza, pois trazem sotaques, gírias, maneirismos e tons diversos com interpretações bastante convincentes, independente do seu julgamento de depoimento.



JÁ os efeitos sonoros agregam ainda mais realismo às cenas de investigação e aos interrogatórios. Um objeto rolando num silêncio profundo – sim, estes momentos existem e geram receios – quebra totalmente a calmaria e incita batimentos cardíacos mais acelerados, pois um criminoso pode ter acabado de pular pela janela e estar escapando das suas mãos. Na correria de perseguição, outra melodia, agora mais desesperadora, entra em cena e envolve totalmente o jogador na situação.

{break::Considerações finais}"L.A. Noire" chega para amenizar o marasmo dos jogos open-box em que o intuito é barbarizar inconsequentemente pelas ruas de uma cidade virtual. Na Los Angeles de 1947, o policial investigativo Cole Phleps trabalha para seguir as normas da lei e tentar manter a paz na metrópole americana.

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O game faz com que o jogador encarne um verdadeiro detetive profissional, que deve atender aos chamados do Departamento de Polícia de Investigação, ir até a cena do crime, coletar e analisar todas as pistas possíveis, conversar com testemunhas e interrogar os suspeitos. Tudo isso feito de maneira diferente para cada situação, numa jogabilidade bem fÁcil de aprender e agradÁvel de ser executada.

Entretanto, é possível que com o passar do tempo tenha-se a impressão de que o game pode estar patinando em prender a atenção devido à repetição da mecânica de jogo. Embora sejam ocasiões e crimes bastante distintos, a premissa é um tanto repetitiva e pode desagradar os que buscam variedade.Nessas horas, é recomendado recorrer às missões paralelas.



O visual do game agrada pelos detalhes e pela recriação da cidade, mas principalmente pelas expressões faciais extremamente fieis à realidade humana, que respondem cooperativamente à jogabilidade e influencia totalmente na avaliação do comportamento corporal e dos movimentos dos rostos dos interrogados, fazendo-o decidir se as afirmações são verdadeiras ou não passam de pura balela ou chantagem emocional.



Aliado a isso, temos uma trilha sonora que atua de maneira certeira nas resoluções dos casos, trazendo bastante seriedade e suspense à jogatina, que dura cerca de 20 horas. Some mais 20 para fazer os 100% (descobrir todos os pontos turísticos, dirigir todos os veículos, completar cada caso com cinco estrelas, entre outros extras) e verÁ que "L.A. Noire" é digno dos elogios recebidos mundo afora pela diversão proporcionada.

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  • Redator: Andrei Longen

    Andrei Longen

    Jornalista pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Andrei Longen é entusiasta por videogames desde os 7 anos, quando ganhou um Odyssey 2, seu primeiro console. Hoje tem PS4, PS3 e PS Vita e adora caçar troféus em todos os jogos. Colabora no Adrenaline com notícias, análises, artigos, colunas e vídeos.

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